terça-feira, 31 de julho de 2012

PIPOCA E A SENHORA Y








        Conheci Pipoca numa daquelas salas de bate-papo pela Internet. Ela entrou e ficou acompanhando minha conversa com a Paula CD.
          Paula Cachorra Doida era uma mulher depravada mas engraçada, tinha pouco mais de quarenta anos embora aparentasse bem menos. Naquele dia em que conversávamos, por incrível que pareça, não falávamos baixarias sexuais ou outra banalidade e sim sobre aquele atentado com os aviões em setembro, e foi isso que chamou a atenção dela.
       Eu e Paulinha já tínhamos nos encontrado e depois que nosso caso terminou – era só sexo sem compromisso – ficamos amigas e não tinha nenhum sentido ficar ali falando de sexo. Pipoca entrou na conversa fazendo umas perguntas sobre a guerra fria, matéria que estava estudando na escola. Paula CD entupiu a guria com uma serie de perguntas de duplo sentido e ficou doida quando Pipoca disse a idade. Começou a cantar a garota daquela forma depravada, mas absolutamente sincera e a primeira pergunta foi direta: você já transou com uma menina? E nem esperou a garota responder pra emendar: na sua idade eu já não tinha mais as pregas.
        Pipoca respondia por monossílabos, coisa típica de adolescente, porém, sabe como é essa coisa de Internet, você realmente não sabe quem de fato esta do outro lado. A garota parecia ignorar as investidas da Paula e tentava manter o assunto dentro do contexto histórico. Era de fato uma coisa estúpida entrar numa sala de bate-papo de lésbicas para estudar historia. Paula acabou desistindo, vendo que ela não cederia aos seus apelos eróticos, ou melhor, pornográficos da mais baixa classificação e foi conversar com a “vagabunda que topa tudo”, que parecia fazer seu estilo. Resolvi então testar se Pipoca era uma adolescente ou alguém que gosta de sacanear. Chamei-a no reservado:


SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Vc não entrou aqui só para estudar historia né?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Curiosidade também.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Curiosidade do que?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Tenho sentido uma coisa diferente comigo.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Diferente como, em que sentido?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Tenho sentido vontade de beijar uma garota da minha sala.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Só beijar? Quando isso começou a acontecer?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Não sei ao certo. Uma vez na aula de matemática me passaram escondido uma revista de sacanagem e vi duas mulheres se beijando. Fiquei arrepiada mas não passou disso. As mulheres eram lindas e admirei os corpos delas.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Vc já se masturbou pensando nelas?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Sim.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: E como foi?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Foi diferente, estranho.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Não te deu prazer?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Deu... acho que deu. Sei que quando fechava os olhos e lembrava delas se beijando eu ficava molhada.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Vc gosta de rapazes, já beijou algum?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Mais ou menos, eles as vezes são um saco... beijei dois.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Gostou?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Mais ou menos. Eles estavam mais preocupados em encostar aquela coisa dura em mim do que beijar.   
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Homens são assim mesmo, só sentem pelo pau. Depois disso ninguém mais?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Teve mais um mas prefiro nem lembrar.
SENHORA Y (reservadamente) fala para PIPOCA: Foi tão ruim assim?
PIPOCA (reservadamente) fala para SENHORA Y: Ele era mais velho e quase me agarrou.

              De repente Paula entra no reservado e me dá um tremendo esporro porque estou conversando com a garota e quer saber o que esta rolando. Marco com Pipoca mais tarde, num horário que sei que Paula não esta online e volto a conversar com Paulinha mentindo que a menina só queria mesmo saber sobre historia. 
              Com o passar do tempo eu e Pipoca passamos a trocar e-mails e acabou que a coisa cresceu. Fiquei viciada em teclar com ela, depois descobri mesmo que estava apaixonada. Dei meu telefone e durante um mês nos falamos durante horas. Ouvir aquela voz adolescente me deixava alucinada! Era parecia meiga, dengosa, eu a imaginava um bichinho de pelúcia, fofinho e doido para ser apertado. Ela passou a me ligar com freqüência, porém quando a conta do telefone celular dela veio a mãe proibiu os bate-papos intermináveis (ela falava que era uma amiga que estudou com ela e que havia se mudado para longe). Combinamos então que quando pudesse falar ela daria um toque para o meu celular e eu ligaria de volta. 

             Meu deus, eu me sentia uma adolescente apaixonada pelo príncipe encantado (nesse caso a princesa), e me masturbava muitas vezes (principalmente quando falava com ela) e continuava insaciável no meu prazer. Queria tê-la em meus braços, beijar seu corpo juvenil, sentir nela o cheiro que já tive. Não via a hora de encontrá-la mas deixei que ela tomasse essa decisão quando se sentisse segura, entretanto, isso já estava demorando demais. 
              Na maioria das vezes falávamos sobre como era o relacionamento com os homens (fui casada duas vezes antes de me entender e assumir), de como era ser possuída e sentir o pau deles dentro da gente, entre outras coisas. Ela demonstrava uma curiosidade enorme, além de muito medo de ter que dar para um garoto. Levou muito tempo para que ela própria sentisse o tesão que eu sentia quando falávamos sobre mulheres. Certo dia, não pude me segurar muito e descrevi como seria um provável encontro entre nós. Não imaginei que enquanto falava ela estaria fazendo nela o que eu dizia. Já estava quase gozando quando ouvi seus gemidos (os primeiros que me dava nesse tempo todo) e um tímido e sussurrado “te amo”. Aquilo foi tão intenso em mim que chorei compulsivamente. 
             A noite, quando fui dormir, fiquei me tocando e pensando naquela voz a repetir o eu te amo em meus ouvidos e naquilo que senti. Então aquelas palavras começaram a pesar de uma forma estranha e percebi que estava desejando uma coisa absurda e impossível. Pipoca tinha a idade da minha segunda filha! Não, não, não! Que diabo de mulher era eu que deixei isso acontecer? Que fantasia doida criei? Que mal estou fazendo a essa garota? Os dedos em minha vagina pararam de me dar prazer, embora ainda sentisse o calor e pulsação dela. Senti um aperto no peito e meus olhos se encheram de lágrimas. Sentei-me na cama e olhei-me naquele escuro. 
- Meu deus, o que estou fazendo? O que aconteceu comigo para não perceber onde estava indo? Pipoca é só uma adolescente confusa com sua sexualidade, não é uma lésbica safada como eu! Que coisa nojenta estou fazendo a essa menina em troca de um prazer que não poderá ir além disso que já existe. Ou será que estou achando que tudo isso vai ser normal para a família dela? Imagina sua estúpida, ela falando que é lésbica e quer ficar com uma mulher que deve ter a idade da própria mãe! Há ainda as implicações legais, e pior, como explicar isso as minhas filhas? 

         No dia seguinte acordei péssima, quase não dormi. Minhas filhas não perceberam as olheiras ou a tristeza em meu rosto, melhor assim porque seria difícil falar alguma coisa, detestava mentir, principalmente para elas. A mais velha sabia da minha opção sexual e sentia-se constrangida, porém ainda dependia financeiramente de mim e via-se obrigada a aceitar minhas escolhas. Concordamos que a mais nova ainda não precisava saber disso mas ela parecia ter a cabeça mais aberta para aceitar minha preferência sexual do que a mais velha. 

         Sei que precisava tomar uma decisão drástica em relação a Pipoca, mas faltava coragem e vontade. Eu já a amava e tremia só de pensar em ter que me afastar dela. Pensei em ligar para Paula e me abrir, porém, com certeza levaria o maior esporro e no momento não era isso que precisava ouvir. 

