sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O som entrava por seus ouvidos e refletia em todo o seu corpo causando uma sensação estranha. Se achava normal, sem mistérios, mas com suas particularidades.

 As vezes quando as coisas iam mal ou quando a mãe brigava por motivos bobos esperava todos dormirem, a casa ficar em silencio, então se levantava sem fazer barulhos e sentava num cantinho da sala, entre o velho sofá e a estante com os livros organizados pelo tamanho e punha-se a chorar baixinho. Durante o choro fazia uma singela oração a Deus e falava que precisava naquele momento de um pai para abraçar. Com as mãos unidas, olhando para o teto, implorava a Deus para que ele a abraçasse e acolhesse com todo amor e acabava sentindo em meu corpo um calor diferente, uma paz enorme. Adormecia ali, encolhida, envolta em si mesma como um bichinho.
Queria ter tido um pai, saber como é essa relação, os conflitos, queria um colo de pai em certos momentos da vida, queria poder ter um pai presente reclamando, resmungando, que lhe desse umas palmadas quando tivesse feito algo de errado, que a levasse para passear, que estivesse presente nas festas da escola. Queria ter tido um pai apenas para aconselhar. Não reclamava, pois tinha uma mãe perfeita que dava todo amor e carinho, cuidando dela e dos irmãos de maneira excelente. Apesar de não ter tido um pai, Deus havia lhe dado a melhor mãe do mundo.

Naquele exato momento sua vida pareceu ser apenas um paradoxo. Quanto mais ausente o pai, mais a presença da mãe trazia-o a tona, mantinha-o vivo em sua lembrança.

Após cessarem as palmas e todos se sentarem novamente ela olhou por alguns segundos o troféu. Sorriu. Embora fosse o reconhecimento de um trabalho ele nada significava. Não se interessava por prêmios. Representava porque assim viveria várias vidas esquecendo-se da sua. Seu personagem real fazia apenas uma figuração.
  
Agradeceu o prêmio com poucas palavras e o dedicou a mãe.

Mais tarde, esperou a companheira dormir e num cantinho da sala em seu apartamento, chorou olhando os prêmios na estante.


(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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Um comentário:

  1. A vida é engraçada. Existem tantas pessoas que tem um pai como o descrito a cima e não valorizam e tem aqueles que imploram a Deus por um pai e não tem essa oportunidade de te-lo. A vida e suas ironias. Perfeito

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