quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Anjo



               Virou a taça sugando o resto do vinho do porto e ficou vendo pelo fundo do copo o Anjo descer.
               “Se anjo não tem sexo porque suas feições são femininas?” Pensou.
               O Anjo riu. Ele viu.
               O cheiro do Lágrima do Porto penetrava por seu nariz enquanto os olhos pesavam.
               “Estou bêbado. E anjos não aparecem para bêbados.”
               O Anjo sorriu mais aberto.
               “O gênero não importa. Deus nos fez de amor puro.”
               Ele riu diante da resposta do Anjo que falava sem abrir a boca, porém sentia as palavras entrando em sua cabeça. Teve certeza de que estava muito bêbado.
               O Anjo flutuava sobre a cabeça que ele sentia pesar como se estivesse sendo puxada. Talvez assim as palavras do Anjo continuassem entrando. Mas para onde iam essas frases?
               O Anjo atravessou por dentro do copo e ele foi sugado para um lugar onde as cores flutuavam se alternando em arco-íris que se interligavam e dissolviam formando coisas estranhas.
               “Morri” pensou ele.
               “Não morreu”, disse o Anjo, “isso é o que existe dentro de você”.
               Por um instante ele admirou o que via. Depois percebeu que com as mãos podia recompor as cores como quisesse dando-lhe outras formas.
               A cor manipulada, entretanto, por um tempo ficava grudada nas mãos que reluziam. Depois entravam pela pele percorrendo as veias até sair pelos olhos juntando-se novamente aos arco-íris a sua volta.
               Viu-se não tão bêbado. Passado e presente fundidos surgindo como futuro. Sem cor.

(O Anjo – trecho)  

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