Em algum lugar na Baixada
Fluminense.
Um casebre semidestruído rodeado
por mato alto. Volta e meia venta forte fazendo com que o mato dance um balé um
tanto que macabro iluminado apenas pelos faróis de um carro estacionado com as
portas abertas de onde se ouve “Você não soube me amar” da Blitz.
Um jovem negro só de cuecas esta
algemado de joelhos, cabeça baixa e de costas para um homem que tem uma pistola
apontada para a cabeça dele. É um homem
alto, de terno preto como seu cabelo que a todo o momento o vento despenteia. A
barba de dois dias escurece seu rosto branco.
– Fala porra! O que deu em você
agora? O diabo vai estranhar quando entrar no inferno assim, calado.
Grita Nilson o homem de terno
preto para o jovem negro que continua na mesma posição sem se mexer ou
responder.
Rubens fumando sentado com as
pernas para fora do carro acompanhando a música com a cabeça grita também:
– Acaba logo com isso e vamos
embora Nilson.
– Que foi, quer ir pra casa ver a
novela é?
- Vai se fuder cara! – reponde
Rubens.
- Calma, bicho, calma. Já que é
para executar a tarefa vamos tirar o máximo de prazer que ela pode dar antes
que acabe.
Rubens desliga o rádio, joga fora
o cigarro depois de uma última tragada e vai até eles batendo a porta do carro
com raiva.
– Tá maluco cara? Tá maluco? Fica
atormentando o cara! Detona logo e despacha esse infeliz! Não esta vendo que
ele não vai implorar pela merda dessa vida que leva?
Nilson debocha.
– Porra Rubens como você é
apressado heim?
- Dá pena, só isso.
Nilson fica colérico
– Pena? Como é que pode ter pena
de um filho da puta desses? Como é que pode?
– Ele é um fodido Nilson, assim
como nós já fomos um dia.
– Fodidos nós fomos é verdade, mas
nunca sacaneamos quem não merecesse. Mas porra, tu viu o que ele fez com a
velhinha? E tudo aquilo pra que, pra que? Pra roubar uma mixaria pra comprar
drogas.
Rubens implora de modo terno.
– Termina logo...
Nilson joga a arma para ele.
– Toma. Se tá com pressa faz você
o serviço. Vamos lá, quero ver! Atira na cabeça que ai ele nem sofre.
Rubens contrariado torce o lábio
para a esquerda.
– Tá careca de saber que não é
esse o meu sistema.
Nilson ri e zomba.
– Deixa de ser cagão cara! Essa
porra ai é só um marginal!
– É um coitado...
Nilson se transforma e berra possesso.
– Marginal! É só um marginal! O que esse veado
tem de coitado, fala? Viciado, traficante, assaltante, assassino! Que mais, tá
faltando alguma coisa? É um marginal completo, só falta tamanho e idade! Muito
fácil ficar com peninha dele agora, tão indefeso, oprimido pela sociedade que
não lhe deu uma chance... tadinho dele que não teve escola, apoio, família... a
única coisa que dão para ele é cadeia e porrada. E lógico que isso não ensina
ninguém, não corrige ninguém! Ah, mas você vai dizer: matando ele na verdade só
está livrando temporariamente nossa sociedade de um problema e ajudando o
governo a economizar uma grana para manter esse merda na cadeia depois que ele
fez um monte de cagada! Vai dizer também que o certo seria atacar o foco do
problema, olhar os miseráveis que estão agora dormindo em seus barracos
esperando o relógio despertar para serem explorados no dia seguinte pelo nosso
sistema capitalista, que dá oportunidade para o sujeito continuar aonde esta.
Nós, meu caro, não somos melhores do que ele... somos a escora da sociedade que
continua com as mãos limpas, com a consciência leve enquanto nós temos que
enfrentar todo dia nossos medos, nossa miséria interior e engolir toda essa
sujeira que depois vomitamos e jogamos para debaixo do tapete que eles pisam
sem se importar. Mata ele que eu quero ver, mata! Livre-se da culpa de ser quem
você é! Deixe seu ódio sair, deixe que o vento o espalhe, que se misture ao
cheiro de merda desse lugar podre! Esse fedor tem um pouco de nós meu chapa,
como se mostrasse como somos e como vamos terminar algum dia. É esse o nosso
prémio! Vamos lá bicho, o primeiro é o mais difícil depois você até vai gostar
da coisa.
Rubens joga a arma de volta para
Nilson.
– Qual é Nilson! Não é assim que a
banda toca!
Nilson debocha ainda mais diante
da recusa de Rubens.
– Banda? Isso tá mais pra cantiga
de roda. Sei não, ou você tá ficando velho e caduco ou é uma bichona enrustida
que nem o Negão aqui.
– Vai se foder porra! – responde
Rubens irritado - Só porque não estou querendo queimar o guri já vai ficar
achando que sou veado é?
Nilson se diverte.
– Não precisa ficar brabo que só
estou brincando. Estou sabendo que não é uma bichona, só não tem coragem de
matar o veadinho. Mas eu te mostro como é.
