segunda-feira, 24 de março de 2014

Eram de mundos diferentes. Contudo, habitavam o mesmo universo virtual e dividiam experiências, saberes, numa troca rica e saudável.
Ele era um daqueles tipos mofados, encardidos, rato de biblioteca, quase uma enciclopédia. Ela, ao contrário, sempre despojada, viajada, conectada ao universo virtual pelo celular de onde, em segundos, capturava a informação disponível.
Ele sabia dos livros e ela da tecnologia. Complementavam-se.
Ela gostava de homens, principalmente os negros, e de mulheres, de qualquer cor.
Ele gostava somente de mulheres inteligentes e sensíveis sem distinção de cor. Mas, demonstrava certa predileção pelas japonesas.
Travavam diariamente, via internet, acaloradas conversas sobre sexualidade ou temas afins e cada vez mais pessoas surgiam do nada para aprofundar o papo.
Secretamente se masturbava de madrugada chamando o nome dela. O nome lhe bastava. Tinha a sonoridade de todos os gemidos, de tantas sensações. Era um nome sólido, penetrante, vibrante, enlouquecedor. Trazia-o na mente quase que vinte e quatro horas por dia.
Ele não criava fantasias, porém elas brotavam como palavras lidas num livro e iam se formando na mente, no corpo, emocionando.
Ela também se masturbava com frequência, por todos que lhe despertassem algum desejo, mas nunca se fixava em alguém em especial. Até conhecê-lo virtualmente.
Ela era, para ele, como uma daquelas mulheres de calendário: perfeitas, belas, inatingíveis que se via pendurada em paredes sujas, encardidas nos borracheiros e que nos distraiam enquanto o camarada verificava o problema no carro ou trocava um pneu.
Um dia ela apareceu para ele usando somente uma camisetinha larga, dessas velhas, maltratadas, que as mulheres usam não para nos seduzir, mas para mostrar o quão perfeito são seus corpos. Ela se mexia e os seios pontudos pareciam querer fugir pelas laterais. Propositadamente ergueu-se em direção a câmera trazendo quase que para dentro do monitor dele os seios pontudos, eretos.
Ele ficou mudo. Imaginou a preciosidade que deveria estar guardada sobre a pequena peça de pano enquanto seu pau subia. Gostaria de se masturbar ali, naquele momento.
A voz dela lhe chegava dengosa, sorrateira, via-a como uma gata se espreguiçando ao sol, rolando delicada sobre um tapete felpudo.
Assim, pela primeira vez ele falou sobre o quanto ela estava sensual, provocativa, bela e sedutora.
E foram tantas as palavras impregnadas de um sabor de sexo que ela mesma não resistiu e virando a câmera de lado se pôs a tocar-se enquanto ele continuava falando e ouvindo-a gemer, miar, gritar, rir, chorar... gozar.
Ele também se masturbava enquanto falava e ouvia dela os sussurros de prazer, a respiração entrecortada por monossílabos e palavras soltas.  
Os orgasmos dela se tornaram intensos. Longos. Ele sentia como se degustasse um vinho raro que flutuava na boca e mesmo depois de bebido permanecia em sua língua numa maravilhosa e indescritível sensação de prazer.
Segurou por várias vezes a vontade de gozar, porém quando o fez, já sentindo que ela estava no fim das próprias forças, por instantes perdeu o ar. O coração acelerado, o corpo queimando e formigando como se milhares de borboletas o tivessem tocando com suas delicadas asas.
Seguiu-se de longo silêncio de ambas as partes.
Agora já não sabiam mais como se olhariam.