       Ao abrir meus e-mail naquela manhã qual não foi minha surpresa ao ver um recado de Pipoca marcando um encontro naquele dia numa lanchonete perto do colégio! Ela teria os dois últimos tempos vagos e estava decidida a me conhecer e ficar comigo. Ao mesmo tempo em que senti a enorme felicidade ao ler aquilo senti logo depois como se um elefante estivesse sentado sobre a minha cabeça. Debrucei-me sobre o teclado e chorei durante muito tempo. Mas isso pouco adiantaria. Eu precisava tomar uma decisão. 


         Cheguei a lanchonete com uns quarenta minutos de antecedência do horário em que ela chegaria. Imaginei Pipoca em sala de aula doida para que o professor calasse a boca e o sinal tocasse para que ela viesse correndo me encontrar. Imaginei nós duas nos olhando e ela tendo a certeza de que eu era a senhora Y, a mulher que ela amava. Também imaginei-a entrando e da porta olhando as mesas procurando por uma mulher de jeans e camiseta branca (foi assim que ela me pediu para ir vestida) sentada tomando um suco. 

        Quando o movimento de estudantes pareceu aumentar na rua calculei que ela chegaria em breve. Meu coração batia descompassado e quando finalmente Pipoca apareceu na porta segurando nos braços três palhacinhos (não sei porque achava que ela era como no quadro Natália Com Palhacinhos da Marysia Portinari que tinha em casa, por isso pedi que fosse assim) gelei de emoção! Pipoca era linda e graciosa, como havia imaginado. Mesmo com as pernas tremendo levantei e caminhei até o garçom indicando a quem ele deveria entregar o envelope. 

        Esperei que ele fosse até ela e sai como qualquer cliente comum sairia. Não quis olhar para traz mas quando entrei no carro não pude me segurar e chorei enquanto manobrava para sair. 

        Comprei outro celular e durante muitos meses fiquei sem ler meus e-mail ou entrar em salas de bate-bapo. Paula ligou estranhando meu sumiço e fui a sua casa para explicar tudo. Contei-lhe porque precisa falar daquela insanidade para alguém, mesmo que fosse para ouvir a maior das broncas, eu merecia. Entretanto, Paula foi carinhosa e solidária. 
- Ninguém pode mandar no coração – disse ela de um modo sério como nunca tinha falado antes – mas se pararmos e pensarmos bem no que estamos fazendo, como você fez, podemos evitar muito sofrimento futuro. Não é só nossa vida, tem muito mais coisas envolvidas. Admiro sua coragem amiga. 
          Deitei minha cabeça em suas pernas e ela se curvou sobre mim, me abraçando. Ficamos assim sem falar mais nada. 

         Quase um ano depois de tudo, ainda pensava um pouco em Pipoca. E nas minhas recaídas ia até a lanchonete do nosso quase primeiro e único encontro e ficava olhando o movimento dos jovens para ter a certeza de que jamais me envolveria com outra adolescente. Afinal, não era uma doente que precisava desse tipo de relacionamento. É claro que também não descartava a possibilidade de vê-la entrar como naquele dia, a luminosidade do sol emoldurando sua silueta como no quadro (que acabei vendendo) e me reconhecesse, pois dentro do envelope com a carta de despedida estava uma foto onde eu aparecia abraçada as minhas filhas. 

         Para minha sorte ela nunca apareceu.