Rubens fica sem paciência.
– Não quero aprender porra nenhuma. Só quero
ir embora logo.
- Mesmo assim vou te mostrar. Da próxima vez
faz igualzinho que não tem erro.
Rubens cruza os braços contrariado
enquanto Nilson acende um cigarro e da
uma tragada com grande prazer e alivio. Oferece para o rapaz negro que dá umas duas
ou três tragadas.
- Vai anotando aí. Primeiro você
sacaneia bastante o individuo pondo ele numa escola que não vão ensinar muita
coisa e na qual não ficará por muito tempo porque precisa trabalhar para ajudar
a mãe a sustentar os irmãos, uns três ou quatros, porque não existe politica de
controle de natalidade e essa galera se reproduz de uma forma impressionante.
Essas crianças por sua vez não irão estudar porque ficarão vendendo balas nos
sinais, dentro dos trens. As meninas quando entrarem na puberdade possivelmente
emprenharão de um delinquente qualquer. Então esse mané aqui ainda terá uma
penca de sobrinhos barrigudos, melequentos, para olhar. Depois você vai prender
ele pela primeira vez e vai ouvir uma história triste acompanhada daquela
carinha de sou inocente... então ele passa um tempo no hotel do governo e
depois sai, ou porque foge ou porque um juiz babaca acha que ele não devia
estar preso. Você prende ele pela
segunda vez, pela terceira, pela quarta... bom, ai não tem mais historinha que
te faça ter pena dele. Tu tem tanto crime pra investigar e não dá conta. Aí
descarrega nesse filho da puta toda ou quase toda frustração que tiver. Pode
ser pelo trabalho que não te acrescenta nada, por não ter sido promovido, pelo
chefe babaca que tem e não merecia estar aonde esta. Pode ser também por aquela
merda de mulher com quem se casou e hoje esta gorda e chata. Dar porrada também
é bom, alivia as tensões do dia. Só não pode chegar e acabar com tudo rapidinho,
assim não tem graça nenhuma. Afinal a vitima, se é que se pode chamar essa
coisa de vitima, também precisa ter tempo para pensar e se arrepender dos seus
erros, e olhe que não são poucos não é negão? Está pensando negão, nas
merdas e vaciladas que deu? Podia estar numa boa agora né? Queimando um fuminho
com uma vadia qualquer, aprendendo a ser gente, podia estar na cadeia chupando
o pau dos outros caras.
Rubens cospe longe e vai saindo.
– Vou te esperar no carro.
Nilson aos berros abre os braços de
modo teatral.
– Fica porra! Será que nem ver tu
pode? Estou te dando uma aula de como acabar com um menor carente, maconheiro,
ladrão e tu quer me virar as costas?
Rubens se volta ainda que
contrariado.
– Ok, amigos são para essas
ocasiões.
Nilson ri cinicamente.
– Opa, senti uma pontinha de
ironia? Assim é bem melhor.
Olha para o alto como se buscasse
inspiração divina para continuar.
- O ato de morrer só é completo
quando o cara que morre deixa uma lição para quem fica. Negão está ensinando
alguma coisa para nós Rubens.
Rubens sarcástico e com má vontade
torna a cuspir no chão.
– É? E o que ele esta ensinando?
– Ele esta resignado com seu
destino. Desde o inicio sempre soube que um dia isso iria acontecer. Esta vendo
como ele tem dignidade? Cara, juro que nunca pensei que você fosse reagir assim
Negão! Achava que quando isso fosse acontecer que iria espernear, se debater,
chorar, implorar por sua miserável e nojenta vida. Acho que no fundo esta me
sacaneando com essa atitude. Ou será que isso é um sinal?
Faz-se um enorme silêncio nesse
momento e o vento remexendo o mato faz com que Rubens sinta um arrepio enquanto
Nilson olha o rapaz durante um tempo. Depois vai se afastando lentamente.
- Deus do céu! Estou tendo uma
visão celestial! Você é um anjo... estou te vendo todo reluzente numa roupa
branca! As asas enormes se abrindo das suas costas! Porra que visão bonita!
Se ajoelha atrás do rapaz que
continua imóvel. Rubens olha e nada vê.
– Quanta palhaçada!
Nilson esta petrificado. Fala como
se estivesse em transe.
– É serio Rubens! Eu vejo um anjo
negro e nunca pensei que pudessem existir anjos negros ainda mais rodeados de
uma luz tão branca e tão intensa – Coloca as mãos á frente dos olhos como se
uma luz o cegasse - Acho que isso é um
aviso. Está vendo o anjo? Está? Abra seu coração e também o verá! Arrependa-se
de seus pecados!
Nilson quase que em transe começa
a chorar.
- Meu deus! O que tenho feito da
minha vida? Quanto ódio dentro de mim sem motivo? Eu sou o culpado por ter
chegado a esse ponto! Preciso amar as pessoas, respeita-las pelo que são, pelo
que conseguiram ser. Não é culpa delas se a vida as colocou numa situação
inferior. Ajoelha Rubens, ajoelha e reze
comigo pela nossa salvação!
