SUSTO
Em seu pequeno escritório a velha
lésbica observava pelo circuito interno o movimento da boate sem muito interesse.
Quase sempre as mesmas caras em busca de um flerte, de uma noite de sexo sem
compromisso.
Subitamente assustou-se com a
garota gorda enfiada em um vestido que seguramente não havia sido feito para
ela. Já havia visto muitas desajustadas perdidas querendo chamar a
atenção de outra mulher, porém aquela beirava o ridículo.
A velha lésbica não costumava
fazer julgamento das frequentadoras de sua boate. Um sentimento de pena desceu
da cabeça ao seu coração que a fez, instintivamente se comunicar com a
garçonete no bar.
- Filhota – tratava suas
funcionárias quase sempre desse modo – a menina gordinha com o vestido apertado
vai chegar até ai daqui a pouco. Veja se descobre o que ela pretende.
- Pode deixar – respondeu a
garçonete que em seguida passou a informação ás outras meninas do balcão.
Não demorou muito e a garota se
debruçou sobre o balcão pedindo uma caipirinha.
- Você não é menor de idade é? –
Perguntou a garçonete puxando assunto.
- Claro que não! Como acha que
entrei? Tive que mostrar a identidade para as meninas lá fora.
A garçonete riu.
- Mas você não tem rosto de quem
tem dezoito anos. Te daria uns quinze no máximo.
A garota riu deixando a cabeça
tombar um pouco para a esquerda fazendo com que o cabelo lhe cobrisse parte do
rosto.
- Uau! Mas sinceramente não
gostaria de ter ou estar com quinze anos novamente!
- Mas é uma idade tão legal! Vai
dizer que seus quinze anos foram traumáticos? Pais castradores, irmãos
pentelhos?
- Tudo isso e mais um pouco!
Minha família é um bando de chatos!
- Sei como é. Meu pai e meu irmão
mais velho viviam pegando no meu pé. Namorar nem pensar. Salvo se o cara fosse
escolhido por eles. Pode isso?
A garçonete entrega a bebida a
garota que aproveita para segurar na mão dela enquanto a olha de modo
malicioso. Depois prova a bebida e confessa:
- Uma delicia! Você nasceu para
isso menina!
- Que bom – responde a garçonete
correspondendo ao sorriso – Estarei aqui para te atender no que precisar. Meu
nome é Angélica. E o seu?
Outra mulher se aproxima e pede
uma bebida.
- Eve.
- Eva?
- Não, Eve. Eve Harrington.
Outra mulher se aproxima e pede
uma bebida. A garçonete se afasta.
A garota saboreando a bebida
pesquisa com olhos de águia o salão em busca de algo que lhe desperte o tesão.
Havia de tudo a sua volta. Altas,
magras, jovens, senhoras, típicas lésbicas com seu jeito masculinizado, garotas
tímidas ou se fazendo de tímidas, umas muito alegres dançando, outras com seus
pares trocando longos beijos.
A velha lésbica acompanhava pelo
monitor a garota bebendo e olhando a sua volta. Chamou novamente a
atendente do bar.
- Já descobriu alguma coisa?
- Olha, não muito. É uma daquelas
meninas que a família quer controlar. O nome dela é Eve. Eve Harrington.
A garçonete ouviu como resposta
uma sonora gargalhada.
- O que foi? A senhora a conhece?
A velha lésbica continuou rindo,
depois respondeu:
- Não, nunca a vi. Mas esse nome
é de um personagem de filme da década de cinquenta. Se for mesmo o nome
verdadeiro significa que a mãe é uma doida por cinema. Se descobrir mais alguma
coisa me fale. Até logo.
A velha lésbica voltou a rir.
Como há muito tempo não fazia.
EM BUSCA
DA PRESA
Antes que a caipirinha chegasse
ao fim do copo a garota já se sentia relaxada. O corpo começou a oscilar no
ritmo da música. Entretanto preferiu ficar por ali, observando, espreitando,
selecionando. Uma loba farejando o cheiro da presa. Os olhos percorriam o salão
devagar, indo e vindo várias vezes. Até que se deteve numa mulher quase que
escondida atrás de uma coluna. As mulheres que se aproximavam dela eram logo
repelidas com uma frase curta que Eve supos ser "estou esperando
alguém". Ela não bebia nem dançava apenas olhava as mulheres
dançando, se beijando, se abraçando, com um olhar interrogativo.