(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

HOMO ERECTUS



HOMO ERECTUS



  O zelador, sem o olhar, avisou que o elevador estava parado e continuou a varrer o chão sem pressa. Cacau ficou um tempo parado olhando para o homem e depois caminhou em direção a escada. “catorze andares”. Suspirou. “Vou subir devagar”. Olhou o corrimão desgastado e começou a subir. Sempre que subia por aquelas escadas sentia-se como se levasse uma cruz ás costas.
  Subia as escadas com a sensação de quem ia ao encontro do desconhecido.  A vida era mais ou menos assim. Desde o inicio sabia que ser feliz seria como pular de um abismo esperando encontrar lá em baixo um colchão para amortecer a queda. Não devia sentir medo, mas também não tinha como apreciar a queda e sorrir vendo a paisagem.
  Sempre soube, mesmo quando era criança, que aquilo o transformaria em algo que não saberia explicar para os outros. Depois, quando ficou adolescente, foi motivo de risinhos, de piadas, dos cochichos maldosos que o condenavam por ser o que nem ele próprio sabia o que de fato era.
  Escondeu o quanto pode da família (ou de si mesmo) mas sabendo que seria algo inútil levar aquilo adiante. Disfarçava comentando o futebol de domingo com seu pai (mas adorava mesmo era falar dos galãs de novela com a mãe, que no fundo o entendia e o aceitava como era).
 Sofreu por amor, diversas vezes. Amou desesperadamente meninos que amavam meninas e faziam questão de comentar com ele – alguns com a satisfação de saber que aquilo o machucava – de como era gostoso ter tesão por elas.
 Mesmo que hoje se sentisse feliz em ter podido  assumir-se (ou manter a ilusão de que era feliz por isso) ainda sofria, pois a infância e adolescência fora perdida em longas noites abraçado ao travesseiro, chorando por se sentir diferente, incompreendido, querendo descobrir porque aquilo acontecia com ele.
 Não importava se hoje pertencia a um grupo e isso lhe trazia algum conforto. Sentia que ainda não era o que queria ser porque a sociedade excluía-o quando dizia que existia somente para aquele grupo e não como pessoa, como ser humano. Era diferente por causa de uma escolha, por uma opção que não pediu para ter, mas que nasceu com ele. Será que isso era tão difícil de aceitar?
 Outro dia, numa festa discutiu com um rapaz que achava um absurdo que a lei fosse diferente para eles, pois “homem não pode casar com homem, que isso era um absurdo sem propósito, que ia contra a lei natural das coisas”. Mas que coisas são essas? Se a sociedade os acha “diferentes” e faz questão de  lembrar isso a todo instante, que arque então com a responsabilidade de assumir essa diferença, não pela segregação mas com a oportunidade de deixá-los viver normalmente como são e querem. Querer camuflá-los, fazendo-os sumir com um passe de mágica em nada adianta.   
 Terceiro andar. Ouve gemidos abafados e para. Recomeça subir com mais cautela a escada em caracol. Os gemidos vão ficando mais nítidos e logo após a curva se depara com o garoto do quinto andar se masturbando com a playboy da Diana Bouth aberta no degrau encardido e gasto. Fica por um tempo olhando o adolescente e lembra que também já fez isso, mas que as mulheres não o excitavam e por mais que tentasse só conseguia gozar quando pensava num menino da escola, de outra serie, que via no recreio.
 Desceu um lance de escada logo depois que o garoto gozou e voltou a subir, dessa vez assobiando. O moleque tinha desaparecido, mas deixado no chão a pequena poça de esperma. Cacau olhou aquilo com um sorriso triste e agachou-se para olhar mais de perto. Aproximou o rosto e aspirou com vontade o cheiro do sêmen juvenil jogado ao chão.  Os olhos se encheram d’água e a tristeza acumulada ao longo dos meses tentou sair, mas ele se ergueu, limpou os olhos com os indicadores e continuou a subir, bem mais devagar.
 Não entendia o porque daquela magoa.  Ainda mais agora que não precisava se esconder, deveria ser feliz, aproveitar a vida e recuperar o tempo perdido. Tinha um homem que o amava, que o enchia de presentes e não tinha vergonha de sair com ele, de mostrar que estavam juntos. 
 Sexto andar. Pensa em seu homem e no amor que sentem um pelo outro. Nunca imaginou que Diogo, um médico, homem de boa família, pudesse apaixonar-se por alguém como ele, ou que fosse dado a freqüentar saunas em busca de jovens para rápidas diversões.
 Sétimo andar. Foi o destino, só havia esta explicação. Cacau não tinha o habito de freqüentar tais lugares, porém no dia em que se conheceram foi como se soubesse que algo especial estava para acontecer. Não foi a toa que Gigi insistiu para que fosse a sauna com ele. Gigi estava desconfiado que seu homem estava indo lá em busca de outros garotos. Não teve como negar, devia isso ao amigo que sempre o ajudou quando precisava.
 Oitavo andar. Ficaram lá um bom tempo a espreita e Gigi ficou desapontado, mas para compensar transou com uns dois caras. Foi enquanto esperava que Diogo apareceu. Cacau o olhou e deu um suspiro. Diogo era aquele tipo de homem que faz sucesso com qualquer mulher, alto, bronzeado, sempre com a barba bem feita. Aproximou-se de Cacau e sem nenhuma cerimônia abriu a toalha branca mostrando o membro eriçado.
- Te agrada?
 Cacau mordeu os lábios e sentiu os mamilos enrijecerem enquanto seu pau também subia.
- Pelo visto gostou – disse Diogo se aproximando e vendo o volume na toalha de Cacau. 
 Mal entraram na cabine Diogo arrancou-lhe a toalha e pegou-o no colo deitando-o em seguida na maca. Trocaram um demorado beijo de língua enquanto Cacau procurava de olhos fechados achar o pau de Diogo por baixo da toalha. Quando o conseguiu Diogo chupava com carinho os mamilos de Cacau que se revirava de tesão sobre a maca. Respirava com força e gemia baixinho. Só pensava no momento em que Diogo o possuiria. Diogo já beijava os pêlos de Cacau e este masturbava freneticamente o médico. Quando sentiu a boca do homem em seu pau ergueu as costas da maca e com uma das mãos puxou com força os cabelos negros de Diogo.  Com enorme tesão, Diogo enfiava o membro de Cacau todo na boca e subia devagar fazendo pressão, depois descia devagar e subia rápido. Cacau se abraçou a ele e implorou para chupá-lo.
- Primeiro quero que você goze na minha boca – pediu Diogo.
 Cacau deitou-se novamente e tentou ao máximo evitar que isso acontecesse, mas Diogo aumentava os movimentos e foi impossível controlar o gozo. Um espasmo enrijeceu-lhe as coxas e em seguida o sêmen saiu em fortes contrações. Diogo continuou chupando até sentir o pau desinflar em sua boca.  Cacau suava e não queria abrir os olhos.  O corpo ainda tremia e ele sentia uma leve vertigem. Ergueu-se com dificuldade e abraçou-se ao corpo, também suado de Diogo. Ainda trocaram um longo beijo cheio de sêmen e saliva antes que Cacau descesse da maca para retribuir o prazer da mesma forma. Diogo apoiou-se na maca e Cacau foi beijando todo o músculo para depois chupar devagar só a cabeça, saboreando, anestesiado ainda por seu gozo. A mão de Diogo acariciava os cabelos loiros e de vez em quando retinha a cabeça do outro com o membro enfiado na boca até que Cacau apertasse as coxas do homem indicando que precisava respirar.
- Quero você – murmurou Diogo puxando Cacau para cima e curvando-o sobre a maca.
 Diogo abaixou-se e enfiou a língua no anus de Cacau que sentia seu pau subir novamente. Com as mãos abria as nádegas para sentir melhor a língua quente tentando entrar. Diogo levantou-se e encostou a cabeça do pau na abertura molhada e pressionou. Cacau mordeu os lábios com força esperando sentir o membro entrar rasgando-lhe as entranhas. Porém, Diogo foi delicado e introduziu seu pau com suavidade, dando a Cacau a oportunidade de sentir um enorme prazer.
 Décimo quarto andar. Cacau pára no corredor para respirar. Procura a chave na bolsa e caminha rápido para a porta. De fora ouve a música romântica do cd que deu de presente a Diogo quando completaram seis meses juntos.
  Diogo o recebe nu. Cacau olha a mesa posta para o jantar.
- Você é maravilhoso Diogo. Te amo.
 Diogo sorri. Cacau joga a bolsa sobre o sofá e devagar dança ao som da música romântica enquanto tira a roupa lentamente,  provocante. Envolvem-se, os corpos provocando arrepios quando se tocam. O pau de Diogo entre as coxas de Cacau enquanto se beijam com amor. Entre eles um perfume que faz Cacau lembrar-se do cheiro do esperma do garoto que se masturbava na escada.
  Por uma fração de segundos, Cacau se sente invadido por um estranhíssimo sentimento de felicidade. Abre os olhos e vê o mundo que roda a sua volta, a mesa posta para o jantar, o corpo do homem em seu corpo, sente que sua alma diz para ser feliz e mais nada. Será que havia chegado para ele afinal, a hora de sentir que já não precisava mais se arrastar, andar de quatro?  Podia ser afinal, também  um homo erectus.

(Este conto faz parte do livro 'O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

terça-feira, 24 de julho de 2012


UM BRINDE A NOSSA GUERRA!



           “Não atirem! Não atirem! Quero ela viva! Parem de atirar!” Gritava Margo sem perceber o sangue que escorria de seu corpo.

           Os soldados se aproximaram da mulher caída com a arma ainda na mão. Ao seu lado o sangue começava a formar uma poça.
- Depressa, cuidem dela! Estou bem, estou bem! Preciso dela viva, rápido, levem-na para o hospital!
           Os soldados desamarraram Margo e a deitaram no chão. Ela tentava erguer-se para ver o que estavam fazendo com a palestina.
- Depressa, levem-na para o hospital, preciso dela viva! Estou bem!
           Repetia a frase várias vezes de forma alucinada até que uma dor forte tomou conta de seu corpo e depois disso houve só a escuridão e o silêncio.

         Antes que pudesse abrir os olhos sentiu uma agradável sensação de bem estar. Teve a impressão de que flutuava. Ao seu lado estava um homem que lhe sorriu. Estava vestido de branco.
- Tudo bem? Perguntou o homem com uma voz serena. Havia um leve sorriso em seu rosto.
         Margo o olhou por alguns segundos e os fatos voltaram lentamente a sua mente.
- Estou.
          Deu um longo suspiro enquanto ouvia a explicação do rapaz.
- O ferimento não foi profundo. O atirador não tinha boa pontaria e a  bala transfixou o deltóide sem grandes conseqüências.          
- A palestina esta viva?
          O rapaz a olhou e o leve sorriso sumiu de seu rosto. A voz tomou um tom sombrio.
- Por enquanto. Esta em coma.
Fez uma pausa e enquanto observava o gotejar do soro completou:
- A senhora sabe que ela não deveria estar aqui não é?
          Margo lançou-lhe um olhar interrogativo.
- Aqui é um hospital não é?
- A senhora bem sabe que ela é palestina, uma terrorista.
- Certo, então por isso devíamos deixá-la morrer.
- O que quero dizer é que ela deveria ter sido levada para um hospital militar.
- Sim, claro, de certo lá cuidariam muito bem dela. – retrucou com a voz cheia de ironia.
         A conversa foi cortada com a chegada de uma médica. Margo respondeu sem muito interesse as perguntas que lhe foram feitas e logo que o enfermeiro e a medica saíram fechou os olhos e pensou na palestina.
        Por favor, não morra, pensava de olhos fechados lembrando-se dela de pé, com a arma apontada para seu peito. Sentia o coração batendo mais forte, a garganta fechando-se numa ânsia, uma angustia pela falta de mais noticias sobre a palestina. Sabia que logo seria transferida, caso não morresse, para um hospital militar e depois... procurou não pensar mais no que poderia acontecer e sem perceber dormiu.


