quarta-feira, 8 de outubro de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE (fragmento dois)

No dia seguinte obrigou-se a sair da cama. A carta amarrotada ficou ao lado do travesseiro justamente no lugar em que Lavínia dormia.
Debaixo do chuveiro Guta deixava a água possuir lhe o corpo até sentir a alma anestesiada. Não queria mais chorar. Precisava voltar a viver a própria vida sem alimentar um fantasma. Havia agora o presente e só. Cada dia sendo vivido para aceitar os acontecimentos.
Havia ainda no armário muitas coisas que Lavínia ficara de buscar depois. As roupas de grife, estojos de maquiagem importados, os sapatos, as joias, os perfumes, as bolsas... bolsas que Guta odiava por representar um glamour que ao seu ver era apenas ostentação.

Ao final da tarde Guta estava exausta. De forma organizada havia posto os tênis, as calças jeans (que para ela simbolizava a luta dos jovens contra o capitalismo), as blusas e camisetas bem como calcinhas e sutiãs em várias sacolas que arrastou até o elevador e entregou ao porteiro para que doasse. Não queria mais olhar aquilo e se lembrar.

Sentiu fome.
Tomou um demorado banho e sentiu-se relaxada.
Demorou a escolher a roupa e antes de vesti-la perfumou o corpo como Lavínia fazia: descia com o indicador do pescoço até o púbis e depois de um seio ao outro fazendo uma espécie de cruz. Sentia-se protegida desse modo.

O porteiro não acreditou quando Guta saiu do elevador. Estava vestida, maquiada e perfumada como Lavínia. Mesmo surpreso, correu para abrir-lhe a porta, como fazia com Lavínia. Notou as pernas bem desenhadas deslizando sobre os sapatos e os quadris num balanço ritmado quase que exclusivo das morenas. Suspirou deixando a imaginação agir.
Pegou um táxi e indicou ao motorista a Gávea como destino. Precisava voltar ao restaurante do Planetário da Gávea, o lugar onde Lavínia a havia levado a primeira vez que saíram juntas.

(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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terça-feira, 7 de outubro de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE (fragmento)

“Não foi por vaidade. Mas por amor ao que existia dentro de mim. Ao mesmo tempo em que chorava de tristeza eu ria de felicidade. Dois momentos tão antagônicos existindo ao mesmo tempo dentro de uma pessoa. Vida e morte.”
Assim começava a carta de Lavínia para Guta que logo após ler esse paragrafo desabou em um choro que lhe tirava o ar. Caiu de costas sobre a cama apertando a carta sobre os seios.
Chorou descontroladamente por muitos minutos ao ponto de perder as forças, quase os sentidos.
As pálpebras pesavam. Lentamente abriu os olhos. Já era noite velada.  O corpo lhe doía como se houvesse levado uma surra. Não tinha mais certeza se queria continuar a ler a carta amassada entre seu corpo e o lençol. Não pelo medo de sofrer, mas por não aceitar a morte de Lavínia. Queira fingir que havia tido um pesadelo. Só isso.
Também havia a culpa. Uma dor em seu estomago como se um monstro faminto lhe comesse as entranhas com o furor dos famintos.
Um monstro chamado remorso.

(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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