Não sei se aquilo foi um orgasmo.
Porra, eu estava lá, deveria saber. Tudo bem que estava lá olhando, mas como
vou ter certeza de uma coisa que nunca senti? É como aceitar que os dez
mandamentos foram escritos por deus mesmo não havendo nenhuma assinatura nas
pedras. Neco diz que eu só preciso acreditar para sentir, mas mesmo sentindo
não consigo acreditar naquilo que não consigo explicar.
A questão é que eu estava sóbria.
Lucida. Presente. Ou quem sabe aquela mulher não era eu? Mas aquela coisa que
senti foi uma porrada no estomago. Algo assim como uma primeira dose de uísque,
aquele do bom, cem por cento malte escocês. Depois senti meu corpo tremer, ou
foi antes, ou foi durante, mas meu corpo reagiu sem minha autorização, como se
tivesse vontade própria. Foi assustador.
Havia uma coisa em mim como um
tentáculo a estrangular-me e ao mesmo tempo acariciando-me, como um deboche.
Era uma coisa sublime e por outro lado, má. Não queria me envolver com aquilo,
mas também não tinha forças para reagir. Assistir foi uma solução simples e
adequada até que pudesse entender a situação.
Vi meu corpo gemendo como se aquilo
em mim me ferisse mortalmente e por segundos quase me assisti como que perto da
morte. Eu não sei como seria morrer, mas se morrer trás alivio ou felicidade
para algo que não compreendemos acho que aquilo seria igual. Mas não havia a
tal luz no fim do túnel.
Foi nesse momento que a boca dele se
acoplou a minha e sua língua mergulhou na minha garganta como se pudesse tocar
a outra ponta do tentáculo que me sufocava por baixo.
No meu intimo, o sentimento que pude
observar, a impressão que ainda sinto nesse momento de lembrança é tal qual
aquele de quem observa uma obra de arte. Tenho ainda o engasgo da surpresa, o
impacto e um assombro como diante de algo incompreensível, inclassificável no
arquivo das emoções.
Depois de tudo concluído ele saiu de
cima de mim deixando-me perceber que ainda sentia sobre o meu o peso de seu
corpo. Antes disso meu corpo tomou-se de um arrepio longo, profundo e como um
soluço me fez implodir sugando pela boca quase todo o ar que havia entre nós.
Pude sentir o suor dele pingando em meu ventre e escorrendo por entre minhas
coxas um líquido como álcool que alivia e refresca. Pelo espelho que havia no
teto pude ver-me deitada sentindo uma estranha alegria e euforia que só a
bebida me dava. Então percebi que não havia bebido nada, porém me sentia tão
entorpecida como se houvesse tomado uma garrafa do melhor e mais sensacional champagne
do mundo no topo da Torre Eiffel.
Ele saiu da cama ofegante e
cambaleando, apertando o tentáculo como um cego que segura a bengala procurando o caminho mais seguro.
Depois o nítido som da água do chuveiro me despertando do torpor que me invadiu
depois que gozamos. E naquele instante-pesadelo a única coisa que passou em
minha cabeça foi fugir daquele homem, daquele lugar e de mim mesma. Como se
fosse possível deixar aquele momento aprisionado naquele quarto.
Juntei minhas roupas e sai nua pelos
corredores, me vestindo as pressas, me calcando na portaria, entrando no
primeiro taxi que passa, sem dar chance de que o funcionário do motel me
alcance.
Ainda sinto a sensação de estar
desmontando um quebra-cabeça muito fácil de armar, como se aquilo não fosse a
minha vida mas um destino, um caminho a ser feito.
Aquele homem não existia. Não
existia como todos os outros que já tive, que não me lembrava de ter. O que
existia era o álcool e urgentemente eu precisava de um gole, de uma garrafa
inteira.