Escolhida a presa, Eve voltou-se
para Agelica e pediu um refrigerante. Não queria se aproximar da mulher com
cheiro de alcool.
A velha lesbica movimentou a
camera na direção em que Eve projetava o olhar de forma insistente. Viu a
mulher estática próxima a coluna e em segundos a analisou.
Mulher insegura quanto sua
sexualidade. Talvez bissexual. Precisa descobrir se sente algo por outra mulher
mas não quer se envolver.
Viu Eve se aproximando sorrateira
com a lata de refrigerante na mão. A analisou também.
Pequena predadora em busca de
aventura. Manipuladora. Carente. Ardilosa. Esconde dos outros sua sexualidade.
Aproximou a imagem e tentou ler
os lábios de Eve. Entretanto eram palavras curtas, ditas quase sem intervalos
quase que impedindo que a outra respondesse.
Eve era esperta fazendo com que a
mulher respondesse as perguntas uma atrás da outra e com isso quebrando a
barreira.
A velha lésbica voltou a sorrir
enquanto pensava em voz alta:
- Eve, Eve... você é mesmo uma
malvada.
ENCURRALANDO
A PRESA
A câmera acompanhou Eve e Carolina saindo da Catchup e indo para o lounge bar anexo , um lugar mais
tranquilo para que pudessem conversar.
A velha lésbica continuava atenta aos passos de Eve. Novamente passou para a atendente a mesma
solicitação que havia feito a Angélica.
Havia algumas mulheres
conversando em outras mesas. O ambiente era agradável com suas luzes fracas e
de bom gosto. Ouvia-se “kiss of life” de Sade sem que pudesse atrapalhar a
conversa.
- Eu sei – disse Eve depois que a
atendente se afastou da mesa – que iria parecer uma cantada medíocre quando te
abordei lá dentro. Mas volto a te assegurar: não tenho intenção de transar com
você ou qualquer outra mulher. Meu
interesse é mesmo profissional.
Carolina segurava as próprias
mãos evitando demonstrar nervosismo.
- Sim, parecia mesmo a cantada mais
banal de todas. Afinal, acho que todas as mulheres ali dentro estão querendo
mesmo é transar umas com as outras.
- Por isso te escolhi. Não me
pareceu que estava em busca de sexo ou qualquer envolvimento. Sua curiosidade é
que me fez te perceber.
- Mas exatamente o que você quer
de mim Eve? É esse seu nome não é?
Eve riu. Adorava explicar seu
nome falso.
- Sim, é o meu nome mesmo. Minha
mãe ia muito ao cinema. Sabe como é, na época dela para se namorar tinha que
ser dentro do escuro do cinema.
Carolina riu descontraída. Eve
também, muito mais porque havia conseguido envolver Carolina.
A câmera, ao fundo, trazia para o
monitor da velha lésbica a imagem das duas conversando, quer dizer, Eve falando
mais do que Carolina.
- É o nome de uma personagem de
um filme. Aliás isso é uma coisa meio doida não acha? Escolher para a filha o
nome de uma personagem. E o seu nome, quem escolheu?
- Não sei. É apenas um nome.
Eve franziu a testa.
- Claro que não! O nome é a alma
da pessoa! Não vê o Bond? Como ele faz questão de se apresentar? Meu nome é
Bond... James Bond. Nosso nome e a forma como nos apresentamos pode dizer muito
sobre nós.
- O meu te disse alguma coisa?
Eve deixou o corpo ir para trás e
juntou os dedos das mãos uns nos outros sobre a mesa.
- Lembra da primeira coisa que te
perguntei quando me aproximei?
- Perguntou meu nome.
- Quando te perguntei seu nome
você disse Carolina. Não foi Carol, mas
Carolina. Percebi que isso colocava entre nós uma barreira. Demonstrou que não
queria intimidade. Então pensei: ela não
esta aqui em busca de sexo, de aventura, de relacionamento. Existe outra coisa.
É essa outra coisa que eu quero saber, que me interessa.
Carolina olhou o rosto redondo de
Eve. Os olhos que pareciam brilhar como os dela própria brilharam depois que se
viu no espelho após ter feito amor pela primeira vez com uma mulher.
- Preciso descobrir porque fiz
amor com outra mulher. Porque terminei meu relacionamento com um homem que
parecia me completar. Porque não sou mais quem eu era.
A velha lésbica levou a mão enrugada
aos lábios.
Havia pela primeira vez
conseguido ler o que os lábios de Carolina dizia.