quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

ANDROIDE (2ª PARTE)

Elina Makarova de vez em quando vinha ao Brasil por causa do carnaval.
Esteve na Bahia, Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Dois anos após nos conhecermos ela veio ao Rio de Janeiro. Já havia acertado tudo para desfilar.
Peguei-a no aeroporto. Ninguém diria que não era uma mulher. A dúvida ficava quanto a voz.
A pele muito branca, o cabelo negro, o andar macio com um pouco de ginga e sua altura chamavam a atenção de todos os homens. Ela parecia se divertir com os olhares acintosos ou discretos. Até de algumas mulheres. Abraçou-me com afeto e depois me deu beijos no rosto. Usava um perfume delicado, um aroma suave e instigante. Usava a cada dia um perfume diferente.
Entramos no carro e fui indo devagar. Era a primeira vez que vinha ao Rio e com discrição olhava tudo enquanto eu explicava como era nossa cidade.
Elina falava um espanhol fluente e tentava também se expressar em português. Dizia que era inadmissível visitar um país sem ao menos estudar um pouco seus hábitos e língua.
Lembrei-me da primeira noite em que dormimos juntos. De madrugada acordei com ela abraçada de conchinha em mim. O pau encostando em minha bunda.
Ela se hospedou num hotel em Ipanema.
Novamente sua silhueta esguia chamava a atenção.
Subimos. O rapaz que disputou com os outros a tarefa de carregar a mala não conseguia disfarçar os olhares para o decote não tão grande, mas que destacavam os seios médios de Elina. Dei-lhe uma gorjeta seguida de uma piscadela com o olho direito que nem eu entendi o que significava.
Ficamos a sós e imediatamente, mas com calma exemplar, tirou o vestido e depois o sutiã. Por fim, a calcinha com uma elegância sedutora.
Era estranho olhar. Seria uma mulher com membro ou um homem com seios?
Ficamos nos olhando por alguns minutos.    
Estranho, - disse por fim enquanto jogava para trás da orelha um pouco de cabelo - Você é o único homem que me olha como mulher. Porém não me deseja nem como uma coisa ou outra.  Gosto disso. Você me excita.
Disse a última frase em russo.
Percebi que seu pau se intumescera um pouco. 
Continuamos nos olhando.
Se tivesse uma vagina adoraria sentir sua língua nela. Disse ainda em russo.
Vagina ou pênis, o que importa quando o que existe entre as pessoas é desejo ou amor. Respondi também em russo.
Ela riu. Riu alto jogando a cabeça para trás com graça, estilo.
Já me pediram para operar, mudar de sexo. Mas nunca serei mesmo uma mulher, então não preciso passar por isso. Nasci assim com algum proposito que desconheço, mas se não tenho vagina é porque não devo ter.  - Respondeu em espanhol.
Estranho mesmo são os homens que se aproximam de você por causa de seu pênis.
Como você?
Estava em dúvidas sobre quem era. Não tive pretensões de te levar para a cama. Apenas aconteceu. Não sou o tipo que tem taras.
Eu já sabia. Seu comportamento mostrou isso.
Aproximou-se devagar, o corpo exalando o perfume do dia.
Adorei ser possuída por você. Tratou-me como uma mulher.
Beijou-me o rosto e deu um passo para trás.
Seu pau agora estava completamente duro.

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ANDROIDE

Não acho que exista um padrão. Acontece, é a vida e nada mais. Faz parte, só isso.
Não que eu seja assim. Fui sendo. Fiquei sendo. E cada um é aquilo em que se transforma.
Elina Makarova por exemplo. Quis ser outra coisa depois de descobrir o que não era. Gabriele foi o que permitiram que fosse. Shirley não queria ser o que nasceu para ser. As pessoas buscam a felicidade porque não aceitam compartilhar a infelicidade que a vida destinou a cada uma delas. 
Não penso em ser feliz. Talvez seja. Ou não. Porque querer saber? No que isso me modificaria?
Sou apenas um policial. Um distintivo. Um funcionário do governo.
Mas dizem que sou um policial excêntrico. Quase um desajustado. Vivo dia a dia fora do controle de minhas emoções. Elas simplesmente não existem. Isso justifica meu apelido, quase um nome: Androide.
Tive duas mulheres. Marion, a primeira. Ainda não havia entrado para a polícia.  Era filha de um coronel reformado amigo de papai. Fazia sociologia. Papai ficou feliz com meu casamento. Achava que isso faria com que eu mudasse.  Ela me deu um filho. Um garotão. Um intelectual de esquerda. Puxou a mãe sem dúvida.
Ana Alice, a segunda. Ainda estava casado com Marion, um ano e pouco depois que nasceu o guri.  Chef de um restaurante. Uma mulher instantânea, prática, mas fora da cozinha. Quando incorpora a chef fica meticulosa, observadora. Tivemos uma menina. Uma atleta.
Tentei ficar com as duas. Entretanto, depois que se descobriram se tornaram amigas. Duas mulheres unidas deve ser a coisa mais perigosa do mundo.
Fui morar sozinho. De vez em quando os filhos aparecem por lá. Somos todos amigos uns dos outros. A menina andou mal. Perdeu uma competição de ginástica. Ficou arrasada. Falhou em um exercício. Falhar é bom as vezes. Não sei bem porque, talvez faça parte de como vivemos, de como encaramos a vida. Nunca quis ser o primeiro. Os primeiros sempre se sentirão ameaçados pelos segundos, pelos terceiros, pelos quartos. Terá sempre que se superar. Ficar no topo. E quando é superado não consegue conviver bem como isso.
Não descobri quem atropelou Shirley, mesmo porque sabia que ela havia se matado. Em compensação levei um ano e meio para chegar até o cara que havia partido seu coração. Era um engenheiro pai de dois adolescentes. Dizem que o criminoso sempre volta ao local do crime. Não que ele fosse o criminoso, apenas culpado. Apenas o motivo para Shirley querer acabar com a própria vida.
Ele chorou. Ou fingiu. Poderia ter tido pena dele.
Disse que ela queria ficar com ele, mas sabe como é, os filhos adolescentes, a ex-mulher, os amigos, o trabalho, a sociedade... o diabo-a-quatro! Como poderia explicar a toda essa gente sua tara por transexuais? O que iriam pensar dele?
Era um pobre coitado inventando uma sexualidade que usava a noite, como uma roupa que pegava no armário para ir ao baile.
Não sou como ele. Gosto de Elina como pessoa. Sei que ela não é uma mulher. Sei que ela não é uma coisa querendo ser outra. Não tenho desejo por travestis ou transexuais. Mas gosto de estar com Elina. Se sentisse amor por ela não teria medo ou vergonha de dizer ou assumir isso.
Afinal, sou um policial excêntrico.

