quinta-feira, 22 de maio de 2014

ESCRAVOS (2ª parte)

Em nenhum momento ele havia percebido o que existia por dentro da pele negra dos escravos até que a vulva da negra foi engolindo o membro do fidalgo com tamanha ânsia que parecia ferver.  Atônito, o pobre homem sentia descer-lhe pelos testículos o caldo quente que era expelido com fúria das entranhas da mulher. Dedos porosos desciam por seu tórax num movimento continuo lhe roubando as forças e levando-o a outros mundos. Sentia ver imagens misteriosas ao redor dançando, rodando, pulando sobre eles. Algumas figuras tinham os corpos seminus adornados por colares de contas vermelhas, brancas, amarelas ou azuis. Outras traziam nas mãos objetos que não conseguia distinguir. Da senzala vinha o cantar dos negros cativos com alegria. O aposento parecia imerso em arruda. No corpo um prazer inexplicável, uma sensação que nunca pudera sentir com qualquer outra mulher.
Era também a primeira vez que se deitava com uma negra, com uma escrava.
Tentava abrir os olhos, pois ainda que estivessem fechados podia ver a silhueta da mulher envolta em luz.
Em algum momento a negra curvou-se sobre o corpo do fidalgo. As tetas maduras tocando-lhe o peito de leve, roçando no mesmo ritmo em que a vulva saia e entrava no membro febril. Queria o homem passar-lhe as mãos pelo corpo, sentir a pele quente da escrava, mas havia sido tomado por um torpor místico que o deixava paralisado. Apenas sentia o corpo da negra sobre o seu e a vulva devorando todo prazer que seu membro liberava.
Sua cabeça rodava, o corpo tremia. A voz não lhe saia, apenas conseguia gemer e ouvir a mulher soltando longos suspiros que o fazia lembrar o som do vento forte em noites de inverno ao passar pela folhagem do mato.

Quando a negra lhe deixou o corpo descansar o dia despontava.
Acordou sentindo o aroma do café que se misturava ao da broa de milho que a mucama já havia preparado.
Abriu os olhos e sonolento inspecionou o quarto. Não havia sinal da escrava, apenas o perfume da arruda lhe envolvendo o corpo.

(ESCRAVOS – IVO LINHARES)

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

ELEVADOR

O indicador desceu da nuca até o cóccix, depois ela abriu a mão que continuou a descer. Nesse momento a outra abriu ligeiramente as pernas oferecendo a xotinha umedecida para que a parceira brincasse.
Tentavam se descobrir. A mais velha era casada com um engenheiro e tinha duas filhas. Beirava os quarenta anos. A parceira não chegara aos vinte e cinco, porém tinha experiência de sobra para fazer com que a casada descobrisse uma nova forma de sentir prazer.
A casada, depois do nascimento das filhas, inconsequentemente acomodou-se na função de mãe o que a fez desligar-se do antigo mundo onde era dona da própria vida. Agora existia somente um marido comprometido com a profissão e duas adolescentes em ebulição para movimentar sua tediosa vida.

No primeiro encontro no elevador não notou o olhar da mulher de tão preocupada que estava em controlar as filhas que discutiam por uma bobagem qualquer. Nem tão pouco percebeu a coincidência dos outros encontros quando num deles  aconteceu o seguinte dialogo enquanto o elevador descia apenas com elas duas:
- Suas filhas são bem agitadas. Me fez lembrar quando brigava com meu irmão.
- Ah, nem me fale! As vezes elas me deixam louca!
- Depois passa, é sempre assim. Hoje sou a melhor amiga do meu irmão.
- Ah, mas com menina é diferente. Elas sempre estarão competindo.
- Isso é verdade, não posso negar. Na minha adolescência amorei uma menina cuja irmã mais velha ainda queria ser o centro das atenções. Acredita que ela “virou lésbica” somente para competir com a irmã?
O elevador chega ao térreo e a casada não tem tempo para demonstrar qualquer reação enquanto a mulher a avisa:
- Chegou. Eu vou para a garagem.
A casada se despede com um até logo e sai devagar enquanto ouve o ranger da porta se fechando.
Parada na rua procura entender.
“Caramba, a menina é lésbica. E falou isso assim sem qualquer problema.”

