ABERRAÇÕES,
ANOMALIAS E ANORMALIDADES
Deu
sinal mesmo sabendo que o ônibus não pararia. Os motoristas dessa linha eram
muito rígidos quanto a parar fora do ponto. Dali da porta do trabalho até o
ponto eram uns dez minutos andando. Mas ele parou um pouco mais a frente. Ela correu.
“Obrigada” disse ofegante ao motorista
que era um rapaz novo. Ele só fez um gesto com a cabeça respondendo.
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o interior do ônibus mas o único lugar disponível é o banco reservado á idosos
e gestantes. Parece que é seu dia de sorte e se continuar assim poderá ir
sentada até em casa. Senta-se e faz
contas para saber o quanto estava ganhando por pegar o ônibus antes do ponto, e
que na pratica significaria mais um tempo com seu filho antes que dormisse.
Normalmente quando chegava, ele já estava dormindo. Doía-lhe vê-lo crescer e
não estar acompanhando seu crescimento. Sábados, domingos e feriados era
realmente muito pouco para uma mãe conviver com seu filho. O primeiro e talvez
o único que terá.
Fecha
os olhos e pensa naquela coisinha que cresce, já ensaiando os primeiros passos,
dizendo alguma palavra nova todo dia. Nem pensa mais no pai dele e em como pode
se envolver com uma pessoa tão mau-caráter. Como conseguiu se enganar com
tantas mentiras, ser tão tola para acreditar naquele amor que acabou quando
disse que estava grávida. E pior, burra ao extremo, ainda chorou tanto por
sentir falta de um homem que nem se preocupou em saber se o filho nasceu ou
como fez para se virar sozinha. Sozinha não, pelo menos teve o apoio da mãe.
O
ônibus pára e não quer abrir os olhos. Ainda tem um lugar vago ao seu lado e
não precisa ceder o seu por enquanto. Espera que não entrem idosos ou mulheres grávidas. Alguém senta e
algo toca em seu braço. Continua não querendo abrir os olhos. A pessoa se mexe e alguma coisa fica batendo em
seu braço. Abre devagar os olhos.
A
mulher ainda não achou a posição ideal para ela, a grande bolsa e a criança que
tem no colo. Sem jeito, a mulher a olha rápido com um sorriso tolo e pede
desculpas por estar incomodando.
Com
um gesto de cabeça que pode significar
muitas coisas ela responde mas sem dizer nenhuma palavra. É uma mulher magra e
alta, com uma blusa decotada por onde facilmente se podem ver os pequenos
seios. O excesso de maquiagem se confunde com marcas e manchas. Olha a criança
embrulhada numa manta talvez branca, com marcas de vomito ou resto de
mamadeira. A criança tem o olhar vago e imóvel, como se não visse o mundo, ou
se visse o ignorasse. Sem muito jeito a mulher tenta refazer o “embrulho”. Percebe, com
surpresa que a criança tem algum problema. Tenta fechar os olhos
novamente, mas a outra começa a falar:
- Não é minha – diz a mulher ainda com aquele
sorriso idiota – minha irmã não a quer porque nasceu assim. Mas estou tentando
adotar. Já falei com o advogado da associação e ele esta estudando o caso.
Disse que tenho grandes chances de conseguir, principalmente porque a criança é
meu sobrinho e isso facilita. O problema é
a nossa justiça que se apega a valores arcaicos. Eles preferem jogar essa
criança num abrigo, num sanatório e deixar apodrecer do que permitir que eu
cuide dela.
Suas
duvidas se dissipam quando ouve com mais clareza o tom daquela voz. Precisa
responder algo mas não consegue. Por delicadeza olha novamente a criança apenas
para disfarçar. Quer perguntar o que a criança tem, mas sente vergonha de
falar.
- Sabe – continua ela, agora olhando fixamente para
a mulher e ainda querendo ajeitar a manta – não sei como uma pessoa pode fazer
isso, abandonar um filho. Mas sabe o que é, foi o vicio. De uma hora pra outra ela começou a usar drogas por
causa de um namorado e ai destrambelhou tudo. Minha irmã era o xodó lá de casa,
uma menina que sempre teve quase tudo porque mamãe fazia todas as vontades.
Mamãe tinha vergonha de como eu era e por isso só cuidava dela. Só não fez
aborto porque usava o dinheiro pra
comprar a droga e porque quando mamãe soube que era menino não deixou tirar.
