segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Isto não é uma declaração de amor, muito embora eu o pudesse sentir ainda que saibamos da impossibilidade de amarmo-nos como gostaríamos.
Te olho como quem vê uma pintura e tenta imaginar um modo de entrar em teu quadro e viver as coisas maravilhosas que existem em teu mundo. Mas em teu mundo, por obra de Deuses mesquinhos, não é permitido entrar. Cabendo a nós, pequenos joguetes nas mãos deles, viajar em delírios mirando no caminho que teus olhos mostram.
Eu sei do teu corpo como sei do mar e navegar em ambos pode ser belo, maravilhoso, como também fatal. Aqueles que te navegam seguros de uma viagem tranquila, de certo apenas estão preocupados em chegar a outro porto, como marinheiros que se acostumaram a não olhar a paisagem, a não perceber o brilho das águas nem ouvir o som das ondas como eco do canto mavioso das sereias.
Repito, isto não é uma declaração de amor, mas se o fosse eu diria que te navegaria cantando, como fazem os gondoleiros em Veneza pela pura e simples alegria de se perder entre os canais que lhe dão vida.
Ninguém te amará, ao certo, como eu suponho que poderia amar. Porém, por minha própria ingenuidade, típica de qualquer adolescente quando se apaixona pela primeira vez, me flagro sonhando de olhos abertos a abordar teu corpo como se o meu próprio fosse um navio pirata, não para saquear teu tesouro, mas pelo ardor da luta e pelo prazer da conquista. Minha vitória é hastear em teu dorso minha bandeira vendo-a tremular ao vento.
Se isto que escrevo não é uma declaração de amor, o que será então?
Não precisa ser nada, pode ser apenas uma mensagem de carinho e afeto presa em uma garrafa jogada ao mar por um naufrago esperando ser encontrada.

Quisera que fosse esta uma declaração de amor, não feita por mim, mas por aquela pessoa que você espera encontrar um dia para partilhar um mesmo quadro, um mesmo mundo e juntos num único corpo navegar sem rumo numa viagem de alegrias e prazeres.

(A orgia dos cães/IVO LINHARES)
Direitos reservado

Um comentário:

  1. Não tem como ler um conto desse e não comentar.
    É de uma perfeição e encanto enorme, mas uma vez me sinto sugada por ele, sinto como se essas palavras saíssem se mim, parabéns mais uma vez.

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