Como
um iguana, só quero ficar ali deitada ao sol e não pensar em nada. Não existe
sol igual ao do Brasil, especialmente como o do Rio. O sol europeu não tem esse
calor dos trópicos, não invade nosso corpo para aquecer a alma. Quando falo
isso para o Hans ele ri e diz apenas que estou com saudades do Brasil. Então me
abraça, me beija na boca e fala que vai mandar construir um sol brasileiro para
me aquecer quando não estiver por perto. Aperta minha bunda com aquelas mãos
fortes e grandes. Meus braços mal conseguem envolvê-lo. Fico alisando suas
costas, sentindo os pelos finos.
Quem
o vê pela primeira vez não imagina que por trás daquele alemaozão de Frankfurt
se esconde um homem meigo e sensível que nas horas livres, que são poucas,
escreve poesias e faz origami. Um contraste absurdo! Dono de uma fabrica de
aços, herdada do pai que herdou do avô, se finge
de durão, de poderoso. Tentei convencê-lo a escrever um livro de poemas, porém
ele disse que não seria bom para os negócios.
Não
somos casados legalmente, não podemos, mas ele sempre me apresenta como sua
mulher e isso acabou gerando um problema com sua família que até hoje reluta em
me aceitar.
Meu
braço se estende e toco na água da piscina. Abro um pouco os olhos e fico me
deliciando com o reflexo do sol na água azul. Encho o peito de ar e suspiro.
Minha vida. Eu a sinto nas pontas dos dedos como aquela água fresca e límpida.
O que seria de mim se não tivesse conhecido o Hans? Provavelmente ainda estaria
atrás do balcão daquela boate servindo drinques e levando cantadas babacas
daqueles gringos sebosos. Ah o Hans! Tão tímido! Ficou me olhando a noite toda
enquanto bebia cerveja sem dizer uma única palavra, mesmo porque ele não falava
nada de português. Quando saí ele estava lá fora me esperando. Falou alguma
coisa em alemão que obviamente não entendi. Entendi aquele olhar carente, a mão
trêmula que eu peguei para que ele sentisse o volume do meu pau por debaixo da
saia. Ele então sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Depois me puxou devagar
e abraçou-me com ternura.
Não
gosto de sair com homens que mal conhecia ainda mais gringos. Embora soubesse
que eles vinham ao Brasil para isso, buscar emoções fortes.
Entramos
em seu carro (um Mercedes e me senti poderosa, era a primeira vez que andava
num carro de luxo) e também um pouco nervosa. Ai meu Deus! E se ele for um
louco, sádico, serial killer ou outra coisa maléfica qualquer? Quem é que passa a noite toda bebendo numa
boate olhando para um travesti se não tem segundas, terceiras, quartas e sei lá
quantas intenções? Enquanto penso ele aponta para o céu e talvez esteja dizendo
que a noite esta linda. Ou vou mandar você pra lá sua doida.
O
carro contorna a avenida e vamos costeando pela praia. Volta e meia me olha e
sorri. Eu morrendo de medo. Minutos depois Hans começa a falar frases curtas em
voz baixa. Engulo em seco e acho que ele esta rezando ou falando algum mantra.
Deve ser seu ritual antes de retalhar a vitima. Discretamente ponho a mão na
alavanca que abre a porta, mas lembro que ao entrarmos ele travou as portas. Se
tiver que fugir terá que ser pela janela e isso seria impossível. Já via até a
cena: metade do meu corpo para fora do carro e ele me puxando com calma pelas
pernas, saboreando meu desespero. Eu gritando socorro e em seu rosto aquele
sorriso de satisfação que todo assassino tem diante do pavor de suas vitimas.
Quando
dou por mim ele esta estacionando o carro e destravando as portas. Penso em
sair correndo desesperada gritando e vejo-o apontar para a praia dizendo “beach, beach” enquanto fazia com as mãos um gesto de
quem quer nadar.
Paralisada,
embora tenha entendido o que ele queria,levo um tempo para sair do carro. Ele
poderia ser o tipo de assassino que não gosta de se sujar com sangue. Prefere
afogar suas vitimas.
Com
as pernas bambas desço do carro e olho para os lados. Tudo deserto e escuro.
Não conseguiria correr nem dez metros. Quem sabe ele sentisse prazer
atropelando os outros com aquele carrão? Quando me dou conta vejo Hans correndo
pela areia tirando a camisa, o sapato, a calça e a cueca. O corpo branco,
peludo entrando e se perdendo na escuridão. Era a chance que precisava! Hans
não se dera ao trabalho sequer de tirar a chave da ignição. O problema é que eu
não sabia dirigir e naquele momento seria difícil tentar aprender. Olhei as
estrelas que pareciam tão próximas enquanto ouvia o chua-chua das ondas.
Quando
cheguei perto de Hans (ele estava parado em pé, pernas e braços abertos)
olhando o mar e falando novamente aquelas frases curtas. Mas dessa vez havia
uma sonoridade, uma delicadeza, uma profundidade em suas palavras que me tocou.
Como um pescador que é atraído pela sereia, fui me encantando. Ele se virou e
apesar do escuro sabia que em seus olhos claros havia uma luz, como um farol a
iluminar-me. Devagar desabotoei a blusa e a deixei cair na areia. A saia
escorregou pelas pernas me alisando, me seduzindo enquanto meu pau crescia
dentro da calcinha. Hans se aproximou, as mãos abertas em volta da minha nuca.
Então é assim que morrerei, estrangulada, buscando o ar, sem desespero e
estranhamente excitada com tudo isso, pensei.
Fechei
os olhos enquanto Hans continuava a falar aquelas coisas que não entendia como
um canto de morte. Senti seus lábios tocando os meus, seu pau crescendo em
minha barriga e suas mãos descendo por minhas costas.
Se
fosse aquele meu último momento em vida que morresse de prazer, exalando o
último gozo como a mais profunda e quase eterna declaração de amor a tudo que
passei até então.
Hans
me possuiu com carinho e eu o fiz gozar varias vezes até que percebemos que o
dia iria clarear em breve. Extenuados, recuperamos as forças no mar que já
havia levado de mim aquela sensação de medo e morte. Mas confesso: sempre que
fazíamos amor eu recuperava aquela sensação e isso me deixava muito excitada.
Entro
na piscina e nem um pouco aquela agua lembra minha primeira vez com Hans. Só
lembro mesmo é da vergonha que senti por pensar no medo de ser feliz.
(Vergonha – Ivo Linhares)
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