quinta-feira, 28 de junho de 2012

A LOBA


A LOBA


                Depois do “oi tudo bem?” e dos beijinhos em cada lado do rosto sentaram-se e não se falou mais nada. Ficaram assim, um em frente ao outro, pensando ou não sobre quem começaria a falar alguma coisa.  Ambos sabiam que alguma coisa devia ser dita, ela achando que caberia a ele  prosseguir mas a julgar pelo modo como se sentou, as pernas cruzadas em xis, o olhar tranqüilo piscando para o nada, teria que ser dela a iniciativa. “Mas porque eles hoje não tomam mais a iniciativa”, pensava ela enquanto ele limpava os óculos. Mexeu-se na cadeira varias vezes mostrando seu desconforto, porém ele parecia compenetrado em sua tarefa. Então, discretamente, olhou o relógio sobre a mesa e depois para a grande janela a sua esquerda. Anoitecia.
          "Perco meu tempo aqui”, pensava, enquanto o olhava dissimuladamente. É claro que percebiam que todo esse silencio era apenas  disfarce, camuflagem para encobrir o que um precisava ouvir o que o outro deveria falar.
                Era o terceiro encontro e não havia necessidade de tanta cerimônia de ambas as partes, entretanto ela ainda não se sentia tão a vontade e ele, por experiência, deveria ter percebido isso procurando puxar alguma coisa dela. Mas não era essa  sua intenção, pois não pretendia facilitar em nada o rumo dos acontecimentos. Ela até pensou em continuar com o assunto  da última vez que se encontraram. Ele ficou impressionado como ela havia definido o casamento: apenas um engodo  onde as mulheres fingem deixar os homens acreditar que tem direito e  poder sobre elas.
             Viu as cores do dia se desmanchando,  cedendo espaço para a noite. Ficou ansiosa e para disfarçar fechou os olhos. Ás vinte e três e cinqüenta e dois minutos será lua cheia. A Grande Mãe despertando nela seu lado escuro, oculto, libertando Lilith, a parte secreta de sua psique que a faz ter poder e domínio sobre sua sexualidade.  Devia falar isso a ele porém, por mais que sinta essa necessidade sabe que ainda não deve. Como explicar que em noites de lua cheia seu corpo se transforma e ela pode ter a forma de uma Marilyn Monroe ou de uma Rita Hayworth, com curvas e modos sensuais, bem diferente da Vênus de Willendorf que na verdade é.
               Lembra com exatidão a primeira vez que isso lhe aconteceu: 26 de outubro de 2007. Depois soube que neste dia o satélite esteve mais próximo da Terra, deixando-a 30% mais brilhante por estar 14% maior.
        Naquela noite acordou assustada, o corpo formigando, fervendo e simplesmente não acreditou naquilo que viu diante do espelho. Era uma mulher absurdamente linda, extremamente erótica e sensual, o que sempre pensou em ser na vida mas por uma razão desconhecida isso não lhe acontecera.      
           Entretanto, essa transformação não a fazia sentir-se uma “devoradora de homens”, ao contrario, eles nada significavam, nem mesmo como simples objetos para lhe dar prazer. Suas atenções se voltavam para as pessoas do mesmo sexo, coisa que até então nunca havia experimentado.
           Como uma ladra, invadiu o quarto dos pais e pegou no closet o fraque preto do pai e vestiu-se como Marlene Dietrich no filme Marrocos. A cena do beijo entre as duas mulheres rodava em sua cabeça como num filme com defeito, voltando sempre para a mesma cena,  deixando-a extremamente excitada. Na rua, cigarro no canto dos lábios, sentiu-se como uma loba no cio em busca de uma mulher para saciar seus desejos, aparentemente libertos de qualquer preconceito.
          Duas noites depois, voltou a mesma boate freqüentada por  mulheres em busca de prazer e diversão. Dessa vez, sentia-se a própria Gilda, magnificamente interpretada pela bela Rita Hayworth, e por essa razão, todas as mulheres a olharam, com desejo e inveja.
           Nesse instante esquecia por momentos que odiava ser obrigada a ter que ir aquelas horríveis sessões com o psicanalista, um homem insosso que se sentava de pernas cruzadas e ficava olhando o vazio sem lhe dizer nada, ou pior, poucas palavras. Odiava ainda mais os encontros com o endocrinologista, suas dietas e recomendações. Odiava sobretudo, a irmã magra e faceira, cujo único e maior defeito foi ter nascido antes dela e talvez por isso ter recebido dos pais o gene da beleza, nada deixando para ela. Odiava as roupas que deformavam seu corpo e a ausência de olhares dos rapazes. Odiava também a melhor amiga com seus óculos fundo de garrafa, tão desengonçada e tola, capaz de demorar uma eternidade para rir de uma piada mais sem graça do que ela. Odiava os pais que, secretamente, amavam  mais a irmã linda e inteligente. Odiava intensamente a vida que levava e todos os remédios que se obrigava a tomar e o pouco efeito benéfico que faziam ao seu corpo. Odiava não ser convidada para as festas, ou ter que ir obrigada e ficar sentada esperando que alguém a tirasse para dançar, o que nunca acontecia. Odiava ver os outros se divertindo enquanto polidamente  recusava os  doces e salgadinhos que lhe ofereciam, talvez por pura maldade. Odiava crescer tão desprezada pelas meninas magras e bonitas e ser obrigada a brincar com aqueles meninos tolos e afeminados mas que por algum motivo aceitavam que ela os dominasse.  