sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ela estava majestosa.
Surgiu no alto da escada e parou para que a admirasse. Lembrei-me do filme Cleopatra com Elizabeth Taylor e por coincidência ela também estava com um vestido amarelo que lhe expunha os seios de modo sensual. Desceu olhando em meus olhos e tendo nos lábios um sorriso enigmático. A pele negra ofuscando todas as cores ao seu redor e me deixando visivelmente excitado. Um pouco acima da testa prendendo-lhe os cabelos, uma tiara de pequenos diamantes que piscavam a cada passo que dava em minha direção. No pescoço um finíssimo cordão com um pingente em forma de besouro, cujos olhos eram dois minúsculos e reluzentes diamantes.
Enquanto descia, em minha cabeça ainda ecoava sua voz ao telefone “te quero hoje nove horas use smoking” falando devagar, sedutora, como o tal canto da cotovia que Romeu diz ouvir na famosa peça de Shakespeare. E eu, assim como na peça, esperava ouvir no dia seguinte esse mesmo canto após uma noite de amor com essa rainha.
A poucos passos estendeu o braço longo, a mão ligeiramente curvada. Beijei-lhe a pele quente e no auge dessa excitação meu corpo tremeu ao imaginar-me sobre ela, entorpecido de amor e insanamente me queimando naquele fogo.
Ela nada me disse com palavras, porém em seus olhos faiscavam arabescos que me sugavam para um mundo invisível, tão desconhecido como provavelmente fatal. Já não sentia meu coração porque provavelmente ele estivesse tremulando em seus seios cujos contornos simétricos pareciam ter sido esculpidos em mármore negro pacientemente por um artista apaixonado.
Depois de tantos meses de sedução, de provocantes encontros em que o silêncio ditava o ritmo de meu desejo cada vez mais explicito, percebi que não conhecia aquela mulher que me fascinava, me fazia de escravo, me deixava louco ansiando por uma oportunidade de confessar fisicamente todo meu desejo, já que meus galanteios apenas lhe alegravam. Mais do que conquista-la, eu teria que conhecê-la, mergulhar em sua alma para viver o raríssimo prazer que emanava de sua pele quando eu a tocava.
Pensei que esse dia nunca chegasse, confessei-lhe sentindo ainda em meus lábios o ardor febril que já se estendia por todo o meu corpo.
Ela me abraçou suavemente e nossos perfumes se trocaram. Apertou seu sexo contra o meu. A respiração entrando em meu ouvido citando o poema de Castro Alves, Navio Negreiro  
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta. 
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro... 
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas... 
Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam, 
Galopam, voam, mas não deixam traço. 
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade! 
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

O que me veio depois, não sei, não lembro. Lembro apenas de acordar ouvindo um canto de pássaro.


(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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