(SEXO VIRTUAL / IVO LINHARES
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O SONHO QUE DESFAZ A VIDA

Milhares de motocicletas percorreram a pequena cidade aos bandos, acelerando e gritando palavras incompreensíveis.
Ao saírem só havia ruínas, fogo, explosões. Um verdadeiro inferno.
E das ruínas brotavam demônios sorridentes que se encarregavam de levar os corpos para debaixo da terra.
Na garupa, a menina abria os braços e de olhos fechados sentia o vento a lhe cortar a pele. Mesmo de longe e com o ronco dos motores ainda podia ouvir as vozes em desespero implorando clemencia.
Quando a motocicleta parou deu-se conta que todas as outras máquinas haviam sumido. Estava só com a mulher ruiva. Desceram e antes de tirar o capacete em forma de elmo ela a vestiu-a com sua jaqueta de couro negro.
Beijaram-se. Um beijo longo e tão profundo que a levou a outros mundos. Mundos que povoavam seus sonhos desde que seu corpo mudou de casca enquanto seus seios despontavam e os pelos finos e claros nasciam tímidos emoldurando a pequena entrada de sua vagina.
Foi tamanha a felicidade a fugiu-lhe da alma que a fez rodar segurando a mão de sua protetora enquanto riam alto.
Abraçaram-se novamente. As mãos trocando de corpos, os olhos penetrando no corpo da outra como as línguas que se infiltravam nas aberturas, nos orifícios, buscando não viver a tristeza do amor matemático, onde um mais um sempre será dois.
Rolaram pela relva destroçando flores, espantando insetos, deixando que a terra se  agarrasse aos corpos suados e as unisse como numa carapaça.

Acordou enroscada ao lençol. O corpo suado.
Por um instante, ainda vivendo no corpo a sensação eufórica da alegria do sonho não se da conta de que ainda é quem é, até que o cantar assassino de um pássaro anuncia o fim da madrugada.
Restava agora apenas aguardar a chegada de uma nova noite.

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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sexta-feira, 21 de março de 2014

Olhava a paisagem pela janela do carro indo pela Avenida Niemeyer.  Nem ele nem o motorista admiravam a beleza do mar. Uma vista esplendida por sinal,  porém, monótona para um homem que passava a trinta anos pelo mesmo lugar, invariavelmente aquela hora.
Seria o preço a pagar por ter conseguido atingir suas metas? Por ter se tornado um empresário de sucesso? Seu prêmio era uma vida monótona em um casamento morno?
O som do celular indicou que havia recebido uma mensagem. Suspirou. Sete horas da manhã e alguém já o importunava. Deveria ser Raquel, sua mulher. Por uma bobagem qualquer haviam discutido e com certeza ela ainda queria falar mais alguma coisa.
Abriu a mensagem e deparou-se com a imagem de uma mulher mostrando-lhe as pernas. Uma imagem sensual. Erótica. Um vídeo com pouco mais de dois minutos.
Viu o filme algumas vezes tentando descobrir algo sobre a mulher ou quem lhe enviara tal mensagem.
Já sentia uma leve excitação quando veio o segundo vídeo. A mesma mulher, dessa vez sem o vestido sensual, apenas de calcinha e com um sutiã que lhe empurrava os seios para o alto. Havia uma iluminação difusa que permitia ver o corpo,  mas não o rosto da mulher que parecia ainda estar encoberto por uma máscara.
Era uma nova coreografia e desta vez as mãos eram mais ousadas e percorriam as pernas.
Ele não se conteve e discretamente abriu a calça e libertou o pau, agora bem mais atiçado e pôs-se a tocá-lo de leve, alternando os movimentos entre para cima e para baixo e rodando a mão sobre a cabeça. Afundou-se devagar no banco para fugir de qualquer olhar do motorista que se mantinha atento ao fluxo a frente.
Ainda estava vendo o vídeo pela segunda vez quando veio o terceiro.
Ela retirava o sutiã e a calcinha minúscula enquanto passava alguma coisa roliça e rosa entre as pernas. Dançava ainda mais sensual.
Ele agora já tocava a mais frenética punheta, respirando pesado, tentando segurar o celular com a mão esquerda sem tremer tanto.
Então veio o quarto vídeo em que a mulher, de costas, introduzia um pequeno pedaço do objeto rosa em sua vagina e torcia o pescoço olhando para a câmera enquanto alguém dava um zoom sobre o rosto dela, mais precisamente sobre os olhos e a imagem se congelava.
Olhos verdes.
Verde como o mar que beirava a Avenida Niemeyer.


