quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A LOBA (CONTINUAÇÃO - PARTE 1)

SUSTO

Em seu pequeno escritório a velha lésbica observava pelo circuito interno o movimento da boate sem muito interesse. Quase sempre as mesmas caras em busca de um flerte, de uma noite de sexo sem compromisso.
Subitamente assustou-se com a garota gorda enfiada em um vestido que seguramente não havia sido feito para ela.  Já havia visto muitas desajustadas perdidas querendo chamar a atenção de outra mulher, porém aquela beirava o ridículo.
A velha lésbica não costumava fazer julgamento das frequentadoras de sua boate. Um sentimento de pena desceu da cabeça ao seu coração que a fez, instintivamente se comunicar  com a garçonete no bar.
- Filhota – tratava suas funcionárias quase sempre desse modo – a menina gordinha com o vestido apertado vai chegar até ai daqui a pouco. Veja se descobre o que ela pretende.
- Pode deixar – respondeu a garçonete que em seguida passou a informação ás outras meninas do balcão.
Não demorou muito e a garota se debruçou sobre o balcão pedindo uma caipirinha.
- Você não é menor de idade é? – Perguntou a garçonete puxando assunto.
- Claro que não! Como acha que entrei? Tive que mostrar a identidade para as meninas lá fora.
A garçonete riu.
- Mas você não tem rosto de quem tem dezoito anos. Te daria uns quinze no máximo.
A garota riu deixando a cabeça tombar um pouco para a esquerda fazendo com que o cabelo lhe cobrisse parte do rosto.
- Uau! Mas sinceramente não gostaria de ter ou estar com quinze anos novamente!
- Mas é uma idade tão legal! Vai dizer que seus quinze anos foram traumáticos? Pais castradores, irmãos pentelhos?
- Tudo isso e mais um pouco! Minha família é um bando de chatos!
- Sei como é. Meu pai e meu irmão mais velho viviam pegando no meu pé. Namorar nem pensar. Salvo se o cara fosse escolhido por eles. Pode isso?
A garçonete entrega a bebida a garota que aproveita para segurar na mão dela enquanto a olha de modo malicioso. Depois prova a bebida e confessa:
- Uma delicia! Você nasceu para isso menina!
- Que bom – responde a garçonete correspondendo ao sorriso – Estarei aqui para te atender no que precisar. Meu nome é Angélica. E o seu?
Outra mulher se aproxima e pede uma bebida.
- Eve.
- Eva?
- Não, Eve. Eve Harrington.
Outra mulher se aproxima e pede uma bebida. A garçonete se afasta.
A garota saboreando a bebida pesquisa com olhos de águia o salão em busca de algo que lhe desperte o tesão.  
Havia de tudo a sua volta. Altas, magras, jovens, senhoras, típicas lésbicas com seu jeito masculinizado, garotas tímidas ou se fazendo de tímidas, umas muito alegres dançando, outras com seus pares trocando longos beijos.
A velha lésbica acompanhava pelo monitor a garota bebendo e olhando a sua volta.  Chamou novamente a atendente do bar.
- Já descobriu alguma coisa?
- Olha, não muito. É uma daquelas meninas que a família quer controlar. O nome dela é Eve. Eve Harrington.
A garçonete ouviu como resposta uma sonora gargalhada.
- O que foi? A senhora a conhece?
A velha lésbica continuou rindo, depois respondeu:
- Não, nunca a vi. Mas esse nome é de um personagem de filme da década de cinquenta. Se for mesmo o nome verdadeiro significa que a mãe é uma doida por cinema. Se descobrir mais alguma coisa me fale. Até logo.

A velha lésbica voltou a rir. Como há muito tempo não fazia.



