sexta-feira, 21 de março de 2014

Olhava a paisagem pela janela do carro indo pela Avenida Niemeyer.  Nem ele nem o motorista admiravam a beleza do mar. Uma vista esplendida por sinal,  porém, monótona para um homem que passava a trinta anos pelo mesmo lugar, invariavelmente aquela hora.
Seria o preço a pagar por ter conseguido atingir suas metas? Por ter se tornado um empresário de sucesso? Seu prêmio era uma vida monótona em um casamento morno?
O som do celular indicou que havia recebido uma mensagem. Suspirou. Sete horas da manhã e alguém já o importunava. Deveria ser Raquel, sua mulher. Por uma bobagem qualquer haviam discutido e com certeza ela ainda queria falar mais alguma coisa.
Abriu a mensagem e deparou-se com a imagem de uma mulher mostrando-lhe as pernas. Uma imagem sensual. Erótica. Um vídeo com pouco mais de dois minutos.
Viu o filme algumas vezes tentando descobrir algo sobre a mulher ou quem lhe enviara tal mensagem.
Já sentia uma leve excitação quando veio o segundo vídeo. A mesma mulher, dessa vez sem o vestido sensual, apenas de calcinha e com um sutiã que lhe empurrava os seios para o alto. Havia uma iluminação difusa que permitia ver o corpo,  mas não o rosto da mulher que parecia ainda estar encoberto por uma máscara.
Era uma nova coreografia e desta vez as mãos eram mais ousadas e percorriam as pernas.
Ele não se conteve e discretamente abriu a calça e libertou o pau, agora bem mais atiçado e pôs-se a tocá-lo de leve, alternando os movimentos entre para cima e para baixo e rodando a mão sobre a cabeça. Afundou-se devagar no banco para fugir de qualquer olhar do motorista que se mantinha atento ao fluxo a frente.
Ainda estava vendo o vídeo pela segunda vez quando veio o terceiro.
Ela retirava o sutiã e a calcinha minúscula enquanto passava alguma coisa roliça e rosa entre as pernas. Dançava ainda mais sensual.
Ele agora já tocava a mais frenética punheta, respirando pesado, tentando segurar o celular com a mão esquerda sem tremer tanto.
Então veio o quarto vídeo em que a mulher, de costas, introduzia um pequeno pedaço do objeto rosa em sua vagina e torcia o pescoço olhando para a câmera enquanto alguém dava um zoom sobre o rosto dela, mais precisamente sobre os olhos e a imagem se congelava.
Olhos verdes.
Verde como o mar que beirava a Avenida Niemeyer.


(A ORGIA DOS CÃES / Ivo Linhares) 

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