quarta-feira, 8 de outubro de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE (fragmento dois)

No dia seguinte obrigou-se a sair da cama. A carta amarrotada ficou ao lado do travesseiro justamente no lugar em que Lavínia dormia.
Debaixo do chuveiro Guta deixava a água possuir lhe o corpo até sentir a alma anestesiada. Não queria mais chorar. Precisava voltar a viver a própria vida sem alimentar um fantasma. Havia agora o presente e só. Cada dia sendo vivido para aceitar os acontecimentos.
Havia ainda no armário muitas coisas que Lavínia ficara de buscar depois. As roupas de grife, estojos de maquiagem importados, os sapatos, as joias, os perfumes, as bolsas... bolsas que Guta odiava por representar um glamour que ao seu ver era apenas ostentação.

Ao final da tarde Guta estava exausta. De forma organizada havia posto os tênis, as calças jeans (que para ela simbolizava a luta dos jovens contra o capitalismo), as blusas e camisetas bem como calcinhas e sutiãs em várias sacolas que arrastou até o elevador e entregou ao porteiro para que doasse. Não queria mais olhar aquilo e se lembrar.

Sentiu fome.
Tomou um demorado banho e sentiu-se relaxada.
Demorou a escolher a roupa e antes de vesti-la perfumou o corpo como Lavínia fazia: descia com o indicador do pescoço até o púbis e depois de um seio ao outro fazendo uma espécie de cruz. Sentia-se protegida desse modo.

O porteiro não acreditou quando Guta saiu do elevador. Estava vestida, maquiada e perfumada como Lavínia. Mesmo surpreso, correu para abrir-lhe a porta, como fazia com Lavínia. Notou as pernas bem desenhadas deslizando sobre os sapatos e os quadris num balanço ritmado quase que exclusivo das morenas. Suspirou deixando a imaginação agir.
Pegou um táxi e indicou ao motorista a Gávea como destino. Precisava voltar ao restaurante do Planetário da Gávea, o lugar onde Lavínia a havia levado a primeira vez que saíram juntas.

(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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terça-feira, 7 de outubro de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE (fragmento)

“Não foi por vaidade. Mas por amor ao que existia dentro de mim. Ao mesmo tempo em que chorava de tristeza eu ria de felicidade. Dois momentos tão antagônicos existindo ao mesmo tempo dentro de uma pessoa. Vida e morte.”
Assim começava a carta de Lavínia para Guta que logo após ler esse paragrafo desabou em um choro que lhe tirava o ar. Caiu de costas sobre a cama apertando a carta sobre os seios.
Chorou descontroladamente por muitos minutos ao ponto de perder as forças, quase os sentidos.
As pálpebras pesavam. Lentamente abriu os olhos. Já era noite velada.  O corpo lhe doía como se houvesse levado uma surra. Não tinha mais certeza se queria continuar a ler a carta amassada entre seu corpo e o lençol. Não pelo medo de sofrer, mas por não aceitar a morte de Lavínia. Queira fingir que havia tido um pesadelo. Só isso.
Também havia a culpa. Uma dor em seu estomago como se um monstro faminto lhe comesse as entranhas com o furor dos famintos.
Um monstro chamado remorso.

(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

TROCANDO MENSAGENS PELO CELULAR (SEXO VIRTUAL Nº 18)