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Já devo ter dito que sou um policial excêntrico.
Não precisava trabalhar para o Estado, no entanto, de que outra forma poderia estar em contato tão intimo com a realidade do mundo em que vivo?
Paro o carro atrás da viatura e antes de sair acendo um cigarro. A perícia ainda não chegou. Os caras não tem pressa, afinal todos sabem que a cena do crime nunca é preservada. Os primeiros a fuder com tudo são os próprios policiais. Um dos policiais militares esta encostado na viatura e o outro, a sua frente, regula os poucos carros que passam aquela hora da noite e diminuem para ver o que houve.
O lugar é zona de prostituição de travestis e transexuais. É uma rua comprida. O corpo esta a poucos metros de um bar que funciona quase que vinte e quatro horas.
Cumprimento os policiais de modo cordial e me apresento apertando a mão de cada um deles. Não sou do tipo que se coloca acima dos colegas, mesmo não sendo da minha corporação. Pergunto o que houve e eles respondem que foi atropelamento ou suicídio. Acrescentam que o pessoal do bar não viu nada, mas que a vitima fazia ponto diariamente naquele local. O nome de guerra era Shirley.
Vou até o corpo. Me abaixo. As costas e as pernas estão quebradas. Não foi atropelamento mas suicídio. A vítima se jogou.
Tomo uma coca-cola no bar. Lamento a morte da Shirley. Pergunto por que ela queria se matar. Dizem que ela não se matou, foi atropelada. Falam da cor do carro, mas não chegam a um acordo quanto ao tipo. Os carros de hoje são todos parecido, iguais. As poucas pessoas, entre elas dois travestis, aproveitam para criticar a policia, o governo, dizendo que isso iria ficar do jeito que estava, que ela era mais um merda que morria e só serviria para vender jornal. Não sabiam onde morava. Um dos travestis disse que ela tinha um cliente fixo que vinha sempre uma vez por semana e que ela estava gostando do sujeito e nem cobrava a saída, ia por amor.
Voltei e parei próximo ao corpo.
Amor. Ninguém vive sem amor. Mas era estranho ela ter se matado amando alguém.
Reparei no corpo. Era jovem, vinte e poucos anos. Um corpo bonito, bem trabalhado. Um corpo que devia atrair muitos homens. E ela o quis destruir. Ela não era esse corpo.
O cara da pericia chega. Faz piadas para descontrair.
Fico serio. Mas entendo. Volto para o meu carro e acendo outro cigarro.
Pelo rádio informam sobre um tiroteio. Olho para os dois policiais conversando com o cara da pericia.
Vai entender essa vida.

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SEM AMOR NÃO É POSSÍVEL SER FELIZ

Não pensou em como dizer. Apenas disse.
Esperou a reação dele com a respiração suspensa. Ele continuou sério. Não conseguia imaginar o que estaria se passando dentro de sua cabeça. Era um homem inteligente, liberal, engenheiro, pai de dois adolescentes, divorciado recentemente. Entretanto, como todo ser humano, era imprevisível.
Baixou o olhar, depois a cabeça. Pensou que não devia ter falado, porém aquilo a consumia cada vez mais. Agora, com todo aquele silêncio sabia da resposta que ele tentava organizar na mente. Talvez não quisesse magoa-la.
Escute, disse com uma voz quase sumida, me precipitei falando o que sentia por você sem perceber que criei algo comigo que deveria ter ficado somente comigo. Por favor, esqueça o que eu disse.
Mordeu o lábio inferior e envergonhada começou a pegar suas coisas para ir embora.
Ele continuava imóvel com um olhar que nada significava enquanto a via, nervosa e tremula vestir a calcinha.
Queria sair dali o mais rápido possível, sumir, enfiar-se num buraco fundo e desaparecer para sempre.
Não tinha direito a felicidade e devia saber disso, era uma pessoa errada, num corpo errado, numa vida errada.
As lágrimas explodiram em seu rosto junto com os soluços. Levou as mãos ao rosto e caiu de joelhos.
A cada minuto fazia com que tudo ficasse irremediavelmente pior. Primeiro, as palavras sem pensar e agora o choro convulsivo, piegas, ridículo. Queria morrer. Precisava levantar depressa e sair correndo, atirar-se debaixo do primeiro ônibus que visse pela frente.
Levantou com uma das mãos cobrindo os olhos, limpando o rosto.
Ele a abraçou e ela tentou se desvencilhar.
Ele a apertou em seus braços. Sentiu a respiração forte em seu ouvido.
Agora chorava alto, desesperada, tremendo, abraçada ao corpo quente dele.
Uma das mãos dele desceu-lhe pela cabeça até a nuca, repetidas vezes.
O choro foi diminuindo, diminuindo. Com os polegares limpou delicadamente as lágrimas dela. Olhou-a por um tempo.
Beijaram-se.
Ela sentiu o pau dele crescendo. Os beijos se tornaram fortes, agressivos, violentos, desesperados como a paixão que explodiria rasgando as roupas um do outro.
Agora era tarde para retroceder, fugir, evitar o que sempre quis desde que o viu a primeira vez, desde que fizeram amor pela primeira vez.
Segurava com a mão por baixo o seio que chupava com voracidade. A outra mão percorria as costas descendo até a bunda, apertando-a ao mesmo tempo em que comprimia o pau duro contra o corpo dela.
Não queria sexo num momento em que se sentia tão frágil, porém não o recusou e procurou dar o melhor de si. Sabia como ele gostava e fez como ele queria.
Chupou a pica enfiando-a quase até a garganta por várias vezes. Alternava com uma das mãos friccionando o pau da glande até a base. As vezes ficava com uma parte na boca chupando forte enquanto uma das mãos rodava no resto do membro.
Bruscamente puxou o pau e a virou, pondo-a de quatro. Lambeu seu anus e encostou a ponta da pica que entrou com facilidade enquanto ela se curvava encostando a testa no chão.
Não demorou a gozar.
Curvou-se sobre ela e beijou suas costas. Ergueu-se e ela veio ainda de quatro para chupar o pau escorrendo sêmen. Acariciou afetuosamente sua cabeça enquanto ela lhe chupava olhando para ele.
                                                          
