quinta-feira, 17 de abril de 2014

Acordou por volta das três da madrugada.
Chovia e apesar do frio dormiam nus agasalhados pelo grosso cobertor colorido. Virou-se para ela e  a abraçou devagar com receio de acordá-la. Ao contato dos corpos e pelo calor que emanavam logo seu pau cresceu. A pontinha da cabeça encostada no rego volumoso o fez desejar que ela acordasse.
 Aproximou-se de seu ouvido e se pôs a falar com voz de locutor das viagens que fez enquanto meditava. Falou do encontro com os deuses, sobre o que conversaram e da beleza dos caminhos que percorria nesse transe. Falou que viu, quando transaram, estrelas saindo do cabelo dela e que subiam para iluminar o teto do quarto deles.

Acordou no dia seguinte e antes de abrir os olhos ficou ouvindo a chuva que explodia nos vasos das plantas no parapeito da janela. O corpo quente dele junto ao seu a excitou. Sentiu a respiração dele em sua nuca e passou a língua nos lábios desejando ser beijada. A vontade de sugar-lhe a língua cresceu aumentando seu tesão. Pensou em virar-se e tocar com os seus os lábios dele.
A chuva aumentara como no auge de uma sinfonia que se prepara para o final apoteótico.
Suspirou devagar. Sentiu-se envolvida por um amor suave. Tudo parecia perfeito.
Sorriu de leve e sem querer adormeceu novamente.


(Um conto especial para Adriana K.)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Habilmente a defesa demonstrou que a vítima induziu o réu pelo comportamento lascivo e trajes sumários que estava disponível para o sexo quando aceitou ir ao seu apartamento.  Mesmo havendo, conforme os laudos indicavam marcas corporais provocadas possivelmente por uso de força excessiva, não ficou caracterizado o estupro. Era a palavra da vitima contra a do réu. 
Dessa vez a humilhação fora maior e diante do julgamento pífio em que o agressor se transformava em vitima “de uma mulher desesperada por sexo” na descrição do advogado de defesa, coube-lhe apenas o suicídio como ultima alternativa de recuperar a paz.
Deixou aos pais uma carta em que pedia perdão pelo ato, porém, era incapaz de conseguir conviver com tamanha humilhação.
No dia seguinte após o enterro a família recebe uma breve ligação cuja voz feminina diz: “onde a justiça falha a vingança prevalece. Não se preocupem o castigo dele esta a caminho. Fiquem em paz.”
Em menos de uma semana o corpo do rapaz fora encontrado enforcado num beco com um bilhete no bolso que dizia: “onde a justiça falha a vingança prevalece”.

“Esse foi o primeiro caso, em 2010”.  Diz a delegada Nakamura entregando a pasta a Androide.
“Lembro-me do caso. O pai da vitima tentou culpar os pais da garota, entretanto nada foi provado”. Acrescenta Androide.  
“Em 2011, outro caso semelhante e com o mesmo bilhete, só que dessa vez a vitima foi envenenada.” Continua Nakamura. “No mesmo ano mais um acusado de estupro é encontrado envenenado com o “cartão de visita” no bolso”.
“Um serial killer com função social”, Insinua Carol.
“Um assassino, nada mais do que um assassino como outro qualquer”, retruca Nakamura.   
“Não aparenta ser obra de um assassino qualquer. Ele é motivado por vingança. Possivelmente sofreu abuso quando criança.” Explica Androide.
“A única diferença entre os casos é que somente o primeiro foi enforcado e os outros envenenados. Pode não ser a mesma pessoa.” Conclui Nakamura.
“E agora esses outros dois inocentes”, finaliza Carol com ironia, “igualmente envenenados cada um com seu cartãozinho no bolso”.
“A diferença é que esses tem pedigree” Arremata Androide.
“Filhinhos de gente graúda”, conclui Carol.
“Não é nossa função selecionar os crimes que iremos investigar em função da posição social da vitima, crime é crime e nosso dever é investigar e se possível solucionar o caso”. Retruca Nakamura pondo na voz a dureza habitual. “O caso é de vocês.”

“Crime é crime” fala Carol com desdém  assim que sai da sala de Nakamura, “estupro é crime e esses caras saíram livres, só porque agora dois filhinhos de poderosos foram pro beleléu é que precisamos achar os culpados. Faça-me o favor.”
“Não reclame Carol, façamos nosso serviço e deixemos a lei cuidar do resto.”
Carol olha Androide de soslaio pondo no rosto sapeca um quê de ironia.
 “A lei pode ser falha, injusta aos olhos de quem foi vitimado, mas é a lei e disso não podemos nos esquecer”.  Finaliza ele indo em direção a sua mesa.