TROCANDO MENSAGENS PELO CELULAR

- Mas continua aquele papo da tua primeira vez.  Queria saber  como é que percebeu isso?
- Cara, devia ser uma coisa muito antiga mas eu nunca parei pra pensar nela,  foi como uma falta de tempo de tempo pra organizar a vida.
- Sei como é. Mas me conta essa história.
- Curiosidade ou falta de tesão?
- Tesão em excesso. Adoro ouvir histórias ainda mais quando são reais.
- Tá, então escuta. Eu tinha que comprar um presente pra minha amiga que fazia aniversário. Não tinha muita grana porque ainda era dependente da mesada dos meus pais. Mas a mina merecia algo especial. Amigona, sabe como é, e amigos assim nós temos que homenagear.
- Entendo, e daí?
- Cara, rodei muita loja! Fui a uma porrada de lojas no shopping e vi coisas ma-ra-vi-lho-sas! Porém a grana não cobria o valor, nem pechinchando.
- Que merda heim?
- E a hora passando. Decadente e desesperada acabei caindo nas lojas americanas...
- Desespero total!
- E com o dinheiro que tinha acabei comprando um jogo de calcinha e sutiã, a coisa mais imbecil que eu podia dar de presente.
- Porém a mais útil.
- E ainda ia dar aquela desculpa idiota de que era só uma lembrancinha... Arrasada fui pra casa correndo me preparar pra festa. Tava um verão in-crí-vel naquela época! Um sol fabuloso torrava tudo! Cheguei em casa suando pra cacete. Não queria outra coisa a não ser me enfiar debaixo do chuveiro. Joguei a sacola na cama fui tomar uma ducha fria. Depois quando voltei pro quarto fechei a porta e fiquei nua me olhando no espelho e secando o cabelo. Ai vi o embrulho na cama. Abri, olhei a calcinha e coloquei na minha frente me vendo no espelho. Eu era muito gatinha também, tinha um corpinho legal e me sentia mulher pra dez caralhos. Mas ai aconteceu um negócio.
- Que negócio?
- Aquela calcinha me inspirava outro sentimento. Imaginei minha amiga entrando naquela calcinha. O corpo dela era tão gostoso quanto o meu. As vezes eu ficava olhando a bunda dela na praia... as pernas bem feitinhas... ai foi me dando um tesão que me arrepiou toda!  Senti uma coisa me subindo pelo estomago ao mesmo tempo em que comecei a me alisar, me apalpar. Toquei uma siririca fan-tás-tica! Quando acabei tava toda suada. Suada e satisfeita. Incrivelmente saciada.
- Porra, isso por causa de uma calcinha?
- Pela calcinha não, por minha amiga.
- Foi a primeira vez que sentiu tesão por uma mulher?
- Que eu tenha percebido sim.
- E ficou grilada com o lance?
- Cara, nem tanto. Experimenta tocar uma punheta imaginando um cara te enrabando. Tu vai gozar diferente.
- Caramba, maior perversão!
- É o que estou te dizendo cara! É só uma perversão não precisa levar adiante. O gostoso da masturbação é a fantasia.
- Tá, mas como foi na festa?
- Fui pra festa ligadinha nesse lance. Ainda tava com um tesão e-nor-me porque quando lembrava da cena  sentia um negócio incrível entre as pernas. O pior é que não queria parar de pensar naquilo. A minha calcinha tava um lodo, era gosma pura... uma delicia!
- E o que rolou na festa?
- Festa é festa cara. Gente bebendo, gente fumando, gente comendo, gente dançando...
- Gente se agarrando.
- Gente enchendo o saco. Dei um azar do caralho! Tinha uma camarada atrás de mim o tempo todo. Aquilo tirava todo o meu tesão.
- Vocês ficaram juntas o tempo todo?
- Quase o tempo todo. O chato é que ela só ficava falando dos caras. Aquilo me aborrecia pra cacete.
- Ciúmes é?
- Sei lá. Acho que sim. Teve uma hora que um carinha veio dançar comigo. Detalhe: ela tava muito afim de transar com o cara.
- E você sabia disso?
- Claro, não havia segredos entre nós. Mas ela não podia chegar lá e esfregar a xota na cara dele né?
- E como foi?
- O cara me puxou pra ele. Nós erámos da mesma altura e não foi difícil colar minha boca no ouvido dele. Sabe aquele lance que tu fica respirando no ouvido do cara, aquela respiração de quem tá excitada?
- Porra, falsa pra caralho heim?
- O pau dele subiu rapidinho, dava pra sentir o bicho pulsando dentro das calças. E eu respirando dentro do ouvido, deixando ele doidinho. Depois ele começou a falar umas coisinhas no meu ouvido.
- E a sua amiga?
- Tava ligada no que estava rolando. Depois, quando deu, demos uma escapada e fomos nos agarrar lá na garagem.
- Rolou sexo?
- Não ia dar esse mole. Chupei a pica dele só pra atormentar. Nem deixei ele gozar.
- Muito má você!
- Mas olha só o que eu arranjei: marquei com ele no dia seguinte na minha casa, minha mãe só chegava a noite.
- E sua amiga?
- Combinei que ela chegaria de surpresa e pegaria a gente trepando e ai...
- Festa privê.
- Cara, seria a primeira vez que transaria a três e ainda por cima com uma mulher! Naquela época eu só transava com homens e nem sentia tesão por mulher. Mas cara, não sei o que me deu naquele dia que eu fiquei louca de tesão pela minha amiga.
- Não rolou aquele medo do que ela iria pensar?
- Não. Nem imaginei que ela não fosse topar. Quando falei o que tinha arranjado ela topou no ato. Acho que não se ligou no que iria rolar. Sei lá!
- E como foi a parada?
- Bicho, nem te conto! Ele ficou assim meio que assustado quando a viu entrar. Eu tinha dado uma cópia da chave pra ela.
- E o que aconteceu quando ele a viu?
- Cara, eu senti que ia dar zebra ai falei com aquela voz de mulher de filme pornô: me come porra, mete essa pica gostosa em mim!
- E ele?
- Continuou é claro!
- E sua amiga?
- Veio tirando a roupa e beijando o cara.
- Muito puta essa sua amiga né?
- Aliás foi minha sorte. Eu já tava de saco cheio do cara metendo aquela porra em mim, queria era comer a minha amiga. Aproveitei enquanto ela beijava o peito dele e me desvencilhei. Fui enfiar a língua no ouvido e com uma das mãos tocava uma meia punheta pro cara continuar ativo. O cara parecia uma brinquedinho nas nossas mãos.
- E como rolou entre vocês duas?
- Eu só tive que esperar ela começar a chupar o pau dele. Ai fui chupar também. Ela lambia de um lado e eu do ouro. Enfiava na boca dela e enfiava na minha. Nossas bocas acabaram se encontrando naturalmente.
- E ela?
- Correspondeu. Depois ficou tudo mais fácil. Comecei a passar a mão nos seios dela, no corpo, tocar na xota molhada,  enfiar o dedo... teve uma hora enquanto ele metia nela que eu fiquei chupando aqueles seios lindos! Nossa, que tesão que eu sentia!
- E depois, como ficaram as coisas? Sem trauma?
- Isso durou uns dois meses mais ou menos até que um dia ele levou um amigo pra participar mas nós não achamos legal e desfizemos o trio. A coisa só funciona quando é impar. Tem que sobrar um, isso é que dá tesão. E de preferencia duas mulheres e um homem.
- Porque?
- Porque homem não vai beijar outro homem na boca nem chupar o pau um do outro ora, principalmente na frente de uma mulher. Afinal, vocês não são homens pra isso.
    

