A LOBA
Depois
do “oi tudo bem?” e dos beijinhos em cada lado do rosto sentaram-se e não
se falou mais nada. Ficaram assim, um em frente ao outro, pensando ou não sobre
quem começaria a falar alguma coisa.
Ambos sabiam que alguma coisa devia ser dita, ela achando que caberia a
ele prosseguir mas a julgar pelo modo
como se sentou, as pernas cruzadas em xis, o olhar tranqüilo piscando para o
nada, teria que ser dela a iniciativa. “Mas porque eles hoje não tomam mais a
iniciativa”, pensava ela enquanto ele limpava os óculos. Mexeu-se na cadeira
varias vezes mostrando seu desconforto, porém ele parecia compenetrado em sua
tarefa. Então, discretamente, olhou o relógio sobre a mesa e depois para a
grande janela a sua esquerda. Anoitecia.
"Perco
meu tempo aqui”, pensava, enquanto o olhava dissimuladamente. É claro que
percebiam que todo esse silencio era apenas
disfarce, camuflagem para encobrir o que um precisava ouvir o que o
outro deveria falar.
Era
o terceiro encontro e não havia necessidade de tanta cerimônia de ambas as
partes, entretanto ela ainda não se sentia tão a vontade e ele, por
experiência, deveria ter percebido isso procurando puxar alguma coisa dela. Mas
não era essa sua intenção, pois não
pretendia facilitar em nada o rumo dos acontecimentos. Ela até pensou em
continuar com o assunto da última vez
que se encontraram. Ele ficou impressionado como ela havia definido o
casamento: apenas um engodo onde as
mulheres finge m deixar os homens acreditar que tem direito e poder sobre elas.
Viu
as cores do dia se desmanchando, cedendo
espaço para a noite. Ficou ansiosa e para disfarçar fechou os olhos. Ás vinte e
três e cinqüenta e dois minutos será lua cheia. A Grande Mãe despertando nela
seu lado escuro, oculto, libertando Lilith, a parte secreta de sua psique que a
faz ter poder e domínio sobre sua sexualidade.
Devia falar isso a ele porém, por mais que sinta essa necessidade sabe
que ainda não deve. Como explicar que em noites de lua cheia seu corpo se
transforma e ela pode ter a forma de uma Marilyn Monroe ou de uma Rita
Hayworth, com curvas e modos sensuais, bem diferente da Vênus de Willendorf que
na verdade é.
Lembra com exatidão a primeira vez que isso lhe aconteceu: 26 de
outubro de 2007. Depois soube que neste dia o satélite esteve mais próximo da
Terra, deixando-a 30% mais brilhante por estar 14% maior.
Naquela
noite acordou assustada, o corpo formigando, fervendo e simplesmente não
acreditou naquilo que viu diante do espelho. Era uma mulher absurdamente linda,
extremamente erótica e sensual, o que sempre pensou em ser na vida mas por uma
razão desconhecida isso não lhe acontecera.
Entretanto,
essa transformação não a fazia sentir-se uma “devoradora de homens”, ao
contrario, eles nada significavam, nem mesmo como simples objetos para lhe dar
prazer. Suas atenções se voltavam para as pessoas do mesmo sexo, coisa que até
então nunca havia experimentado.
Como
uma ladra, invadiu o quarto dos pais e pegou no closet o fraque preto do pai e
vestiu-se como Marlene Dietrich no filme Marrocos. A cena do beijo entre as
duas mulheres rodava em sua cabeça como num filme com defeito, voltando sempre
para a mesma cena, deixando-a
extremamente excitada. Na rua, cigarro no canto dos lábios, sentiu-se como uma
loba no cio em busca de uma mulher para saciar seus desejos, aparentemente
libertos de qualquer preconceito.
Duas
noites depois, voltou a mesma boate freqüentada por mulheres em busca de prazer e diversão. Dessa
vez, sentia-se a própria Gilda, magnificamente interpretada pela bela Rita
Hayworth, e por essa razão, todas as mulheres a olharam, com desejo e inveja.
Nesse
instante esquecia por momentos que odiava ser obrigada a ter que ir aquelas horríveis
sessões com o psicanalista, um homem insosso que se sentava de pernas cruzadas
e ficava olhando o vazio sem lhe dizer nada, ou pior, poucas palavras. Odiava
ainda mais os encontros com o endocrinologista, suas dietas e recomendações.
Odiava sobretudo, a irmã magra e faceira, cujo único e maior defeito foi ter
nascido antes dela e talvez por isso ter recebido dos pais o gene da beleza,
nada deixando para ela. Odiava as roupas que deformavam seu corpo e a ausência
de olhares dos rapazes. Odiava também a melhor amiga com seus óculos fundo de
garrafa, tão desengonçada e tola, capaz de demorar uma eternidade para rir de
uma piada mais sem graça do que ela. Odiava os pais que, secretamente,
amavam mais a irmã linda e inteligente.
