sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O som entrava por seus ouvidos e refletia em todo o seu corpo causando uma sensação estranha. Se achava normal, sem mistérios, mas com suas particularidades.

 As vezes quando as coisas iam mal ou quando a mãe brigava por motivos bobos esperava todos dormirem, a casa ficar em silencio, então se levantava sem fazer barulhos e sentava num cantinho da sala, entre o velho sofá e a estante com os livros organizados pelo tamanho e punha-se a chorar baixinho. Durante o choro fazia uma singela oração a Deus e falava que precisava naquele momento de um pai para abraçar. Com as mãos unidas, olhando para o teto, implorava a Deus para que ele a abraçasse e acolhesse com todo amor e acabava sentindo em meu corpo um calor diferente, uma paz enorme. Adormecia ali, encolhida, envolta em si mesma como um bichinho.
Queria ter tido um pai, saber como é essa relação, os conflitos, queria um colo de pai em certos momentos da vida, queria poder ter um pai presente reclamando, resmungando, que lhe desse umas palmadas quando tivesse feito algo de errado, que a levasse para passear, que estivesse presente nas festas da escola. Queria ter tido um pai apenas para aconselhar. Não reclamava, pois tinha uma mãe perfeita que dava todo amor e carinho, cuidando dela e dos irmãos de maneira excelente. Apesar de não ter tido um pai, Deus havia lhe dado a melhor mãe do mundo.

Naquele exato momento sua vida pareceu ser apenas um paradoxo. Quanto mais ausente o pai, mais a presença da mãe trazia-o a tona, mantinha-o vivo em sua lembrança.

Após cessarem as palmas e todos se sentarem novamente ela olhou por alguns segundos o troféu. Sorriu. Embora fosse o reconhecimento de um trabalho ele nada significava. Não se interessava por prêmios. Representava porque assim viveria várias vidas esquecendo-se da sua. Seu personagem real fazia apenas uma figuração.
  
Agradeceu o prêmio com poucas palavras e o dedicou a mãe.

Mais tarde, esperou a companheira dormir e num cantinho da sala em seu apartamento, chorou olhando os prêmios na estante.


(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Apesar de ainda não ter dezessete anos havia se cansado de tudo, inclusive de si própria. Resolveu acabar com a vida, uma vida que não existia, não vivia ou não lhe deixavam viver.
Num sábado a noite enquanto ouvia Janis Joplin sozinha em seu quarto e tomava um espumante, olhou pela janela do apartamento no trigésimo primeiro andar.
Pensou em subir no parapeito e lançar-se num espetacular voo. Entretanto, o resultado final não a agradou. Não queria ser olhada com repugnância depois de morta, afinal era uma garota que chamava a atenção. Quando andava, os longos cabelos negros esvoaçavam ao vento como bandeira do Flamengo em jogo de decisão no Maracanã. Das axilas ao quadril se fazia uma delicada curva própria do traço genial do Niemeyer.
Saboreou a bebida sorvendo da língua o que sobrou do líquido em sua boca de lábios grossos, tão avidamente desejada pelos rapazes e por uma ou duas meninas, pelas quais nutria um secreto desejo.
Poderia amarar alguns lençóis a cama e envolver uma das pontas em seu pescoço e pular pela janela. Ficaria exposta como uma alegoria de natal. Assustadora talvez. Pensou no trauma que poderia causar nas crianças. Não, ainda não era a forma certa.
Aumentou o som. Janis parecia possuída, saindo do aparelho com a voz que enchia o quarto.
Boa opção seria misturar ao espumante os tranquilizantes da mãe. Dormiria para sempre.
Desistiu. A mãe se sentiria culpada por deixar seus remédios ao alcance dela. Não suportaria viver a tal outra vida que diziam existir após a morte com esse peso na consciência.
Restou-lhe apenas cortar os pulsos.
Cortar os pulsos seria a melhor maneira. Morreria lentamente, vivendo os últimos momentos vendo a dona Morte chegar e imaginando seu sorriso debochado escondido pelo capuz negro, a foice de lamina de prata reluzente como a baixela que só era usada em ocasiões especiais, nos animados encontros em família.
Joplin, com a voz esganiçada fazia a janela trepidar, parecendo aprovar a ideia.
Bebeu o resto do espumante e encheu novamente a taça. Faltava pouco para que a garrafa ficasse vazia.
Despiu-se.
Acomodou-se na cama.
Na falta de outro objeto cortante pegou a caneta foleada a ouro, presente de um tio-avô, e começou o paciente trabalho de furar o pulso esquerdo.
Subitamente, explodiram palavras em seu rosto, espalhando-se por seus seios, descendo pelo ventre, passando pelo sexo e como formigas se espalhando pela cama, por todo o quarto. E de seu pulso não paravam de sair palavras e mais palavras, algumas, de tão leves flutuando e formando frases, letras de músicas, nomes de pessoas, trechos inteiros de livros que nunca lera se materializando diante de seus olhos.
Desesperada tenta impedir que as palavras continuem saindo, mas elas, independente de seus esforços brotam e escorrem por entre seus dedos.

