Fizeram os pedidos e aceitaram a
sugestão do vinho. Chegaram a Portugal
de tarde e resolveram jantar no próprio hotel. Era a segunda vez que vinham a
Europa e a primeira que visitavam Portugal.
Amigas desde os tempos de escola,
Dulce e Ramona planejaram a viagem como uma espécie de despedida de solteiras
uma vez que ambas estavam de casamento marcado. Queriam aproveitar ao máximo antes
de assumirem um papel tão sério. Os futuros maridos foram obrigados a aceitar,
embora não concordassem que viajassem sozinhas.
Não demorou muito e o garçom
trouxe uma garrafa de champagne.
“Nós pedimos vinho”, informa Ramona.
“A champagne é cortesia das
senhoras daquela mesa”, responde o garçom apontando com discrição.
“Pode levar de volta”, acrescenta
Ramona.
“Não”, impede Dulce, “que mal tem
aceitar”?
“Dulce, essas mulheres devem ser
lésbicas, ou coisa pior”, fala Ramona e dirigindo-se ao garçom pede “pode levar”.
“Não, espera”, intercede Dulce, “elas
podem ser lésbicas, mas aceitar a bebida
não quer dizer que estamos concordando em trepar com elas”.
“Dulce, deixa de ser tonta!
Aceitar é confirmar que queremos dar para elas” diz novamente Ramona, e olhando
para o garçom, ordena: “leva”.
“Não”, insiste Dulce. “Pode
deixar a garrafa”.
O garçom se prepara para abrir a
garrafa.
“Deixa de ser louca Dulce! Eu não
vou transar com mulher nenhuma!”
O garçom serve a bebida. Dulce
ergue a taça em direção as mulheres e faz um brinde como agradecimento.
Ramona entra em pânico.
“Não estou te entendo, Dulce. Não
sabia que gostava de mulher.”
“E não gosto. Sinto curiosidade.
E cá para nós a ruivinha parece ser deliciosa”.
“Não acredito no que estou
ouvindo Dulce!”
“Ramona, é uma oportunidade
única. Depois voltamos para o Brasil e ninguém jamais saberá que fizemos isso.”
Ramona não parecia disposta a
embarcar na proposta de Dulce e continuava resistindo. Entretanto, a amiga foi
falando coisas, demonstrando sua excitação diante do que poderia acontecer e,
se não convenceu Ramona, ao menos despertou a sua curiosidade para a nova experiência
que poderiam viver.
“Não viraremos lésbicas depois de
transarmos com elas. Se transarmos. É só curtição. E lembre-se: viemos nos
despedir da vida de solteiras, fazer o que nos der na telha.”
****
A ruivinha é francesa e se chama
Juliette. Estudante de Artes.
A de cabelos castanhos é alemã,
faz filosofia e se chama Hildegard.
Todas falam num inglês fluente.
****
Dulce, mal a porta do elevador se
fecha, cola seu corpo no da ruivinha e trocam um longo beijo de língua. Ramona assustada,
espera que a de cabelo castanho tome a iniciativa. Mas nada acontece, apenas se
olham e sorriem sem jeito.
****
Dulce e a ruivinha continuam se
atracando pelo corredor até chegar ao apartamento cuja porta é aberta por
Hildergard. Juliete puxa Dulce pelo braço e uma começa a tirar a roupa da
outra.
Ramona continua sem graça e não
sabe como agir.
“É sua primeira vez?”
Ramona balança afirmativamente a
cabeça.
“A minha também”, reponde Hildegard.
Olham as duas deitadas no chão se
beijando com volúpia. As mãos de uma no sexo da outra.
“Elas estão gostando”, afirma
Ramona.
“É.”
Dulce agora chupa os seios da
ruivinha que se contorce de prazer enquanto geme.
“Será que é bom assim?”, insinua
Ramona.
“Já fiz com homem e você?”
“Já. Foi bom, gostei. Ele foi
delicado, carinhoso. E você?”
“Fiz com homem também. Acho que
gostei.”
“Quer experimentar?”
“Já que estamos aqui podemos
tentar, se não gostarmos paramos logo ok?”
Ramona e Juliette se abraçam tímidas,
sem jeito, tremendo, o coração batendo quase na garganta.
Minutos depois, de olhos
fechados, se beijam delicadamente.
Instantaneamente, na memória
afetiva das duas surge a lembrança do primeiro beijo, que como esse também
marcará profundamente suas vidas.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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