EM BUSCA DA PRESA

Antes que a caipirinha chegasse ao fim do copo a garota já se sentia relaxada. O corpo começou a oscilar no ritmo da música. Entretanto preferiu ficar por ali, observando, espreitando, selecionando. Uma loba farejando o cheiro da presa. Os olhos percorriam o salão devagar, indo e vindo várias vezes. Até que se deteve numa mulher quase que escondida atrás de uma coluna. As mulheres que se aproximavam dela eram logo repelidas com uma frase curta que Eve supos ser "estou esperando alguém".   Ela não bebia nem dançava apenas olhava as mulheres dançando, se beijando, se abraçando, com um olhar interrogativo. 
Escolhida a presa, Eve voltou-se para Agelica e pediu um refrigerante. Não queria se aproximar da mulher com cheiro de alcool.
A velha lesbica movimentou a camera na direção em que Eve projetava o olhar de forma insistente. Viu a mulher estática próxima a coluna e em segundos a analisou.
Mulher insegura quanto sua sexualidade. Talvez bissexual. Precisa descobrir se sente algo por outra mulher mas não quer se envolver.
Viu Eve se aproximando sorrateira com a lata de refrigerante na mão. A analisou também.
Pequena predadora em busca de aventura. Manipuladora. Carente. Ardilosa. Esconde dos outros sua sexualidade.  
Aproximou a imagem e tentou ler os lábios de Eve. Entretanto eram palavras curtas, ditas quase sem intervalos quase que impedindo que a outra respondesse. 
Eve era esperta fazendo com que a mulher respondesse as perguntas uma atrás da outra e com isso quebrando a barreira.
A velha lésbica voltou a sorrir enquanto pensava em voz alta:
- Eve, Eve... você é mesmo uma malvada.







ENCURRALANDO A PRESA
A câmera acompanhou Eve  e Carolina saindo da Catchup  e indo para o lounge bar anexo , um lugar mais tranquilo para que pudessem conversar.
A velha lésbica continuava atenta aos passos de Eve.  Novamente passou para a atendente a mesma solicitação que havia feito a Angélica.
Havia algumas mulheres conversando em outras mesas. O ambiente era agradável com suas luzes fracas e de bom gosto. Ouvia-se “kiss of life” de Sade sem que pudesse atrapalhar a conversa.
- Eu sei – disse Eve depois que a atendente se afastou da mesa – que iria parecer uma cantada medíocre quando te abordei lá dentro. Mas volto a te assegurar: não tenho intenção de transar com você ou qualquer outra mulher.  Meu interesse é mesmo profissional.
Carolina segurava as próprias mãos evitando demonstrar nervosismo.
- Sim, parecia mesmo a cantada mais banal de todas. Afinal, acho que todas as mulheres ali dentro estão querendo mesmo é transar umas com as outras.
- Por isso te escolhi. Não me pareceu que estava em busca de sexo ou qualquer envolvimento. Sua curiosidade é que me fez te perceber.
- Mas exatamente o que você quer de mim Eve? É esse seu nome não é?
Eve riu. Adorava explicar seu nome falso.
- Sim, é o meu nome mesmo. Minha mãe ia muito ao cinema. Sabe como é, na época dela para se namorar tinha que ser dentro do escuro do cinema.
Carolina riu descontraída. Eve também, muito mais porque havia conseguido envolver Carolina.
A câmera, ao fundo, trazia para o monitor da velha lésbica a imagem das duas conversando, quer dizer, Eve falando mais do que Carolina.
- É o nome de uma personagem de um filme. Aliás isso é uma coisa meio doida não acha? Escolher para a filha o nome de uma personagem. E o seu nome, quem escolheu?
- Não sei. É apenas um nome.
Eve franziu a testa.
- Claro que não! O nome é a alma da pessoa! Não vê o Bond? Como ele faz questão de se apresentar? Meu nome é Bond... James Bond. Nosso nome e a forma como nos apresentamos pode dizer muito sobre nós.
- O meu te disse alguma coisa?
Eve deixou o corpo ir para trás e juntou os dedos das mãos uns nos outros sobre a mesa.
- Lembra da primeira coisa que te perguntei quando me aproximei?
- Perguntou meu nome.
- Quando te perguntei seu nome você disse Carolina.  Não foi Carol, mas Carolina. Percebi que isso colocava entre nós uma barreira. Demonstrou que não queria intimidade.  Então pensei: ela não esta aqui em busca de sexo, de aventura, de relacionamento. Existe outra coisa. É essa outra coisa que eu quero saber, que me interessa.
Carolina olhou o rosto redondo de Eve. Os olhos que pareciam brilhar como os dela própria brilharam depois que se viu no espelho após ter feito amor pela primeira vez com uma mulher.
- Preciso descobrir porque fiz amor com outra mulher. Porque terminei meu relacionamento com um homem que parecia me completar. Porque não sou mais quem eu era.
A velha lésbica levou a mão enrugada aos lábios.
Havia pela primeira vez conseguido ler o que os lábios de Carolina dizia.