No dia seguinte estranhando a filha não ter acordado para juntar-se a ela no café da manhã vai até o quarto e qual não é sua surpresa quando ao abrir a porta ver as paredes repletas de palavras e a filha nua, dormindo, com o corpo totalmente escrito.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Despertou do sono com quem desperta de um sonho. Simplesmente abriu os olhos.
Achou estranho o som forte dos motores. Olhou-se na cama do hospital e em segundos compreendeu o que havia acontecido. Só não compreendia o som dos motores.
Arrancou os fios, os cateteres de seu corpo e conseguiu sentar-se com dificuldade. A cabeça oscilou, o quarto se inclinou e por segundos tudo sumiu. Voltou a si ainda sentada na cama.
O hospital estava vazio. Apoiando-se pelas paredes chegou a portaria, o roupão branco esvoaçou querendo sair de seu corpo quando ultrapassou a porta. Fazia frio.
Não muito longe dali avistou a multidão na praça e as milhares de motocicletas negras com seus motoristas vestidos de negro. Aos poucos conseguia recuperar o controle das pernas e ganhando velocidade logo chegou a multidão ajoelhada, petrificada de pavor dificultando sua passagem até chegar ao prefeito que com as mãos unidas suplicava para que não destruíssem sua cidade.
Foi quando outro raio iluminou a praça que a figura dela resplandeceu bem próxima do prefeito.
A líder das Amazonas sorriu sem que as tatuagens em seu rosto se movessem. Estendeu a mão na direção dela. Um vento mais forte seguido de novo raio arrancou de seu corpo o roupão revelando o esplendor de um corpo magnifico, isento das marcas das sevicias a que fora submetida de forma tão bárbara.
Ela caminhou até a líder e aceitou sua mão. Depois ambas subiram na motocicleta. O corpo esguio resplandecendo  um azul quase que celeste abraçou-se ao da líder e antes que se ouvisse o ensurdecedor trovão das motocicletas partiu de seus lábios sedutores a singela ordem: “Vamos partir. Destruam  a cidade”.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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Era feita de sonhos.
Sonhos que se imantavam uns aos outros confundindo sua realidade. Por vezes não sabia distinguir se o que sonhou era fato e se o que estava vivendo era sonho. A realidade em sua cabeça se materializava pulsando em sentimentos que vazavam com a espuma perfumada do sabonete durante o banho e com as lágrimas que se confundiam com a água quente do chuveiro.
Nada mudou depois que tentara invadir outro mundo menor, desconhecido.
No hospital olhavam-na com interesse. Não pela tentativa de suicídio, mas pelo corpo adormecido sobre a cama que agora poderiam ver e tocar, manipular sob todos os aspectos e pelos mais variados interesses. Em alguns momentos a ética se retraia no médico e o monstro surgia sedento, vingando-se do desprezo, das recusas de um simples jantar.
As enfermeiras a tratavam com desleixo, usando como desculpa a sórdida tentativa de destruir tão precioso invólucro, portador de todas as tentações terrenas, ativadas pela vontade da carne em chamas, tantas vezes movidas por uma inveja que as reduzia a nada quando comparadas a ela. Esqueciam-se do que eram nos instantes em que a viam indefesa, inerte, a respiração lenta, semimorta. Viam apenas a beleza milimétrica de um corpo que dia após dia não se desgastava, não se diluía, não se dilatava apesar de tantos remédios.   
Embora inconsciente, ouvia e sentia aquele mundo a sua volta. Reconhecia vozes familiares que não se lamentavam pelo ocorrido. Que justificavam seu ato tolo como uma forma de apenas chamar atenção para si, ou para castigar a mãe, tão zelosa, mas sem tempo para se dedicar a seus mimos infantis.
Os enfermeiros, na calada da noite, em rodizio, invadiam seu quarto. No inicio admiravam seus encantos, porém depois, seguros e cumplices passaram a lhe tocar os seios, a beijar-lhe a boca. Até algumas enfermeiras vieram tocá-la. Enlouquecidas ao ver a delicadeza do sexo virgem, aspiravam o perfume dos ralos pelos e lambiam suas coxas enquanto enfiavam em si próprias os dedos numa orgia que lhes consumia o corpo e a alma.
E tudo isso era sentido por ela, indefesa, incapaz de manifestar seu repúdio pelos abomináveis atos, pela violação de seu corpo que involuntariamente respondia aos desejos despudorados de seus algozes. Tentava afundar-se em si mesma, entretanto a carne, traiçoeira, buscava em seu labirinto o Minotauro que mantinha acorrentado o desejo de vida dentro de si.
Ouvia os risos de deboche quando de seus olhos fechados escorria alguma lágrima como um grito de socorro, como um pedido de clemencia. Apesar de tudo, como por encanto, continuava subjugada aos incompreensíveis mistérios daquela quase morte.
Não demorou e o que era privilegio de médicos, enfermeiros, enfermeiras, atendentes e serventes, passou a ser negociado com parentes, funcionários públicos, amigos e amigos dos amigos, numa monstruosa procissão de pecadores a abusar e violar o corpo da mais linda mulher da cidade.
E foi numa noite que antecedia o inverno, quando no jardim de sua casa a última flor morreu que se ouviu o  ensurdecedor som, como uma trovoada anunciando o Apocalipse.
A cidade inteira correu para a Praça da Matriz e espantada se deparou com milhares de motocicletas sendo aceleradas por pessoas com jaquetas pretas, como uma macabra canção. A um gesto de mão daquele que parecia ser o líder, todos instantaneamente pararam.
O prefeito, ainda que de pijama e assustado aproximou-se e com voz tremula perguntou o que queriam àquela hora da noite com tanto estardalhaço.
Então o líder desceu da motocicleta e retirou o capacete em formato de elmo. Logo os cabelos ruivos esvoaçaram ao vento da fria madrugada e diante do primeiro clarão do raio que anunciava uma tempestade pode o prefeito ver tatuado em cada lado da face da mulher uma cruz e uma suástica.
E diante do apavorado prefeito respondeu  olhando fixamente em seus olhos:
“ Queremos apenas destruir essa cidade.”

