terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sonhos.
Era feita de sonhos.  Quando podia, olhava o céu da manhã e desenhava nuvens em formas de boca, de mão, de seios. Sonhava com o dia em que surgiria dessas nuvens montado em um unicórnio dourado sua fada madrinha e juntas, nuas, cavalgariam o espaço como uma lady Godiva.
Não vivia para si. Dedicava-se a mãe enquanto sucumbia cada vez mais em um mundo sem história, concebido por pessoas que julgavam poder comandar sua vida, ignorando que ela era uma pessoa complexa, cheia de labirintos vivendo uma confusão de sentimentos vorazes. Quando se olhava no espelho  via reflexos daquela mesma menina que foi e continuava sendo mesmo agora, adulta, sem que pudesse acreditar que já não habitava mais o faz-de-contas da infância tão repentinamente sumida.
Tornara-se uma mulher-alvo. Cobiçada como troféu, desejada como prêmio.
Mesmo evitando expor-se era inevitável passar despercebida. Não havia como ignorar seus  olhos sonhadores e ao mesmo tempo serenos despertando a ira de outras mulheres, a voz maviosa saindo por seus lábios cândidos respondendo a um simples cumprimento. O recato dos seios acolhedores arfando em desespero por atrair tantos olhares.  Se não era a mulher perfeita ao menos serviria de modelo, de inspiração.
Para fugir se si mesma inventou que vivia outra vida tão distante da verdadeira que acabou por sucumbir dentro do próprio devaneio. Enlouquecia como fuga envenenando a alma com os sonhos mais lindos e menos possíveis.
Numa noite fria que já anunciava a chegada do inverno, após todos dormirem desceu até os jardins de sua casa e despida de roupas e pudores vestiu-se com as últimas flores que teimavam, como ela, a resistir contra o inevitável destino.
Tomou os últimos comprimidos e viu o frasco vazio cair ao chão flutuando devagar como uma folha. Deitou-se sobre o frio das pedras e antes que seus olhos se fechassem de vez viu descer do céu sem estrelas um unicórnio dourado trazendo em seu dorso uma bela e nua mulher.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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