Daquele dia em diante não a encontrou mais, nem no elevador nem na portaria. Entretanto, não conseguia deixar de pensar nela todas as vezes que entrava no elevador. Algumas vezes tinha a impressão de sentir um perfume, mas não sabia se era o dela.

O despojamento em declarar sua sexualidade causara-lhe, de certa forma um impacto. Não tinham nenhuma intimidade para que ela lhe contasse coisa tão pessoal.

Uma noite, depois que fez sexo com o marido pensou em falar sobre a garota lésbica que conhecera no elevador. Ele já estava praticamente dormindo. Ficou olhando para cima, vendo os pensamentos se desenharem no teto. A imagem da mulher em sua cabeça naquele primeiro encontro, vendo-a falar como num filme mudo.

Pela manhã, imediatamente lembrou-se de ter sonhado que fazia amor com a mulher dentro do elevador. Surpreendeu-se por ficar excitada com tal lembrança.

Ficar excitada sexualmente a excitou também de outro modo. Parecia que a sua volta algo havia se modificado. Viu sua vida pequena, vazia. Sentiu-se tola, medíocre. Pensava no sonho, na transa dentro do elevador e mesmo que não fosse com uma mulher bastaria o fato de estar se expondo ao perigo de ser surpreendida que isto já lhe causava um frisson no corpo. Ao revelar sua sexualidade a mulher no elevador se expunha, dizia quem era e para que vivia. Não precisava de qualquer critica ou julgamento para ser quem era. A questão ia além do sexo, mas na essência de sua força para determinar nossa felicidade como pessoa.

No dia em que, após vários encontros no elevador, deixou a mulher entrar, quase que as escondidas em seu apartamento e a levou para a cama onde as vezes fazia sexo com seu marido, teve a certeza de que não estava recuperando a vida que perdera, mas entendendo o sentido de uma nova que precisava viver.

(Elevador – Ivo Linhares)
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terça-feira, 13 de maio de 2014

ESCRAVOS (1ª parte)