                                                                       ***

O taxi parou na esquina e ela desceu após ele beijá-la rápido, quase no rosto. O taxi seguiu sem que ele olhasse para trás.
Ficou parada na esquina vendo o carro sumir na longa avenida. Em seu intimo sabia que ele não voltaria.
A vontade de chorar voltou por alguns segundos. Conteve-se. Engoliu o choro e enquanto caminhava devagar limpando os olhos marejados até o bar aonde fazia ponto já não tinha certeza se queria continuar a viver.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CALIGRAFIA

Sussurrou o nome dele várias vezes enquanto gozava.
O ônibus fazia as curvas e ela, trancada no banheiro, era arremessada para um lado ao outro. Porém continuava com os dedos a mexer no clitóris, a entrar na xota.
Falar com ele pelo celular a excitara.
Ouvia-o falar coisas do cotidiano, bobagens que os namorados falam.
Queria dizer-lhe que estava excitada ouvindo sua voz, porém ao seu lado estava sentado um homem gordo e velho com cara de tarado que não perdia a oportunidade para puxar assunto.
Ia para um encontro de estudantes católicos em Pernambuco, embora nem católica fosse, aceitou o convite de uma amiga.
Era madrugada e o namorado ligou.
Falaram por uns quinze minutos. Depois, com o desejo lhe lambendo a xota correu para o banheiro para extravasar o tesão que a voz despertara em seu corpo.
Pressionava a mão entre as pernas e dizia o nome dele cada vez com mais vontade de tê-lo dentro dela. Passava os dedos molhados em seus lábios e os devolvia a xota numa mistura de sabores e desejava que fosse a língua dele a lhe lamber a vulva encharcada.
Sussurrou o nome dele num crescente até chegar ao derradeiro orgasmo.
Numa curva mais aberta ela não teve forças para se segurar. Seu corpo bateu contra a janela e extenuada ficou vendo as imagens passando rápido.
A respiração embasava o vidro e com os dedos molhados de gozo eternizou o momento escrevendo ao lado do “eu te amo” o nome do namorado no vidro.
Fechou os olhos e suspirou profundamente. O corpo havia se acalmado.
Lavou as mãos, o rosto, ajeitou o cabelo, deu a descarga e abriu a porta do banheiro.
Para sua surpresa o homem gordo, velho e com cara de tarado aguardava ali fora com um sorriso nojento no rosto.
Passou por ele, séria e foi sentar-se.
Suspirou e fechou os olhos.
Algum tempo depois o homem voltou, pediu licença e tão logo se sentou em seu lugar junto a janela falou:
- Sua letra é muito bonita.
Ela o olhou sem entender e diante desse olhar espantado ele complementou:
- Igor é seu namorado?


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sábado, 15 de fevereiro de 2014

PRIMEIRA VEZ

Nunca aceitou seu poder. Odiava viver recebendo mensagens que não entendia, que não lhe pertencia, que não sabia o que fazer com elas.
Um dia entretanto, antes de descer do bonde viu-se com um homem. Ele jovem, depois mais velho. Faziam amor. E o que sentia não era um desejo de sexo, mas havia um profundo amor entre eles. Horrorizou-se com a visão e desceu quase sem esperar o bonde parar.
Chegou ao trabalho estranha. As outras notaram, porém nada comentaram. Entre elas não havia intimidades. Cada uma vivia uma relação profissional, como em qualquer trabalho.
A noite foi chegando e com elas os fregueses. Habituais, esporádicos, assíduos, uns que só vinham para olhar, os doentes, os tímidos que ali se revelavam, os velhos que ainda não sabiam que já não tinham mais idade para fazer aquilo, os enigmáticos, os exibicionistas, os falsos puritanos, os pobres, os ricos.
Quando eles entraram ela se assustou. Caminharam direto até ela. O homem lembrava o mesmo homem da visão. 
Era um senhor de aparência distinta. A bengala com o cabo de marfim mal parecia tocar o chão enquanto andava. O bigode largo e bem aparado tentava esconder um ar sério, porém seus olhos brilhavam mostrando todo o encantamento e desejo que trazia no corpo. Fez um sinal com a cabeça e o jovem que o acompanhava parou enquanto ele caminhava até ela.
Olharam-se bem dentro dos olhos e ele com poucas palavras e sem rodeios explicou que o rapazola era seu filho e que sua mulher o aconselhara a levar o rapaz ali pois a empregada havia encontrado na cama  sinais de que ele precisava descarregar sua energia de homem.
Ela olhou o rapazola que abaixou os olhos. Era apenas mais um cliente e não carecia tanta explicação. Disse o preço.
O distinto senhor, abriu a carteira e ofereceu três vezes mais, contanto que pudesse subir para orientar o rapaz e mostrar-lhe como se fazia. 
Não era do feitio dela aceitar tal proposta, mas o dinheiro, afinal era seu objetivo e não estava disposta a vestir a fantasia de falsos pudores.
Subiram.

* * *
Enquanto a penetrava o distinto senhor tentava explicar ao envergonhado rapaz o que estava fazendo.
Ela olhava para o rapaz e podia ver sob as calças o volume.
Sentiu uma sensação estranha. Lembrou-se da visão no bonde.
O senhor a penetrava com fúria.
O rapaz a olhava talvez com desejo, talvez com medo, talvez sem entender direito o que estava acontecendo. 
Ela percebeu que o homem estava prestes a gozar e contribuiu contraindo a musculatura da vagina. Sorriu para o rapaz e estendeu-lhe a mão. Ele se aproximou vacilante, como se estivesse aprendendo a dar os primeiros passos. O homem havia se calado e arfava enquanto dava violentas estocadas dentro da vagina dela. Sem jeito, o rapaz parou e ela o chamou com a voz baixa, num tom quase maternal. Com apenas um passo dele ela pode, ainda que sendo sacudida pelas violentas penetrações do homem soltar o cinto e abaixar as calças do rapaz.
Seu coração pulsou mais forte e enquanto o distinto senhor gozava ela tocou no eretíssimo membro do tímido rapaz.
E como na visão sentiu a alma sendo inundada de amor.



