Apesar de ainda não ter dezessete anos havia se cansado de tudo, inclusive de si própria. Resolveu
acabar com a vida, uma vida que não existia, não vivia ou não lhe deixavam
viver.
Num sábado a noite enquanto ouvia Janis Joplin sozinha em
seu quarto e tomava um espumante, olhou pela janela do apartamento no trigésimo
primeiro andar.
Pensou em subir no parapeito e lançar-se num espetacular
voo. Entretanto, o resultado final não a agradou. Não queria ser olhada com
repugnância depois de morta, afinal era uma garota que chamava a atenção. Quando
andava, os longos cabelos negros esvoaçavam ao vento como bandeira do Flamengo em
jogo de decisão no Maracanã. Das axilas ao quadril se fazia uma delicada curva
própria do traço genial do Niemeyer.
Saboreou a bebida sorvendo da língua o que sobrou do líquido
em sua boca de lábios grossos, tão avidamente desejada pelos rapazes e por uma
ou duas meninas, pelas quais nutria um secreto desejo.
Poderia amarar alguns lençóis a cama e envolver uma das
pontas em seu pescoço e pular pela janela. Ficaria exposta como uma alegoria de
natal. Assustadora talvez. Pensou no trauma que poderia causar nas crianças.
Não, ainda não era a forma certa.
Aumentou o som. Janis parecia possuída, saindo do aparelho
com a voz que enchia o quarto.
Boa opção seria misturar ao espumante os tranquilizantes da
mãe. Dormiria para sempre.
Desistiu. A mãe se sentiria culpada por deixar seus remédios
ao alcance dela. Não suportaria viver a tal outra vida que diziam existir após
a morte com esse peso na consciência.
Restou-lhe apenas cortar os pulsos.
Cortar os pulsos seria a melhor maneira. Morreria
lentamente, vivendo os últimos momentos vendo a dona Morte chegar e imaginando
seu sorriso debochado escondido pelo capuz negro, a foice de lamina de prata
reluzente como a baixela que só era usada em ocasiões especiais, nos animados
encontros em família.
Joplin, com a voz esganiçada fazia a janela trepidar, parecendo
aprovar a ideia.
Bebeu o resto do espumante e encheu novamente a taça.
Faltava pouco para que a garrafa ficasse vazia.
Despiu-se.
Acomodou-se na cama.
Na falta de outro objeto cortante pegou a caneta foleada a
ouro, presente de um tio-avô, e começou o paciente trabalho de furar o pulso
esquerdo.
Subitamente, explodiram palavras em seu rosto, espalhando-se
por seus seios, descendo pelo ventre, passando pelo sexo e como formigas se
espalhando pela cama, por todo o quarto. E de seu pulso não paravam de sair
palavras e mais palavras, algumas, de tão leves flutuando e formando frases, letras
de músicas, nomes de pessoas, trechos inteiros de livros que nunca lera se
materializando diante de seus olhos.
Desesperada tenta impedir que as palavras continuem saindo,
mas elas, independente de seus esforços brotam e escorrem por entre seus dedos.
No dia seguinte estranhando a filha não ter acordado para
juntar-se a ela no café da manhã vai até o quarto e qual não é sua surpresa quando
ao abrir a porta ver as paredes repletas de palavras e a filha nua, dormindo, com
o corpo totalmente escrito.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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Gente! fiquei espantada com a perfeição desse conto, o final é totalmente inesperado e me surpreendeu. Fantástico.
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