Não que tivesse intenção de comprar mais escravos, apenas gostava de ir ao cais do Valongo e observar os olhares dos negros nus desembarcando. Talvez por acreditar que não viessem a sobreviver a travessia não se davam conta de imediato da verdadeira condição em que chegavam. Era um espetáculo abominável e em certo aspecto repugnante. Havia negros que mal conseguiam andar, por doença ou fraqueza. Uns traziam a pele marcada por pústulas, sinal dos percevejos e outras pragas que infestam os porões dos navios.  Um ou outro se fingia de doente, planejando um modo de fugir assim que recobrasse as forças. Mas fugir para onde? Com certeza esse desconhecia sua condição de escravo e o preço que pagaria pela tentativa. O coitado serviria de exemplo para desestimular aquele que por ventura estivesse pensando da mesma forma. Levar algumas chicotadas após uma travessia tão penosa não deveria ser a coisa mais agradável naquele momento.
O fidalgo passeava pelo cais sem compromisso, ou com a intenção de ver o que seus olhos já estavam acostumados a ver buscando no intimo uma explicação para o grotesco espetáculo. Espetáculo este que em nada parecia perturbar quem por ali passava, mesmo porque quem estava ali tinha a intenção de comprar escravos.  Olhava as peças que desembarcavam do navio que acabara de chegar enquanto outras, já preparadas, estavam a disposição para o arremate. Havia uma pequena multidão de compradores examinando as peças.  Um conhecido aproximou-se.  Trocaram cumprimentos e este, pegando-o pelo braço, solicitou o obséquio de ajuda-lo na tentativa de escolher um escravo.
Caminharam em direção a pequena multidão. O fidalgo, por delicadeza, não demostrava sua contrariedade em ajuda-lo na tarefa.
Por pouco mais de um quarto de hora o homem percorreu indeciso entre os negros a venda acabando por separar um lote de três peças.  Perguntou  então ao fidalgo sua opinião.
Eram negros altos e corpulentos, um deles mais baixo, porém  igualmente forte. Pareciam ser da mesma família.  O fidalgo olhou-os por alguns instantes e perguntou ao homem para qual  propósito queria compra-lo.
O homem iniciou um palavrório infindável que começou a exasperar o fidalgo.
- Mas afinal, qual o uso que o senhor pretende dar ao negro?
O homem, meio que envergonhado, acabou esclarecendo a situação:
- Tenho lá na fazenda uma negrinha que tem me dado muito trabalho. Faz-se de mula, de tonta, é estabanada... enfim, não me serve para muita coisa. Corretivos parecem não funcionar mesmo porque a infeliz acabou caindo nas graças de minha mulher que me pede que não a maltrate. Era realmente o que me faltava! Ter em casa uma escrava como bicho de estimação!
Ri frouxo enquanto finge examinar novamente um dos negros.
- Então pensei com meus botões: quem sabe se ela emprenhasse não sossegaria o facho?
O fidalgo franziu as sobrancelhas para dentro. O homem queria um reprodutor para sua escrava. Era sem dúvida a coisa mais estupida que podia ter lhe acontecido naquele momento, pensou o fidalgo. Escolher um escravo garanhão para cruzar com uma escrava imprestável. Que nem era sua.
Ainda não querendo demonstrar a irritação por tamanha perda de tempo por uma bobagem daquelas o fidalgo apontou, demonstrando total sapiência para o escravo mais forte.
- Esse sem dúvida é um belo exemplar para acalmar sua negrinha insolente! Imagina-o apertando-a naqueles braços musculosos enquanto ela se debate tentando escapar? De certo ele a ensinará a ser calma e paciente!
O homem olhou o negro que mantinha os olhos voltados para o chão. Levou a mão a barbicha que lhe rodeava o queixo e com um discreto olhar calculou o tamanho do membro que se escondia na tosca tanga que lhe cobria as partes.
Enquanto o homem analisava a peça o fidalgo notou atrás dos negros uma peça feminina que lhe chamou a atenção.
Estava coberta por um pano azul que descia por um dos ombros deixando o outro nu.
A carapinha formava um circulo perfeito descendo-lhe por trás da nuca.
Olhou-a nos olhos e em segundos percebeu claramente os seios estufando o pano, os mamilos criando uma ligeira elevação enquanto ela o olhava também nos olhos.
Um calor subiu-lhe pela espinha e sentiu o rosto em chamas.
Teve a impressão de ver nos lábios carnudos um ligeiro riso. Depois ela abaixou o olhar.
O homem pagou pelo negro e depois agradeceu o favor despedindo-se  em seguida.
Tão logo pode o fidalgo se aproximou da negra e passou a examina-la sem demonstrar interesse em compra-la.
O mercador se aproximou e com habilidade e desenvoltura passou a descrever a negra de origem bantu.
- Porque ela é a única vestida com esse manto azul? Perguntou o fidalgo.
- Para chamar sua atenção! É um exemplar muito bonito como pode notar. Dará uma excelente dama de companhia. Disseram que era filha de reis.
- Melhor que tivesse sido dama de companhia da rainha. Uma rainha de nada me serviria. Mas diga quanto pede pela peça e não quanto acha que vale.
A negra mantinha o olhar abaixado e ainda que não entendesse palavra do que diziam sabia que estava sendo vendida e no fundo de seu peito torcia para que o homem a comprasse.
Afinal, ela o havia escolhido.