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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

RELAÇÃO PERFEITA

Casaram-se cedo, muito jovens ainda.
Tinham uma relação perfeita. Mas que não estava imune aos desgastes de uma longa convivência. Assim, quando completaram cinco anos de casamento ela o levou para esquiar em Bariloche, na Argentina.
Com a relação revigorada, passaram os cinco anos seguintes novamente se amando como no primeiro dia em que fizeram amor pela primeira vez.
No aniversário de dez anos, ele retribuiu a viagem dando a ela uma motocicleta Triumph Thunderbird, seu maior desejo depois de ver Marlon Brando como líder de uma gang de motociclista no filme O Selvagem. E todo fim de semana viajavam com ela de jaqueta de couro preta pilotando a moto.
E lá se foram mais cinco anos de eterno amor.
No dia do décimo quinto aniversário de casamento ela lhe fez a seguinte surpresa: reservou uma suíte no Copacabana Palace e realizou a maior fantasia dele que era uma transa a três. Ela havia escolhido uma negra com um corpo estonteante, pois sabia desse seu desejo secreto. E ela própria gostaria de ser dominada por uma mulher assim.
Esse fetiche movimentou a relação por mais alguns anos.
No vigésimo aniversário ele retribuiu da mesma forma, levando um belo homem negro para que ela pudesse se deliciar com outra pica, bem diferente da dele.
Com essa surpresa o casamento alcançou novamente sua plenitude.
No vigésimo quinto aniversário ela resolveu que já era hora de realizar outro desejo dele e pela primeira vez na vida fez sexo anal. Foi para ele uma noite memorável!
E lá se passaram os anos com eles cada vez mais felizes por realizarem suas fantasias, seus desejos.
Na semana em que completariam trinta anos de casados ele perguntou o que ela gostaria de fazer ou o que gostaria de ganhar. Ela apenas disse que queria fazer um jantar romântico em casa e vestir algo especial para ele.
Ele se surpreendeu. Era por demais simples, mas concordou. Nada de viagens, novos casais, uma lancha ou suruba.
E assim foi.
Terminado o jantar romântico ela pediu que apagasse as velas. Depois vendou seus olhos  pedindo para que ele ficasse nu enquanto ia para o quarto dizendo que era hora do algo especial que queria usar.
A proposta o deixou bastante excitado e ansiosamente esperava por ela.
Com seus sentidos aguçados ouviu seus passos se aproximando. A respiração ofegante de desejo. As mãos dela tocando-lhe o rosto e a boca doce lhe sugando a língua.
Abraçou-a, mas ela o afastou delicadamente e pediu que tirasse a venda dos olhos.
Ele sorriu.
Ao tirar a venda viu-a nua, linda como sempre, porém tinha na cintura um cinto com uma pica bem parecida com a sua. E olhando-o dengosa, com o mais belo sorriso disse:
“Amor, agora é a sua vez de sentir prazer com o sexo anal.”



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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Elina Makarova

Sou um policial excêntrico.
Papai era general e fez fortuna durante a ditadura militar.
Tenho um puma GTE vermelho ano 85. Tenho também uma motocicleta Harley Davidson.
Comprei tudo com o meu dinheiro.
Antes de morrer papai passou a coleção de armas dele para meu nome.
Fiz faculdade. Falo inglês, alemão, russo e japonês.
Nas férias viajo para o exterior.
Há três anos conheci uma transexual russa que me ensinou a beber vodca.
Toda vez que vou a Europa me encontro com ela.
É alta, um e oitenta e seis. Cabelos negros até as costas. Usa lentes de contato verdes. Seios médios. Culta. Fala vários idiomas. Inteligente. Trabalhou para a extinta KGB, a polícia secreta russa. Devia ser informante. Quando a União Soviética acabou ela assumiu de vez o personagem e passou a viver como Elina Makarova. Tem passaporte e identidade feminina. Mas é transexual.
Quando fui para a cama com ela não tinha certeza do que realmente era.
Aconteceu.
Elina foi meiga e dócil. Quase frágil. Despiu-se com passos de balé. Os cabelos negros presos numa longa trança indo de um lado a outro em cada movimento.
Ensinou-me como fazer.
Colocar aos poucos e deixar.
Eu dava pequenos puxões em sua trança, como se fosse rédeas e ela entrava um pouco mais. Em alguns momentos abaixava a cabeça e gemia.
Sussurrava obscenidades.
Rebolava e empinava a bunda fazendo pressão.
Uma das minhas mãos acariciava seu corpo.
Intercalava os gemidos com a respiração ofegante.
Impressionei-me com sua habilidade e destreza quando sua perna direita se esticou para o lado e enquanto seu corpo girava a perna subia passando próxima ao meu rosto.
Ela estava deitada agora de costas na cama e via seu pau duro e rosa me olhando.
Nunca havia segurado um pau que não fosse o meu.
Segurei porque ela disse que só gozava quando alguém lhe tocava uma punheta.
Elina gozava como mulher.
Mas não é.
Nem quer ser.
Isso pouco importava.
Disse que a graça era ser como era. Um meio termo.
A vida é feita de detalhes. Em alguns casos podem fazer diferença.
Elina tinha detalhes. Mas não teve importância. Era sedutora, carinhosa. Feminina.
Alma de um no corpo de outro.
Foi com ela que aprendi a beber vodca.