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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Sonhos.
Era feita de sonhos.  Quando podia, olhava o céu da manhã e desenhava nuvens em formas de boca, de mão, de seios. Sonhava com o dia em que surgiria dessas nuvens montado em um unicórnio dourado sua fada madrinha e juntas, nuas, cavalgariam o espaço como uma lady Godiva.
Não vivia para si. Dedicava-se a mãe enquanto sucumbia cada vez mais em um mundo sem história, concebido por pessoas que julgavam poder comandar sua vida, ignorando que ela era uma pessoa complexa, cheia de labirintos vivendo uma confusão de sentimentos vorazes. Quando se olhava no espelho  via reflexos daquela mesma menina que foi e continuava sendo mesmo agora, adulta, sem que pudesse acreditar que já não habitava mais o faz-de-contas da infância tão repentinamente sumida.
Tornara-se uma mulher-alvo. Cobiçada como troféu, desejada como prêmio.
Mesmo evitando expor-se era inevitável passar despercebida. Não havia como ignorar seus  olhos sonhadores e ao mesmo tempo serenos despertando a ira de outras mulheres, a voz maviosa saindo por seus lábios cândidos respondendo a um simples cumprimento. O recato dos seios acolhedores arfando em desespero por atrair tantos olhares.  Se não era a mulher perfeita ao menos serviria de modelo, de inspiração.
Para fugir se si mesma inventou que vivia outra vida tão distante da verdadeira que acabou por sucumbir dentro do próprio devaneio. Enlouquecia como fuga envenenando a alma com os sonhos mais lindos e menos possíveis.
Numa noite fria que já anunciava a chegada do inverno, após todos dormirem desceu até os jardins de sua casa e despida de roupas e pudores vestiu-se com as últimas flores que teimavam, como ela, a resistir contra o inevitável destino.
Tomou os últimos comprimidos e viu o frasco vazio cair ao chão flutuando devagar como uma folha. Deitou-se sobre o frio das pedras e antes que seus olhos se fechassem de vez viu descer do céu sem estrelas um unicórnio dourado trazendo em seu dorso uma bela e nua mulher.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TEIA

