quarta-feira, 15 de agosto de 2012

AMOR E MEDO (6ª parte)


 


   Midori Hirata. Sou eu. Por mim passam pessoas que não conheço. Algumas param ao meu lado para ler a mesma noticia que vejo no jornal exposto na banca.
   A foto três por quatro da mulher em destaque no canto superior esquerdo. Na foto maior o corpo da mulher ao chão ladeado por um liquido escuro. Parte do cabelo cobrindo o rosto. Eu a conheço mesmo assim. Leio a manchete uma única vez e ela fica girando em minha cabeça como cavalinhos em um parque de diversões.    Não devia ter amado aquela mulher com um desespero que não era meu. Mas era isso que ela queria. Disse que deveria ser assim. Leio o resumo da matéria. Falam em crime passional pois nada foi roubado nem havia indícios de arrombamento, o que significa que a vitima conhecia seu algoz. Falam num golpe profundo dado por uma espada que pegou do rosto até próximo ao púbis.
   Compro o jornal e caminho. Não vejo por onde vou. Caminho. Pessoas passam por mim mas não as vejo, não sei quem são. Caminho. Paro nas esquinas e ouço sons de buzinas, motos, palavras, apitos, sirenes, motores. Caminho. Em outra banca paro e leio a mesma noticia. Compro o mesmo jornal. Caminho.


   Meu marido chega em casa e estranha todos aqueles jornais iguais espalhados pela casa. Pergunta o porque e eu o olho. Nada digo. Ouço-o fazer varias perguntas e vejo em seu rosto a preocupação. Nada digo.


   Ouço o médico dizendo a meu marido que daqui a pouco adormecerei, basta o tranqüilizante fazer efeito que dormirei a noite toda, talvez um pouco mais, até a tarde do dia seguinte.  Fecho os olhos e me vejo segurando a katana que ela me deu. Sinto a força que a espada tem e me transmite. Quero me levantar para pegar no armário minha espada mas o corpo não obedece, ele dorme. Continuo acordada vendo imagens, símbolos, pessoas. A lamina brilha sobre minha cabeça e desce rápida rasgando o rosto da mulher, o peito, o ventre. Após o golpe continuo parada, a ponta da espada quase tocando o chão. A mulher cai de bruços, parte do cabelo cobrindo-lhe o rosto, um braço por debaixo do corpo, o outro quase sobre a cabeça.
   Deve ter sido assim.




(fim da sexta parte – continua)


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