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DESCOBERTAS (Conclusão)

São todos bons profissionais.
Quando começam.
Depois, quem se importa em saber quem matou um negro pobre.
Um traficante.
Uma prostituta sem nome num hotel de quinta categoria.
As pessoas devem ler a noticia no jornal e sentir alivio. Um pouco menos dessa escória no mundo.
As pessoas devem ouvir a noticia no rádio do carro e comentar no trabalho, para ter assunto.
As pessoas devem ver o locutor noticiar o fato na televisão, a reportagem mostrando em detalhes o crime e arrematar no fim que a policia não tem pistas dos assassinos.
A polícia trabalha para nada.
A polícia ocupa lugares.
A polícia transforma bons policiais em cones para marcar seu território.
A polícia é uma instituição que contempla a evolução social e vai se desmanchando enquanto os políticos tecem leis  e mais leis que eles próprios não querem obedecer.
O comissário se diverte quando me chama para resolver esses crimes.
Diz que são raros os policiais que sabem resolver crimes insignificantes.
Deleita-se lendo meus relatórios com a conclusão dos casos.
Em sua cabeça pensa que arranjei culpados. Produzi provas. Inventei possibilidades que se transformaram em fatos.
Diz que sou bom, que é ótimo que eu esteja lá.
Gosto da Homicídios. Todos nós somos homicidas em potencial aguardando o motivo.
Sempre existirá um motivo.
O crime é como uma lei: criaram por necessidade.
Levei oito meses para descobrir o assassino de Gabriele. Era um filhinho-de-papai que entediado resolveu matar uma puta apenas por diversão.
Mas não prendi. Não deixaram. Abafaram o caso e puseram um bucha no lugar dele.
No aniversário de morte de Gabriele voltei ao cemitério e pus flores no seu túmulo.
Naquele dia percebi que já não era mais um observador.

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VIAJANTES

Fizeram os pedidos e aceitaram a sugestão do vinho.  Chegaram a Portugal de tarde e resolveram jantar no próprio hotel. Era a segunda vez que vinham a Europa e a primeira que visitavam Portugal.
Amigas desde os tempos de escola, Dulce e Ramona planejaram a viagem como uma espécie de despedida de solteiras uma vez que ambas estavam de casamento marcado. Queriam aproveitar ao máximo antes de assumirem um papel tão sério. Os futuros maridos foram obrigados a aceitar, embora não concordassem que viajassem sozinhas.
Não demorou muito e o garçom trouxe uma garrafa de champagne.
“Nós pedimos vinho”, informa Ramona.
“A champagne é cortesia das senhoras daquela mesa”, responde o garçom apontando com discrição.
“Pode levar de volta”, acrescenta Ramona.
“Não”, impede Dulce, “que mal tem aceitar”?
“Dulce, essas mulheres devem ser lésbicas, ou coisa pior”, fala Ramona e dirigindo-se ao garçom pede “pode levar”.
“Não, espera”, intercede Dulce, “elas podem ser lésbicas,  mas aceitar a bebida não quer dizer que estamos concordando em trepar com elas”.
“Dulce, deixa de ser tonta! Aceitar é confirmar que queremos dar para elas” diz novamente Ramona, e olhando para o garçom, ordena: “leva”.
“Não”, insiste Dulce. “Pode deixar a garrafa”.
O garçom se prepara para abrir a garrafa.
“Deixa de ser louca Dulce! Eu não vou transar com mulher nenhuma!”
O garçom serve a bebida. Dulce ergue a taça em direção as mulheres e faz um brinde como agradecimento.
Ramona entra em pânico.
“Não estou te entendo, Dulce. Não sabia que gostava de mulher.”
“E não gosto. Sinto curiosidade. E cá para nós a ruivinha parece ser deliciosa”.
“Não acredito no que estou ouvindo Dulce!”
“Ramona, é uma oportunidade única. Depois voltamos para o Brasil e ninguém jamais saberá que fizemos isso.”
Ramona não parecia disposta a embarcar na proposta de Dulce e continuava resistindo. Entretanto, a amiga foi falando coisas, demonstrando sua excitação diante do que poderia acontecer e, se não convenceu Ramona, ao menos despertou a sua curiosidade para a nova experiência que poderiam viver.
“Não viraremos lésbicas depois de transarmos com elas. Se transarmos. É só curtição. E lembre-se: viemos nos despedir da vida de solteiras, fazer o que nos der na telha.”
****
A ruivinha é francesa e se chama Juliette. Estudante de Artes.
A de cabelos castanhos é alemã, faz filosofia e se chama Hildegard.
Todas falam num inglês fluente.
****
Dulce, mal a porta do elevador se fecha, cola seu corpo no da ruivinha e trocam um longo beijo de língua. Ramona assustada, espera que a de cabelo castanho tome a iniciativa. Mas nada acontece, apenas se olham e sorriem sem jeito.
****
Dulce e a ruivinha continuam se atracando pelo corredor até chegar ao apartamento cuja porta é aberta por Hildergard. Juliete puxa Dulce pelo braço e uma começa a tirar a roupa da outra.
Ramona continua sem graça e não sabe como agir.
“É sua primeira vez?”
Ramona balança afirmativamente a cabeça.
“A minha também”, reponde Hildegard.
Olham as duas deitadas no chão se beijando com volúpia. As mãos de uma no sexo da outra.
“Elas estão gostando”, afirma Ramona.
“É.”
Dulce agora chupa os seios da ruivinha que se contorce de prazer enquanto geme.
“Será que é bom assim?”, insinua Ramona.
“Já fiz com homem e você?”
“Já. Foi bom, gostei. Ele foi delicado, carinhoso. E você?”
“Fiz com homem também. Acho que gostei.”
 “Quer experimentar?”
“Já que estamos aqui podemos tentar, se não gostarmos paramos logo ok?”
Ramona e Juliette se abraçam tímidas, sem jeito, tremendo, o coração batendo quase na garganta.
Minutos depois, de olhos fechados, se beijam delicadamente.
Instantaneamente, na memória afetiva das duas surge a lembrança do primeiro beijo, que como esse também marcará profundamente suas vidas.