Escolhera o celibato. Por influência da família preferiu o silencio e a companhia inexistente de freiras que, como fantasmas, perambulavam silenciosas, taciturnas naquele convento que mais se parecia com um castelo assombrado e isolado do mundo. Frequentemente se lembrava dos filmes de Bela Lugosi como o vampiro Drácula sempre que via passar um morcego.
Era uma mulher de vinte e quatro anos. Os cabelos negros escondidos sobe o pesado véu não lhe tirava a beleza que resplandecia em seus olhos igualmente negros e brilhantes. O hábito, devidamente engomado não permitia distinguir-lhe as curvas precisas, generosas, quase um pecado imaginar que o próprio Deus as havia esculpido e num ato de ciúmes quis esconde-las dos olhares famintos, da fúria predadora dos homens. Somente as irmãs do convento  poderiam compartilhar sua acintosa beleza e se redimir, em penitência, aos pés das imagens santas rezando seus milhares de pai-nosso e centenas de ave-marias tentando expurgar do corpo e do espírito os lascivos pensamentos.
Embora escondesse de si própria tais qualidades físicas sabia perfeitamente que os olhares que recebia quando cruzava com outras freiras estavam carregados dos sentimentos que procurou evitar no mundo exterior.
Quase sempre ao fim da tarde gostava de rezar diante de uma imagem de Santa Inês, a protetora das virgens, que ficava numa pequena capela rodeada por um belo jardim. Naquele momento o sol entrava por um dos vitrais e projetava sobre a imagem uma espécie de arco-íris cuja visão lhe fazia bem ao espírito.
Numa dessas tardes ao invés de rezar ajoelhada diante da imagem postou-se perfilada próxima a ela e contemplou o reflexo das luzes. Sentiu um incontrolável  desejo de toca-la, de deslizar seus dedos castos no manto sacro e receber em seu corpo a paz que já não sentia ultimamente.  Notou então que entre a imagem e a parede havia uma extensa teia cuja malha também banhada pelas cores do vitral aprisionara uma asquerosa mosca negra e que em sua direção descia uma pequena aranha.
Seu primeiro impulso, apesar da repugnância, pensou em libertar a malfadada mosca de seu destino, porém, ao salvar um mataria o outro. Era necessário que o curso da vida seguisse com todas as suas consequências.
A medida que a aranha se aproximava  a mosca se debatia ficando irremediavelmente presa a teia. Subitamente ela sentiu seu coração acelerar. Era como se sentisse a vontade da aranha em devorar sua presa, de saciar sua fome, de sobreviver.  Um suor frio tomou-lhe de assalto o corpo moreno. O véu apertava-lhe a testa como uma coroa de espinhos e num gesto involuntário o arrancou da cabeça tentando secar do rosto o suor gelado.
A aranha, com desenvoltura envolvia a mosca retirando-lhe assim qualquer possibilidade de defesa. A freira, incapaz de compreender o que se passa dentro dela, olhava o inseto na eminencia de ser devorado e em delírio, via nos olhos dele o pavor da morte.
E sentindo crescer em sua vagina algo desconhecido e assustador, rasgou seu hábito e desesperada saiu nua da capela correndo pelo jardim enquanto o sol do fim da tarde lhe tocava o corpo.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

PERVERTIDA TRINDADE
            Chegou pouco antes do anoitecer. Embora mais cansado do que da última vez, ficou contente de ter chegado. Aquela seria a última vez, dizia a si mesmo. Era o  trigésimo sétimo ano que voltava com a mesma promessa.
            Retirou a mochila das costas e abraçado a ela abaixou-se. O som da cachoeira parecia ainda ser o mesmo. A poucos passos viu a grande pedra redonda, como uma daquelas camas de motel. Olhou ao redor. Parecia que nada, absolutamente nada havia  mudado no lugar. A não ser pela lua que estava cheia. Abriu a mochila e retirou a garrafa de vinho vazia e o velho gravador cassete e o colocou sobre a pedra. Introduziu a fita e apertou o play.  Ajustou o volume e quando os primeiros acordes de “The King will come” do grupo Wishbone Ash tocou, a emoção veio de súbito e quis sair por seus olhos em forma de lágrimas. Apertou os olhos e as deixou cair junto com as lembranças.