(ESCRAVOS (1ª parte) – IVO LINHARES)
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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Quando disse que papai enriqueceu durante a ditadura não quis dizer exatamente que foi de forma ilícita.  O general apoiou a tal coisa que eles chamavam de revolução ainda que admitisse que tudo, no fundo, foi mesmo um golpe de estado. Havia uma constituição e ela merecia respeito. Mas como eu dizia, papai fez fortuna criando uma espécie de agencia de proteção privada para os empresários e suas famílias que morriam de medo de ser sequestrados. De alguma maneira muita gente se beneficiou com o golpe, de forma licita ou ilícita. Depois que as forças de repressão desbarataram as frágeis forças revolucionárias o negócio acabou perdendo a força, porém graças a ele papai pode aplicar seu lucro no mercado financeiro e ver seu capital aumentar sem que precisasse fazer esforço.
Não posso dizer que indiretamente não me beneficiei com isso. Estudei em bons colégios, viajei para a Europa. Recebia uma boa mesada para gastar em bobagens e com mulheres. Coisa que qualquer adolescente filho de general faria. Não me arrependo de não ter seguido a carreira militar, aliás, o próprio general não recomendava. Dizia que o exército havia mudado muito, que havia se perdido mais uma vez se passando para o lado dos americanos que embora democrata não era diferente de outros colonizadores. Deixávamos de ser colônia de Portugal para ser satélite dos Estados Unidos. Diferente do exército, na policia não se faz amigos. Não existe aquela camaradagem própria das casernas. Militares lutam contra um inimigo comum a pátria. Na policia nem sempre esse inimigo é realmente inimigo de todos os policiais. As vezes a lei e a ordem não são os objetivos comuns dos membros dessas corporações. Por isso resolvi trabalhar em homicídios, afinal, é preciso sempre haver um culpado.

Carol adora ouvir minhas histórias. Ouve como se fosse uma garotinha de dez anos, prestando atenção aos detalhes para depois perguntar tudo. Vou falando enquanto remexo a papelada sobre os assassinatos dos estupradores. Ela observa meus gestos, o modo como organizo a bagunça que faço sobre a mesa. Sou um exemplo.

“Quem cometeu o primeiro crime foi a mesma pessoa que cometeu os outros”, diz Carol vendo as fotos dos corpos e os laudos.
“Porque”, pergunto.
“O assassino não deixou marcas no pescoço da vitima, o que demonstra certa preocupação em preservar a aparência externa, como a maioria dos estupradores que não matam suas vitimas  faz, pois seu objetivo é o sofrimento interior. A asfixia é uma morte cruel porém relativamente rápida.  O mesmo não pode ser aplicado ao veneno. Segundo o laudo necrológico o produto utilizado provocou perda dos movimentos mas não da consciência. A morte foi mais lenta”.
“O que exatamente você esta sugerindo”, insisto.
Carol me olha por alguns segundos. Depois sentencia:
“O assassino pode não ter sentido prazer em mata-los,  entretanto, os fez pensar em como era perder a vida. O mesmo sentimento de suas vitimas”.

(A Orgia dos Cães / Ivo Linhares)
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terça-feira, 6 de maio de 2014