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DESCOBERTAS (Continuação/2ª parte)

Sei o que os colegas comentam.
Mesmo na polícia não se deve confiar em ninguém.
Perante a lei somos todos inocentes até que se prove o contrário. Porém para nós, policiais, todos são culpados. Sempre.
Ninguém tem a vida totalmente isenta. Existe, por menor que seja, um delito que lembre que somos humanos.
Quando a foto de Elina Makarova caiu da minha carteira foi como se tivesse dado uma pista, deixado uma prova de minhas culpas, de meus crimes.
Julgaremos os outros para amenizar nossas culpas, nossos crimes.
Tenho vontade de bater no cafetão de Gabriele enquanto observo seu modo desleixado a minha frente.
A camisa aberta mostrando o peito sem pelos. O crucifixo de ouro que ele segura pela ponta.
Talvez ele vá para o céu quando morrer. Talvez eu também vá.
Quem sabe lá em cima eu possa esmurrar ele e me sentir arrependido.
Fala do vicio de Gabriele. Fala do aborto. Fala de como veio da Bahia fugindo do padrasto que a violentava. Fala que ajudava Gabriele a não se meter em encrencas.
Sinto vontade de me ajoelhar a seus pés. Ele é quase um santo.
Diz que fazia um ou outro programa com Gabriele apenas para ajudar, quando não tinha outra garota disponível.
Pergunto qual a posição que ela não gostava de fazer e ele responde que puta que é puta faz de tudo e em qualquer posição.
Sinto vontade de apertar o pescoço dele com o cordão de ouro.
Pergunto se Gabriele era boa de cama, se tinha muitos clientes e ele responde que ela era quase sempre a última escolha, que já estava um pouco passada e que as meninas mais novas eram mais requisitadas, que
era só uma puta para se esporrar dentro quando se tinha pouco dinheiro.
As fotos de Gabriele estão na minha gaveta. Podia mostrar as fotos de Gabriele morta.
Lembro da pele negra dela.
Queria ter tocado em seu corpo.
Sentir em mim o arrepio desse toque.
Elina Makarova a transexual russa que conheci na Europa com quem bebi vodka pela primeira vez tem a pele muito branca. Podia ver as veias azuis. O pau maior do que o meu com aquelas veias grossas, azuis.
A pele de Elina Makarova era fria.
Devia ter tocado o corpo negro de Gabriele.
Vejo a boca do cafetão abrindo e fechando, o som das palavras vindo, batendo em meus ouvidos, entrando, chegando ao cérebro.
Talvez um dia eu tenha que investigar a morte dele também.
Pergunto pelo tamanho do pau dele e ele fica paralisado, gagueja alguma coisa.
Pergunto se Gabriele gostava do tamanho do pau dele.
Ele responde perguntando se aquilo tinha algo a ver com a morte dela.
Gabriele não estava com ele por causa do pau normal que tinha.
Talvez também não tivesse opções.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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DESCOBERTAS (Continuação/1ª parte)

Lembrou-se que havia descoberto de como era viver.
Agora estava observando a própria vida, ainda que continuasse a não ter qualquer sentido.
Os cacos do mundo a sua volta já não se pareciam com as migalhas dos anos que colecionava sem saber exatamente por que.
Olhou o rosto da mulher.
Teve vontade de tocar-lhe os lábios.
Uma vida é uma vida.
Mas pode ser vivida de tantas formas, em muitos momentos, com pessoas ou sem elas.
Não tinha ideia do que aquela mulher deixava para trás. Era como se cada dia de sua vida não houvesse um ontem e todo amanhã se parecesse com o dia que passou.
Era uma mulher perfeita com todas as cicatrizes e varizes. Cada marca roxa, cada pequeno machucado podia ser um sinal do nada que ficou marcado em sua alma.
Como se a vida houvesse lhe dado essas marcas como medalhas. Arranhões como condecorações.
A vida é uma guerra. Teria sido heroica aquela morte?
Olhou a pele negra do rosto da mulher que não tinha nome.
Nas ruas, as outras prostitutas a conheciam como Gabriele. Ela não tinha identidade, certidão de nascimento ou qualquer outro documento. Gabriele não existia.
Mas tinha uma vida.
A vida é contraditória.
Todos perante a lei são inocentes até que se prove o contrário.
Gabriele era culpada por não existir, mesmo teimando em viver.
Como Elina Makarova, a transexual russa que o ensinou a beber vodka na Europa, cujo pênis era maior do que o seu.
Mas isso não importava.
O coveiro pergunta novamente se podia fechar o caixão e ele olha pela última vez o rosto negro de Gabriele.
Concorda com um econômico gesto de cabeça.
O som da terra batendo na madeira ordinária não o incomoda.
Os coveiros se afastam depois de feito o serviço, assustados e felizes com a gorjeta gorda que receberam.
Reza um pai-nosso e uma ave-maria.
Escreve com seu canivete suíço acima do número de identificação da cova o nome Gabriele.
Sai do cemitério como se fosse ainda o mesmo observador.
Quase é, mas por pouco tempo.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

DESCOBERTAS  


Descobriu que havia se esquecido de como era viver.
Descobriu que vivia sem sentir a própria vida. Era somente um observador.
Estava próximo dos sessenta. Era como se a vida estivesse se desmanchando a sua volta. Tudo já não tinha mais sentido.
Olhou o corpo da mulher nua.
Teve vontade de toca-la. Sentir a pele se contraindo ao toque.
Treparam várias vezes naquela noite. Em diferentes locais. Havia porra no chão próximo a cadeira. Nas duas pontas da cama.  No meio da cama. Será que ela gozou ou apenas fingiu?
Começou a avaliar sua vida.
O que deixara para trás, o que estava levando, coisas que fez,  que deixou de fazer. Todas as mulheres que não teve.
Mulheres sempre estiveram presentes em sua vida.
Seus erros.
Erros que não cometeu. Que foi levado a cometer. Alguns necessários.
Outros nem tanto.
Seria um erro fazer amor com aquela mulher tão linda, perfeita?
Não existe perfeição. Existe um olhar de desejo. Um algo que vemos e achamos que existe por que estamos carentes de alguma coisa
Mas ele a poderia amar? Mesmo que nem soubesse de quem se tratava ou o que era  esse negócio de amor?  Nunca sentiu amor verdadeiro por qualquer mulher.
Tinha Elina Makarova, uma transexual russa que conheceu na Europa. Com ela experimentou vodka pela primeira vez.
Poderia ter amado Elina. Não sabe. Não lembra.
Talvez se ela não tivesse o pau maior do que o dele.
Mas Elina não era mulher.
Isso faria alguma diferença?
Ela parecia mulher. Era tão perfeita quanto essa deitada nua na cama.
Exceto pela vagina. Uma vagina é diferente de um pênis.
Diferentes porque se completam.
Foi feito assim.
Mas pode ser diferente. Ninguém sabe.
Não tinha todas as respostas.
Queria ter. Mas era apenas um detetive da homicídios investigando a morte dessa prostituta num motel de quinta categoria.
Ainda bem que o dono dessa espelunca não jogou o corpo na rua.
- As baratas daqui parecem ser mais limpas.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A CANCERIANA

