ANDROIDE
Não acho que exista um padrão. Acontece, é a vida e nada
mais. Faz parte, só isso.
Não que eu seja assim. Fui sendo.
Fiquei sendo. E cada um é aquilo em que se transforma.
Elina Makarova por exemplo. Quis
ser outra coisa depois de descobrir o que não era. Gabriele foi o que
permitiram que fosse. Shirley não queria ser o que nasceu para ser. As pessoas
buscam a felicidade porque não aceitam compartilhar a infelicidade que a vida
destinou a cada uma delas.
Não penso em ser feliz. Talvez
seja. Ou não. Porque querer saber? No que isso me modificaria?
Sou apenas um policial. Um
distintivo. Um funcionário do governo.
Mas dizem que sou um policial
excêntrico. Quase um desajustado. Vivo dia a dia fora do controle de minhas
emoções. Elas simplesmente não existem. Isso justifica meu apelido, quase um
nome: Androide.
Tive duas mulheres. Marion, a
primeira. Ainda não havia entrado para a polícia. Era filha de um coronel reformado amigo de
papai. Fazia sociologia. Papai ficou feliz com meu casamento. Achava que isso
faria com que eu mudasse. Ela me deu um
filho. Um garotão. Um intelectual de esquerda. Puxou a mãe sem dúvida.
Ana Alice, a segunda. Ainda
estava casado com Marion, um ano e pouco depois que nasceu o guri. Chef de um restaurante. Uma mulher
instantânea, prática, mas fora da cozinha. Quando incorpora a chef fica
meticulosa, observadora. Tivemos uma menina. Uma atleta.
Tentei ficar com as duas.
Entretanto, depois que se descobriram se tornaram amigas. Duas mulheres unidas
deve ser a coisa mais perigosa do mundo.
Fui morar sozinho. De vez em
quando os filhos aparecem por lá. Somos todos amigos uns dos outros. A menina
andou mal. Perdeu uma competição de ginástica. Ficou arrasada. Falhou em um
exercício. Falhar é bom as vezes. Não sei bem porque, talvez faça parte de como
vivemos, de como encaramos a vida. Nunca quis ser o primeiro. Os primeiros
sempre se sentirão ameaçados pelos segundos, pelos terceiros, pelos quartos.
Terá sempre que se superar. Ficar no topo. E quando é superado não consegue
conviver bem como isso.
Não descobri quem atropelou
Shirley, mesmo porque sabia que ela havia se matado. Em compensação levei um
ano e meio para chegar até o cara que havia partido seu coração. Era um
engenheiro pai de dois adolescentes. Dizem que o criminoso sempre volta ao
local do crime. Não que ele fosse o criminoso, apenas culpado. Apenas o motivo
para Shirley querer acabar com a própria vida.
Ele chorou. Ou fingiu. Poderia
ter tido pena dele.
Disse que ela queria ficar com
ele, mas sabe como é, os filhos adolescentes, a ex-mulher, os amigos, o
trabalho, a sociedade... o diabo-a-quatro! Como poderia explicar a toda essa
gente sua tara por transexuais? O que iriam pensar dele?
Era um pobre coitado inventando
uma sexualidade que usava a noite, como uma roupa que pegava no armário para ir
ao baile.
Não sou como ele. Gosto de Elina
como pessoa. Sei que ela não é uma mulher. Sei que ela não é uma coisa querendo
ser outra. Não tenho desejo por travestis ou transexuais. Mas gosto de estar
com Elina. Se sentisse amor por ela não teria medo ou vergonha de dizer ou
assumir isso.
Afinal, sou um policial excêntrico.
(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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