quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ANDROIDE

Não acho que exista um padrão. Acontece, é a vida e nada mais. Faz parte, só isso.
Não que eu seja assim. Fui sendo. Fiquei sendo. E cada um é aquilo em que se transforma.
Elina Makarova por exemplo. Quis ser outra coisa depois de descobrir o que não era. Gabriele foi o que permitiram que fosse. Shirley não queria ser o que nasceu para ser. As pessoas buscam a felicidade porque não aceitam compartilhar a infelicidade que a vida destinou a cada uma delas. 
Não penso em ser feliz. Talvez seja. Ou não. Porque querer saber? No que isso me modificaria?
Sou apenas um policial. Um distintivo. Um funcionário do governo.
Mas dizem que sou um policial excêntrico. Quase um desajustado. Vivo dia a dia fora do controle de minhas emoções. Elas simplesmente não existem. Isso justifica meu apelido, quase um nome: Androide.
Tive duas mulheres. Marion, a primeira. Ainda não havia entrado para a polícia.  Era filha de um coronel reformado amigo de papai. Fazia sociologia. Papai ficou feliz com meu casamento. Achava que isso faria com que eu mudasse.  Ela me deu um filho. Um garotão. Um intelectual de esquerda. Puxou a mãe sem dúvida.
Ana Alice, a segunda. Ainda estava casado com Marion, um ano e pouco depois que nasceu o guri.  Chef de um restaurante. Uma mulher instantânea, prática, mas fora da cozinha. Quando incorpora a chef fica meticulosa, observadora. Tivemos uma menina. Uma atleta.
Tentei ficar com as duas. Entretanto, depois que se descobriram se tornaram amigas. Duas mulheres unidas deve ser a coisa mais perigosa do mundo.
Fui morar sozinho. De vez em quando os filhos aparecem por lá. Somos todos amigos uns dos outros. A menina andou mal. Perdeu uma competição de ginástica. Ficou arrasada. Falhou em um exercício. Falhar é bom as vezes. Não sei bem porque, talvez faça parte de como vivemos, de como encaramos a vida. Nunca quis ser o primeiro. Os primeiros sempre se sentirão ameaçados pelos segundos, pelos terceiros, pelos quartos. Terá sempre que se superar. Ficar no topo. E quando é superado não consegue conviver bem como isso.
Não descobri quem atropelou Shirley, mesmo porque sabia que ela havia se matado. Em compensação levei um ano e meio para chegar até o cara que havia partido seu coração. Era um engenheiro pai de dois adolescentes. Dizem que o criminoso sempre volta ao local do crime. Não que ele fosse o criminoso, apenas culpado. Apenas o motivo para Shirley querer acabar com a própria vida.
Ele chorou. Ou fingiu. Poderia ter tido pena dele.
Disse que ela queria ficar com ele, mas sabe como é, os filhos adolescentes, a ex-mulher, os amigos, o trabalho, a sociedade... o diabo-a-quatro! Como poderia explicar a toda essa gente sua tara por transexuais? O que iriam pensar dele?
Era um pobre coitado inventando uma sexualidade que usava a noite, como uma roupa que pegava no armário para ir ao baile.
Não sou como ele. Gosto de Elina como pessoa. Sei que ela não é uma mulher. Sei que ela não é uma coisa querendo ser outra. Não tenho desejo por travestis ou transexuais. Mas gosto de estar com Elina. Se sentisse amor por ela não teria medo ou vergonha de dizer ou assumir isso.
Afinal, sou um policial excêntrico.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)

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