Chamava-se Alberta. Embora não gostasse de seu nome nunca demonstrou a família seu desagrado por terem escolhido um nome tão estranho para uma menina. Entretanto, apresentava-se como Beta em homenagem a estrela de seu signo.
Estava ansiosa. Andava de um lado a outro no saguão do aeroporto. A cada minuto olhava para o portão de desembarque, o coração descompassado. Seria o primeiro encontro real entre eles, uma vez que só se comunicavam pelo facebook.
A medida que os passageiros saiam pelo portão sua expectativa aumentava. Suava frio apertando as mãos enquanto esticava o pescoço tentando vê-lo.
* * *
Beijavam-se em desespero. As línguas num duelo de agilidade enquanto se espremiam no cubículo do banheiro feminino para onde ela o havia arrastado num impulso mais forte do que a razão.
Encostou-o a porta e puxou o membro pela braguilha. Curvou-se demonstrando sua flexibilidade e começou a chupar a cabeça pulsante do pau rosado enquanto ele puxava-lhe devagar o vestido até aparecer sua minúscula calcinha. Na medida em que intensificava a sucção no membro ele retribuía apertando-lhe as nádegas firmes.
Puxou-a e depois de outro longo beijo a deitou de costas na tampa do sanitário e com apenas uma das mãos puxou-lhe a calcinha que levou ao nariz aspirando ruidosamente o aroma. E num gesto típico da insanidade criativa dos aquarianos saboreou com a ponta da língua o muco que estava nela. Depois se abaixou lentamente, olhando-a nos olhos. Sua língua entrou na vagina aberta e molhada e rodopiou em suas entranhas com uma fantástica habilidade. Os olhos dela se reviram enquanto tentava não gemer tão alto. O que naquela altura já era impossível. Já se formava na porta do reservado uma pequena multidão de mulheres, curiosas e excitadas.
Quando o pau entrou ela sentiu o corpo tremer. A sua volta nada mais existia. Via o rosto dele, os olhos cor de mel combinando com o vermelho de seu batom espalhado em seu rosto de lábios grossos, sedutores, com a calcinha entre os dentes.
Lá fora, duas mulheres se beijavam. Algumas queriam sair, mas pareciam petrificadas. Outras enfiavam as mãos por dentro das calças, pelos vestidos, tocando-se, apalpando-se.
Ele introduzia devagar o pau roliço e ela comprimia a vagina como se quisesse impedi-lo de sair. Tudo durou mais ou menos quarenta minutos.
Cautelosos, abriram a porta do reservado.
Saíram de mãos dadas do banheiro feminino. Cada um com um sorriso cínico de satisfação no rosto, como se nada demais houvesse acontecido.

(Sexo Virtual / Ivo Linhares)
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A NORMALISTA E O BARBEIRO