(A Orgia dos Cães / Ivo Linhares)
Direitos reservados


segunda-feira, 14 de abril de 2014

O SEGREDO DA FEMINISTA

O segredo da feminista

Havia perdido a virgindade ainda jovem quando tomou seu único porre com um rapaz, um aventureiro, que a seduziu como se fosse um príncipe encantado para depois evaporar como um gênio da lâmpada.
Depois que perdeu a virgindade passou a proteger seu desejo, inclusive de si mesma. Usava uma escova para lavar-se evitando assim sentir a própria mão em seu corpo.
Tornara-se uma feminista diabólica, dessas que lutam encarniçadamente pela igualdade entre os sexos, disposta a dar a vida pela causa. Entretanto, mantinha adormecida  a vontade de se entregar novamente a um homem, qualquer homem que produzisse outra vez todas as sensações que seu corpo escondia nas profundezas de sua alma juvenil. Por precaução nunca mais botou na boca nada que tivesse álcool.
Para fugir dos comentários maldosos mentia dizendo que mantinha um caso duradouro com uma pessoa casada. E isto bastava para ser feliz. Diziam, pelos corredores da repartição onde trabalhava,  que na verdade era lésbica não assumida.
Numa das férias em que foi para os Estados Unidos, acabou, acidentalmente indo parar numa grande loja de artigos de sexo. Foi ali que conheceu Robespierre.
Ele estava de pé, próximo a porta de entrada. Alto, garboso, os cabelos descendo-lhe pela testa, sedutor. O olhar lânguido, a boca carnuda de lábios entreabertos mostrando-se disposto a saciar qualquer desejo com beijos longos. E nu. Totalmente nu, expondo inacreditáveis vinte centímetros de uma pica roliça e dura.
Estancou na porta com o coração disparado. Quase perdeu o folego diante daquela visão.
O vendedor sorriu e para minimizar seu embaraço tomando-a pelo braço a aproximou de  Robespierre.  Foi amor a primeira vista. E apesar de ser francês falava além do inglês, chinês, russo e espanhol.
Retornou ao país só (Robespierre viria um mês depois). Enquanto isso continuou lutando por aquilo que a movia: igualdade de direitos entre homens e mulheres. Mas agora havia Robespierre. O motivo que a fazia ter estampado no rosto um sorriso estranho, a fazê-la  voltar rápido para casa.
 Por seu desempenho profissional chegou a ser cogitada para assumir uma secretaria ligada aos direitos humanos. Mas não tinha padrinho politico. Tinha apenas Robespierre.
E ele estava sempre em sua cama com os vinte centímetros apontando para o alto esperando que ela o usasse. Que gozasse quantas vezes pudesse.
Na semana em que faria quarenta anos sem que houvesse necessidade sua vida começou a ser narrada antes que acordasse por Robespierre,  como um filme escrito por Felini, roteirizado por David Lynch e dirigido por Woody Allen.
Toda manhã Robespierre falava repetindo quase de forma obsessiva sempre a mesma história, quando ela nasceu, da infância, da adolescência até o momento em que, bêbada, havia feito amor com canalha que a desvirginou. Depois faziam amor e secretamente ela se lembrava de sua primeira vez.
E foi assim que o relógio biológico, enfim, foi acionando o despertador e o corpo, antes tão calado de tesão agora reclamava a falta de um dos ciclos da vida feminina.
Não lhe passou pela cabeça que um dia poderia sentir essa necessidade uma vez que excluíra qualquer possibilidade de relacionamento com homens que não fosse de forma profissional.
A ideia de engravidar cresceu em sua cabeça, depois em seu corpo.
Primeiro foram os enjoos, depois as vertigens.
Foi ao médico, fez exames e para seu espanto constatou que estava grávida de quatro meses.
Não acreditou. Sentia-se uma quase virgem apesar de Robespierre a possuir todas as noites.
Não podia ser um milagre. Não acreditava em milagres, em virgens santas, ou qualquer explicação divina para o fenômeno que lhe crescia no ventre.
Estava assustada e se sentindo louca, com toda certeza estava ficando louca. Pensou em voltar ao médico e pedir novo exame. Porém, como poderia estar gravida se tivera apenas uma e somente uma vez com um homem de verdade  e isso já fazia bastante tempo e que agora transava com um boneco que comprara numa viagem ao exterior.
Voltou para casa transtornada.
A mão tremula mal conseguia enfiar a chave na porta. Entrou e foi direto ao quarto.
 Robespierre estava lá, deitado com o pau esticado para o alto. Parecia sorrir, como se já soubesse da noticia.