Odiava intensamente a vida que levava e todos os remédios que se obrigava a
tomar e o pouco efeito benéfico que faziam ao seu corpo. Odiava não ser
convidada para as festas, ou ter que ir obrigada e ficar sentada esperando que
alguém a tirasse para dançar, o que nunca acontecia. Odiava ver os outros se
divertindo enquanto polidamente recusava
os doces e salgadinhos que lhe
ofereciam, talvez por pura maldade. Odiava crescer tão desprezada pelas meninas
magras e bonitas e ser obrigada a brincar com aqueles meninos tolos e afeminados
mas que por algum motivo aceitavam que ela os dominasse. Brincavam quase sempre como ela sendo uma mãe
má, perversa, que castiga os filhos sem qualquer motivo e eles adoravam os
castigos, as humilhações. Secretamente todos se sentiam felizes brincando assim.
Nunca pode entender como podiam sentir prazer naquilo.
Podia
dizer a ele sobre essas coisas que fazia na infância e que lhe davam um grande
prazer, porem ele não lhe perguntava nada, agindo como todos os outros que a
ignoravam.
Via o homem sentado a sua frente, o olhar sem
vida, imperturbável e teve vontade de pular sobre ele, rasgar-lhe as roupas e
arrancar daquela cara de bunda os olhos que nada viam para chupá-los como uvas
acidas e intragáveis que depois cuspiria com indisfarçável prazer. Obrigaria-o
a meter aquele membro ridículo em sua vagina fazendo-a gozar. Depois sairia
devagar do consultório deixando-o caído, uma das mãos segurando o membro em
frangalhos e a outra tateando o chão a
procura do bagaço de seus olhos. Passaria pela recepcionista com calma e
sensualmente mostraria a língua gosmenta de córnea e restos de íris para que a
noticia se espalhasse e o mundo visse do que era capaz.
De
tão real que parecia, esse pensamento acabou por assustá-la. Abriu os olhos e
pode ver isso no olhar interrogativo do analista que entre abriu os lábios como
quem quisesse perguntar alguma coisa, mas não pronunciou nenhuma palavra.
“Ah
se ele soubesse o quanto existe de mundo dentro do meu corpo poderia ser menos
idiota com essa fantasia de dono do saber! Até quando aguentará ficar calado?
Dez, quinze, cem sessões? Podemos brincar disso para sempre mas uma hora isso
perderá a graça. Ele deve ser como os inquisidores que precisavam torturar os inocentes para descobrir
que todas as verdades que diziam eram somente mentiras para fazê-los dormir
mais tranqüilos.”
Resolve
cruzar as pernas deixando grande parte da coxa visível para depois olhá-lo bem
dentro dos olhos para saber se a olharia
ou simplesmente desviaria o olhar. Entretanto, ele continua com o olhar
projetado no vazio. Muitos minutos se passaram até que o bip-bip do
despertador indica o final da
consulta. Ele rapidamente se levanta e
rigorosamente repete a mesma frase das consultas anteriores:
- Ok, até a próxima consulta.
Ao
passar pela secretária na recepção atira-lhe a mordaça imaginaria enquanto
acena um até logo.
Já
na rua caminha em direção ao shopping e lá chegando vai direto a praça de
alimentação comer dois ou três sanduíches acompanhados de um grande copo de
refrigerante. Depois vaga pelos corredores, olhando vitrines e as vendedoras
magras, lindas, verdadeiras mísseis, mulheres saídas de capas de revistas.
Odeia aquela exposição gratuita de beleza, dos corpos quase perfeitos. Inveja
cada detalhe que observa, mas como o
lobo faminto que não consegue alcançar as uvas e as quer ver verdes, prefere
mentir dizendo a si mesma que a lua a faz ser feliz do modo que é.
Chega
em casa quase na hora do jantar e a mãe, sentada na sala olhando a revista de
modas faz a rotineira pergunta: “como foi na terapia?” e ela responde do mesmo
modo de sempre: “bem, conversamos muito.” Enquanto sobe as escadas para o
segundo andar avisa que não ira jantar porque tomou um suco na rua e precisa
manter a dieta. Não vê, mas sente que a mãe esta orgulhosa dela.
Enquanto
a irmã toma banho ela vasculha seu
armário até achar aquele vestido que lembra Anne Baxter interpretando Eve Harrington no filme A
Malvada.
Em
seu próprio quarto abraça-se ao vestido e rodopia pelo quarto. Estica-o na cama
e enquanto toma os antidepressivos torce
para que a hora passe rápido e possa ver de sua janela a imensa lua.
Esta
noite sairia em busca de uma Bete Davis para amar.
Que delícia de conto... Uma mistura de realidade e desejos de uma Mulher...
ResponderExcluirBelíssimo Ivo!!