       Margo recebeu alta dias depois. Procurou o pessoal da agência para tentar manter a palestina no hospital, mas como ela havia saído do coma e tinha o quadro estável, pensavam em transferi-la para o hospital da prisão o mais rápido possível. Seu diretor foi categórico quando afirmou que “isso era assunto do exercito e que não podia fazer nada”. Margo sabia que fora do hospital as chances de manter contato com a palestina seriam mínimas.

        Margo ficou parada diante da janela da sala até que o sol sumiu. Não deixava de pensar na mulher que tentou matá-la com um sentimento estranho dentro de si. Mais do que entender o que se passava em seu intimo, sentia algo pulsando, respirando, crescendo. Fechou os olhos e a imagem da palestina brotou diante do escuro, com o rosto iluminado. Era uma mulher bonita, atraente. Margo mordeu o lábio inferior e procurou com a mão uma brecha na blusa. Imediatamente seu corpo esquentou e ela sentiu seu rosto em brasas. Depois de tanto tempo o mundo voltava a girar ao seu redor e ela sabia bem as conseqüências disso. Queria acreditar que poderia fugir mais uma vez, porém não tinha vontade para esquecer a força desse sentimento ou a  certeza de isso seria a melhor coisa a fazer.  Tocou a cicatriz em seu ombro sentindo o ligeiro desnível causado pela entrada da bala. O amor deixa marcas, no corpo e na alma.
- Ah, como fui covarde abandonando meu amor...
        A voz saiu abafada, contida. Não quis deixar a verdade brotar totalmente e expulsar as sensações e lembranças do que viveu e deixou de viver ao lado de Elizabeth. Aquele desejo se transformara em magoa e isso a machucava muito. Tantos anos e ainda podia sentir as mesmas sensações como se tudo houvesse acontecido a poucos dias atrás. Entretanto, com a palestina era diferente pois ela queria matá-la e deixar fluir o ódio que a consumia, como um amor as avessas, que se nutre das desgraças, das desavenças, do rancor e das magoas. A palestina não escondia seus sentimentos e amava vivê-los abertamente.
         Margo apertou a cicatriz com se quisesse abrir novamente a ferida e puxar com as próprias mãos a carne e o sangue de dentro de si e mostrá-lo a palestina como um troféu ou um filho. Sim, podia comparar o que sentia como um parto. O sofrimento, a dor e depois a alegria, uma felicidade espantosa por saber que algo saiu de dentro de si, que era responsável por alguém. Não decidiu que podia amar aquela mulher por mera vaidade, porém, pela necessidade que sentiu de voltar a viver o amor e todas as suas conseqüências, ainda que elas pudessem parecer incoerentes ou mesmo estúpidas aos olhos do mundo. Precisava voltar a ser e sentir-se uma cadela judia.


          Os três encontros que teve com Mahmoud foram tensos, mas precisava confiar nele, afinal era ela quem estava arriscando a própria pele para salvar uma garota palestina das mãos dos militares.
        Mahmoud não demonstrou a menor simpatia por Margo assim como Khaled, o homem que servia de contato entre ela e o grupo a que a palestina pertencia. O menor deslize e com certeza a matariam.
         Mahmoud, embora desconfiasse da historia contada por Margo, não tinha elementos suficientes para verificar se havia de fato uma ligação entre a mãe dela e da palestina. Contudo, era um homem de palavra e se tudo desse certo, como planejaram, Margo não teria nenhum problema.    
           O  quarto, e último encontro, não foi diferente dos anteriores, muita tensão e nervosismo de ambas as partes. No dia seguinte seria posto em pratica o plano se resgate da palestina, durante a transferência do hospital para a prisão.
- Então, estamos acertados não é? – Perguntou Margo a Mahmoud.
           O homem a olhou do mesmo modo que a olhava sempre, um brilho frio no olhar, as sobrancelhas  quase que como duas setas sobre os olhos.
- Se não houver reação da parte deles a ação será limpa. É tudo que posso dizer.
             Margo sabia disso e reafirmou sua proposta.
- A ação precisa ser limpa ou todo o plano fracassa. Havendo mortes as forças de segurança não sossegarão até achá-los. Não me importo em cair, afinal estou me arriscando para que pessoas como ela possam lutar de outro modo pelo direito de viver em paz. Algum dia tudo isso precisa acabar. Chega de mortes inúteis, desse ódio sem propósito. Alguém precisa parar e pensar que isso não esta levando a nada.
            Margo fez uma pausa para que o homem refletisse sobre o que dizia, depois continuou, olhando bem para ele.
- Estou viva e preciso, de alguma forma, trabalhar para que outras pessoas não passem pelo que passei, que as próximas gerações valorizem a vida. De todos.
        Mahmoud nada disse, manteve a mesma expressão, mas por um momento pareceu que uma de suas sobrancelhas curvou-se ligeiramente para cima. Margo interpretou aquilo como um bom sinal.


