DESCOBERTAS
Descobriu que havia se esquecido de como era viver.
Descobriu que vivia sem sentir a própria vida. Era somente
um observador.
Estava próximo dos sessenta. Era como se a vida estivesse se
desmanchando a sua volta. Tudo já não tinha mais sentido.
Olhou o corpo da mulher nua.
Teve vontade de toca-la. Sentir a pele se contraindo ao toque.
Treparam várias vezes naquela noite. Em diferentes locais.
Havia porra no chão próximo a cadeira. Nas duas pontas da cama. No meio da cama. Será que ela gozou ou apenas
fingiu?
Começou a avaliar sua vida.
O que deixara para trás, o que estava levando, coisas que
fez, que deixou de fazer. Todas as
mulheres que não teve.
Mulheres sempre estiveram presentes em sua vida.
Seus erros.
Erros que não cometeu. Que foi levado a cometer. Alguns
necessários.
Outros nem tanto.
Seria um erro fazer amor com aquela mulher tão linda,
perfeita?
Não existe perfeição. Existe um olhar de desejo. Um algo que
vemos e achamos que existe por que estamos carentes de alguma coisa
Mas ele a poderia amar? Mesmo que nem soubesse de quem se
tratava ou o que era esse negócio de
amor? Nunca sentiu amor verdadeiro por qualquer
mulher.
Tinha Elina Makarova, uma transexual russa que conheceu na
Europa. Com ela experimentou vodka pela primeira vez.
Poderia ter amado Elina. Não sabe. Não lembra.
Talvez se ela não tivesse o pau maior do que o dele.
Mas Elina não era mulher.
Isso faria alguma diferença?
Ela parecia mulher. Era tão perfeita quanto essa deitada nua
na cama.
Exceto pela vagina. Uma vagina é diferente de um pênis.
Diferentes porque se completam.
Foi feito assim.
Mas pode ser diferente. Ninguém sabe.
Não tinha todas as respostas.
Queria ter. Mas era apenas um detetive da homicídios investigando
a morte dessa prostituta num motel de quinta categoria.
Ainda bem que o dono dessa espelunca não jogou o corpo na
rua.
- As baratas daqui parecem ser mais limpas.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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