Eram
de mundos diferentes. Contudo, habitavam o mesmo universo virtual e dividiam
experiências, saberes, numa troca rica e saudável.
Ele
era um daqueles tipos mofados, encardidos, rato de biblioteca, quase uma
enciclopédia. Ela, ao contrário, sempre despojada, viajada, conectada ao
universo virtual pelo celular de onde, em segundos, capturava a informação
disponível.
Ele
sabia dos livros e ela da tecnologia. Complementavam-se.
Ela
gostava de homens, principalmente os negros, e de mulheres, de qualquer cor.
Ele
gostava somente de mulheres inteligentes e sensíveis sem distinção de cor. Mas,
demonstrava certa predileção pelas japonesas.
Travavam
diariamente, via internet, acaloradas conversas sobre sexualidade ou temas
afins e cada vez mais pessoas surgiam do nada para aprofundar o papo.
Secretamente
se masturbava de madrugada chamando o nome dela. O nome lhe bastava. Tinha a
sonoridade de todos os gemidos, de tantas sensações. Era um nome sólido,
penetrante, vibrante, enlouquecedor. Trazia-o na mente quase que vinte e quatro
horas por dia.
Ele
não criava fantasias, porém elas brotavam como palavras lidas num livro e iam
se formando na mente, no corpo, emocionando.
Ela
também se masturbava com frequência, por todos que lhe despertassem algum
desejo, mas nunca se fixava em alguém em especial. Até conhecê-lo virtualmente.
Ela
era, para ele, como uma daquelas mulheres de calendário: perfeitas, belas, inatingíveis
que se via pendurada em paredes sujas, encardidas nos borracheiros e que nos
distraiam enquanto o camarada verificava o problema no carro ou trocava um
pneu.
Um
dia ela apareceu para ele usando somente uma camisetinha larga, dessas velhas,
maltratadas, que as mulheres usam não para nos seduzir, mas para mostrar o quão
perfeito são seus corpos. Ela se mexia e os seios pontudos pareciam querer
fugir pelas laterais. Propositadamente ergueu-se em direção a câmera trazendo
quase que para dentro do monitor dele os seios pontudos, eretos.
Ele
ficou mudo. Imaginou a preciosidade que deveria estar guardada sobre a pequena
peça de pano enquanto seu pau subia. Gostaria de se masturbar ali, naquele
momento.
A
voz dela lhe chegava dengosa, sorrateira, via-a como uma gata se espreguiçando
ao sol, rolando delicada sobre um tapete felpudo.
Assim,
pela primeira vez ele falou sobre o quanto ela estava sensual, provocativa,
bela e sedutora.
E
foram tantas as palavras impregnadas de um sabor de sexo que ela mesma não
resistiu e virando a câmera de lado se pôs a tocar-se enquanto ele continuava falando
e ouvindo-a gemer, miar, gritar, rir, chorar... gozar.
Ele
também se masturbava enquanto falava e ouvia dela os sussurros de prazer, a
respiração entrecortada por monossílabos e palavras soltas.
Os
orgasmos dela se tornaram intensos. Longos. Ele sentia como se degustasse um
vinho raro que flutuava na boca e mesmo depois de bebido permanecia em sua
língua numa maravilhosa e indescritível sensação de prazer.
Segurou
por várias vezes a vontade de gozar, porém quando o fez, já sentindo que ela
estava no fim das próprias forças, por instantes perdeu o ar. O coração
acelerado, o corpo queimando e formigando como se milhares de borboletas o
tivessem tocando com suas delicadas asas.
Seguiu-se
de longo silêncio de ambas as partes.
Agora
já não sabiam mais como se olhariam.
(SEXO
VIRTUAL / IVO LINHARES
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