Passava diariamente pela manhã na porta da barbearia antes do bonde das sete horas e a tarde, quase junto com o das treze horas voltando do colégio.
Um dia um dos clientes comentou que as normalistas eram apetitosas.
Ele, um senhor com seus sessenta anos, quarenta de barbeiro, por educação não aprovou nem reprovou o comentário, pois até então sempre concentrado em seu trabalho, não havia reparado se eram ou não. Depois disso passou nas horas de folga a reparar as meninas em seus uniformes impecáveis que desfilavam pela rua. Em especial uma delas que passava lendo um livro diferente a cada semana. Andava sempre devagar, lendo concentrada, desviando instintivamente dos obstáculos que surgiam a sua frente.
Naquela semana tentou descobrir inutilmente o nome do livro que tanto prendia sua atenção.
Na outra, mais atento, conseguiu ver o titulo: A convidada. Escrito por uma tal de “Simone sei lá o que”. Devia ser sobre como receber os outros, um livro de boas maneiras.
Os cabelos cacheados pareciam saltar enquanto andava com graça e leveza.
A menina era alta, a pele muito branca, seu rosto era redondo e os olhos negros se destacavam.
Durante uns cinco ou seis meses o barbeiro acompanhava a menina com seus livros, sempre tentando descobrir o que ela lia. Nunca olhou de fato suas pernas bem feitas, o quadril apertado na saia azul marinho pouco acima dos joelhos, os seios pequenos escondidos pelo sutiã branco, como a blusa.
A noite, antes de dormir beijava a esposa com carinho e virava-se para o lado. Entretanto não dormia. Não fechava os olhos. Ficava vendo a menina surgir com o livro nas mãos, vendo seus olhos percorrendo as linhas, bebendo as palavras.
Certa vez a viu sorrir enquanto passava. Os lábios se abriram iluminando o rosto, os olhos se fechando levemente como para não ofuscar o brilho que seu sorriso transmitia.
Quando as aulas terminaram ele sentiu falta da menina. Nas horas vagas ficava espreitando as extremidades da rua, atento, um pouco nervoso e desapontado. Atendia os clientes em silencio, fazia um ou outro comentário sobre a situação do país. Depois, se calava e fazia seu trabalho pensando na garota.
Na véspera do natal depois que abriu a barbearia ficou sentado a espera do primeiro freguês. Via as pessoas passando com os embrulhos, algumas apressadas, outras do outro lado da rua vendo as vitrines. Por um ou dois minutos fechou os olhos e imaginou a menina subindo a rua. Em suas mãos um livro branco, sem nada escrito na capa. As mãos delicadas segurando o livro como se carregasse a coroa de um rei.
Sentiu a presença de alguém e abriu os olhos.
Por um momento pensou ser seu primeiro freguês. Mas era apenas o carteiro que lhe entregou um pacote onde estava escrito com uma letra muito bela o endereço da barbearia e logo abaixo “para o sr. barbeiro”.
Abriu o pacote e sem perceber sorriu como a menina sorrira um dia.
Alguém o havia presenteado com um livro.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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Um era bancário. Vaidoso, tinha vários ternos, adorava gravatas (dizem que tinha mais de 100) e sungas variadas para exibir seu corpo atlético na praia aos domingos. Gostava de sentir os olhares de inveja por sua cor na segunda-feira.
O outro era comerciário. Usava sempre a camiseta Hering bege da loja, daquelas com a logomarca nas costas. Não gostava de praia, já era moreno de nascimento, e domingo acordava cedo para ir jogar pelada no Aterro do Flamengo. Segunda-feira narrava seus gols para os colegas de balcão imitando o locutor famoso. E ainda fazia o segundo comentarista.
Conheceram-se no dia em que o comerciário foi receber seu pagamento e a funcionária que era nova naquela agencia disse que a assinatura do cheque não batia com a da ficha.
- Mas como é possível isso se todo mês um monte de gente vem aqui receber e ninguém tem problemas? Poderia  chamar o gerente?
A funcionária, tendo sido questionada quanto a veracidade da informação que prestava, contrariada, informou novamente que a assinatura estava diferente e que o gerente estava em horário de almoço e que ninguém liberaria um cheque cuja assinatura era duvidosa.
Vendo que o comerciário começava a se exaltar, o bancário, no guichê ao lado pediu para ver o cheque e o cartão de assinaturas.
O comerciário, nervoso diante da eminencia de ficar sem o pagamento, passava a mão pelo queixo descendo-a até o pescoço enquanto dava pequenos passos ora para a direita ora para  a esquerda. O bancário, após alguns segundos e secretamente se divertindo com o que parecia ser um bailado, afinal liberou o cheque dizendo que a assinatura era valida. A funcionária então disse que mesmo assim não pagaria e que se ele quisesse assumir o risco seria problema dele.
A pele negra do comerciário encantou o bancário que pediu o cheque para pagar, fazendo uma espécie de careta para a novata.
Daí pra frente o bancário toda vez que ia aquela agencia esperava para ser atendido pelo bancário. Numa sexta-feira em que foi receber o pagamento o comerciário achou-se no dever de retribuir o atendimento tão amável chamando o bancário para um chope. Convite prontamente aceito.
A conversa fluía animada movida por vários chopes. As coincidências entre eles os aproximavam. Como por exemplo, torcerem pelo mesmo time, gostarem do mesmo prato, e a maior de todas: a paixão pelo filme Retratos da Vida que ao fim apresenta um bailarino dançando o Bolero de Ravel sob Torre Eiffel.
Ah, Paris, Paris! Suspiram embalados pela lembrança do filme voltando em suas cabeças. “Quer ouvir o disco lá m casa?” Propõe o bancário, os olhos ardendo de desejo depois que um arrepio lhe subiu pela espinha. O comerciário diz que trabalha no dia seguinte, sábado, e o bancário oferece para que ele durma lá, afinal morava sozinho.
Pegam um taxi e no caminho comentam o filme.
Afoito, o bancário procura o disco enquanto o comerciário vai ao banheiro.
Tira a camisa, os sapatos, o cinto. Apaga a luz e sobe na pequena mesa redonda no centro da sala.
O comerciário sai do banheiro e ouve os primeiros acordes. Vem dançando e se depara com o bancário sobre a mesa. Pela cortina entre aberta entra uma nesga de luz sobre ele. O comerciário admira o corpo bronzeado e atlético do bancário, que hipnotizado pela música dança em transe. O comerciário instintivamente dança ao redor da mesa. A música crescendo nos corpos suados, infiltrando-se nos movimentos sensuais, o ar se impregnando de erotismo.
Perto do fim, exausto, elevado por um torpor mágico produzido pelas notas  afrodisíacas, o bancário se deixa tomar pelo êxtase e quase desfalece sendo amparado pelo comerciário.
O corpo suado do bancário desliza pelo do comerciário. Os olhos se veem próximos. Os braços fortes do comerciário mantendo o corpo atlético e bronzeado do bancário junto ao seu.
A música, em seus acordes finais, anunciava o inicio de outro bolero.

 (A orgia dos cães / Ivo Linhares)

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Isto não é uma declaração de amor, muito embora eu o pudesse sentir ainda que saibamos da impossibilidade de amarmo-nos como gostaríamos.
Te olho como quem vê uma pintura e tenta imaginar um modo de entrar em teu quadro e viver as coisas maravilhosas que existem em teu mundo. Mas em teu mundo, por obra de Deuses mesquinhos, não é permitido entrar. Cabendo a nós, pequenos joguetes nas mãos deles, viajar em delírios mirando no caminho que teus olhos mostram.
Eu sei do teu corpo como sei do mar e navegar em ambos pode ser belo, maravilhoso, como também fatal. Aqueles que te navegam seguros de uma viagem tranquila, de certo apenas estão preocupados em chegar a outro porto, como marinheiros que se acostumaram a não olhar a paisagem, a não perceber o brilho das águas nem ouvir o som das ondas como eco do canto mavioso das sereias.
Repito, isto não é uma declaração de amor, mas se o fosse eu diria que te navegaria cantando, como fazem os gondoleiros em Veneza pela pura e simples alegria de se perder entre os canais que lhe dão vida.
Ninguém te amará, ao certo, como eu suponho que poderia amar. Porém, por minha própria ingenuidade, típica de qualquer adolescente quando se apaixona pela primeira vez, me flagro sonhando de olhos abertos a abordar teu corpo como se o meu próprio fosse um navio pirata, não para saquear teu tesouro, mas pelo ardor da luta e pelo prazer da conquista. Minha vitória é hastear em teu dorso minha bandeira vendo-a tremular ao vento.
Se isto que escrevo não é uma declaração de amor, o que será então?
Não precisa ser nada, pode ser apenas uma mensagem de carinho e afeto presa em uma garrafa jogada ao mar por um naufrago esperando ser encontrada.

Quisera que fosse esta uma declaração de amor, não feita por mim, mas por aquela pessoa que você espera encontrar um dia para partilhar um mesmo quadro, um mesmo mundo e juntos num único corpo navegar sem rumo numa viagem de alegrias e prazeres.

(A orgia dos cães/IVO LINHARES)
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