“As vezes a gente quer se arrepender de coisas que foram ditas ou feitas porque naquele momento não era possível agir de outra forma. Muito depois, quando se está mais velho, mais ajustado é que aquela situação volta pra nós e ai, embora tarde, a gente percebe que podia ter feito diferente. Faltou alguma coisa. Talvez maturidade. Não sei”.
Carol olha para Androide e ri enquanto fala “Maturidade é uma palavra que quase nunca esteve no teu dicionário”.
‘Embora a ouvisse sempre na boca de meu pai e em suas atitudes. Ah, o  velho general devia ter razão sobre muitas coisas. Bem que eu poderia ter me espelhado naquela velha raposa”. Responde ele e depois se cala enquanto pensa: Se eu soubesse pedir pediria. Várias vezes. De vários modos. Para todos. Para quem me escutasse. Até para o tal coisa ruim que as vezes parece ter mais força que deus. Mas parece que a coisa não é tão fácil assim. Não basta pedir, tem que existir uma troca. Alguém tem que ganhar alguma coisa. Eu não sei o que tenho pra dar. E nem sei se iriam querer o que tenho.
“A gente só pensa no que vai perder quando esta pra morrer. Podíamos fazer como os faraós. Levar tudo para o túmulo. Recomeçar do outro lado como se ainda estivéssemos aqui. Será que teria graça desse modo? Acho que seria chato demais. Do outro lado deve ser diferente senão porque morrer? Bastava ficar por aqui mesmo como fantasma aproveitando o conforto dos ditos bens materiais”.
Ele a ouve, porém continua pensando: Acho que eles não me ouviriam. Nunca falei com eles porque agora me ouviriam? Podia tentar. Não é por mim. Podem levar isso em consideração. Não sei se Carol acredita. Nunca falou que sim ou que não. Mas se eu pedir como se fosse ela, daria resultado? Podia procurar uma daquelas cartomantes que trazem a pessoa amada em três dias. Elas devem ter um canal aberto com as entidades. É quase um sedex.
A mão direita de Androide vem se arrastando com o celular pelo rosto e para na altura do peito. Pisca devagar. Calmo. Sabe que precisa ter calma e controlar a situação. Ouve-se risos altos e alguns tiros. A cabeça se inclina para a esquerda para onde esta Carol sentada, recostada sobre entulhos que estão ao lado de uma caçamba também com entulhos. Carol ferida, olhos semiabertos e respirando com dificuldade. Uma das mãos ao lado esquerdo do ventre, ensanguentada. Na outra mão, também ensanguentada a  pistola 9mm. Apesar da dor tenta sorrir. Mais alguns tiros e vozes falando que estão chegando, que vão pega-los, que não tem como escaparem.
Carol o olha e se esforça ainda mais para sorrir. Tosse e faz cara de dor enquanto aperta o ferimento. Androide retira o carregador da arma e confere quantas munições.
“Sete munições. O que você tem ai ainda”?
Carol com esforço libera o carregador da arma e com expressão de dor  pelo movimento diz "dez". Com muita dificuldade retira das costas um revólver inox pequeno e mostra para Androide dessa vez com um sorriso bem aberto.
“Ah, esta com o Magnum 357...”
“Lembra dele”?
“Lembro. Meu presente para você quando completou um ano comigo”.
“Era da coleção do teu pai. Senti um puta orgulho quando me disse isso”.
“Eu vi. Você quase chorou”.
“Chorei nada, não inventa’.
Carol tosse e Androide sabe que ela esta fazendo muito esforço.
“Vai conseguir usar”?
“Claro. A última bala é sua ou minha”?
“Nem minha nem sua. A gente vai sair dessa, te prometo”.
“Me faz um favor”.
“O que quiser Carol. Somos parceiros. Fala”.
“Me apaga se a gente não conseguir ok? Não quero ficar nas mãos desses babacas”.
Androide a olha fixo, sério e não consegue falar mais nada.
“Como esta o ombro”? Pergunta ela depois do longo silêncio.
“Foi de raspão. Da pra ficar legal. Ainda bem que atiro com as duas mãos”.
Androide escuta um barulho e num reflexo se vira atirando sobre a caçamba. O homem cai morto sobre os entulhos com a mão pendurada segurando uma pistola desert eagle quase sobre a cabeça de Carol.
“Uma desert eagle...”
Carol com esforço e dificuldade ergue a cabeça e olha a arma. Tosse.
“Esse babaca com uma arma dessas... ótima arma, mas pesada. Ele teria que me acertar no primeiro tiro”.
“O coice dela é de matar”.
“Mas quem morreu foi o burro que tentou atirar”.
Androide se levanta e pega a arma da mão do homem.
“Quantos será que são”?
“Acho que agora só uns três”.
O celular de Androide toca duas vezes e para.
“São eles”? Pergunta Carol

Som de um helicóptero se aproximando rápido. Logo depois carros freando e tiros. Gritos e breve tiroteio. Androide e Carol continuam atentos, de arma em punho. Androide olha para Carol que sorri enquanto deixa a cabeça pender para o lado ao mesmo tempo em que a arma que tem na mão se solta devagar sobre sua barriga. 

