Despertou do sono com quem desperta de um sonho. Simplesmente abriu os
olhos.
Achou estranho o som forte dos motores. Olhou-se na cama do hospital e
em segundos compreendeu o que havia acontecido. Só não compreendia o som dos
motores.
Arrancou os fios, os cateteres de seu corpo e conseguiu sentar-se com
dificuldade. A cabeça oscilou, o quarto se inclinou e por segundos tudo sumiu.
Voltou a si ainda sentada na cama.
O hospital estava vazio. Apoiando-se pelas paredes chegou a portaria,
o roupão branco esvoaçou querendo sair de seu corpo quando ultrapassou a porta.
Fazia frio.
Não muito longe dali avistou a multidão na praça e as milhares de
motocicletas negras com seus motoristas vestidos de negro. Aos poucos conseguia
recuperar o controle das pernas e ganhando velocidade logo chegou a multidão
ajoelhada, petrificada de pavor dificultando sua passagem até chegar ao
prefeito que com as mãos unidas suplicava para que não destruíssem sua cidade.
Foi quando outro raio iluminou a praça que a figura dela resplandeceu
bem próxima do prefeito.
A líder das Amazonas sorriu sem que as tatuagens em seu rosto se
movessem. Estendeu a mão na direção dela. Um vento mais forte seguido de novo
raio arrancou de seu corpo o roupão revelando o esplendor de um corpo magnifico,
isento das marcas das sevicias a que fora submetida de forma tão bárbara.
Ela caminhou até a líder e aceitou sua mão. Depois ambas subiram na
motocicleta. O corpo esguio resplandecendo um azul quase que celeste abraçou-se ao da líder
e antes que se ouvisse o ensurdecedor trovão das motocicletas partiu de seus lábios
sedutores a singela ordem: “Vamos partir. Destruam a cidade”.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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