Parece até castigo. Se não queria engravidar porque não se preveniu? Aposto que se a criança fosse perfeita, loura
e de olho azul ela ia mostrar pra todo mundo. Coisa de pobre mesmo,
né? Depois, nem a avó quis saber, disse que já tinha coisa errada na família e
não ia querer mais uma... ainda sobrou pra
mim. Como se eu tivesse culpa por não nascer no corpo certo. Quem não agüentou
mesmo foi papai. Um dia sem mais nem menos depois de um bate-boca pegou as
coisas dele e sumiu. Mamãe disse que ele tinha
outra mulher e que ela não precisava dele porque ele era um traste,
etc., etc, e tal, sabe como são essas coisas né, nessas horas se fala tudo que está atravessado na garganta. Mas
enfim, aqui estamos. Sabe, estou esperando que o governo libere a operação pelo
SUS porque não tenho dinheiro pra tal
da va-gi-no-plas-tia que é a mudança de
sexo no caso masculino, que é o meu. Mas a coisa é muito complicada, sabe, tudo
é problema pra nós. Tem-se que tomar muito hormônio, acompanhamento
psicológico... diz que a gente tem que ter certeza de que quer mesmo mudar de
sexo. Como se desde pequena não soubesse que havia algo diferente acontecendo
comigo. As vezes acho que seria mais fácil um transplante de cabeça, sabe como
é né, pegar um corpo de mulher e botar nossa cabeça lá, é menos complicado.
A
mulher ouve tudo calada e começa a duvidar que não era seu dia de sorte e torce
para que entre um idoso e ela possa dar seu lugar a ele. Incrível como as pessoas falam de si para
estranhos.
- Mas existe coisa pior do que o meu problema. Pelo menos posso me virar, dou meu
jeito, enfrento a barra porque não posso
ficar me escondendo e deixar de viver a minha vida. Mas ele, coitado, não tem
ninguém alem de mim.
Tenta
levantar a criança, que é quase um boneco, para mostrar. Não percebe o constrangimento da outra e continua a falar
olhando para ele com um imenso sorriso.
- Sabe, assim que nasceu me apaixonei por ele. Foi
uma coisa de identificação, como se algo dentro de mim dissesse que éramos
iguais e que precisava cuidar dele. Não foi por pena porque minha irmã
rejeitou, porque minha mãe ignorou... foi amor de mãe.
A
mulher não consegue esboçar nenhuma reação. Sente-se paralisada.
- É claro que isso é um exagero de minha parte, mas
a senhora entende né? É instinto, afinal, se não fosse pelo corpo sou quase uma
mulher. Desde que nasci que me sinto assim, com esse desejo de me vestir, de me
pintar, de viver como mulher. Mas sofri muito, não pense que foi fácil assumir
o que sou hoje. Sabe, o mundo é muito preconceituoso... acham que sou uma
aberração, uma anomalia, uma anormalidade. Ninguém sequer pode entender o que
senti esses anos todos, lutando por um espaço, por um pouco de respeito. Sabe,
sou uma pessoa independente de qualquer coisa, e é isso que deveriam ver. Sou
diferente é das outras que ficam se prostituindo, se vulgarizando. É claro que
isso não acontece com todo mundo, depende mesmo de cada um, de como quer viver.
Mas desde o inicio jurei que não seria uma promiscua, que não venderia meu
corpo, não seria um objeto. Sabe, acho que esse é o papel de qualquer pessoa e
principalmente de uma mulher. Historicamente nós mulheres sempre fomos encaradas
como objetos a disposição dos homens para nos usarem da forma que quisessem.
Isso acontece ainda hoje e a situação do transexual é ainda mais difícil porque
ele não se valoriza, pelo contrario, não se reconhece como pessoa, prefere
aceitar a imagem e o papel de paria, de escoria, que esta ali para isso mesmo,
ser usado e descartado. Procurei
estudar, ser independente. Formei-me em administração e acredite, só consegui
emprego decente porque fiz concurso público, porque aqui fora te ignoram, te descriminam.
Um horror. Você consegue emprego em termas, naquelas casas de prostituição, e
assim mesmo pra varrer o chão, fazer
limpeza.
As
palavras se amontoam deixando a mulher mais confusa com o que ela ou ele diz.
Mas pode imaginar seu sofrimento, como
pessoa. Sim, ao seu lado esta uma pessoa e não uma coisa. Uma pessoa com
sentimentos, capaz de abraçar uma criança que não responde ao mundo como
deveria. Uma pessoa que abre mão de seus problemas para cuidar de uma criança
que precisará de atenção total até que sua missão esteja completa. Com certeza
não é uma anomalia que sentou ao seu lado.
- A senhora desculpe estar falando essas coisas,
mas as vezes não tenho com quem falar. Como ele, que talvez não fale nunca, só
me olhe com esses olhos grandes e eu nem saiba o que ele quer de mim. Sei que
tudo será muito mais difícil para ele porque nunca poderá se livrar do
preconceito de ter nascido assim, pois vão olhá-lo com nojo, com indiferença,
como uma monstruosidade. Escutaremos muitas piadinhas, seremos objetos de
escárnio mas não me importarei porque já sei qual é o meu lugar e papel neste
mundo.
Sente
vontade de chegar em casa e abraçar seu filho. Amá-lo ainda mais por ter
nascido perfeito, apesar de todo sofrimento por que passou. Mas agora sabe que
mesmo que ele tivesse nascido como aquela criança ali o amaria do mesmo modo.
- Não se preocupe - afinal consegue dizer – tudo na
vida tem uma razão de acontecer, existe um projeto para cada um de nós. Talvez
esse seja o seu e pelo que me contou parece que esta no caminho certo.
E
virando-se para a mulher pergunta, enquanto estende os braços em direção a
criança:
- Posso segurá-la?