  

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

INVESTIGANDO A VIDA DESCOBRI QUE EU ERA O CRIMINOSO

Em algum lugar na Baixada Fluminense.
Um casebre semidestruído rodeado por mato alto. Volta e meia venta forte fazendo com que o mato dance um balé um tanto que macabro iluminado apenas pelos faróis de um carro estacionado com as portas abertas de onde se ouve “Você não soube me amar” da Blitz.
Um jovem negro só de cuecas esta algemado de joelhos, cabeça baixa e de  costas para um homem que tem uma pistola apontada para a cabeça dele.  É um homem alto, de terno preto como seu cabelo que a todo o momento o vento despenteia. A barba de dois dias escurece seu rosto branco.
– Fala porra! O que deu em você agora? O diabo vai estranhar quando entrar no inferno assim, calado.
Grita Nilson o homem de terno preto para o jovem negro que continua na mesma posição sem se mexer ou responder.
Rubens fumando sentado com as pernas para fora do carro acompanhando a música com a cabeça grita também:
– Acaba logo com isso e vamos embora Nilson.
– Que foi, quer ir pra casa ver a novela é?
- Vai se fuder cara! – reponde Rubens.
- Calma, bicho, calma. Já que é para executar a tarefa vamos tirar o máximo de prazer que ela pode dar antes que acabe.
Rubens desliga o rádio, joga fora o cigarro depois de uma última tragada e vai até eles batendo a porta do carro com raiva.
– Tá maluco cara? Tá maluco? Fica atormentando o cara! Detona logo e despacha esse infeliz! Não esta vendo que ele não vai implorar pela merda dessa vida que leva?
Nilson debocha.
– Porra Rubens como você é apressado heim?
- Dá pena, só isso.
Nilson fica colérico
– Pena? Como é que pode ter pena de um filho da puta desses? Como é que pode?
– Ele é um fodido Nilson, assim como nós já fomos um dia.
– Fodidos nós fomos é verdade, mas nunca sacaneamos quem não merecesse. Mas porra, tu viu o que ele fez com a velhinha? E tudo aquilo pra que, pra que? Pra roubar uma mixaria pra comprar drogas.
Rubens implora de modo terno.
– Termina logo...
Nilson joga a arma para ele.
– Toma. Se tá com pressa faz você o serviço. Vamos lá, quero ver! Atira na cabeça que ai ele nem sofre.
Rubens contrariado torce o lábio para a esquerda.
– Tá careca de saber que não é esse o meu sistema.
Nilson ri e zomba.
– Deixa de ser cagão cara! Essa porra ai é só um marginal!
– É um coitado...
Nilson se transforma e berra possesso.
 – Marginal! É só um marginal! O que esse veado tem de coitado, fala? Viciado, traficante, assaltante, assassino! Que mais, tá faltando alguma coisa? É um marginal completo, só falta tamanho e idade! Muito fácil ficar com peninha dele agora, tão indefeso, oprimido pela sociedade que não lhe deu uma chance... tadinho dele que não teve escola, apoio, família... a única coisa que dão para ele é cadeia e porrada. E lógico que isso não ensina ninguém, não corrige ninguém! Ah, mas você vai dizer: matando ele na verdade só está livrando temporariamente nossa sociedade de um problema e ajudando o governo a economizar uma grana para manter esse merda na cadeia depois que ele fez um monte de cagada! Vai dizer também que o certo seria atacar o foco do problema, olhar os miseráveis que estão agora dormindo em seus barracos esperando o relógio despertar para serem explorados no dia seguinte pelo nosso sistema capitalista, que dá