           Naquela manhã quando acordou, Margo quase não teve animo para sair da cama. O frio havia diminuído embora a noite tivesse caído muita neve. Pensou na palestina que dormia no quarto ao lado. Exatamente naquele dia se completava um ano desde que empreendera a alucinada fuga com ela e continuavam naquele jogo de gato e rato. Começava a perder as esperanças de conquistá-la.  Sharihan Hadwh tinha, de fato, armado entre elas uma muralha, considerando Margo uma inimiga, achando que tudo não passava de uma encenação dela para obter informações sobre sua atividade terrorista.
            Margo recapitulou tudo que fez nos últimos meses e concluiu que não havia nada que justificasse sua dedicação a Sharihan. Estavam na França, morando em Paris e deveriam ser felizes,  esquecendo o passado, o resto do mundo.  
           Novamente se via obrigada a abandonar a mulher que amava, porém desta vez não por uma traição mas por razões políticas. O amor tinha nacionalidade.  Sentou-se na cama e olhou a paisagem por uma brecha da cortina. Tudo ainda estava cinza.
          “Como minha vida”, pensou. Um ano estava se passando e ela nada fez de útil, vivendo apenas para tentar conquistar uma mulher que a ignorava, que não reconhecia ao menos que arriscara a própria vida para ajudá-la. Sharihan já conseguia andar de muletas e a cada dia seu progresso era visível. A palestina tinha a certeza inabalável de que voltaria a andar, que não ficaria presa a uma cadeira de rodas e essa força de vontade fazia com que Margo a imaginasse correndo em sua direção, pulando sobre ela e as duas rodopiando como crianças. Depois, um longo beijo, os corpos colados enquanto rolam pelo chão.
          “Não posso passar por isso novamente e voltar a achar que posso levar uma vida normal”, murmurou. “Acostumei-me com a adrenalina das missões, a preencher a minha vida com coisas que não precisava. Sharihan vai embora um dia, isto se não der cabo de mim antes e o que vou fazer? Chorar, implorar para que não vá, que não me mate? Sou apenas sua inimiga, jamais deixarei de ser”.
         Lentamente sai da cama e caminha em direção a porta. O trajeto é curto e ela vai se lembrando de pedaços dos meses que tentou conquistar a palestina.  Primeiro, mostrando que Sharihan agora era uma mulher livre. Mas ela respondia que só poderia ser livre se seu país fosse livre. Depois, argumentou sobre as possibilidades que poderia ter para lutar por seus ideais de forma política, não necessariamente pela força, entretanto Sharihan afirmou que nunca haveria dialogo com um governo que prima pela força, que lhe tira todo direito que tem como ser humano. Por fim tentou demonstrar que fizera o que fizera porque não acreditava naquela estúpida guerra entre elas. No entanto, foi inútil. Sharihan disse-lhe com total frieza que Margo sempre seria como um soldado, agindo sobre ordens.
          Mas não era como um soldado que Margo a colocava ou retirava da cama para a cadeira de rodas e a levá-la a  fisioterapia, mesmo sentindo que o corpo da palestina se contraía ao ser tocado pelas mãos de Margo demonstrando total aversão aquela ajuda. E Margo alimentava seu amor apenas por aqueles breves momentos em que podia sentir o aroma de seus cabelos, o calor de seu corpo. Estar mais próxima de Sharihan fisicamente era, ao menos, um consolo. Seu coração batia mais forte nesse instante fazendo-a lembrar-se do momento em que esteve também próxima da morte. Nesses instantes sentia uma necessidade de amar e ser amada como nunca havia sentido.
            A mão gira a maçaneta fria aumentando a desagradável sensação de impotência, de abandono, de perda. Caminha, curvada, pelo  corredor  parcialmente escuro tocando-lhe a parede de madeira com a derrota pesando-lhe nos ombros. Ouve o crepitar da lenha que ainda queima na lareira e pensa em sentar-se em frente a ela e olhar o fogo, as chamas que brincam de destruir a madeira. Como a relação entre elas. Só restarão as cinzas, os despojos da guerra.  “Quando ela acordar”, pensa, “direi que vou embora, que se quiser voltar a sua terra e continuar sua estúpida luta poderá ir, tanto faz porque não vou ligar a mínima se vai viver ou morrer. O problema será dela. Ofereci-lhe a paz, o dialogo, mas ela prefere a guerra. Pois assim seja.”
          Ao entrar na sala depara-se com Sharihan de pé, sem as muletas, nua e segurando duas taças de champagne. A palestina não pode deixar de sorrir ao ver no rosto de Margo a surpresa por aquela visão.
- Completamos hoje um ano que fugimos, que você se arriscou para me mostrar que mundos diferentes podem existir e viver em paz.
         Sharihan aproxima-se devagar, as sombras do fogo desenhando figuras em seu corpo e entrega a taça que Margo pega com a mão tremula. O coração de Margo cresce de desejo vendo os seios jovens de Sharihan avassaladoramente excitados.
          A palestina se eleva na ponta dos pés e beija delicadamente os lábios de Margo que fecha os olhos para sentir os lábios quentes num beijo que tanto sonhara. Depois, Sharihan se afasta e cruzando seu braço com o de Margo, como fazem os noivos, propõem:
- Um brinde a nossa guerra por amor, que ela nunca termine.


(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares e é continuação do conto Mudança Radical.


quarta-feira, 18 de julho de 2012



IMÃ

         Sempre gostei de homens. Do cheiro, dos pelos, do modo desajeitado  como nos pegam. Mesmo sendo insensíveis e machistas sempre fui dependente do pênis. Minha vida sexual com Luiz nunca foi monótona porque desde o inicio do nosso relacionamento me apaixonei por aquela pica e o modo como ele me comia. Luiz era diferente de todos com quem fui para a cama. Era um cara que falava sobre o porque da vida, sobre a natureza das relações entre as pessoas e não necessariamente sobre o amor. Uma vez gastou um tempo enorme falando sobre ódio, guerras e morte. Depois trepamos alucinadamente e no dia seguinte para levantar e ir trabalhar foi uma barra.  O que existia entre nós era um amor estranho, nada convencional e como não morávamos juntos ficávamos dias sem nos falar ou ver e nem por isso tínhamos necessidade de estar com outra pessoa. Não havia necessariamente amor de nossa parte, mas uma atração magnética, algo carnal, necessário, como ele mesmo classificou certa vez, a única na verdade, que tentamos entender o que sentíamos ou éramos um para o outro.
        Conheci Luiz numa festa onde praticamente éramos os únicos caretas e ainda por cima e por coincidência tomávamos cuba libre. Tudo começou assim, ele veio sem a menor cerimônia e começou a falar sobre Cuba, Fidel,  a Revolução e culminou com uma longa explanação sobre Che Guevara. Mesmo com minhas respostas monossilábicas e balançar de cabeça, ora positiva ora negativamente ficou ali falando por quase umas duas horas. Depois me perguntou se eu estava a fim de dormir na casa dele. Fomos de moto e ele me obrigou a usar o capacete.
        Fiquei quase uma semana morando lá. Depois do trabalho ia me encontrar com ele em qualquer lugar e saímos sem saber bem para onde ir. Não sabíamos nada um do outro, nunca perguntamos sobre o passado, sobre o presente e muito menos sobre o futuro. A relação acontecia, andava, crescia. O sexo era fantástico porque não estava baseado naquelas questões de amor, ciúme, posse e propriedade. Naquela primeira noite e nos outros encontros o que mais me marcou foi ele não ter deixado eu chupar seu pau.  Pediu que só olhasse e compreendesse o que era seu pênis. Era um pau normal. Achei estranho porque afirmou categoricamente que ele não era seu pênis e vice-versa e que havia respeito e compreensão entre eles. Isso despertou em mim uma vontade de ter aquele pau em minha boca de uma forma que nunca havia sentido e  me fez ver que aquele pênis tinha uma vida própria. Ah! Como ficava imaginando estar com ele em minha boca, engolindo, soltando, mordendo, lambendo, sentindo seu cheiro, seu gosto, sua testura, sua grossura.        
        Essa questão do pau sempre existiu em mim. Freud podia ter razão quanto as questões que envolviam o pênis enquanto objeto não só de um poder fálico-mitologico capaz de dominar e impulsionar o homem a conquistas, mas eu o percebia como um instrumento de descoberta interior se o dono o soubesse explorar como Luiz o explorava.  Nosso gozo era repleto de questões existenciais que explodiam como pipocas na panela. Havia um porque de existirmos para compreender o que vinha depois do gozo. Era absurdamente incrível falar sobre o que sentíamos ou percebíamos depois disso. Não sobre sexo ou prazer, mas de tudo que já tínhamos vivido até ali, isso incluía de lembranças da infância até o palavrão falado em qualquer momento. É claro que fora do sexo nossas conversas eram para lá de complexas, porém sem nenhum conteúdo filosófico. Dificilmente citávamos pensadores ilustres, grandes escritores ou qualquer pessoa notável. Nossos exemplos englobavam pessoas próximas como amigos, que eram poucos, ou porteiros, atendentes de lanchonetes, vendedores de lojas, lixeiros, enfim, pessoas comuns, como nós. Desse modo ficávamos impedidos de teorizar a vida ou compor arranjos  para justificar se tínhamos razão ou não. Entendíamos que  pensamento e sentimento estavam associados de tal forma que um movimentava o outro a todo momento. Também sabíamos que isso era um jogo perigoso porque cada pensamento despertava um sentimento e que por trás desse sentimento poderia estar escondido um complexo ou algo parecido. Mas não tínhamos a preocupação de nos controlar ou esconder o que pensávamos, apenas procurávamos ignorar que aquilo estivesse alimentando nossa relação.
        Vivemos por muito tempo dessa forma e não nos demos conta disso até que um dia aconteceu uma coisa comigo. Foi uma coisa tão sem importância que demorei a compreender o que se passava.
        Tinha decidido que naquela semana não trabalharia, mesmo porque Luiz teve que viajar para ficar com a mãe que estava a beira da morte, e eu queria me sentir só, cumprindo uma rotina, que na verdade sabia já existir até mesmo dentro da nossa relação. E era tão horrível dizer “nossa relação” que isso me  incomodava porque parecia uma coisa gasta, bolorenta e fedida.
        Mais ou menos no meio da semana acordei cedo e fiquei parada olhando pela janela o dia que nascia. “Meu deus”, pensei, “todo dia isso acontece e repetimos sempre esse ritual sem perceber o que realmente fazem conosco.” Estava sem roupa e o vento fresco me tocava como uma mão aveludada, mas tinha a sensação de que eram unhas entrando em mim. No prédio em frente um senhor apareceu na janela e depois de percorrer com a cabeça as duas extremidades da rua olhou em minha direção como se só existíssemos nós dois no mundo naquele momento. Continuei parada olhando-o e depois de algum tempo ele entrou. Parecia ter me ignorado. Olhei meu corpo nu e toquei meu ventre. Havia um vazio, uma ausência. Meu corpo parecia não estar mais aberto ao meu toque como se esse tempo todo tivesse projetado o meu prazer no corpo de Luiz. Passei a mão na parte interna de minhas coxas e elas estavam frias, insensíveis. Olhei minhas mãos e elas nada me disseram.

