Não que tivesse intenção de comprar mais escravos, apenas gostava de
ir ao cais do Valongo e observar os olhares dos negros nus desembarcando. Talvez
por acreditar que não viessem a sobreviver a travessia não se davam conta de
imediato da verdadeira condição em que chegavam. Era um espetáculo abominável e
em certo aspecto repugnante. Havia negros que mal conseguiam andar, por doença
ou fraqueza. Uns traziam a pele marcada por pústulas, sinal dos percevejos e
outras pragas que infestam os porões dos navios. Um ou outro se fingia de doente, planejando um
modo de fugir assim que recobrasse as forças. Mas fugir para onde? Com certeza
esse desconhecia sua condição de escravo e o preço que pagaria pela tentativa.
O coitado serviria de exemplo para desestimular aquele que por ventura estivesse
pensando da mesma forma. Levar algumas chicotadas após uma travessia tão penosa
não deveria ser a coisa mais agradável naquele momento.
O fidalgo passeava pelo cais sem compromisso, ou com a intenção de ver
o que seus olhos já estavam acostumados a ver buscando no intimo uma explicação
para o grotesco espetáculo. Espetáculo este que em nada parecia perturbar quem
por ali passava, mesmo porque quem estava ali tinha a intenção de comprar
escravos. Olhava as peças que
desembarcavam do navio que acabara de chegar enquanto outras, já preparadas,
estavam a disposição para o arremate. Havia uma pequena multidão de compradores
examinando as peças. Um conhecido aproximou-se.
Trocaram cumprimentos e este, pegando-o
pelo braço, solicitou o obséquio de ajuda-lo na tentativa de escolher um
escravo.
Caminharam em direção a pequena multidão. O fidalgo, por delicadeza, não
demostrava sua contrariedade em ajuda-lo na tarefa.
Por pouco mais de um quarto de hora o homem percorreu indeciso entre
os negros a venda acabando por separar um lote de três peças. Perguntou então ao fidalgo sua opinião.
Eram negros altos e corpulentos, um deles mais baixo, porém igualmente forte. Pareciam ser da mesma
família. O fidalgo olhou-os por alguns
instantes e perguntou ao homem para qual propósito queria compra-lo.
O homem iniciou um palavrório infindável que começou a exasperar o
fidalgo.
- Mas afinal, qual o uso que o senhor pretende dar ao negro?
O homem, meio que envergonhado, acabou esclarecendo a situação:
- Tenho lá na fazenda uma negrinha que tem me dado muito trabalho.
Faz-se de mula, de tonta, é estabanada... enfim, não me serve para muita coisa.
Corretivos parecem não funcionar mesmo porque a infeliz acabou caindo nas
graças de minha mulher que me pede que não a maltrate. Era realmente o que me
faltava! Ter em casa uma escrava como bicho de estimação!
Ri frouxo enquanto finge examinar novamente um dos negros.
- Então pensei com meus botões: quem sabe se ela emprenhasse não
sossegaria o facho?
O fidalgo franziu as sobrancelhas para dentro. O homem queria um
reprodutor para sua escrava. Era sem dúvida a coisa mais estupida que podia ter
lhe acontecido naquele momento, pensou o fidalgo. Escolher um escravo garanhão
para cruzar com uma escrava imprestável. Que nem era sua.
Ainda não querendo demonstrar a irritação por tamanha perda de tempo
por uma bobagem daquelas o fidalgo apontou, demonstrando total sapiência para o
escravo mais forte.
- Esse sem dúvida é um belo exemplar para acalmar sua negrinha
insolente! Imagina-o apertando-a naqueles braços musculosos enquanto ela se
debate tentando escapar? De certo ele a ensinará a ser calma e paciente!
O homem olhou o negro que mantinha os olhos voltados para o chão.
Levou a mão a barbicha que lhe rodeava o queixo e com um discreto olhar
calculou o tamanho do membro que se escondia na tosca tanga que lhe cobria as
partes.
Enquanto o homem analisava a peça o fidalgo notou atrás dos negros uma
peça feminina que lhe chamou a atenção.
Estava coberta por um pano azul que descia por um dos ombros deixando
o outro nu.
A carapinha formava um circulo perfeito descendo-lhe por trás da nuca.
Olhou-a nos olhos e em segundos percebeu claramente os seios estufando
o pano, os mamilos criando uma ligeira elevação enquanto ela o olhava também
nos olhos.
Um calor subiu-lhe pela espinha e sentiu o rosto em chamas.
Teve a impressão de ver nos lábios carnudos um ligeiro riso. Depois
ela abaixou o olhar.
O homem pagou pelo negro e depois agradeceu o favor despedindo-se em seguida.
Tão logo pode o fidalgo se aproximou da negra e passou a examina-la
sem demonstrar interesse em compra-la.
O mercador se aproximou e com habilidade e desenvoltura passou a
descrever a negra de origem bantu.
- Porque ela é a única vestida com esse manto azul? Perguntou o
fidalgo.
- Para chamar sua atenção! É um exemplar muito bonito como pode notar.
Dará uma excelente dama de companhia. Disseram que era filha de reis.
- Melhor que tivesse sido dama de companhia da rainha. Uma rainha de
nada me serviria. Mas diga quanto pede pela peça e não quanto acha que vale.
A negra mantinha o olhar abaixado e ainda que não entendesse palavra
do que diziam sabia que estava sendo vendida e no fundo de seu peito torcia
para que o homem a comprasse.
Afinal, ela o havia escolhido.
(ESCRAVOS (1ª parte) – IVO LINHARES)
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