oportunidade para o sujeito continuar aonde esta. Nós, meu caro, não somos melhores do que ele... somos a escora da sociedade que continua com as mãos limpas, com a consciência leve enquanto nós temos que enfrentar todo dia nossos medos, nossa miséria interior e engolir toda essa sujeira que depois vomitamos e jogamos para debaixo do tapete que eles pisam sem se importar. Mata ele que eu quero ver, mata! Livre-se da culpa de ser quem você é! Deixe seu ódio sair, deixe que o vento o espalhe, que se misture ao cheiro de merda desse lugar podre! Esse fedor tem um pouco de nós meu chapa, como se mostrasse como somos e como vamos terminar algum dia. É esse o nosso prémio! Vamos lá bicho, o primeiro é o mais difícil depois você até vai gostar da coisa.
Rubens joga a arma de volta para Nilson.
– Qual é Nilson! Não é assim que a banda toca!
Nilson debocha ainda mais diante da recusa de Rubens.
– Banda? Isso tá mais pra cantiga de roda. Sei não, ou você tá ficando velho e caduco ou é uma bichona enrustida que nem o Negão aqui.
– Vai se foder porra! – responde Rubens irritado - Só porque não estou querendo queimar o guri já vai ficar achando que sou veado é?
Nilson se diverte.
– Não precisa ficar brabo que só estou brincando. Estou sabendo que não é uma bichona, só não tem coragem de matar o veadinho. Mas eu te mostro como é.
Rubens fica sem paciência.
 – Não quero aprender porra nenhuma. Só quero ir embora logo.
 - Mesmo assim vou te mostrar. Da próxima vez faz igualzinho que não tem erro.
Rubens cruza os braços contrariado enquanto Nilson  acende um cigarro e da uma tragada com grande prazer e alivio. Oferece para o rapaz negro que dá umas duas ou três tragadas.
- Vai anotando aí. Primeiro você sacaneia bastante o individuo pondo ele numa escola que não vão ensinar muita coisa e na qual não ficará por muito tempo porque precisa trabalhar para ajudar a mãe a sustentar os irmãos, uns três ou quatros, porque não existe politica de controle de natalidade e essa galera se reproduz de uma forma impressionante. Essas crianças por sua vez não irão estudar porque ficarão vendendo balas nos sinais, dentro dos trens. As meninas quando entrarem na puberdade possivelmente emprenharão de um delinquente qualquer. Então esse mané aqui ainda terá uma penca de sobrinhos barrigudos, melequentos, para olhar. Depois você vai prender ele pela primeira vez e vai ouvir uma história triste acompanhada daquela carinha de sou inocente... então ele passa um tempo no hotel do governo e depois sai, ou porque foge ou porque um juiz babaca acha que ele não devia estar preso.  Você prende ele pela segunda vez, pela terceira, pela quarta... bom, ai não tem mais historinha que te faça ter pena dele. Tu tem tanto crime pra investigar e não dá conta. Aí descarrega nesse filho da puta toda ou quase toda frustração que tiver. Pode ser pelo trabalho que não te acrescenta nada, por não ter sido promovido, pelo chefe babaca que tem e não merecia estar aonde esta. Pode ser também por aquela merda de mulher com quem se casou e hoje esta gorda e chata. Dar porrada também é bom, alivia as tensões do dia. Só não pode chegar e acabar com tudo rapidinho, assim não tem graça nenhuma. Afinal a vitima, se é que se pode chamar essa coisa de vitima, também precisa ter tempo para pensar e se arrepender dos seus erros, e olhe que não são poucos não é negão? Está pensando negão, nas merdas e vaciladas que deu? Podia estar numa boa agora né? Queimando um fuminho com uma vadia qualquer, aprendendo a ser gente, podia estar na cadeia chupando o pau dos outros caras.
