Era feita de
sonhos.
Sonhos que se imantavam uns aos outros confundindo sua realidade. Por
vezes não sabia distinguir se o que sonhou era fato e se o que estava vivendo
era sonho. A realidade em sua cabeça se materializava pulsando em sentimentos que
vazavam com a espuma perfumada do sabonete durante o banho e com as lágrimas
que se confundiam com a água quente do chuveiro.
Nada mudou depois que tentara invadir outro mundo menor, desconhecido.
No hospital olhavam-na com interesse. Não pela tentativa de suicídio,
mas pelo corpo adormecido sobre a cama que agora poderiam ver e tocar,
manipular sob todos os aspectos e pelos mais variados interesses. Em alguns
momentos a ética se retraia no médico e o monstro surgia sedento, vingando-se
do desprezo, das recusas de um simples jantar.
As enfermeiras a tratavam com desleixo, usando como desculpa a sórdida
tentativa de destruir tão precioso invólucro, portador de todas as tentações
terrenas, ativadas pela vontade da carne em chamas, tantas vezes movidas por
uma inveja que as reduzia a nada quando comparadas a ela. Esqueciam-se do que
eram nos instantes em que a viam indefesa, inerte, a respiração lenta, semimorta.
Viam apenas a beleza milimétrica de um corpo que dia após dia não se
desgastava, não se diluía, não se dilatava apesar de tantos remédios.
Embora inconsciente, ouvia e sentia aquele mundo a sua volta.
Reconhecia vozes familiares que não se lamentavam pelo ocorrido. Que
justificavam seu ato tolo como uma forma de apenas chamar atenção para si, ou
para castigar a mãe, tão zelosa, mas sem tempo para se dedicar a seus mimos
infantis.
Os enfermeiros, na calada da noite, em rodizio, invadiam seu quarto.
No inicio admiravam seus encantos, porém depois, seguros e cumplices passaram a
lhe tocar os seios, a beijar-lhe a boca. Até algumas enfermeiras vieram
tocá-la. Enlouquecidas ao ver a delicadeza do sexo virgem, aspiravam o perfume
dos ralos pelos e lambiam suas coxas enquanto enfiavam em si próprias os dedos
numa orgia que lhes consumia o corpo e a alma.
E tudo isso era sentido por ela, indefesa, incapaz de manifestar seu
repúdio pelos abomináveis atos, pela violação de seu corpo que involuntariamente
respondia aos desejos despudorados de seus algozes. Tentava afundar-se em si
mesma, entretanto a carne, traiçoeira, buscava em seu labirinto o Minotauro que
mantinha acorrentado o desejo de vida dentro de si.
Ouvia os risos de deboche quando de seus olhos fechados escorria
alguma lágrima como um grito de socorro, como um pedido de clemencia. Apesar de
tudo, como por encanto, continuava subjugada aos incompreensíveis mistérios
daquela quase morte.
Não demorou e o que era privilegio de médicos, enfermeiros,
enfermeiras, atendentes e serventes, passou a ser negociado com parentes,
funcionários públicos, amigos e amigos dos amigos, numa monstruosa procissão de
pecadores a abusar e violar o corpo da mais linda mulher da cidade.
E foi numa noite que antecedia o inverno, quando no jardim de sua casa
a última flor morreu que se ouviu o ensurdecedor
som, como uma trovoada anunciando o Apocalipse.
A cidade inteira correu para a Praça da Matriz e espantada se deparou
com milhares de motocicletas sendo aceleradas por pessoas com jaquetas pretas,
como uma macabra canção. A um gesto de mão daquele que parecia ser o líder, todos
instantaneamente pararam.
O prefeito, ainda que de pijama e assustado aproximou-se e com voz
tremula perguntou o que queriam àquela hora da noite com tanto estardalhaço.
Então o líder desceu da motocicleta e retirou
o capacete em formato de elmo. Logo os cabelos ruivos esvoaçaram ao vento da fria
madrugada e diante do primeiro clarão do raio que anunciava uma tempestade pode
o prefeito ver tatuado em cada lado da face da mulher uma cruz e uma
suástica.
E diante do apavorado prefeito respondeu olhando fixamente em seus olhos:
“ Queremos apenas destruir essa cidade.”
(A orgia dos
cães / IVO LINHARES)
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