Brincavam quase sempre como ela sendo uma mãe má, perversa, que castiga os filhos sem qualquer motivo e eles adoravam os castigos, as humilhações. Secretamente todos se sentiam felizes brincando assim. Nunca pode entender como podiam sentir prazer naquilo.
             Podia dizer a ele sobre essas coisas que fazia na infância e que lhe davam um grande prazer, porem ele não lhe perguntava nada, agindo como todos os outros que a ignoravam.
              Via  o homem sentado a sua frente, o olhar sem vida, imperturbável e teve vontade de pular sobre ele, rasgar-lhe as roupas e arrancar daquela cara de bunda os olhos que nada viam para chupá-los como uvas acidas e intragáveis que depois cuspiria com indisfarçável prazer. Obrigaria-o a meter aquele membro ridículo em sua vagina fazendo-a gozar. Depois sairia devagar do consultório deixando-o caído, uma das mãos segurando o membro em frangalhos e a outra  tateando o chão a procura do bagaço de seus olhos. Passaria pela recepcionista com calma e sensualmente mostraria a língua gosmenta de córnea e restos de íris para que a noticia se espalhasse e o mundo visse do que era capaz.
            De tão real que parecia, esse pensamento acabou por assustá-la. Abriu os olhos e pode ver isso no olhar interrogativo do analista que entre abriu os lábios como quem quisesse perguntar alguma coisa, mas não pronunciou nenhuma palavra. 
             “Ah se ele soubesse o quanto existe de mundo dentro do meu corpo poderia ser menos idiota com essa fantasia de dono do saber! Até quando aguentará ficar calado? Dez, quinze, cem sessões? Podemos brincar disso para sempre mas uma hora isso perderá a graça. Ele deve ser como os inquisidores  que precisavam torturar os inocentes para descobrir que todas as verdades que diziam eram somente mentiras para fazê-los dormir mais tranqüilos.”
             Resolve cruzar as pernas deixando grande parte da coxa visível para depois olhá-lo bem dentro dos olhos para saber se  a olharia ou simplesmente desviaria o olhar. Entretanto, ele continua com o olhar projetado no vazio. Muitos minutos se passaram até que o bip-bip do despertador  indica o final da consulta.  Ele rapidamente se levanta e rigorosamente repete a mesma frase das consultas anteriores:
- Ok, até a próxima consulta.
             Ao passar pela secretária na recepção atira-lhe a mordaça imaginaria enquanto acena um até logo.
             Já na rua caminha em direção ao shopping e lá chegando vai direto a praça de alimentação comer dois ou três sanduíches acompanhados de um grande copo de refrigerante. Depois vaga pelos corredores, olhando vitrines e as vendedoras magras, lindas, verdadeiras mísseis, mulheres saídas de capas de revistas. Odeia aquela exposição gratuita de beleza, dos corpos quase perfeitos. Inveja cada detalhe que observa, mas  como o lobo faminto que não consegue alcançar as uvas e as quer ver verdes, prefere mentir dizendo a si mesma que a lua a faz ser feliz do modo que é.
          Chega em casa quase na hora do jantar e a mãe, sentada na sala olhando a revista de modas faz a rotineira pergunta: “como foi na terapia?” e ela responde do mesmo modo de sempre: “bem, conversamos muito.” Enquanto sobe as escadas para o segundo andar avisa que não ira jantar porque tomou um suco na rua e precisa manter a dieta. Não vê, mas sente que a mãe esta orgulhosa dela.
          Enquanto a irmã toma banho ela vasculha seu  armário até achar aquele vestido que lembra Anne Baxter  interpretando Eve Harrington no filme A Malvada.
           Em seu próprio quarto abraça-se ao vestido e rodopia pelo quarto. Estica-o na cama e  enquanto toma os antidepressivos torce para que a hora passe rápido e possa ver de sua janela a imensa lua.
              Esta noite sairia em busca de uma Bete Davis para amar.


(Este Conto faz parte do livro "O ARCO-IRIS NO FIM DO POTE DE OURO" de Ivo Linhares)

Um comentário:

  1. Que delícia de conto... Uma mistura de realidade e desejos de uma Mulher...
    Belíssimo Ivo!!

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