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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Olho, assim como a maioria, para a mulher que entra.  Não tem como ignorar a morena esguia no jeans colado ao corpo como se fosse a própria pele que depois de uma rápida busca localiza quem procurava.   
- Minha vida não é uma merda mas é privada!
Disse a mulher em alto e bom som enquanto se curvava apoiando as duas mãos sobre a mesa do detetive Gaspar. A blusa bem decotada deixando ver que esta sem sutiã.
Gaspar sorri enquanto olha os seios cujos bicos estão duros. Depois ergue os olhos para a mulher e diz com cara de deboche para esconder o tesão:
- Minha senhora,  sou detetive de policia e investigar é minha função. Além do mais a senhora esta na minha lista de suspeitos.
- Suspeita ou não isso não lhe dá o direito de divulgar coisas ao meu respeito pela imprensa.
Gaspar se reclina na cadeira querendo mostrar o volume dentro das calças e ainda mantendo no rosto o ar de deboche.
- Cara senhora, não tenho culpa por ser a senhora ser uma figura pública e sua vida interessar a imprensa. Além do mais o que foi divulgado é do conhecimento de todos.
A mulher o olha e mesmo sem querer reproduz a expressão que utiliza nas cenas da novela quando esta discutindo com sua arqui-inimiga na disputa pelo amor do mocinho. Fala pausado e devagar, um olhar penetrante enquanto se curva ainda mais sobre a mesa. Gaspar espicha o olhar de cobiça e se perde dentro da blusa dela.
- Cuidado detetive, não se engane achando que sou aquela tolinha da novela. Todos nós temos nossos podres, nossos pontos fracos.
Gaspar fecha o semblante e tenta retribuir o olhar penetrante.
- Isso é uma ameaça minha senhora?
- Ameaça? Ora meu caro detetive, como uma suspeita pode ameaçar um detetive? Mas pode ser que o dono da emissora para a qual trabalho ligue para o chefe do seu chefe e o senhor  seja obrigado a ter uma conversinha com ele.
Antes que Gaspar possa fazer ou falar algo ela se recompõe e dá-lhe as costas. Na saída ainda para e dá meia dúzia de autógrafos.
Gaspar fica remoendo a raiva por não ter tido tempo de responder, porém, solta um “filha da puta” quase sem som com os dentes trincados, apenas mexendo os lábios.
Otavio se aproxima devagar trazendo como pretexto um copinho com café.
- Na novela ela perece ser mais gostosa – diz enquanto entrega o café – mesmo assim dá pra pegar.
- Vaca filha da puta! Vem aqui me ensinar a trabalhar. Agora mesmo é que vou ficar na cola dela. Passou a ser minha suspeita número um.
- Cara, o marido morreu acidentalmente.
- Otavio, um camarada que toma viagra sabe que não pode tomar três comprimidos de uma vez! Mataram o velho sim, e pra mim foi ela.
- Pô Gaspar, o cara estava no motel com um traveco.
-  Ainda mais essa! Quem sai com veado quer dar e pra isso ele não precisava de viagra. Aí tem coisa.
Da minha mesa eu olho os dois conversando e noto a raiva de Gaspar. Sei que ele quer provar que o marido da atriz foi assassinado. Precisa disso para se promover. Eu o encaro com um ar de riso enquanto ele fecha ainda mais a cara.
Gaspar vira o resto de café de uma vez num gesto rápido e depois joga o copinho com raiva na lata de lixo ao seu lado. Otavio joga seu copinho do mesmo lixo e se afasta sem falar nada.
É, Gaspar daria para ator, penso enquanto volto a escrever meu relatório. Pena que ele não se contentaria com um papel pequeno.

(A orgias dos cães – Ivo linhares)
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