Senti-me uma criminosa
diante de tal pergunta.
O advogado manteve os olhos fixos aos
meus e sua expressão séria me lembrou da presa encurralada que sabendo que vai
morrer pretende vender caro sua vida.
Queria dizer que aquilo não era da
conta dele, que não o pagava para saber dos meus desejos. Ao mesmo tempo desejei
que ele rasgasse minhas roupas e com elas me amarrasse para depois abusar do
meu corpo, da minha alma.
Entretanto, se isso acontecesse eu perderia todo meu poder
sobre ele, a imagem que criei se desfaria trazendo de volta Midori Hirata,
funcionária licenciada de uma multinacional japonesa, estressada, trinta e
poucos anos, casada, sem filhos.
Recuperei meu folego e terminei de beber a água. Ele
continuava esperando uma resposta. Entreguei-lhe o copo.
- A pergunta demonstra
sua ingenuidade e falta de percepção. Não importa o que sua cliente é, importa
sim o fato de querer que descubra o que pede. O que na sua concepção considera
como anormalidade, doença, ou sei lá qual o nome que daria a tal comportamento,
não pode ou deve influenciar no relacionamento com quem o contrata.
Ele pegou o copo e desceu da mesa.
Pensei que fosse se desculpar.
- Existe uma regra
clara – disse ele – que o cliente não deve esconder nada de seu advogado.
Baseio-me nesse principio para saber seu interesse em descobrir quem matou
aquela mulher.
Precisava agir com firmeza ou ele me
dominaria.
- Contratei-o para
investigar um assassinato e não para entender minhas preferencias sexuais. Além
do mais o senhor já fez um julgamento da vitima considerando-a uma pervertida.
- Ao contrário. Ela
era uma profissional.
Pegou em uma das gavetas uma pasta e me
entregou.
- Sayuri Kuroki. Foi
analista de sistemas, divorciada, dois filhos, um menino de 14 e uma menina de
10.
Folhei a pasta e vi fotos dela, dos
filhos e de um homem e inclusive as do laudo da necropsia. Praticamente toda a
vida dela estava naquele pequeno dossiê.
- Era uma mulher
inteligente – concluiu – como pode ver. Portanto, o fato de ser lésbica ou
outra coisa qualquer é meramente subjetivo eu meu julgamento, caso o tenha
feito.
Entreguei-lhe a pasta e esperei.
- Entretanto, descobrir
quem a matou e porque depende de todas as pessoas que estavam envolvidas com
ela. E isso inclui a senhora.
(Fim da 16ª parte –
continua)
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