(SEXO VIRTUAL (18) - IVO LINHARES)
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terça-feira, 2 de setembro de 2014

VIVENDO OUTRA PESSOA (2ª PARTE)

Preocupados, intelectuais, artistas, cientistas e quem podia resolveu abandonar o país. Quem não havia assumido sua verdadeira identidade continuou, mas com medo de ser descoberto.

Estudantes, aproveitando a insatisfação pela obrigatoriedade do estudo da religião, principalmente a dos Cultuadores, foram para as ruas. A eles se juntaram outros segmentos.
Lógico que a repressão foi dura. Não existia no atual governo espaço para protestos, ainda mais de cunho religioso. Manifestações só as favoráveis, como “a marcha pelo livro sagrado em favor da verdadeira família”.
Houve, milagrosamente, somente uma morte. Uma estudante indígena metralhada sem qualquer justificativa.
Mas nada foi divulgado nos jornais ou nos noticiários.

Então veio a revolução.
Arqueiros indígenas emboscaram o prefeito e o assassinaram com mais de quinze flechas em represália a morte da estudante indígena.
A resposta do governo foi rápida e como nos velhos filmes de caubói uma tropa da guarda metropolitana invadiu e matou dezenas de índios no bairro indígena.

Então agora era a guerra.

Mesmo estando proibida a venda ou fabricação de armas em todo o país um grupo conseguiu através do que restara dos traficantes dos poucos morros que ainda não haviam sido convertidos, uma pequena quantidade de armas. Era o suficiente.
O grupo, formado em sua maioria por estudantes era comandado por um professor de filosofia aposentado. Usava uma boina igual a de Guevara seu ídolo, e um fuzil AK 47 igual ao que Fidel presenteara Allende em sua visita ao Chile.

A primeira ação foi rápida. Logo após os cultistas se dispersarem do culto o grupo invadiu o templo e se apropriou das doações. Incendiaram o local e na calçada escreveram com tinta fluorescente:
“A Satanás, com um abraço”

Dias depois o incêndio foi divulgado pelo rádio, televisão e jornais.
Provavelmente causado por um curto-circuito.

(VIVENDO OUTRA PESSOA – IVO LINHARES)
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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

COMO UM LIVRO

COMO UM LIVRO

Passava o dedo pela pele morena das costas dela como quem virava a página de um livro feito de pétalas.
Ela sorria e mordia os lábios não contendo o tesão que lhe subia pela espinha em um arrepio até a  nuca. Os dedos dela formavam letras no amassado do lençol.
As palavras em seu corpo se misturavam as frases que os dedos dela arrancavam do lençol cada vez mais rápido. Suavemente o corpo dele deitou-se sobre o dela e como uma borracha apagou todas as letras, todas as palavras.
Agora eram os sons incompreensíveis do amor que ambos sussurravam entre os beijos úmidos que preenchiam o ar.

Acordou antes que o sol visitasse o quarto. O homem dormia nu abraçado ao travesseiro. Quis tocar-lhe as costas amplas, afagar as nádegas duras, arredondadas, mas não o quis acordar. Tocou em seu próprio sexo como se desenhasse figuras na areia úmida da praia.
Em pouco tempo o ventre se comprimia estufando o peito e pelas narinas expulsava o ar quente do desejo.
E quando finalmente gozou foi como se  suas unhas tivessem assinado no lençol branco seu nome numa carta de amor.

