Sei o que os colegas comentam.
Mesmo na polícia não se deve confiar em ninguém.
Perante a lei somos todos inocentes até que se prove o
contrário. Porém para nós, policiais, todos são culpados. Sempre.
Ninguém tem a vida totalmente isenta. Existe, por menor que
seja, um delito que lembre que somos humanos.
Quando a foto de Elina Makarova caiu da minha carteira foi
como se tivesse dado uma pista, deixado uma prova de minhas culpas, de meus
crimes.
Julgaremos os outros para amenizar nossas culpas, nossos
crimes.
Tenho vontade de bater no cafetão de Gabriele enquanto
observo seu modo desleixado a minha frente.
A camisa aberta mostrando o peito sem pelos. O crucifixo de
ouro que ele segura pela ponta.
Talvez ele vá para o céu quando morrer. Talvez eu também vá.
Quem sabe lá em cima eu possa esmurrar ele e me sentir
arrependido.
Fala do vicio de Gabriele. Fala do aborto. Fala de como veio
da Bahia fugindo do padrasto que a violentava. Fala que ajudava Gabriele a não
se meter em encrencas.
Sinto vontade de me ajoelhar a seus pés. Ele é quase um
santo.
Diz que fazia um ou outro programa com Gabriele apenas para
ajudar, quando não tinha outra garota disponível.
Pergunto qual a posição que ela não gostava de fazer e ele
responde que puta que é puta faz de tudo e em qualquer posição.
Sinto vontade de apertar o pescoço dele com o cordão de
ouro.
Pergunto se Gabriele era boa de cama, se tinha muitos
clientes e ele responde que ela era quase sempre a última escolha, que já
estava um pouco passada e que as meninas mais novas eram mais requisitadas, que
era só uma puta para se esporrar dentro quando se tinha
pouco dinheiro.
As fotos de Gabriele estão na minha gaveta. Podia mostrar as
fotos de Gabriele morta.
Lembro da pele negra dela.
Queria ter tocado em seu corpo.
Sentir em mim o arrepio desse toque.
Elina Makarova a transexual russa que conheci na Europa com
quem bebi vodka pela primeira vez tem a pele muito branca. Podia ver as veias
azuis. O pau maior do que o meu com aquelas veias grossas, azuis.
A pele de Elina Makarova era fria.
Devia ter tocado o corpo negro de Gabriele.
Vejo a boca do cafetão abrindo e fechando, o som das
palavras vindo, batendo em meus ouvidos, entrando, chegando ao cérebro.
Talvez um dia eu tenha que investigar a morte dele também.
Pergunto pelo tamanho do pau dele e ele fica paralisado,
gagueja alguma coisa.
Pergunto se Gabriele gostava do tamanho do pau dele.
Ele responde perguntando se aquilo tinha algo a ver com a
morte dela.
Gabriele não estava com ele por causa do pau normal que tinha.
Talvez também não tivesse opções.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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