- Nem pensar que vou me ajoelhar
nesse barro, sujar minha calça só porque você fumou um baseado com bosta de
cavalo e está doidão.
- Ajoelha seu filho da puta e se
arrepende antes que seja tarde! Ajoelha porra!
Rubens com má vontade suspira e
obedece.
- Puta que pariu... minha calça
limpinha... puta que pariu.
Nilson ergue os braços para o alto
e reza.
- Pai nosso que esta no céu... pai
nosso que esta no céu... pai nosso...
- Porra, se não sabe o resto
inventa alguma coisa, cacete!
– Pai nosso... me perdoa por tudo que já
fiz... por ser tão infame, covarde, cínico, ingrato...
– Puta que pariu...
– Por me deixar corromper, por
aceitar os prazeres mundanos como maiores do que seus ensinamentos.
– Pu-ta que pa-riu...
– Por ser fraco e deixar que o
ódio fosse mais forte do que o amor.
– Putaaa queee pariuuuu...
Nilson em estado de graça,
irradiando felicidade e ainda com os braços abertos ao alto.
– Senhor, obrigado por me mostrar
a luz! Obrigado por me mostrar o caminho da salvação! Agora entendo, agora sei,
agora sinto! Rubens, solta o menino.
Rubens se ergue e limpa a calça
– Que?
Nilson com voz terna.
– Solta o menino! Sim,
libertando-o também estou me libertando da culpa, dos medos, da raiva, daquela
pessoa ruim que eu fui.
– Que merda você esta dizendo?
– Deus me deu essa visão como uma
segunda chance. E se eu posso ter uma
oportunidade ele também pode! Negão, se eu te soltar você jura por deus que vai
mudar de vida? Que não será mais esse menino errado, com ódio no coração?
O rapaz esta incrédulo porém,
mesmo assim balança a cabeça afirmativamente.
- Você me ajudaria a construir um
novo mundo, uma família?
Rubens se desespera e leva as mãos
a cabeça.
– Puta que pariu...
O rapaz concorda com um gesto de cabeça.
– Solta ele Rubens.
– Mas Nilson...
Nilson decidido insiste.
– Solta Rubens! É o senhor quem
diz para que isso seja feito!
Rubens contrariado procura as
chaves das algemas no bolso.
– Puta que pariu.
Nilson se levanta e joga a arma em direção ao mato.
– Não preciso mais disso! Minha
arma agora será a palavra do senhor! Pai nosso que esta no céu... pai nosso...
Rubens ergue o rapaz pelos ombros
e o solta das algemas.
– Vai começar essa porra de
novo...
Nilson abraça o rapaz que esfrega
os pulsos sem conseguir abraça-lo. Nilson lhe beija-lhe a testa.
– Negão, sinto muito por tudo. Agora sei o
quanto sofreu com a vida que foi obrigado a levar. Mas daqui em diante tudo
será diferente, se você quiser seguir comigo os caminhos do senhor tudo será
maravilhoso.
Rubens suspira e guarda as
algemas.
- Puta que pariu.
Nilson aperta os ombros do jovem e
o olha nos olhos.
– Vai Negão. Vai lá pegar tuas
coisas e vamos embora.
Negão hesita. Olha para Rubens.
– Vai logo porra! Tô de saco cheio
de ficar aqui ouvindo essas baboseiras.
Nilson ajeita a gravata.
- Vai meu filho, tenho pressa em
falar ao mundo o que o senhor me disse!
O rapaz dá alguns passos e caminha
em direção as suas roupas e as pega no chão. Nilson saca uma arma das costas.
Negão se vira sorrindo. Nilson atira duas, três vezes. O garoto cai de joelhos,
a boca aberta sem conseguir respirar. Os braços vão arriando puxando as roupas
ensanguentadas até que ele caia sobre elas. Os olhos abertos, petrificados pela
morte.
Rubens suspira aliviado sorrindo.
– Puta que pariu!
Nilson guarda a arma e vai até o
mato procurar a outra arma que havia jogado.
- Por um momento até me enganou.
Porque você fez isso?
– Isso o que?
– Deixou que ele acreditasse nesse
teu papo de uma segunda chance.
Nilson para de procurar a arma e
encara Rubens.
– Para que morresse ao menos
iludido de que teria uma segunda chance. A vida toda ele deve ter sonhado com
essa segunda chance.
Volta limpando a arma e a coloca
na cintura. Depois verifica se o garoto esta morto.
- Acho que quando acontecer comigo
ninguém vai se preocupar em ver se eu estou morto.
– Do jeito que você é ruim
vai viver uns cem anos e vai morrer num asilo.
– Vira essa boca pra lá!
Prefiro morrer crivado de balas. Vamos embora.
– E o corpo?
– Deixa aí mesmo. Não é problema
nosso. Nunca foi.
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