Naquela manhã, a
primeira da primavera quando a neve já havia virado somente água límpida
que corria livre pelos sulcos da terra, Han acordou e logo percebeu o
perfume no ar. Fechou os olhos e continuou respirando devagar,
imaginando a aldeia impregnada com o cheiro de vida.
Lembrou-se das palavras
do senhor Chao, seu pai, repetindo o que já deveria ter ouvido de seu
sábio pai: tudo segue fluindo dia e noite, sem cessar. Uma mutação
continua e inexplicável.
Como agora. Depois do
inverno a primavera com seus perfumes. Escuridão se fazendo luz
brilhante. A neve transformada em água para alimentar a terra.
Mas porque agora, naquele exato momento ele percebia a primavera no ar? Abriu os olhos assustado. Por quê?
Ninguém em sua casa
havia acordado. Levantou-se e foi para fora contemplar o escuro que se
desfazia. O sol ainda não despontara, mas já ouvia um pássaro ensaiando
um trinado.
Por quê? Ainda se
perguntava. E mesmo não tendo o menor sentido se questionar sentia por
dentro de si algo que o incomodava. Quantas manhãs iguais perdera até
hoje e não se lamentava ou questionava? O que o fez acordar, perder o
sono? Sentou-se para meditar. Logo sua respiração foi diminuindo e seu
corpo parecendo flutuar.
Subitamente sua consciência retornou ao mundo julgando ter ouvido, ainda que distante, o tropel de cavalos.
Após alguns instantes teve certeza de que cavalos cavalgavam. O vento trazia seus cheiros.
Ergue-se lento e de uma
única vez, porém não abriu os olhos. Quando não se vê o que somente se
escuta é mais fácil sentir o que de fato é porque a audição não esconde o
que podemos imaginar ver. Eram cavalos inquietos que pisavam com fúria
pela força de quem os conduzia. Não entendia como podia sentir isso.
Entrou e sem fazer barulho pegou sua espada. Achou por bem não acordar seu pai sem ter certeza do que estava acontecendo.
O sol surgia por sobre as montanhas e mais um pouco tocaria o teto das casas e outras pessoas acordariam.
Viu então, na direção oposta que nascia o sol, a poeira que os cavalos levantavam. Estavam mais próximos.
O senhor Huang apareceu
a porta de sua casa com a espada a cinta e saudou Han curvando-se
ligeiramente a frente. Tinha a expressão séria. Já se ouvia nitidamente o
rumor dos cascos dos cavalos. Aos poucos outros homens da aldeia foram
surgindo, todos a porta de suas casas com as espadas a mostra.
Sem que sentisse seu pai postou-se ao lado de Han. Estava sem sua espada.
- São quinze ou vinte e pelo esforço dos cavalos estão pesados. Mas pela velocidade que vem não trazem carga. São soldados.
Han vira poucos
soldados passarem pela aldeia para pernoite ou recompor suas provisões.
Nenhum, entretanto cavalgava como o grupo que se aproximava. Parecia a
carga de um ataque.
- Querem impressionar Mostrar força. Não precisamos temê-los.
O senhor Chao falava ao filho com segurança.
De fato, eram soldados, podia-se ver agora com nitidez o estandarte do Imperador. A poucos metros diminuíram a marcha.
- Um soldado não age por
conta própria, sempre segue ordens. Por isso não são criativos. Não
observam com os próprios olhos e nem sempre os olhos de quem os comanda
conseguem distinguir o amigo do inimigo. Acreditam que a força esta nas
armas que carregam.
Fez uma pausa e antes que Han desviasse o olhar para ele, continuou.
- O soldado que teme a
morte é mais perigoso que o mais destemido dos generais. Ele luta para
se preservar e não por gloria. Sabe que sobrevivendo pode informar sobre
a capacidade de ação do inimigo. É considerado útil e não um covarde
que fugiu do combate. Tenhamos cuidado ao falar antes de saber o que
querem.
O líder do grupo deu ordem para que parassem e somente ele se aproximou com seu cavalo. Fez uma saudação e disse em voz alta:
- Os bons habitantes desta aldeia poderiam dar água a nossos cavalos e comida a mim e aos meus comandados?
O senhor Huang prontamente respondeu com voz firme sem demonstrar no entanto autoridade enquanto se encaminhava para a rua.
- Nossa aldeia não tem muito a oferecer aos viajantes, mas podemos dividir o que temos com os que veem em paz.
Apontou para o meio da aldeia e antes que seguisse em frente indicando o caminho ouviu a resposta do soldado.
- Tão logo tenhamos comido e descansado nossos cavalos partiremos agradecidos por sua hospitalidade.
Ergueu o braço dando sinal para que a tropa se movimentasse.
Todos na aldeia ficaram
apreensivos. O senhor Huang era quem mais demonstrava isso. A passagem
dos soldados alguns homens apertavam discretamente suas espadas.
O senhor Chao, no
entanto, só virou-se em direção ao interior da aldeia após a passagem do
último soldado. Embora mantivesse o olhar a altura dos joelhos dos
cavaleiros observando cada um deles. O modo de cavalgar, como segurava
sua a arma, o peso, a altura. O senhor Chao sabia ler os sinais do
corpo.
Han permaneceu imóvel ao lado do pai, apenas admirando as vestimentas e o brilho das armas.
- Diga-me Han, o último soldado segurava a lança com que mão?
Han abaixou o olhar e
procurou lembrar. Pela hesitação o senhor Chao logo compreendeu que o
filho, como qualquer rapaz de sua idade, encantara-se mais com o desfile
do que com a segurança da aldeia.
- Ele carregava a lança
em sua mão esquerda. O quê em caso de ataque facilitaria nossa defesa
pois teria que passar a lança por sobre a cabeça de seu cavalo num
ângulo maior e mais demorado.
Han curvou ligeiramente a cabeça para o chão reconhecendo sua falha.
- Estarei mais atento meu pai.
O senhor Chao sabia que
aqueles soldados não tinham intenção de atacar e saquear a aldeia.
Mesmo assim, precisava estar atento. Soldados são guerreiros dispostos a
testar suas habilidades e os jovens da aldeia, por sua própria
natureza, as vezes tem o irrefreável impulso para aventuras. Além de
tudo, aquele grupo poderia ser apenas uma patrulha o que significava que
poderia haver um contingente maior.
Mas com qual objetivo?
Ouvira falar de estrangeiros vindos de longe para negociar. Queriam
algo, porem, o que traziam poderia não ter valor algum para troca.
Estrangeiros nunca vieram em paz. Trazem sempre a ideia de domínio, de
que são mais fortes, astutos e querem submeter o outro a escravidão.
O senhor Chao era um
homem bem vivido. Tinha experiência como soldado, de ter passado
privações. Já foi jovem e impulsivo, entretanto, aprendera a domar a
fúria do guerreiro que se apossava dele em combate graças a um ancião
que lhe mostrou o Tai chi chuan e sua vida se transformou.
Han é seu único filho
homem. Sabe que não pode esperar que herde suas virtudes e
conhecimentos, pois o que aprendeu foi lutando com a vida. Cada dia
haverá uma lição e que tudo pode ser superado com paciência e
criatividade quando a mente deixa que o espírito flua. Em sua juventude,
erroneamente achava que o mais importante era o que o rodeava e não
aquilo que trazia dentro de si. Mas isto Han deveria descobrir sozinho.
O senhor Chao não tinha
certeza, mas assim como aconteceu a ele Han um dia seria tocado por
alguma coisa que alteraria o curso de sua vida. Não imaginava ele que o
dia havia chegado junto com os soldados.