            Apesar da música alta que saia do gravador k-7 ainda ouvia um ou outro pássaro cantando enquanto a sua volta a mata densa escurecia fechando a pequena trilha como se uma porta fosse se trancando. Daqui a pouco seria escuridão total apesar da lua crescente. A água da cachoeira estava agora bem mais fria e ele resolveu sair. Pulou por sobre as pedras, o corpo tremendo de frio, o pau recolhido, as gotas de água pingando de seu cabelo cacheado numa quase tortura.
            Elas estavam de pé. Uma tinha descansando a sua frente uma daquelas sacolas grandes que os marinheiros usam quando vão embarcar. A outra tinha uma mochila enorme nas costas.
            Assustado, instintivamente cobriu o pau com as mãos úmidas o que lhe provocou um rápido arrepio. A que tinha a mochila as costas estava com um grande chapéu e lembrou de imediato uma cantora baiana com seus cabelos encaracolados. A outra, apesar do sorriso levantou o braço esquerdo com o punho fechado até a altura dos ombros na clássica saudação dos Panteras Negras. De alguma forma ela lembrava uma ativista negra perseguida pelo governo americano.
            “Cara, muito legal esse som. Deu pra ouvir de longe.”  Disse a ativista.
            “Opa, desse modo daqui a pouco vamos ter um bando de gente por aqui” Brincou ele.  
            “Tem problemas  ficarmos aqui essa noite? Iremos embora amanhã” continuou ela.
            Ele levou algum tempo para responder, tentando não tremer tanto de frio.
            “Podem, tem espaço a bessa”.
            “Como esta a água, muito fria?” Perguntou a que parecia com a cantora.
            “Tá fria, mas tá boa. O problema é quando a gente sai”.
            Sem a menor cerimonia a ativista tirou a roupa e caminhou pelas pedras até a cachoeira. Apesar da noite já ter caído ele podia ver claramente a silhueta negra num bailado ágil sobre as pedras. A cantora abriu a mochilona e pegou duas toalhas. Depois ficou nua. O corpo branco fazendo contraste com a escuridão.
            Enquanto se secava olhava as duas se banhando. Riam. Em determinado momento achou tê-las visto se beijando.  Apesar do frio, retirou a toalha, ficando nu novamente e dessa vez começou a tocar no pau para que ele voltasse ao tamanho original. Depois improvisou com algumas pedras uma fogueira. Quando elas saíram abraçadas da água e tremendo de frio ele mostrou as duas latas e perguntou:
            “Tenho sardinhas e apresuntado, o que preferem?”
            “Uau! Vamos ter um banquete hoje!” exclamou a cantora.
            “Temos salsicha, biscoito e metade de uma garrafa de vinho.”
            Embora nus, agiam com naturalidade, porém a cantora não deixava de olhar para o pau dele. Além do frio o tesão eriçava os bicos dos seios dela.
            “Pode parecer doideira, mas não posso deixar de falar que você é a cara de uma ativista americana presa. Ainda mais quando levantou o punho fechado.”
            “Quanta honra ser comparada com uma ativista! Então a partir de agora serei a ativista! .”
            “ E eu, pareço com quem?”  Perguntou cantora.
            “Você me lembrou aquela cantora baiana com esse cabelão todo!”
            “ Então agora você será a cantora baiana! E você cara, me lembra um ator de novelas.”
         “Pô bicho, não vejo novela.”  Ele respondeu olhando os seios da cantora e seu pau começou a querer subir. Rapidamente puxou a mochila para frente e ficou procurando algo. Por sorte achou a metade do baseado. Acendeu na fogueira.
            “Tão afim?” Perguntou depois de dar uma bela puxada e estender o baseado na direção delas.
            Forraram as toalhas sobre as pedras e sentaram. A ativista pegou o baseado e o chupou fundo, depois passou para a cantora que fez o mesmo.
            “Tem mais ainda?”  Indagou a ativista.
            “Dá pra fazer uns quatro com o que tenho”.
            Todos sorriram.
            Quase no fim do baseado a cantora se levantou e começou a dançar. Os braços ao longo do corpo como pêndulos, os olhos fechados, a cabeça indo de um lado a outro devagar, como se seu cérebro estivesse solto dentro da cabeça. Os seios pareciam mais volumosos e os mamilos estavam deliciosamente eriçados.
            Ele se levantou balançando a cabeça para frente e para trás, os ombros se alternando num movimento sincronizado e mal se aproximou dela seu pau cresceu.
            A ativista chupava a bagana que lhe queimava a ponta dos dedos e já de pé colocou o que restava do baseado na boca dele que chupou devagar. Ela aproveitou e pegou-lhe o pau e começou a apertá-lo. Instintivamente ele a enlaçou pela cintura e num beijo soltou em sua boca a fumaça que retinha na sua.
            A fita havia sido gravada inteira com a mesma música e durante aquela primeira meia hora em que a fita rodou dançaram, se beijaram, se tocaram. Depois viraram a fita enquanto enquanto alguém preparava outro baseado. Ele as levou para a grande pedra e se deitou depois de uma longa tragada. O pau duríssimo.
            A ativista sentou-se sobre ele e desceu devagar. A outra veio e ficou de pé, o sexo na cara da ativista. Ele alisava as pernas da cantora. Depois de um tempo a ativista se levantou e foi a vez da cantora  sentar-se no pau dele enquanto a ativista sentava-se sobre o peito dele com o sexo  enfiado em sua cara.  Elas  se alisavam, se beijavam, os seios mais do que empinados se roçando.
            A ativista foi até o gravador e virou a fita novamente. Depois preparou o terceiro baseado vendo a cantora de quatro sentindo o pau dele entrando forçado, espremido, enquanto uivava para a lua brilhante e crescente. Ela se aproximou e beijou-lhe a boca, mas ela continuava uivando. Ele também começou a uivar. Logo depois a própria ativista aderiu aos uivos e montou na amiga como se fosse uma égua.  Com uma das mãos puxava-lhe os cabelos para trás esfregando a xota molhada em suas costas. As mãos dele se alternavam em seus ombros, seus quadris e seus seios. Ela se curvava e deixava a outra sorver o baseado, depois puxava um pouco e virando-se punha o cigarro nos lábios do rapaz. Uma das mãos dele tentava alcançar a vagina da amazona cada vez mais alucinada. E conforme ela puxava os cabelos da cantora mais ela empinava o corpo fazendo com que o pau entrasse forte, rasgando-a.
            Em movimentos frenéticos, insanos, de seus corpos fluía a parte animal do sexo que a sociedade católica represava. Os uivos lancinantes eram um claro desafio as leis sociais que ali não precisavam seguir, que ali não precisavam burlar em músicas, em espetáculos. Naquele momento era proibido proibir que seus instintos se calassem.
            A ativista curvou o corpo em direção a ele, puxando pelos cabelos a cabeça da outra mulher. Com a outra mão puxou-o para si, a boca procurando a boca do rapaz que mantinha quase que a mão dentro do sexo dela. A ativista foi a primeira a gozar. O corpo tremeu, contorceu-se e despejou sobre a outra um muco viscoso e abundante. A cantora gozou em seguida, espalhando pelo ventre o liquido que lhe descia pela barriga. Por fim ele gozou, após um longo espasmo deixou o corpo pender para trás.
        Ele acordou sobre a pedra em posição fetal. O corpo todo parecia ter sido moído ou desmontado e montado de modo errado. A cabeça doía e seus olhos ardiam com a claridade da manhã. Instintivamente procurou a água que corria próxima a pedra redonda. Lavou o rosto com a água fria. Com dificuldade conseguiu sentar-se. Olhou ao redor e viu que estava sozinho. A consciência foi voltando. Será que tudo foi um sonho, pensou. Mas logo sentiu em sua perna o gozo ressecado. Não, não havia sido um sonho. Mas onde estavam elas?
            Depois do mergulho na água gelada sentiu-se revigorado. Foi até suas coisas e encontrou um pedaço de papel em que tentaram escrever um bilhete.
            “Bom demais te conhecer. Valeu pela pervertida trindade que fizemos. Te amamos. Cantora e Ativista. Beijos.  PS. Levamos o último baseado mas deixamos um gole do vinho pro café da manhã”.

