Olhava a paisagem pela janela do carro indo pela Avenida
Niemeyer. Nem ele nem o motorista
admiravam a beleza do mar. Uma vista esplendida por sinal, porém, monótona para um homem que passava a
trinta anos pelo mesmo lugar, invariavelmente aquela hora.
Seria o preço a pagar por ter conseguido atingir suas metas? Por ter
se tornado um empresário de sucesso? Seu prêmio era uma vida monótona em um casamento
morno?
O som do celular indicou que havia recebido uma mensagem. Suspirou.
Sete horas da manhã e alguém já o importunava. Deveria ser Raquel, sua mulher.
Por uma bobagem qualquer haviam discutido e com certeza ela ainda queria falar
mais alguma coisa.
Abriu a mensagem e deparou-se com a imagem de uma mulher mostrando-lhe
as pernas. Uma imagem sensual. Erótica. Um vídeo com pouco mais de dois
minutos.
Viu o filme algumas vezes tentando descobrir algo sobre a mulher ou
quem lhe enviara tal mensagem.
Já sentia uma leve excitação quando veio o segundo vídeo. A mesma
mulher, dessa vez sem o vestido sensual, apenas de calcinha e com um sutiã que
lhe empurrava os seios para o alto. Havia uma iluminação difusa que permitia
ver o corpo, mas não o rosto da mulher
que parecia ainda estar encoberto por uma máscara.
Era uma nova coreografia e desta vez as mãos eram mais ousadas e
percorriam as pernas.
Ele não se conteve e discretamente abriu a calça e libertou o pau,
agora bem mais atiçado e pôs-se a tocá-lo de leve, alternando os movimentos
entre para cima e para baixo e rodando a mão sobre a cabeça. Afundou-se devagar
no banco para fugir de qualquer olhar do motorista que se mantinha atento ao fluxo
a frente.
Ainda estava vendo o vídeo pela segunda vez quando veio o terceiro.
Ela retirava o sutiã e a calcinha minúscula enquanto passava alguma
coisa roliça e rosa entre as pernas. Dançava ainda mais sensual.
Ele agora já tocava a mais frenética punheta, respirando pesado, tentando
segurar o celular com a mão esquerda sem tremer tanto.
Então veio o quarto vídeo em que a mulher, de costas, introduzia um
pequeno pedaço do objeto rosa em sua vagina e torcia o pescoço olhando para a câmera
enquanto alguém dava um zoom sobre o rosto dela, mais precisamente sobre os
olhos e a imagem se congelava.
Olhos verdes.
Verde como o mar que beirava a Avenida Niemeyer.
(A ORGIA DOS CÃES / Ivo Linhares)
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