quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Depois do sexo ficaram abraçados. Pela segunda vez a coisa não havia acontecido como sempre acontecera. Sentiram que havia sido somente um ato físico, quase um compromisso corporal.
- Posso te fazer uma pergunta?
O “sim” veio acompanhado de um rápido suspiro.
- O que esta havendo entre nós?
Ficaram ainda abraçados, um ouvindo o coração do outro batendo acelerado, depois se afastaram.
- Desde que voltou daquele congresso de estudantes esta estranho. Acho que é hora de me contar o que de fato aconteceu lá. E não estou falando das reuniões temáticas, dos debates. Você ficou com alguém não foi?
Fez-se um enorme e pesado silencio entre eles.
- Olha, preciso saber mesmo que me machuque. O que não posso é ficar imaginando coisas, me remoendo por dentro, criando monstros.
Sentou-se na cama e afundou o queixo no travesseiro que apertava entre seus braços aguardando a confissão.
- Fiquei.
- Ficou? – Perguntou ainda com o rosto enfiado no travesseiro - Com quantos?
Houve demora na resposta. Fechou os olhos e enterrou completamente o rosto no travesseiro enquanto falava com a voz abafada, como um fantasma se comunicando do além.
- Foram tantos assim que nem se lembra?
- Foram quatro.
- Um para cada dia do congresso.
- Não, os quatro no terceiro dia.
Levantou a cabeça rapidamente, os olhos já umedecidos.
- Todos no mesmo dia?
- Na mesma noite.
O coração dele disparou, sentia-o bater na garganta como se quisesse sair de seu peito.
- Isso foi o que, uma orgia?
- Sim. Aconteceu. Foi a realização de uma fantasia. E acabei não me segurando diante da oportunidade.  
Não soube o que dizer, o que fazer. Ficou estático construindo em sua cabeça visões dos corpos nus, as posições, os beijos, os afagos, ele se dando, sendo usado, vivendo uma fantasia louca com mais quatro homens.
Em gestos lentos colocou de lado o travesseiro e saiu devagar da cama. O outro tentou segurar-lhe o braço, porém ele esquivou-se.
- Por favor, não me toque.
Em passos lentos ele caminhou até o banheiro e trancou-se. Depois, como qualquer mulher traída faria encostou-se aos ladrilhos frios, as mãos apertando os ombros enquanto  escorregava até o chão chorando em silêncio.

(A orgia dos cães / Ivo Linhares)

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