Conheci Pipoca numa daquelas salas de bate-papo pela Internet. Ela entrou e ficou acompanhando minha conversa com a Paula CD.
Paula Cachorra Doida era uma mulher depravada mas engraçada, tinha pouco mais de quarenta anos embora aparentasse bem menos. Naquele dia em que conversávamos, por incrível que pareça, não falávamos baixarias sexuais ou outra banalidade e sim sobre aquele atentado com os aviões em setembro, e foi isso que chamou a atenção dela.
Eu e Paulinha já tínhamos nos encontrado e depois que nosso caso terminou – era só sexo sem compromisso – ficamos amigas e não tinha nenhum sentido ficar ali falando de sexo. Pipoca entrou na conversa fazendo umas perguntas sobre a guerra fria, matéria que estava estudando na escola. Paula CD entupiu a guria com uma serie de perguntas de duplo sentido e ficou doida quando Pipoca disse a idade. Começou a cantar a garota daquela forma depravada, mas absolutamente sincera e a primeira pergunta foi direta: você já transou com uma menina? E nem esperou a garota responder pra emendar: na sua idade eu já não tinha mais as pregas.
Pipoca respondia por monossílabos, coisa típica de adolescente, porém, sabe como é essa coisa de Internet, você realmente não sabe quem de fato esta do outro lado. A garota parecia ignorar as investidas da Paula e tentava manter o assunto dentro do contexto histórico. Era de fato uma coisa estúpida entrar numa sala de bate-papo de lésbicas para estudar historia. Paula acabou desistindo, vendo que ela não cederia aos seus apelos eróticos, ou melhor, pornográficos da mais baixa classificação e foi conversar com a “vagabunda que topa tudo”, que parecia fazer seu estilo. Resolvi então testar se Pipoca era uma adolescente ou alguém que gosta de sacanear. Chamei-a no reservado:
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Vc não entrou aqui só para
estudar historia né?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Curiosidade também.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Curiosidade do que?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Tenho sentido uma coisa
diferente comigo.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Diferente como, em que sentido?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Tenho sentido vontade de
beijar uma garota da minha sala.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Só beijar? Quando isso começou a
acontecer?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Não sei ao certo. Uma vez na
aula de matemática me passaram escondido uma revista de sacanagem e vi duas
mulheres se beijando. Fiquei arrepiada mas não passou disso. As mulheres eram
lindas e admirei os corpos delas.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Vc já se masturbou pensando
nelas?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Sim.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: E como foi?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Foi diferente, estranho.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Não te deu prazer?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Deu... acho que deu. Sei que
quando fechava os olhos e lembrava delas se beijando eu ficava molhada.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Vc gosta de rapazes, já beijou
algum?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Mais ou menos, eles as vezes
são um saco... beijei dois.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Gostou?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Mais ou menos. Eles estavam mais
preocupados em encostar aquela coisa dura em mim do que beijar.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Homens são assim mesmo, só sentem
pelo pau. Depois disso ninguém mais?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Teve mais um mas prefiro nem
lembrar.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Foi tão ruim assim?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Ele era mais velho e quase me
agarrou.
De repente Paula entra no reservado e me dá um tremendo esporro porque estou conversando com a garota e quer saber o que esta rolando. Marco com Pipoca mais tarde, num horário que sei que Paula não esta online e volto a conversar com Paulinha mentindo que a menina só queria mesmo saber sobre historia.
Com o passar do tempo eu e Pipoca passamos a trocar e-mails e acabou que a coisa cresceu. Fiquei viciada em teclar com ela, depois descobri mesmo que estava apaixonada. Dei meu telefone e durante um mês nos falamos durante horas. Ouvir aquela voz adolescente me deixava alucinada! Era parecia meiga, dengosa, eu a imaginava um bichinho de pelúcia, fofinho e doido para ser apertado. Ela passou a me ligar com freqüência, porém quando a conta do telefone celular dela veio a mãe proibiu os bate-papos intermináveis (ela falava que era uma amiga que estudou com ela e que havia se mudado para longe). Combinamos então que quando pudesse falar ela daria um toque para o meu celular e eu ligaria de volta.
Meu deus, eu me sentia uma adolescente apaixonada pelo príncipe encantado (nesse caso a princesa), e me masturbava muitas vezes (principalmente quando falava com ela) e continuava insaciável no meu prazer. Queria tê-la em meus braços, beijar seu corpo juvenil, sentir nela o cheiro que já tive. Não via a hora de encontrá-la mas deixei que ela tomasse essa decisão quando se sentisse segura, entretanto, isso já estava demorando demais.
Na maioria das vezes falávamos sobre como era o relacionamento com os homens (fui casada duas vezes antes de me entender e assumir), de como era ser possuída e sentir o pau deles dentro da gente, entre outras coisas. Ela demonstrava uma curiosidade enorme, além de muito medo de ter que dar para um garoto. Levou muito tempo para que ela própria sentisse o tesão que eu sentia quando falávamos sobre mulheres. Certo dia, não pude me segurar muito e descrevi como seria um provável encontro entre nós. Não imaginei que enquanto falava ela estaria fazendo nela o que eu dizia. Já estava quase gozando quando ouvi seus gemidos (os primeiros que me dava nesse tempo todo) e um tímido e sussurrado “te amo”. Aquilo foi tão intenso em mim que chorei compulsivamente.
