No dia seguinte obrigou-se a sair da cama. A carta amarrotada
ficou ao lado do travesseiro justamente no lugar em que Lavínia dormia.
Debaixo do chuveiro Guta deixava a água possuir lhe o
corpo até sentir a alma anestesiada. Não queria mais chorar. Precisava voltar a
viver a própria vida sem alimentar um fantasma. Havia agora o presente e só.
Cada dia sendo vivido para aceitar os acontecimentos.
Havia ainda no armário muitas coisas que Lavínia
ficara de buscar depois. As roupas de grife, estojos de maquiagem importados, os
sapatos, as joias, os perfumes, as bolsas... bolsas que Guta odiava por
representar um glamour que ao seu ver era apenas ostentação.
Ao final da tarde Guta estava exausta. De forma
organizada havia posto os tênis, as calças jeans (que para ela simbolizava a
luta dos jovens contra o capitalismo), as blusas e camisetas bem como calcinhas
e sutiãs em várias sacolas que arrastou até o elevador e entregou ao porteiro
para que doasse. Não queria mais olhar aquilo e se lembrar.
Sentiu fome.
Tomou um demorado banho e sentiu-se relaxada.
Demorou a escolher a roupa e antes de vesti-la perfumou
o corpo como Lavínia fazia: descia com o indicador do pescoço até o púbis e
depois de um seio ao outro fazendo uma espécie de cruz. Sentia-se protegida desse
modo.
O porteiro não acreditou quando Guta saiu do
elevador. Estava vestida, maquiada e perfumada como Lavínia. Mesmo surpreso,
correu para abrir-lhe a porta, como fazia com Lavínia. Notou as pernas bem
desenhadas deslizando sobre os sapatos e os quadris num balanço ritmado quase
que exclusivo das morenas. Suspirou deixando a imaginação agir.
Pegou um táxi e indicou ao motorista a Gávea como
destino. Precisava voltar ao restaurante do Planetário da Gávea, o lugar onde
Lavínia a havia levado a primeira vez que saíram juntas.
(BEM QUE
PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
DIREITOS RESERVADOS