Rubens cospe longe e vai saindo.
– Vou te esperar no carro.
Nilson aos berros abre os braços de modo teatral.
– Fica porra! Será que nem ver tu pode? Estou te dando uma aula de como acabar com um menor carente, maconheiro, ladrão e tu quer me virar as costas?
Rubens se volta ainda que contrariado.
– Ok, amigos são para essas ocasiões.
Nilson ri cinicamente.
– Opa, senti uma pontinha de ironia? Assim é bem melhor. 
Olha para o alto como se buscasse inspiração divina para continuar.
- O ato de morrer só é completo quando o cara que morre deixa uma lição para quem fica. Negão está ensinando alguma coisa para nós Rubens.
Rubens sarcástico e com má vontade torna a cuspir no chão.
– É? E o que ele esta ensinando?
– Ele esta resignado com seu destino. Desde o inicio sempre soube que um dia isso iria acontecer. Esta vendo como ele tem dignidade? Cara, juro que nunca pensei que você fosse reagir assim Negão! Achava que quando isso fosse acontecer que iria espernear, se debater, chorar, implorar por sua miserável e nojenta vida. Acho que no fundo esta me sacaneando com essa atitude. Ou será que isso é um sinal?
Faz-se um enorme silêncio nesse momento e o vento remexendo o mato faz com que Rubens sinta um arrepio enquanto Nilson olha o rapaz durante um tempo. Depois vai se afastando lentamente.
- Deus do céu! Estou tendo uma visão celestial! Você é um anjo... estou te vendo todo reluzente numa roupa branca! As asas enormes se abrindo das suas costas! Porra que visão bonita!
Se ajoelha atrás do rapaz que continua imóvel. Rubens olha e nada vê.
– Quanta palhaçada!
Nilson esta petrificado. Fala como se estivesse em transe.
– É serio Rubens! Eu vejo um anjo negro e nunca pensei que pudessem existir anjos negros ainda mais rodeados de uma luz tão branca e tão intensa – Coloca as mãos á frente dos olhos como se uma luz o cegasse -  Acho que isso é um aviso. Está vendo o anjo? Está? Abra seu coração e também o verá! Arrependa-se de seus pecados!
Nilson quase que em transe começa a chorar.
- Meu deus! O que tenho feito da minha vida? Quanto ódio dentro de mim sem motivo? Eu sou o culpado por ter chegado a esse ponto! Preciso amar as pessoas, respeita-las pelo que são, pelo que conseguiram ser. Não é culpa delas se a vida as colocou numa situação inferior.  Ajoelha Rubens, ajoelha e reze comigo pela nossa salvação!
- Nem pensar que vou me ajoelhar nesse barro, sujar minha calça só porque você fumou um baseado com bosta de cavalo e está doidão.
- Ajoelha seu filho da puta e se arrepende antes que seja tarde! Ajoelha porra!
Rubens com má vontade suspira e obedece.
- Puta que pariu... minha calça limpinha... puta que pariu.
Nilson ergue os braços para o alto e reza.
- Pai nosso que esta no céu... pai nosso que esta no céu... pai nosso...
- Porra, se não sabe o resto inventa alguma coisa, cacete!
 – Pai nosso... me perdoa por tudo que já fiz... por ser tão infame, covarde, cínico, ingrato...
– Puta que pariu...
– Por me deixar corromper, por aceitar os prazeres mundanos como maiores do que seus ensinamentos.
– Pu-ta que pa-riu...