            Ele acordou e sentiu a garrafa de vinho com o papel dentro em seu peito. Sabia de cor aquelas palavras, porém agora, depois de tanto tempo era hora de deixar aquela boa lembrança envelhecer. Ir-se. Começava a clarear.
            Escolheu um bom lugar e cavou o mais fundo que pode. Olhou a garrafa pela última vez e abraçou-se a ela de olhos fechados. Depois a abriu e colocou dentro quatro baseados, como uma espécie de oferenda. Beijou-a e com lágrimas nos olhos a pós dentro do buraco que cobriu pacientemente com a terra.
            Recolheu suas coisas. Antes de sumir pela trilha parou e olhou para a cascata que descia atrás da grande pedra redonda. E por entre as árvores o sol iluminava a pedra que mais parecia um altar.
            Enquanto descia pelo caminho íngreme e difícil enganava-se pensando que seria fácil esquecer a pervertida trindade que viveu naquele santuário.
            Lembranças não se apagam, morrem conosco.

(PERVERTIDA TRINDADE  / IVO LINHARES)
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A lança e o escudo

Eram tribos rivais que viviam em guerra.
Um dia, semanas após uma sangrenta batalha com muitos mortos, propuseram uma espécie de paz. Acordaram que para por fim a essa rivalidade cujo motivo já não se lembravam, fariam um casamento entre seus filhos e por um deles não ter mais filhos já que haviam morrido nas guerras enviaria seu mais mais valoroso guerreiros para unir as duas tribos numa só.
Estabelecida essa regra marcaram para a chegada da lua cheia o dia em que esse encontro aconteceria para por fim aquele inútil derramamento de sangue.
Na noite em questão as tribos se reuniram num local comum entre as duas aldeias para uma grande festa de confraternização que marcaria uma época de paz e prosperidade. Enquanto isso, cada um dos pretendentes subiriam cada um por um lado da cachoeira que separavam as duas tribos para se unirem fisicamente. Depois de consumado o casamento desceriam e aguardariam que o fruto daquela união, se forte, produzisse um grande guerreiro que no futuro chefiaria as duas tribos como uma só.
Pela manhã, mal os primeiros raios de sol despontavam clareando as matas as duas desceram de mãos dadas, sorrindo.
Aos poucos todos foram se levantando, dando passagem a elas que diante dos dois chefes pararam e quase que a uma única voz e ao mesmo tempo em que uma levantava a lança e a outra o escudo, soltaram o brado que para ambas as tribos representavam vitória.
O casamento havia se consumado.

(A lança e o escudo / Ivo Linhares)
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NÓS

Eles o surraram.
Eles deixaram seu corpo por horas jogado meio na calçada meio na rua como que dividindo dois mundos.
Eles olhavam o que restou dele e muitos pensavam: escolheu esse fim, não foi nossa culpa.
Eles não se importam com os culpados mesmo sabendo que continuaria a acontecer, sempre, todos os dias.
Eles achavam formas de minimizar o fato.
Eles legalizavam indiretamente o ato.
Eles banalizavam aquela vida, todas aquelas vidas.
Eles se permitiam divulgar a noticia sem fazer julgamentos.
Eles criavam apenas as leis não os monstros.
Eles classificavam as aberrações mas isentavam os monstros de qualquer nomenclatura.
Eu não o conhecia. Não vivia seu mundo.
Eu poderia não me importar.
Mas eu, eu não sou como eles.