(A ORGIA DOS CÃES / Ivo Linhares) 

terça-feira, 4 de março de 2014

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Sempre viajo no meu aniversário. Não como presente que me dou mas para evitar receber "parabéns". É uma esquisitice eu sei, porém sou assim.
Uma coisa que gosto de fazer quando não tenho nada para fazer é ficar sentado de frente para minha estante repleta de livros tomando vinho. Passo horas ali vendo os títulos, lembrando das histórias, dos assuntos, dos autores, de como comprei cada um deles. Eu sei que é uma esquisitice.
Uma vez por ano também tiro um dia para limpar as armas da coleção que era de papai. Cada arma deve ter um história, deve ter matado alguém, defendido algo, ameaçado um ou outro. Colecionar algo deve ser meio esquisito. Cada um tem suas manias.
Não é diferente do cara que mata em série. Não sei se é uma mania, uma compulsão... mas é fato que o assassino precisa daquilo para continuar sua vida. Sua vida não é nada sem esse habito.
Todo ser humano é uma caixinha de surpresas. Boas ou ruins. Ninguém esta livre da anormalidade, da patologia, do desejo compulsivo de fazer coisas sem saber exatamente porque as faz.
Como comemorar o aniversário. Festejar por um dia uma felicidade que as vezes não existe o ano inteiro. E naquele dia pessoas que nunca te procuram ligam e te desejam um monte de coisas.
Uma esquisitice.
Lembro de um aniversário. Foi quando me separei da minha primeira mulher, uns meses antes. Comprei uma passagem para o nordeste e no aeroporto aluguei um carro para ficar rodando sem destino. Quando parei para reabastecer num posto a beira da estrada uma garota se ofereceu para um programa. Era um menina ainda. Bonita. Uma daquelas meninas cujo corpo parece estar se transformando mas no fundo já são mulheres. Perguntei porque fazia aquilo e ela respondeu o velho bla-bla-bla de sempre. Perguntei quanto era o programa.
Ela jogou o preço um pouco para o alto mas mesmo assim não era nenhuma fortuna. Dei-lhe o dobro e pedi que fosse para casa brincar com sua boneca.
Ela me devolveu o dinheiro dizendo que não aceitava esmolas. Vendia o corpo porque era sua profissão. Era seu trabalho.
Trabalho. Aquele trabalho lhe dava dignidade. Mesmo que não gostasse do que fazia havia uma dignidade em considerar aquilo como trabalho. Sem querer eu a havia humilhado.
Pedi desculpas.
Não que eu estivesse com vontade de trepar com ela, contudo, senti necessidade de reparar meu erro.
Saímos do posto e rodamos por alguns quilômetros. Entrei com o carro por uma estrada meio encoberta pelo mato e parei.
Ela retirou a calcinha e abriu minha calça.
Chupou-me como uma profissional e com habilidade colocou a camisinha em meu pau. Depois subiu sobre ele e se movimentou. Surpreendeu-me. Apesar de aparentar pouca idade sem dúvida era uma profissional.
Você não goza? Perguntava enquanto continuava se movimentando após uns quarenta minutos.
Podemos ficar aqui a noite toda. Respondi.
Ela estava nua e suava. O corpo escorregava em minhas mãos. Apertei-lhe as ancas e com voz de locutor pus-me a falar em seu ouvido coisas que qualquer mulher gosta de ouvir. Sua respiração começou a se modificar e senti que seus movimentos profissionais iam se dissolvendo para dar lugar a outros mais espontâneos. Uma de minhas mãos subiu-lhe as costas devagar, explorando, até entrar em seus cabelos pela nuca. Senti sua vagina se lubrificando.
Meia hora depois, após vários orgasmos ela caiu para o lado, quase que desmaiada.
Olhei a menina me olhando com os olhos entreabertos e um sorriso de satisfação no rosto.
Muita coisa me passou pela cabeça naqueles minutos vendo-a assim. Mas não me sentia um canalha.
O mundo era assim.
Feito por coisas estranhas e por pessoas esquisitas.
Deixei-a no posto novamente e antes de sair do carro disse seu nome e que iria me esperar sempre.
Fiz-lhe um carinho no rosto e sorri. Fazê-la gozar havia sido meu presente de aniversário.
Quando passei pelo local em que a havia comido, parei.
Desci do carro e toquei uma punheta.
Gozei com vontade e aliviado.
Jamais poderia levar aquilo comigo.