terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Era feita de sonhos.
Sonhos que se imantavam uns aos outros confundindo sua realidade. Por vezes não sabia distinguir se o que sonhou era fato e se o que estava vivendo era sonho. A realidade em sua cabeça se materializava pulsando em sentimentos que vazavam com a espuma perfumada do sabonete durante o banho e com as lágrimas que se confundiam com a água quente do chuveiro.
Nada mudou depois que tentara invadir outro mundo menor, desconhecido.
No hospital olhavam-na com interesse. Não pela tentativa de suicídio, mas pelo corpo adormecido sobre a cama que agora poderiam ver e tocar, manipular sob todos os aspectos e pelos mais variados interesses. Em alguns momentos a ética se retraia no médico e o monstro surgia sedento, vingando-se do desprezo, das recusas de um simples jantar.
As enfermeiras a tratavam com desleixo, usando como desculpa a sórdida tentativa de destruir tão precioso invólucro, portador de todas as tentações terrenas, ativadas pela vontade da carne em chamas, tantas vezes movidas por uma inveja que as reduzia a nada quando comparadas a ela. Esqueciam-se do que eram nos instantes em que a viam indefesa, inerte, a respiração lenta, semimorta. Viam apenas a beleza milimétrica de um corpo que dia após dia não se desgastava, não se diluía, não se dilatava apesar de tantos remédios.   
Embora inconsciente, ouvia e sentia aquele mundo a sua volta. Reconhecia vozes familiares que não se lamentavam pelo ocorrido. Que justificavam seu ato tolo como uma forma de apenas chamar atenção para si, ou para castigar a mãe, tão zelosa, mas sem tempo para se dedicar a seus mimos infantis.
Os enfermeiros, na calada da noite, em rodizio, invadiam seu quarto. No inicio admiravam seus encantos, porém depois, seguros e cumplices passaram a lhe tocar os seios, a beijar-lhe a boca. Até algumas enfermeiras vieram tocá-la. Enlouquecidas ao ver a delicadeza do sexo virgem, aspiravam o perfume dos ralos pelos e lambiam suas coxas enquanto enfiavam em si próprias os dedos numa orgia que lhes consumia o corpo e a alma.
E tudo isso era sentido por ela, indefesa, incapaz de manifestar seu repúdio pelos abomináveis atos, pela violação de seu corpo que involuntariamente respondia aos desejos despudorados de seus algozes. Tentava afundar-se em si mesma, entretanto a carne, traiçoeira, buscava em seu labirinto o Minotauro que mantinha acorrentado o desejo de vida dentro de si.
Ouvia os risos de deboche quando de seus olhos fechados escorria alguma lágrima como um grito de socorro, como um pedido de clemencia. Apesar de tudo, como por encanto, continuava subjugada aos incompreensíveis mistérios daquela quase morte.
Não demorou e o que era privilegio de médicos, enfermeiros, enfermeiras, atendentes e serventes, passou a ser negociado com parentes, funcionários públicos, amigos e amigos dos amigos, numa monstruosa procissão de pecadores a abusar e violar o corpo da mais linda mulher da cidade.
E foi numa noite que antecedia o inverno, quando no jardim de sua casa a última flor morreu que se ouviu o  ensurdecedor som, como uma trovoada anunciando o Apocalipse.
A cidade inteira correu para a Praça da Matriz e espantada se deparou com milhares de motocicletas sendo aceleradas por pessoas com jaquetas pretas, como uma macabra canção. A um gesto de mão daquele que parecia ser o líder, todos instantaneamente pararam.
O prefeito, ainda que de pijama e assustado aproximou-se e com voz tremula perguntou o que queriam àquela hora da noite com tanto estardalhaço.
Então o líder desceu da motocicleta e retirou o capacete em formato de elmo. Logo os cabelos ruivos esvoaçaram ao vento da fria madrugada e diante do primeiro clarão do raio que anunciava uma tempestade pode o prefeito ver tatuado em cada lado da face da mulher uma cruz e uma suástica.
E diante do apavorado prefeito respondeu  olhando fixamente em seus olhos:
“ Queremos apenas destruir essa cidade.”

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

Direitos reservados

Nenhum comentário:

Postar um comentário