(Em repúdio aos assassinatos daqueles que não são como eles)

Ivo Linhares

Na poeira do giz

Os olhos se cruzaram quase sem pretensão. Entretanto, havia um motivo que desconhecia para que isto acontecesse. Anos mais tarde ela entenderia porque.
Eram sempre os dois últimos tempos de aula e mal tocava o sinal todos saiam meio que desesperados porta a fora ansiando pela liberdade de ganhar a rua. Ela arranjava desculpas e ainda ficava na sala até todos sair. Depois, o coração aos pulos, pegava os tocos de giz e guardava-os depressa na mochila.
Em casa, depois do almoço, deitava na cama em seu quarto cor-de-rosa e olhava como troféus os pequenos e coloridos pedaços de giz.  Trancava-os numa caixa de madeira junto com os poemas e as cartas de amor e escondia no fundo do armário escuro a caixa e provavelmente um sentimento que não sabia definir, assim como a impossibilidade de vivê-lo.
Ao final do ano chorou muitas noites abraçada em seu travesseiro confidente a mudança de escola, a separação dos poucos amigos que optaram por outros cursos. Não se sentia preparada para viver outra vida além daquela que se habituara a viver naquele ano de descobertas.
Muitos anos depois voltou a velha escola. Pouca coisa havia mudado. A pretexto de matricular um filho que não tinha, pediu para olhar as salas.
O tempo não havia deixado de existir em sua memória e voltava enquanto andava pelo corredor e ouvia o alarido dos adolescente em fúria, correndo para aproveitar o intervalo entre as aulas, ou o recreio no pátio.
Entrou em sua antiga sala. As mesas organizadas umas atrás das outras. Sentou-se. Fechou os olhos e como mágica ouviu o som do giz no quadro negro. A mão ágil da professora deslizando, transformando formulas químicas em poesia.
De olhos fechados levantou-se, caminhou devagar até o quadro. Tentou imitar aqueles gestos como se em seus dedos houvesse não um giz mas uma batuta com o poder de reviver por aquele som o sentimento que sem saber nascera ali pela primeira vez.
Depois abriu os olhos devagar. A mão tocando o quadro negro. Nada entre seus dedos e nem no chão qualquer sinal da poeira de um único giz. 
Mesmo assim ainda sentia o mesmo amor que agora podia compreender sempre que outros olhos, mesmo sem pretensão cruzavam com os seus.

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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Um vicio

Mal acordo, nem abro os olhos e seu nome me vem rodando na escuridão da mente descendo pelo coração até parar pulsando em meu pau inflado.
Não a vejo mais, apenas falo seu nome e tudo aquilo que já havia jogado fora volta. Principalmente em meu corpo. Volta a emoção dos beijos, do toque das mãos no cinema, do abraço quando a deixava entrar em casa e eu ficava ainda olhando a porta se fechar na esperança de que pudesse voltar para um último beijo.
Antes, a espera do ônibus, o último que passava a meia-noite era feita de vigorosas lembranças, dos sons das palavras românticas, dos olhos dela em fogo, de promessas de um amor imortal. Agora é como um bonde da morte para levar os farrapos humanos ao inferno de suas solidões em quartos baratos pelos subúrbios. Sim, desnorteado ainda voltei a casa dela, escondido, somente para vê-la por momentos.
A via chegar com outros homens. Uns até entravam agora, direto, sem convite, sem rodeios.
Durante uns três anos fiz esse ritual. Depois pegava o ônibus da meia noite e dividia meus cacos com os outros fantasmas.
Nos últimos dois mêses antes que parasse de ir até lá comecei a ter a companhia de um cão em minhas esperas. Era um vira-latas branco, encardido, de pelo ralo, magro que me olhava nos olhos e depois de um tempo se deitava quase a meus pés.  Quando ia para o ponto do ônibus ele ia comigo e depois que eu partia o via acompanhar a ida do ônibus com um olhar estranho. Nunca latia ou abanava o rabo. Apenas ficava ali me olhando.
Naquela última noite do mês de julho a vi chegar de braços dados com uma mulher. Trocavam carinhos. Entraram rindo. Ai veio uma chuva fraca e eu olhei para o cão deitado. Ele olhou em meus olhos e depois na direção da porta dela e depois novamente para mim.
Foi algo totalmente estranho. Compreendi de súbito algo que já sabia e sempre faria parte do que eu era, porém naquele momento não havia mais nenhuma necessidade de existir.
Atravessei a rua e parei em frente a porta. Durante alguns minutos, de olhos fechados, revivi quase todas as lembranças que eram possíveis sentir em meu corpo. Quando terminei ouvi o ônibus passar.
Virei-me e o cão estava ali, sentado nas patas traseiras me esperando. Aproximei-me dele e toquei de leve sua cabeça molhada. Ele fechou os olhos e deu, pela primeira vez um leve latido. Levantei a gola da jaqueta e fomos andando, juntos, para minha casa.
Já não pensava mais no meu último gozo que a chuva mais forte agora, levaria com todas as lembranças pela calçada para o esgoto do mundo.

