Virou
a taça sugando o resto do vinho do porto e ficou vendo pelo fundo do copo o
Anjo descer.
“Se
anjo não tem sexo porque suas feições são femininas?” Pensou.
O
Anjo riu. Ele viu.
O
cheiro do Lágrima do Porto penetrava por seu nariz enquanto os olhos pesavam.
“Estou
bêbado. E anjos não aparecem para bêbados.”
O
Anjo sorriu mais aberto.
“O
gênero não importa. Deus nos fez de amor puro.”
Ele
riu diante da resposta do Anjo que falava sem abrir a boca, porém sentia as
palavras entrando em sua cabeça. Teve certeza de que estava muito bêbado.
O
Anjo flutuava sobre a cabeça que ele sentia pesar como se estivesse sendo
puxada. Talvez assim as palavras do Anjo continuassem entrando. Mas para onde
iam essas frases?
O
Anjo atravessou por dentro do copo e ele foi sugado para um lugar onde as cores
flutuavam se alternando em arco-íris que se interligavam e dissolviam formando
coisas estranhas.
“Morri”
pensou ele.
“Não
morreu”, disse o Anjo, “isso é o que existe dentro de você”.
Por
um instante ele admirou o que via. Depois percebeu que com as mãos podia
recompor as cores como quisesse dando-lhe outras formas.
A
cor manipulada, entretanto, por um tempo ficava grudada nas mãos que reluziam.
Depois entravam pela pele percorrendo as veias até sair pelos olhos juntando-se
novamente aos arco-íris a sua volta.
Viu-se
não tão bêbado. Passado e presente fundidos surgindo como futuro. Sem cor.
(O Anjo – trecho)