A noite, quando fui dormir, fiquei me tocando e pensando naquela voz a repetir o eu te amo em meus ouvidos e naquilo que senti. Então aquelas palavras começaram a pesar de uma forma estranha e percebi que estava desejando uma coisa absurda e impossível. Pipoca tinha a idade da minha segunda filha! Não, não, não! Que diabo de mulher era eu que deixei isso acontecer? Que fantasia doida criei? Que mal estou fazendo a essa garota? Os dedos em minha vagina pararam de me dar prazer, embora ainda sentisse o calor e pulsação dela. Senti um aperto no peito e meus olhos se encheram de lágrimas. Sentei-me na cama e olhei-me naquele escuro.
- Meu deus, o que estou fazendo? O que aconteceu comigo para não perceber onde estava indo? Pipoca é só uma adolescente confusa com sua sexualidade, não é uma lésbica safada como eu! Que coisa nojenta estou fazendo a essa menina em troca de um prazer que não poderá ir além disso que já existe. Ou será que estou achando que tudo isso vai ser normal para a família dela? Imagina sua estúpida, ela falando que é lésbica e quer ficar com uma mulher que deve ter a idade da própria mãe! Há ainda as implicações legais, e pior, como explicar isso as minhas filhas?
No dia seguinte acordei péssima, quase não dormi. Minhas filhas não perceberam as olheiras ou a tristeza em meu rosto, melhor assim porque seria difícil falar alguma coisa, detestava mentir, principalmente para elas. A mais velha sabia da minha opção sexual e sentia-se constrangida, porém ainda dependia financeiramente de mim e via-se obrigada a aceitar minhas escolhas. Concordamos que a mais nova ainda não precisava saber disso mas ela parecia ter a cabeça mais aberta para aceitar minha preferência sexual do que a mais velha.
Sei que precisava tomar uma decisão drástica em relação a Pipoca, mas faltava coragem e vontade. Eu já a amava e tremia só de pensar em ter que me afastar dela. Pensei em ligar para Paula e me abrir, porém, com certeza levaria o maior esporro e no momento não era isso que precisava ouvir.
Ao abrir meus e-mail naquela manhã qual não foi minha surpresa ao ver um recado de Pipoca marcando um encontro naquele dia numa lanchonete perto do colégio! Ela teria os dois últimos tempos vagos e estava decidida a me conhecer e ficar comigo. Ao mesmo tempo em que senti a enorme felicidade ao ler aquilo senti logo depois como se um elefante estivesse sentado sobre a minha cabeça. Debrucei-me sobre o teclado e chorei durante muito tempo. Mas isso pouco adiantaria. Eu precisava tomar uma decisão.
Cheguei a lanchonete com uns quarenta minutos de antecedência do horário em que ela chegaria. Imaginei Pipoca em sala de aula doida para que o professor calasse a boca e o sinal tocasse para que ela viesse correndo me encontrar. Imaginei nós duas nos olhando e ela tendo a certeza de que eu era a senhora Y, a mulher que ela amava. Também imaginei-a entrando e da porta olhando as mesas procurando por uma mulher de jeans e camiseta branca (foi assim que ela me pediu para ir vestida) sentada tomando um suco.
Quando o movimento de estudantes pareceu aumentar na rua calculei que ela chegaria em breve. Meu coração batia descompassado e quando finalmente Pipoca apareceu na porta segurando nos braços três palhacinhos (não sei porque achava que ela era como no quadro Natália Com Palhacinhos da Marysia Portinari que tinha em casa, por isso pedi que fosse assim) gelei de emoção! Pipoca era linda e graciosa, como havia imaginado. Mesmo com as pernas tremendo levantei e caminhei até o garçom indicando a quem ele deveria entregar o envelope.
Esperei que ele fosse até ela e sai como qualquer cliente comum sairia. Não quis olhar para traz mas quando entrei no carro não pude me segurar e chorei enquanto manobrava para sair.
Comprei outro celular e durante muitos meses fiquei sem ler meus e-mail ou entrar em salas de bate-bapo. Paula ligou estranhando meu sumiço e fui a sua casa para explicar tudo. Contei-lhe porque precisa falar daquela insanidade para alguém, mesmo que fosse para ouvir a maior das broncas, eu merecia. Entretanto, Paula foi carinhosa e solidária.
- Ninguém pode mandar no coração – disse ela de um modo sério como nunca tinha falado antes – mas se pararmos e pensarmos bem no que estamos fazendo, como você fez, podemos evitar muito sofrimento futuro. Não é só nossa vida, tem muito mais coisas envolvidas. Admiro sua coragem amiga.
Deitei minha cabeça em suas pernas e ela se curvou sobre mim, me abraçando. Ficamos assim sem falar mais nada.
Quase um ano depois de tudo, ainda pensava um pouco em Pipoca. E nas minhas recaídas ia até a lanchonete do nosso quase primeiro e único encontro e ficava olhando o movimento dos jovens para ter a certeza de que jamais me envolveria com outra adolescente. Afinal, não era uma doente que precisava desse tipo de relacionamento. É claro que também não descartava a possibilidade de vê-la entrar como naquele dia, a luminosidade do sol emoldurando sua silueta como no quadro (que acabei vendendo) e me reconhecesse, pois dentro do envelope com a carta de despedida estava uma foto onde eu aparecia abraçada as minhas filhas.
Para minha sorte ela nunca apareceu.
(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)