        Chequei na praia antes das oito. Fiquei de pé olhando o mar. Estava só de biquíni. Deixei tudo no carro. Sentei próximo ao mar que estava calmo. Por que? Porque  as ondas não tinham força e apenas murmuravam uma coisa que mesmo de olhos fechados eu conseguia ouvir e entender, porém fingia que nada estava sendo dito? E como era possível entender as ondas e não conhecer o que pensava ou sentia naquele dia, naquela semana? Mas ai aconteceu. Senti um toque no ombro e uma voz me chamando. Abri os olhos e ela sorriu. Também sorri, depois, tímida. Me lembrava dela de algum lugar mas não sabia quem era. Ela compreendeu e me lembrou de onde.
- Ah sim – disse eu meio aparvalhada – Claro, estudamos juntas sim!
        Virei-me para cumprimentá-la e foi aí que tudo se deu. Nossos corpos se enlaçaram e ela me apertou com força. Senti sua boca na minha face e a respiração festiva em meu ouvido. Seus seios tocavam os meus e pude perceber um coração batendo em desespero. Podia ser o meu, mas não era. Parcialmente se separou mas manteve seu ventre encostado ao meu e ai eu senti um pulsar, o sobe e desce de sua respiração. Ali havia algo. Provavelmente uma emoção.
        Ela estava quase irreconhecível. Já não era uma adolescente sardenta mas uma mulher extremamente atraente aos olhos masculinos. O corpo ganhara contornos perfeitos e o biquíni branco contrastava com a pele morena.
        Ficamos um bom tempo relembrando fatos daquele passado e em alguns momentos tive vontade de chorar. É claro que rimos muito das bobagens que fizemos e nos entristecemos com o destino que alguns amigos daquele tempo tiveram.
        Disse-lhe que morava perto e se ela não tivesse compromisso poderíamos almoçar juntas, havia ali perto um ótimo restaurante que ela iria adorar. Tínhamos quase o mesmo manequim e caso não se importasse eu lhe emprestaria uma roupa. Como insisti muito ela acabou aceitando.

        Meu apartamento era agradável embora modesto mas ela achou lindo porque ainda morava com a mãe no subúrbio. Não havia casado porque não queria mesmo compromisso serio com ninguém. Mostrei-lhe o banheiro e fui pegar uma toalha. Quando voltei ela estava sentada no vaso urinando e me recebeu sem o menor pudor. Claro, éramos mulheres e não tínhamos pênis para comparar. Depois limpou-se, levantou-se deu a descarga e acabou de retirar a parte de baixo do biquíni. Em seu corpo  a marca do biquíni mais parecia uma tatuagem. Ficou de costas e pediu para que eu soltasse a parte de cima.
        Aproximei-me devagar, o coração aos pulos ainda sem entender o que me fazia olhar aquele corpo de um modo diferente. Não era a primeira vez que via outra mulher nua mas aquele corpo parecia um imã a atrair-me. Sem precisar, mas num gesto sensual, quase apelativo, levantou o cabelo deixando a amostra sua nuca. Com voz tremula tentando disfarçar, perguntei-lhe que perfume estava usando. Ela jogou devagar a cabeça para trás,  encostou-a em meu ombro  olhou-me nos olhos e com um leve sorriso disse:
- Não é perfume, é apenas o cheiro sedutor do meu corpo.

        A noite voltei á praia e fiquei muito tempo tentando ouvir do mar uma resposta para tudo que tinha acontecido. 


(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

terça-feira, 17 de julho de 2012

MUDANÇA RADICAL




            
             Ele já havia se levantado e pego o chapéu que conservou nas mãos, rodando-o devagar como quem calcula algo. Parecia irredutível, quase que dando por encerrada a negociação. Não seria fácil fazê-lo pagar o preço justo. Apesar de ela ter pressa, não queria  concluir o negocio de qualquer maneira para não ter que se arrepender depois. A passagem  estava comprada, precisava ir embora, já havia tomado a decisão e não pretendia voltar atrás. É verdade que  a idéia de cancelar tudo passou por sua cabeça como um raio mas ela fingiu não ver seu clarão e decidiu que tinha coragem para seguir em frente e continuar com o que precisava ser feito.
                   Tentou não deixar que a vontade de ir embora fosse o motivador para aceitar qualquer preço. Precisava mostrar-se calma, como se estivesse realizando um negócio qualquer, o que na verdade não era, pois  aquilo era uma parte sua, uma coisa de família. Antes de por o chapéu ele fez sua última oferta. Após diversas tentativas aquela era a que mais  chegara próxima daquilo que era justo e mesmo a contra gosto resolveu aceitar a proposta. Embora pudesse parecer, a loja não era só uma mercadoria, afinal, foi ali, quase que sem querer que sua vida começou a mudar.

                   O trepidar do avião a fez abrir os olhos devagar e pode ver a aeromoça  passar verificando se os passageiros haviam afivelado o cinto de segurança e fazendo as últimas recomendações. Não pode deixar de reparar que ela tinha  pernas bem torneadas e apesar do  uniforme lhe dar um aspecto mais serio, distribuía amáveis sorrisos procurando transmitir segurança. Apesar do DC-10 ser um avião moderno e confortável  seria uma viagem cansativa e ela faria de tudo para torná-la menos maçante. Fechou os olhos novamente.

                   Foi uma semana corrida e estava exausta física e emocionalmente pelos acontecimentos. Sabia que essa viagem a estava levando a uma nova etapa em sua vida e talvez esse esgotamento fosse bom para que  dormisse quase o tempo todo. Não se preocupava com quantas escalas o avião ainda faria desde que pudesse continuar dormindo e esquecendo-se de toda aquela situação, o que não significava tirar de seu coração tudo que sentia, tudo que ainda sofria.
                   O avião decolou mais uma vez e ela permaneceu de olhos fechados procurando entender as imagens que a escuridão não conseguia formar. Queria que de agora em diante fosse sempre assim, um escuro que não lhe mostrasse nada do que foi.

