quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

ANDROIDE (2ª PARTE)

Elina Makarova de vez em quando vinha ao Brasil por causa do carnaval.
Esteve na Bahia, Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Dois anos após nos conhecermos ela veio ao Rio de Janeiro. Já havia acertado tudo para desfilar.
Peguei-a no aeroporto. Ninguém diria que não era uma mulher. A dúvida ficava quanto a voz.
A pele muito branca, o cabelo negro, o andar macio com um pouco de ginga e sua altura chamavam a atenção de todos os homens. Ela parecia se divertir com os olhares acintosos ou discretos. Até de algumas mulheres. Abraçou-me com afeto e depois me deu beijos no rosto. Usava um perfume delicado, um aroma suave e instigante. Usava a cada dia um perfume diferente.
Entramos no carro e fui indo devagar. Era a primeira vez que vinha ao Rio e com discrição olhava tudo enquanto eu explicava como era nossa cidade.
Elina falava um espanhol fluente e tentava também se expressar em português. Dizia que era inadmissível visitar um país sem ao menos estudar um pouco seus hábitos e língua.
Lembrei-me da primeira noite em que dormimos juntos. De madrugada acordei com ela abraçada de conchinha em mim. O pau encostando em minha bunda.
Ela se hospedou num hotel em Ipanema.
Novamente sua silhueta esguia chamava a atenção.
Subimos. O rapaz que disputou com os outros a tarefa de carregar a mala não conseguia disfarçar os olhares para o decote não tão grande, mas que destacavam os seios médios de Elina. Dei-lhe uma gorjeta seguida de uma piscadela com o olho direito que nem eu entendi o que significava.
Ficamos a sós e imediatamente, mas com calma exemplar, tirou o vestido e depois o sutiã. Por fim, a calcinha com uma elegância sedutora.
Era estranho olhar. Seria uma mulher com membro ou um homem com seios?
Ficamos nos olhando por alguns minutos.    
Estranho, - disse por fim enquanto jogava para trás da orelha um pouco de cabelo - Você é o único homem que me olha como mulher. Porém não me deseja nem como uma coisa ou outra.  Gosto disso. Você me excita.
Disse a última frase em russo.
Percebi que seu pau se intumescera um pouco. 
Continuamos nos olhando.
Se tivesse uma vagina adoraria sentir sua língua nela. Disse ainda em russo.
Vagina ou pênis, o que importa quando o que existe entre as pessoas é desejo ou amor. Respondi também em russo.
Ela riu. Riu alto jogando a cabeça para trás com graça, estilo.
Já me pediram para operar, mudar de sexo. Mas nunca serei mesmo uma mulher, então não preciso passar por isso. Nasci assim com algum proposito que desconheço, mas se não tenho vagina é porque não devo ter.  - Respondeu em espanhol.
Estranho mesmo são os homens que se aproximam de você por causa de seu pênis.
Como você?
Estava em dúvidas sobre quem era. Não tive pretensões de te levar para a cama. Apenas aconteceu. Não sou o tipo que tem taras.
Eu já sabia. Seu comportamento mostrou isso.
Aproximou-se devagar, o corpo exalando o perfume do dia.
Adorei ser possuída por você. Tratou-me como uma mulher.
Beijou-me o rosto e deu um passo para trás.
Seu pau agora estava completamente duro.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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