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
Direitos reservados

 

domingo, 19 de janeiro de 2014

A orgia dos cães

Afinal, aquilo tudo seria somente um jogo?
Mas brincar com os sentimentos de outras pessoas era um jogo?
Não, não acho que poderia ser. Não deveria ser.
Então foi assim: havia me metido numa encrenca e essa encrenca tinha marido. Um sujeito forte, grande, indigesto. Um tipo que ninguém gostaria de ver nervoso, ainda mais nervoso com o cara que estava saindo com a mulher dele.
O perigo me atrai, dizia ela. Me excita saber que podemos ser descobertos.
No inicio eu não liguei mesmo. Queria era trepar com ela, uma mulher selvagem, sem meias ações, sem pudores, vulgar, criativa, dominadora, capaz de fazer loucuras por algumas horas de prazer.
Foi no dia em que deu uma festa e me convidou. Achei o máximo. Poderia dar cantadas na frente do marido, curtir aquela sensação de poder, de que era o fodão. Devia ter umas cem pessoas na casa de dois andares.
Me apresentou como sendo um ex-colega de faculdade e eu nem tinha concluído o ensino médio. Mas ela dizia que eu tinha cara de nerd e passaria despercebido. Na verdade nem sabia muito sobre ela. Sabia só que gostava de trepar. O marido dela devia ter um metro e noventa. Apertou  minha pequena mão com força enquanto sorria e me cumprimentava.
Durante a festa cruzou comigo umas duas vezes e numa delas sussurrou em meu ouvido que queria ser comida na garagem em cinco minutos e me indicou como chegar lá.
Na hora eu ri e achei que era brincadeira. Depois a vi sair em direção a cozinha. Minhas pernas tremeram. Era a coisa mais doida que estava prestes a fazer. Meu corpo tremia. Definitivamente estava nervoso e excitado.
Quando entrei na garagem a vi de quatro. O vestido puxado para cima, a calcinha em sua mão.
Anda, me come, me fode porra! Implorava ela de um modo sensual e aflito, quase em desespero.
Eu a comi com medo. Com meus sentidos em alerta e o coração aos pulos.
Quando estava para gozar eu a avisei e ela pediu para gozar dentro dela, queria desfilar pela festa sentido meu esperma lhe molhando a calcinha.  
Depois voltamos para a festa.
A vi abraçada ao marido, beijando-o. Ele tinha cara de apaixonado.
Afinal, aquilo seria só um jogo para ela?
Mas brincar com os sentimentos de uma pessoa era somente um jogo?

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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sábado, 18 de janeiro de 2014

Sexo Virtual - Contos



Por dentro de cada um existiam muitas verdades. Cada uma delas se mantinha afastada do outro por mera precaução. Havia um escrupuloso medo de se apaixonarem e ambos tinham bem certeza de que não saberiam lidar com toda aquela coisa que vem quando isso acontece.
Ele se despiu em seu banheiro ao mesmo tempo em que ela, em sua cidade também se despia no banheiro. Parecia um filme, uma comédia romântica em que vemos cada um numa metade da tela fazendo absolutamente tudo igual.
Ele olhou seu rosto no espelho e enquanto alisava seu queixo pensando se fazia ou não a barba ela olhava o reflexo de seu corpo pelo blindex do box. Aos trinta e cinco anos estava no auge de sua forma física, no auge de seu tesão. Pensava nele e o desejava, porém, havia aquela coisa desnecessária chamada amor.
Ele dobrou o braço medindo visualmente pelo espelho o bíceps. Era vaidoso. Malhava três vezes na semana. Tirava um ou outro dia só para olhar as menininhas com suas roupas coladas e eroticamente indecentes, provocativas, enquanto fingia malhar. As vezes, e só as vezes, imaginava o corpo dela ali, se expondo, atraindo os olhares. A rainha da academia. Divertia-se com aquela competição entre elas.
Ela abriu o chuveiro e a água foi percorrendo num jato seus seios, seu ventre, seu sexo e ativando seu desejo. Fechou os olhos e pensou no corpo dele. O tórax definido, os braços torneados. O rosto negro, os olhos como flechas de Oxossi mirando a caça.
 Ele ensaboou o corpo olhando para cima, vendo a água descendo do chuveiro. Estendeu a língua e deixou que o líquido quente, em sua imaginação, fosse o resultado dos movimentos de sua língua na vagina dela. E deixou a água entrar por sua garganta sentindo seu pau crescer.
O dedo indicador dela rodava suave por seu clitóris enquanto pensava na ágil língua que ele deveria ter. Outro dedo, sem dificuldade, entrava por sua vagina.
Ele friccionava de leve a cabeça do pau sentindo o corpo se retrair.
Ela já metia o dedo com força. Apertava e esticava o bico do seio quase que em transe.
A mão dele agora ia do inicio ao fim do membro sentindo todo o corpo quente, pulsando como uma galáxia que vai explodir espalhando novos planetas pelo universo.
Ela jogou a cabeça para trás. Por um milionésimo de segundo se perdeu dos ruídos do mundo. Todos os sentidos desapareceram e o que veio foi uma explosão de luz em seu corpo.
Ele se curvou para frente e um jato forte colidiu com a água enquanto de sua garganta saia uma espécie de urro, como uma saudação ao seu gozo.
Mas tarde, em frente ao computador, ambos esperavam uma oportunidade de contar ao outro como havia sido aquele dia.

(Sexo virtual / Ivo Linhares)
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