                   Acordou quando a aeromoça tocou em seu braço para  informar que em pouco tempo estariam pousando em Nova Iorque.
- Já estamos chegando? – Indagou ainda sonolenta enquanto a aeromoça sorria e perguntava se precisava de alguma coisa. Lembrava-se ainda das instruções dadas pelas aeromoças antes da ultima decolagem, sentia-se um pouco confusa, além de muito cansada.
- Nunca vi um passageiro dormir tanto durante um vôo. Esta tudo bem com a senhora?
                   Ela olhou a aeromoça, uma mulher de olhos claros, cintilantes,  por alguns instantes antes de responder.
- Sim – disse afinal.
                   Mas gostaria de ter dito que não, que tudo estava completamente errado, que não gostaria de estar viajando para encontrar a família em um país que já não reconhecia como seu, para tentar viver uma vida que não era mais a sua.
                   Tinha intenção de ficar pouco tempo em Nova Iorque, uns três ou quatro dias talvez, apenas para descansar daquela primeira parte da viagem. Precisava dessa preparação pois agora começava a perceber o peso da decisão que tomara.
                   Do hotel ligou para o irmão confirmando que estava em Nova Iorque. Não o via há uns bons dez anos, tempo em que havia voltado para Israel para  alistar-se no exercito, sonho que acalentava desde menino, embalado pelas sucessivas vitórias de Israel contra seus inimigos. Por sua vez,  acompanhava o desenrolar dos fatos pelos jornais, sem querer tomar partido. Era contra a volta dele para Israel mas não teve como impedi-lo.
                   “Homens”, pensou ela, “e seu desejo pelo poder, pela barbárie que a guerra trás.  A selvageria do combatente libertando os instintos mais insanos, matando qualquer sentimento bom,  fazendo com que sejam apenas objetos que os comandantes manipulam conforme a política manda.”
                   Eram os últimos dias das Olimpíadas de Montreal.   Ainda havia muito medo de que se repetisse o que aconteceu na Alemanha, quatro anos antes durante as Olimpíadas de Munique quando um comando terrorista invadiu a vila olímpica e assassinou os atletas israelenses. E mais recentemente, um mês antes das olimpíadas, o seqüestro do Airbus da Air France, desviado para o aeroporto de Entebe, em Uganda,  e que fora resgatado a força numa das mais brilhantes ações militares das forças de segurança de Israel.
                  
                   Visitou alguns museus e galerias de arte tentando não se sentir tão só, mas a tristeza se manifestava em cada quadro, em cada escultura que mostrava a vida  por um aspecto diferente, o impacto de procurar entender o que alguém precisava dizer por aquela obra. Via-se exposta, nua diante de si mesma e preferia fingir que havia arte em seu sofrimento e não apenas dor. Não se deu conta de que Nova Iorque naquele instante era a representação viva do que sentia dentro de si. Havia uma crise reorganizando as idéias e conceitos dos americanos que viram em 1973 o fracasso militar no Vietnã,  uma guerra por nada, para sustentar a hegemonia pelo poder mundial e em 1974 um presidente renunciar para não ser cassado. Sentia uma pequena alegria em saber que naquele ano de 1976 nos jogos olímpicos de Montreal os americanos amargavam um terceiro lugar, com a temida União Soviética quase que imbatível em primeiríssimo lugar.

                   Despediu-se de Nova Iorque sem sorrisos ou lagrimas. Não sentia muito apreço por aquele povo e sua grandeza patriótica que precisa exaltar a todo momento que eles eram os melhores do mundo.

                   O próprio irmão veio recebê-la no aeroporto. Estava fardado e ostentava as divisas de capitão. Ela quase não o reconheceu,  lembrava-se dele ainda como o garoto tímido e magro.
- Nossa – disse ele ao vê-la – você não mudou nada, continua linda!
                   Abraçaram-se duas ou três vezes e cada vez que se afastavam ele a elogiava. No caminho para casa ela se admirava com a beleza da cidade e a quantidade de soldados.
- Infelizmente é necessário querida irmã. Essa é uma guerra que só terá fim quando reconhecerem definitivamente Israel como uma nação.
- Ou quando vocês acabarem com todos aqueles que não a reconhecem.
                   Ele a olhou rápido, um pouco assustado.
- Apenas nos defendemos. Isso é errado?
- David, não pretendo discutir política com você ou com ninguém enquanto estiver aqui. Mas se formos ver pelo lado do direito...
                   David não deixou que continuasse a falar.
- Ora, ora, quem decidiu que tínhamos direito a essa terra foi a ONU, com apoio de muitos paises.
                   Ela percebeu que seria difícil convencê-lo do que realmente significou a criação de Israel e elogiou a cidade. Depois, apenas relembraram alguns episódios do passado e riram muito. David não se casara pois como militar teria mais liberdade, além do mais, preferia ficar solteiro a deixar viúva e filhos. Sabia o quanto era doloroso notificar as famílias sobre as mortes dos soldados e não queria que ninguém que amasse passasse por aquilo.
                  
                   Aos poucos foi se interando da vida em Israel e depois de alguns meses chegou a conclusão de que seria impossível manter seu status de mulher independente. Muitos amigos de David estavam interessados nela. Certa vez, durante o jantar, David falou-lhe sobre o interesse de dois amigos e ela foi incisiva:
- Não sou uma mercadoria para ser disputada!

                   Descobriu que a única maneira de escapar desse assedio seria entrar para o exercito e usar como desculpa “Israel precisa de mim”.
                  
                   Por intermédio do prestigio de David ela foi aceita nas  Forças de Defesa de Israel, e mesmo passando por um duro treinamento superou suas próprias expectativas e posteriormente, por seu destaque, foi selecionada para atuar no Mossad, o serviço secreto de Israel, contra é claro, a vontade do irmão.
                   A disciplina militar acabou por dar uma nova razão a sua vida e o glamour em se tornar uma espiã a fascinou.
                   Realizou pequenas e depois missões mais importantes e sempre se saiu muito bem, o que lhe rendia elogios e maior prestigio entre os agentes e diretores do Mossad. Isso não quer dizer que estivesse livre do discreto assedio de alguns deles e que, polidamente fingia não perceber.
                   Em 1986 já era uma veterana e aceitou sem pestanejar quando foi designada para raptar um técnico nuclear que em visita a Inglaterra pretendia divulgar informações sobre o projeto nuclear de Israel, mas sabia que não conseguiria completar essa missão, pois deveria seduzir o tal técnico e levá-lo para fora daquele país, para então ser seqüestrado e levado de volta a Israel onde seria julgado por traição.
                   Depois de tantos anos teria que ser tocada novamente por um homem e definitivamente isso a perturbava. Mesmo sendo uma agente treinada, ela sabia que não conseguiria suportar a boca de um homem tocando seus lábios, as mãos percorrendo seu corpo, usando-a, destruindo sua dignidade.
                   Na véspera do embarque para Londres propositadamente arremessou seu carro contra um poste e embora nada tivesse sofrido alem de algumas escoriações, foi prontamente substituída por outra agente, sem que ninguém desconfiasse de nada.
                   Percebeu a partir daí que não bastava sufocar sua sexualidade, reprimida pela disciplina militar como uma camuflagem para se proteger do inimigo, que afinal era ela própria. Estava na hora de parar de fingir que tudo estava bem. Era o momento de voltar a ser feliz e dar novamente uma chance a quem quisesse amá-la. Então, todos aqueles anos arriscando a vida, achando que Israel precisa dela, pareceu não valer de nada. Fugira para Israel porque se sentiu trocada, traída e humilhada, mas agora sabia que poderia ter ficado e enfrentado a situação de outra maneira.