– Por ser fraco e deixar que o ódio fosse mais forte do que o amor.
– Putaaa queee pariuuuu...
Nilson em estado de graça, irradiando felicidade e ainda com os braços abertos ao alto.
– Senhor, obrigado por me mostrar a luz! Obrigado por me mostrar o caminho da salvação! Agora entendo, agora sei, agora sinto!  Rubens, solta o menino.
Rubens se ergue e limpa a calça
– Que?
Nilson com voz terna.
– Solta o menino! Sim, libertando-o também estou me libertando da culpa, dos medos, da raiva, daquela pessoa ruim que eu fui.
– Que merda você esta dizendo?
– Deus me deu essa visão como uma segunda chance.  E se eu posso ter uma oportunidade ele também pode! Negão, se eu te soltar você jura por deus que vai mudar de vida? Que não será mais esse menino errado, com ódio no coração?
O rapaz esta incrédulo porém, mesmo assim balança a cabeça afirmativamente.
- Você me ajudaria a construir um novo mundo, uma família?
Rubens se desespera e leva as mãos a cabeça.
– Puta que pariu...
O rapaz  concorda com um gesto de cabeça.
 – Solta ele Rubens.
– Mas Nilson...
Nilson decidido insiste.
– Solta Rubens! É o senhor quem diz para que isso seja feito!
Rubens contrariado procura as chaves das algemas no bolso.
– Puta que pariu.
Nilson se levanta e joga a arma em direção ao mato.
– Não preciso mais disso! Minha arma agora será a palavra do senhor! Pai nosso que esta no céu... pai nosso...
Rubens ergue o rapaz pelos ombros e o solta das algemas.
– Vai começar essa porra de novo...
Nilson abraça o rapaz que esfrega os pulsos sem conseguir abraça-lo. Nilson lhe beija-lhe a testa.
 – Negão, sinto muito por tudo. Agora sei o quanto sofreu com a vida que foi obrigado a levar. Mas daqui em diante tudo será diferente, se você quiser seguir comigo os caminhos do senhor tudo será maravilhoso.
Rubens suspira e guarda as algemas.
- Puta que pariu.
Nilson aperta os ombros do jovem e o olha nos olhos.
– Vai Negão. Vai lá pegar tuas coisas e vamos embora.
Negão hesita. Olha para Rubens.
– Vai logo porra! Tô de saco cheio de ficar aqui ouvindo essas baboseiras.
Nilson ajeita a gravata.
- Vai meu filho, tenho pressa em falar ao mundo o que o senhor me disse!
O rapaz dá alguns passos e caminha em direção as suas roupas e as pega no chão. Nilson saca uma arma das costas. Negão se vira sorrindo. Nilson atira duas, três vezes. O garoto cai de joelhos, a boca aberta sem conseguir respirar. Os braços vão arriando puxando as roupas ensanguentadas até que ele caia sobre elas. Os olhos abertos, petrificados pela morte.
Rubens suspira aliviado sorrindo.
– Puta que pariu!
Nilson guarda a arma e vai até o mato procurar a outra arma que havia jogado.
- Por um momento até me enganou. Porque você fez isso?
– Isso o que?
– Deixou que ele acreditasse nesse teu papo de uma segunda chance.
Nilson para de procurar a arma e encara Rubens.
– Para que morresse ao menos iludido de que teria uma segunda chance. A vida toda ele deve ter sonhado com essa segunda chance.
Volta limpando a arma e a coloca na cintura. Depois verifica se o garoto esta morto.
- Acho que quando acontecer comigo ninguém vai se preocupar em ver se eu estou morto.
– Do jeito que você é ruim vai viver uns cem anos e vai morrer num asilo.
– Vira essa boca pra lá! Prefiro morrer crivado de balas. Vamos embora.
– E o corpo?

– Deixa aí mesmo. Não é problema nosso. Nunca foi.