Sonhos.
Era feita de sonhos. Quando
podia, olhava o céu da manhã e desenhava nuvens em formas de boca, de mão, de
seios. Sonhava com o dia em que surgiria dessas nuvens montado em um unicórnio dourado
sua fada madrinha e juntas, nuas, cavalgariam o espaço como uma lady Godiva.
Não vivia para si. Dedicava-se a mãe enquanto sucumbia cada vez mais em um mundo sem história, concebido por pessoas que julgavam
poder comandar sua vida, ignorando que ela era uma pessoa complexa, cheia de
labirintos vivendo uma confusão de sentimentos vorazes. Quando se olhava no
espelho via reflexos daquela mesma
menina que foi e continuava sendo mesmo agora, adulta, sem que pudesse
acreditar que já não habitava mais o faz-de-contas da infância tão
repentinamente sumida.
Tornara-se uma mulher-alvo. Cobiçada como
troféu, desejada como prêmio.
Mesmo evitando expor-se era inevitável passar
despercebida. Não havia como ignorar seus olhos sonhadores e ao mesmo tempo serenos
despertando a ira de outras mulheres, a voz maviosa saindo por seus lábios cândidos
respondendo a um simples cumprimento. O recato dos seios acolhedores arfando em
desespero por atrair tantos olhares. Se
não era a mulher perfeita ao menos serviria de modelo, de inspiração.
Para fugir se si mesma inventou que vivia outra
vida tão distante da verdadeira que acabou por sucumbir dentro do próprio
devaneio. Enlouquecia como fuga envenenando a alma com os sonhos mais lindos e
menos possíveis.
Numa noite fria que já anunciava a chegada
do inverno, após todos dormirem desceu até os jardins de sua casa e despida de
roupas e pudores vestiu-se com as últimas flores que teimavam, como ela, a
resistir contra o inevitável destino.
Tomou os últimos comprimidos e viu o frasco
vazio cair ao chão flutuando devagar como uma folha. Deitou-se sobre o frio das
pedras e antes que seus olhos se fechassem de vez viu descer do céu sem
estrelas um unicórnio dourado trazendo em seu dorso uma bela e nua mulher.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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Os sonhos alimentam a vida, mesmo que não sai do imaginário.
ResponderExcluirMaravilhoso conto.
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