                   Deixou o escritório feliz, embora seus superiores ainda não estivessem de acordo com sua saída da organização.
                   “Eu não preciso mais de Israel”. Pensou enquanto caminhava radiante em direção a um café pouco adiante, onde costumava sentar e apreciar o movimento das pessoas andando de um lado a outro, num indo e vindo sem o menor propósito para ela. De onde vinham, para onde iam? Isso era a vida. Poderia ir morar em Paris e recomeçar do zero.
                   Sentiu apenas a mulher abraçá-la e o cano da arma em suas costelas. Em segundos, um carro aproximou-se e ela foi arremessada para dentro onde um homem rapidamente a imobilizou e a dopou.

                Por uma fração de segundos as imagens se transformaram como um clarão na escuridão, como num sonho em que as figuras aparecem diante de si e não se percebe que é um sonho.

                O calor era quase que insuportável. Sentiu as roupas molhadas coladas a seu corpo que estava amarado a uma cadeira. Procurou erguer o corpo e sentiu a dor irradiar-se pelas costelas. Abriu os olhos devagar e apesar da pouca luz deduziu, pelo tamanho,  estar num galpão. A sua frente estava uma jovem, possivelmente palestina, que mesmo com todo aquele calor vestia uma jaqueta militar e calças compridas camufladas alem de manter a cabeça e parte do rosto encoberto por um lenço escuro. Trazia presa a cintura  uma velha Luger 9 mm. Mais atrás um homem também a olhava segurando um AK 47. Ele deu alguns passos a frente e com voz grave disse, já impaciente:
- Pronto, ela já acordou e nós já sabemos o quanto é inútil continuar. Acabe logo com isso e vamos embora, já perdemos muito tempo.
                A prisioneira esboçou um sorriso, um ar triunfal por saber que resistira, que não dissera nenhum nome, nada de importante.  Ergueu um pouco a cabeça e olhou a mulher diretamente nos olhos.
- Você deve ser uma moça muito bonita. Seus olhos me lembram os de alguém...
                A resposta dela foi rápida,  seguida de uma vigorosa bofetada que afinal lhe descobriu o rosto.
- Cadela judia!
                A frase entrou por seus ouvidos como o som de uma explosão resgatando-a da paralisia e despertando-a do torpor que resolveu viver. Um arrepio percorreu seu corpo. Com o rosto ardendo sentiu que toda a sua humanidade voltara após aquela bofetada. Margô fitou a palestina enquanto aquelas palavras ecoavam em sua cabeça com a única intenção de fazê-la lembrar-se de que havia um amor reprimido dentro dela e que queria sair. A vida toda sempre seria isso, em qualquer lugar e em qualquer tempo carregaria esse sentimento por mais que tentasse abafá-lo. Reparou na jovem a sua frente  e percebeu que seu coração voltara a bater,  desta vez, bem mais acelerado. A mulher era de fato muito bonita e apesar do pesado traje militar calculou que deveria ter um corpo igualmente bonito. Sentiu saudades de Lis. Talvez fosse muito tarde para resgatar esse sentimento e lembrar do corpo dela sobre o seu enquanto se beijavam. Entretanto, não tinha como evitar que seu amor se materializasse na mulher que pretendia matá-la. Não procurou arrepender-se de ter fugido, de não querer sofrer por amor. O rosto pulsava e pode sentir o gosto de sangue na boca. Passou a língua ensangüentada pelos lábios.
- A vida tem gosto de sangue...  eu já devia saber disso.
                Disse a frase com calma, sem medo, olhando a palestina com um olhar de quem, no fundo, sentira um certo prazer. Sabia que não merecia morrer, ainda mais naquela situação mas, também não se desesperaria, não deixaria que o medo, o temor de perder tudo que amava abafasse a necessidade de sentir seus últimos momentos de vida.
- Faça logo o que tem que fazer e vamos embora. – Disse o homem com o AK 47 enquanto se virava e caminhava em direção a uma porta distante deles – Vou esperar no carro.
                Ouviu-se os passos do homem se afastando e depois uma porta se abrindo e fechando pesadamente. A mulher então se aproximou de Margô e com o polegar limpou lentamente os lábios sujos de sangue. Novamente um arrepio tomou conta do corpo de Margo provocando-lhe um ligeiro tremor. A mulher  examinou o sangue em seus dedos e depois chupou-os como quem se delicia com o resto de um doce.
- Pensei que o sangue de vocês tivesse um gosto diferente do nosso...
                Margô mordeu o lábio inferior e sentiu-se surpreendentemente  excitada a ponto de seus seios marcarem a blusa molhada de suor. Notando isso a palestina sentou delicadamente sobre seu colo e segurando no encosto da cadeira aproximou-se de tal forma que seus seios se tocaram.  Colou a boca no ouvido de Margô e sussurrou:
- Está sentindo a vida em seu corpo não é? Aproveite bem seus últimos minutos de vida. É mais do que os soldados nos dão.
                Margo fechou os olhos enquanto sua respiração crescia e apesar das roupas sentiu o calor do corpo da palestina. Lentamente ela se afastou mordendo o lábio inferior  com um leve sorriso, diabolicamente feminino, enfeitando-lhe o rosto. Pousou a mão sobre a Luger e com o polegar ficou por instantes alisando a arma demorando-se a puxá-la da cintura. Parecia não ter medo ou remorso pelo que ia fazer. Estava acostumada. Margô a olhava e sentia um desejo estranho tomando conta de si. Desviou o olhar para a arma.
- 9 milimetros. Excelente arma.  É um calibre de guerra. Altamente perfurante. Os nazistas a usavam para matar judeus. – Disse Margô
                Seu pai tivera uma e só se desfez dela por insistência da mãe que morria de medo de David a pegar.
                A mulher fez um gesto para recolocar o véu.
- Por favor deixe como esta, gostaria de ver seu rosto, seus olhos. Como se chama?
                Ela recuou três ou quatro passos e suavemente deu o golpe na arma alojando uma munição na câmara.
- Mulheres palestinas não precisam ter nomes, isso não faz diferença quando atiram na gente.
                Por longos instantes cada uma viu no olhar da outra um brilho que poderia representar  muita coisa, porém naquele momento era só a certeza de que a guerra entre eles não estava perto do fim.
                Margô deixou  o ar sair devagar pelas narinas, queria sentir sua respiração como nunca sentira antes. Algo tão simples e nunca prestara atenção naquilo.  O rosto da palestina se contraiu numa expressão que Margô não conseguia definir. Teve vontade de pedir-lhe um beijo, sentir pela ultima vez a boca de outra mulher na sua.
- Meu nome é Margô Seibel. Filha de Araon  e Sara Seibel. Morei no Brasil muitos anos e fui apaixonada por Elizabeth Andrade da Silva Carneiro. Moramos juntas e fomos felizes durante muito tempo. Mas um dia...
                A palestina ergueu o braço devagar e manteve o olhar firme, entretanto, eles já não espelhavam mais o ódio de antes.
- Ela acreditou que nossa relação havia se esgotado e foi morar com uma garota mais jovem, talvez com a sua idade...
                A palestina fixou a arma em direção ao peito de Margô e já não a apertava com tanta força. Sentiu um calor tomar-lhe o rosto e teve a ligeira sensação de que seu corpo criava uma contradição entre o que deveria fazer e o que sentia naquele instante por aquela mulher indefesa. Começou a pressionar o gatilho devagar enquanto a língua  buscava na boca o gosto do sangue de Margô. Fechou os olhos.
- E me deixou. Deixou também um vazio, mas também a certeza de que eu jamais deixaria de amá-la.  
                A explosão antecedeu ao disparo.
                Os soldados entraram atirando.  Assim como em Uganda vieram resgatá-la, pois ao contrario do que esperava, Israel ainda precisava dela.
                         

(Este conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares, sendo também a continuação do conto "A VELHA LÉSBICA")