(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
direitos reservados

sexta-feira, 11 de abril de 2014

MEUS MEDOS

Tenho medo daquilo que conheço e vejo antes de dormir.
Sinto quando fecho os olhos que minha cama é apenas uma pequena embarcação balançando a noite no meio de um oceano onde não há peixes mas pessoas nadando ao meu redor.
Estou deitada no convés olhando as estrelas sem me importar de estar perdida no meio do nada.

Não amo essa solidão, porém  é tudo que me restou para viver.
Viver além de todas as lembranças dos medos, dos pequenos fantasmas que criei, das pessoas que sufoquei enquanto levava meu dirigível Zeppelin para a estratosfera de todas as emoções que meu corpo não podia comportar.

Não amo a mim mesma e ao corpo que não me suporta e debocha dos meus sentimentos fazendo-me ser ridícula diante de todas as pessoas que convivem em harmonia no casamento do corpo e da alma.

Sou uma viajante das gotas de álcool que entorpecem o lado ruim da cabeça que comanda o corpo e o engana possibilitando que ele se transforme em um barco em forma de cama e faça ser quem quero ser até que o efeito da bebida se dissolva e me afunde na dureza dos lençóis em todas as manhãs que acordo só.

Tenho medo do pedaço de lua que se rasga por entre a cortina do quarto, como luz de um farol, e não me leva a qualquer outro destino que não é aquele que já conheço e vivo. Prefiro o sol que me queima a pele e me mostra sem retoques.

Não sou possível em qualquer mundo, nem mesmo no que inventei em viver.  Deixo rastros, pegadas que ninguém quer seguir porque não sou caça digna de virar troféu na parede para ser admirada enquanto tomam licor de gengibre e falam do prazer em serem caçadores.

Tenho medo da pouca felicidade que crio quando me masturbo e que mal fica em mim quando abro os olhos e vejo o subproduto que restou de meu gozo preso entre meus dedos. Vivo em partes, trancando portas, escondendo coisas que me ferem, amontoando caixinhas com tarjas pretas debaixo da cama para dizer aos pouquíssimos amigos que tenho um monstro morando comigo.



(SEXO VIRTUAL - IVO LINHARES)
direitos reservados

quarta-feira, 9 de abril de 2014

PERGAMINHO


“Tua pele é um pergaminho que guarda mensagens cifradas”.
Ela riu.
“Tocar tua pele me deu medo, me fez sentir como se estivesse boiando na imensidão do mar, me fez viajar, me disse quem sou”.
Ela riu e perguntou:
“Mas deu prazer?”
Os olhos dele desviaram e procuraram ao redor um ponto de referência.
“Não sei mais sentir isso. É como ser sua própria sombra”.
O sorriso dela se desfez. Os olhos amendoados se fecharam um pouco pondo em seu rosto uma expressão de dúvida. Ela o sentiu como uma pirâmide. Para chegar até suas riquezas seria preciso primeiro descobrir como se entra.
“Pelo jeito parece que não foi possível decifrar o pergaminho, mas em compensação serviu para revelar seus mistérios”.
Ele estava diante da mulher com o corpo de leão, asas de águia e cauda de serpente. O enigma da esfinge. Decifra-me ou te devoro.
Nos minutos de silencio em que se envolveram era impossível descobrir no que pensavam.
O gosto da pele dela ainda lhe queimava os lábios.
Ela ainda sentia no pescoço o calor da boca delicada que lhe soprou pequenas palavras sussurradas que não pode distinguir, porém as recebeu como um mantra.

Entre eles as sensações dos toques dos dedos, os olhares camuflando expressões de encantamento, de busca, o ar emoldurado pelo doce perfume do desejo, da descoberta.

O beijo veio tão devagar que puderam sentir a eletricidade dos corpos nos lábios antes mesmos de se tocarem. As mãos dele na cintura dela como se aquele corpo fosse de um cristal finíssimo prestes a se estilhaçar ante uma pressão mais forte.
Despiu-a passeando os dedos por sua pele enquanto descobria caminhos, trilhas, atalhos que faziam seu o corpo tremer.
 E após esses pequenos passos em direção a longa estrada do prazer deitaram-se  deixando que suas almas flutuassem em busca outros mundos.




PERGAMINHO
Ivo Linhares
(Para Libia Besouro)