O segredo da feminista
Havia perdido a virgindade ainda
jovem quando tomou seu único porre com um rapaz, um aventureiro, que a seduziu
como se fosse um príncipe encantado para depois evaporar como um gênio da
lâmpada.
Depois que perdeu a virgindade
passou a proteger seu desejo, inclusive de si mesma. Usava uma escova para
lavar-se evitando assim sentir a própria mão em seu corpo.
Tornara-se uma feminista
diabólica, dessas que lutam encarniçadamente pela igualdade entre os sexos,
disposta a dar a vida pela causa. Entretanto, mantinha adormecida a vontade de se entregar novamente a um homem,
qualquer homem que produzisse outra vez todas as sensações que seu corpo escondia
nas profundezas de sua alma juvenil. Por precaução nunca mais botou na boca
nada que tivesse álcool.
Para fugir dos comentários
maldosos mentia dizendo que mantinha um caso duradouro com uma pessoa casada. E
isto bastava para ser feliz. Diziam, pelos corredores da repartição onde
trabalhava, que na verdade era lésbica
não assumida.
Numa das férias em que foi para
os Estados Unidos, acabou, acidentalmente indo parar numa grande loja de
artigos de sexo. Foi ali que conheceu Robespierre.
Ele estava de pé, próximo a porta
de entrada. Alto, garboso, os cabelos descendo-lhe pela testa, sedutor. O olhar
lânguido, a boca carnuda de lábios entreabertos mostrando-se disposto a saciar
qualquer desejo com beijos longos. E nu. Totalmente nu, expondo inacreditáveis
vinte centímetros de uma pica roliça e dura.
Estancou na porta com o coração
disparado. Quase perdeu o folego diante daquela visão.
O vendedor sorriu e para
minimizar seu embaraço tomando-a pelo braço a aproximou de Robespierre. Foi amor a primeira vista. E apesar de ser francês
falava além do inglês, chinês, russo e espanhol.
Retornou ao país só (Robespierre
viria um mês depois). Enquanto isso continuou lutando por aquilo que a movia: igualdade
de direitos entre homens e mulheres. Mas agora havia Robespierre. O motivo que
a fazia ter estampado no rosto um sorriso estranho, a fazê-la voltar rápido para casa.
Por seu desempenho profissional chegou a ser
cogitada para assumir uma secretaria ligada aos direitos humanos. Mas não tinha
padrinho politico. Tinha apenas Robespierre.
E ele estava sempre em sua cama
com os vinte centímetros apontando para o alto esperando que ela o usasse. Que
gozasse quantas vezes pudesse.
Na semana em que faria quarenta
anos sem que houvesse necessidade sua vida começou a ser narrada antes que acordasse
por Robespierre, como um filme escrito
por Felini, roteirizado por David Lynch e dirigido por Woody Allen.
Toda manhã Robespierre falava
repetindo quase de forma obsessiva sempre a mesma história, quando ela nasceu,
da infância, da adolescência até o momento em que, bêbada, havia feito amor com
canalha que a desvirginou. Depois faziam amor e secretamente ela se lembrava de
sua primeira vez.
E foi assim que o relógio
biológico, enfim, foi acionando o despertador e o corpo, antes tão calado de
tesão agora reclamava a falta de um dos ciclos da vida feminina.
Não lhe passou pela cabeça que um
dia poderia sentir essa necessidade uma vez que excluíra qualquer possibilidade
de relacionamento com homens que não fosse de forma profissional.
A ideia de engravidar cresceu em
sua cabeça, depois em seu corpo.
Primeiro foram os enjoos, depois
as vertigens.
Foi ao médico, fez exames e para
seu espanto constatou que estava grávida de quatro meses.
Não acreditou. Sentia-se uma
quase virgem apesar de Robespierre a possuir todas as noites.
Não podia ser um milagre. Não
acreditava em milagres, em virgens santas, ou qualquer explicação divina para o
fenômeno que lhe crescia no ventre.
Estava assustada e se sentindo
louca, com toda certeza estava ficando louca. Pensou em voltar ao médico e
pedir novo exame. Porém, como poderia estar gravida se tivera apenas uma e
somente uma vez com um homem de verdade
e isso já fazia bastante tempo e que agora transava com um boneco que
comprara numa viagem ao exterior.
Voltou para casa transtornada.
A mão tremula mal conseguia
enfiar a chave na porta. Entrou e foi direto ao quarto.
Robespierre estava lá, deitado com o pau
esticado para o alto. Parecia sorrir, como se já soubesse da noticia.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
direitos reservados