terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DESCOBERTAS (Continuação/2ª parte)

Sei o que os colegas comentam.
Mesmo na polícia não se deve confiar em ninguém.
Perante a lei somos todos inocentes até que se prove o contrário. Porém para nós, policiais, todos são culpados. Sempre.
Ninguém tem a vida totalmente isenta. Existe, por menor que seja, um delito que lembre que somos humanos.
Quando a foto de Elina Makarova caiu da minha carteira foi como se tivesse dado uma pista, deixado uma prova de minhas culpas, de meus crimes.
Julgaremos os outros para amenizar nossas culpas, nossos crimes.
Tenho vontade de bater no cafetão de Gabriele enquanto observo seu modo desleixado a minha frente.
A camisa aberta mostrando o peito sem pelos. O crucifixo de ouro que ele segura pela ponta.
Talvez ele vá para o céu quando morrer. Talvez eu também vá.
Quem sabe lá em cima eu possa esmurrar ele e me sentir arrependido.
Fala do vicio de Gabriele. Fala do aborto. Fala de como veio da Bahia fugindo do padrasto que a violentava. Fala que ajudava Gabriele a não se meter em encrencas.
Sinto vontade de me ajoelhar a seus pés. Ele é quase um santo.
Diz que fazia um ou outro programa com Gabriele apenas para ajudar, quando não tinha outra garota disponível.
Pergunto qual a posição que ela não gostava de fazer e ele responde que puta que é puta faz de tudo e em qualquer posição.
Sinto vontade de apertar o pescoço dele com o cordão de ouro.
Pergunto se Gabriele era boa de cama, se tinha muitos clientes e ele responde que ela era quase sempre a última escolha, que já estava um pouco passada e que as meninas mais novas eram mais requisitadas, que
era só uma puta para se esporrar dentro quando se tinha pouco dinheiro.
As fotos de Gabriele estão na minha gaveta. Podia mostrar as fotos de Gabriele morta.
Lembro da pele negra dela.
Queria ter tocado em seu corpo.
Sentir em mim o arrepio desse toque.
Elina Makarova a transexual russa que conheci na Europa com quem bebi vodka pela primeira vez tem a pele muito branca. Podia ver as veias azuis. O pau maior do que o meu com aquelas veias grossas, azuis.
A pele de Elina Makarova era fria.
Devia ter tocado o corpo negro de Gabriele.
Vejo a boca do cafetão abrindo e fechando, o som das palavras vindo, batendo em meus ouvidos, entrando, chegando ao cérebro.
Talvez um dia eu tenha que investigar a morte dele também.
Pergunto pelo tamanho do pau dele e ele fica paralisado, gagueja alguma coisa.
Pergunto se Gabriele gostava do tamanho do pau dele.
Ele responde perguntando se aquilo tinha algo a ver com a morte dela.
Gabriele não estava com ele por causa do pau normal que tinha.
Talvez também não tivesse opções.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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