segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Tenho feito coisas horríveis a mim, disse ele pondo na voz um tom quase que sombrio.
Em abril Paris não é tão frio, mas mesmo assim ela sentia o ar gelado da manhã refrescando seu rosto. Sempre que ia a França passava pelo menos dez dias em Paris, gostava de sentar em um dos cafés no Boulervard Saint-Germain e perder tempo vendo as pessoas passarem.  Delicadamente segurou a xícara de café quente entre as mãos e a levou a boca devagar para não queimar os lábios, ainda um pouco inchados pelo sexo oral que havia feito durante a noite. O líquido quente tocou seus lábios fazendo-a  arrepender-se do ato em si, inclusive o sexual.
Continua pensando nele, somente nele, ela pensou soprando a borda da xícara. Resolveu olhá-lo e perguntar que “coisas horríveis” eram essas.
Ele abaixou um pouco mais a cabeça e olhando para o porta-guardanapos disse: não ter te amado como você merece é uma delas.
Ela não se sentiu nem um pouco surpresa. Ele sempre usava essa tática quando a coisa ia mal entre eles. Porém, dessa vez ela não tinha intenção de aceitar as coisas do modo como estavam. Definitivamente não precisava dele.
Poderia dizer-lhe o quanto havia se arrependido de sustentar uma relação com um homem mais novo, mas no início o sexo era fantástico e a realizava plenamente.  Deveria ter sido somente sexo ocasional, sem compromisso. Mas ela tinha que coloca-lo dentro de sua vida. Devia ter deixado seu lado masculino falar mais alto e apenas transforma-lo em um número a mais em seu celular ou apenas um perfil em seu facebook.
Agora estavam em Paris. Lugar de apaixonados, de casais que passeiam de mãos dadas, que não se importam com todas as pessoas a sua volta, pois em Paris só se vive para quem se ama. O que já não era o caso deles.
Adoraria conhecer um homem em Paris com que pudesse me relacionar. Mas tenho me decepcionado bastante com os homens. Sou uma mulher muito intensa em tudo que faço, com tudo que amo. Quero apenas uma boa companhia, uma pessoa para transar e não me sentir numa jaula invisível, presa a argolas nos dedos que me impede de realizar coisas que quero. Sou capaz de conhecer diversos homens aqui e sem medo de tomar uma atitude, de chama-los para sair, passar a noite juntos. E só. Depois descarta-los antes que o façam comigo. Pensava isso olhando nos olhos dele, vendo-o como mais um perfume numa vitrine, cuja escolha, se no início pareceu acertada, agora seu aroma tornara-se insuportavelmente intragável.
- Deixei na recepção um envelope. Tem uma passagem de volta e dinheiro.
Retirou da bolsa o dinheiro para a despesa no café e sob o olhar atônito dele levantou-se e saiu sem dizer mais nada. Ele continuou sentado. Ainda se achava o melhor dos homens. Deixou-a se perder na multidão.
Enquanto caminhava acendeu um cigarro. Jogou para o ar, sem prazer, a fumaça. Já não sentia os lábios doer pelo sexo oral da noite anterior. Sorriu. Estava aliviada.  

(Sexo virtual)

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