Desceu devagar da cama arrastando para o chão as letras. Olhou novamente o homem nu e sorriu.
Saiu do quarto sem perceber que seus pés tropeçavam em palavras.


(Um conto para Leia O.)

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

VIVENDO OUTRA PESSOA

Escondiam seu amor no escuro dos becos sujos, nas boates de luzes rápidas, coloridas, que piscavam num relâmpago ao som do trovão de músicas barulhentas junto a seus iguais. Uma liberdade aprisionada como sentença que os obrigava a viver e ser feliz em tais momentos.
Amavam-se. Só isso. Como qualquer um é capaz de fazer.
Porém, esse amor não poderia existir a luz do dia, diante do olhar de outras pessoas.
Não deveria ser assim. Mas era.
Um governo teocrático, embora eleito democraticamente como determinava a república,  se apoderou do país e fazia leis de acordo com o que julgava ser certo para a maioria da população. Porém, a maioria não representava o todo e não se governa para a maioria e sim para todos. 
Não poderiam existir leis que beneficiassem parte da população pondo a outra parte na clandestinidade, não considerando suas particularidades, suas necessidades.
Não deveria ser assim. Mas era.
A liberdade e o direito eram dados somente àqueles que se consideravam iguais a maioria, entretanto, o todo não fazia parte dessa maioria.
Então quando se viam ou falavam em público, sorriam. Esbarravam uma na outra de proposito para sentir o corpo, o cheiro, a energia. E depois, quando se afastavam, imaginavam uma vida, viviam tantas sensações que alimentavam desejos que evaporavam no banheiro com os suspiros de prazer.
Não deveria ser assim. Mas era. 
Em algum momento houve protestos nas ruas. A minoria queria ter voz.
Mas veio a policia da maioria para calá-los. Prendê-los.
Muitos morreram, porém, a maioria não se importou. A maioria tinha seus direitos garantidos.
Agora, por lei, todos eram criminosos. Apenas por amarem pessoas iguais a elas.
Os locais em que se encontravam para exercer o direito de ser quem eram foram fechados, destruídos.
Todos aqueles que se desviavam da maioria, caso comprovada a participação em movimentos de revolta eram presos, os que apresentavam “distúrbio sexual desviante” eram encaminhados para as Clínicas de Estudo e Reorganização Psicossexual para realinhamento de conduta.
Magali passou a frequentar os cultos. Cantava os hinos, gritava com a maioria possuída pela inabalável fé de que o demônio não as tentaria e viveriam apenas para servir ao deus que tudo via, ouvia e sabia.
Magali tinha dezessete anos.  Era alta para sua idade. A pele morena chamava a atenção do Cultuador durante os cultos. Os pais de Magali eram humildes e viviam para honrar a palavra do senhor deus que o Cultuador traduzia do livro.
Ao final de um culto o Cultuador falou a eles:
- A filha de vocês é uma boa menina.
Ao que os pais cheios de orgulho concordaram com simples sorrisos. Mas o Cultuador é implacável. Seu corpo deseja a menina.
- Porém eu sei, porque o Senhor Deus me disse, que ela tem pensamentos estranhos.
O sorriso some dos rostos dos pais de Magali que esta muda e perplexa.
- Ela deve vir amanhã aqui para falar comigo. Sozinha! E nada deve ser dito a mais ninguém!

                                                                              ***
É amplo o gabinete do Cultuador. Magali nota além da ampla mesa, praticamente só com uma bíblia aberta, o grande e confortável sofá para o qual o Cultuador a encaminha.
Magali se senta e embora seu vestido seja comprido ela o puxa para baixo. O Cultuador fica deveras excitado com o gesto a ponto do pau avolumando-se marcar a calça.
Ele dá vazão a seu desejo sem muitos rodeios:
- Minha filha, eu sei de seus pensamentos! Sei que o demônio tenta por coisas em sua cabeça!
Os olhos de Magali se arregalam.
- Deus esta presente em sua vida, em sua casa e para te proteger me pediu que olhasse por você!
Magali treme.
- Mas para que eu possa te proteger das tentações do demônio que quer te tirar do caminho de nossa fé você deverá se submeter ao poder e a glória de nosso deus!
E erguendo as mãos aos céus exclama:
- Salve o Pai!
Instintivamente Magali repete a frase acompanhando o gesto.

                                                                              ***
Magali volta para casa de trem.
O chacoalhar do trem desperta em seu corpo o chacoalhar do corpo do Cultuador sobre o seu. Ela tem vergonha. Mantém os olhos fixos no chão sujo da composição. Sente nojo de si mesma. Tem as mãos unidas sobre o vestido querendo esconder a vulva inchada, machucada, desvirginada pelo Cultuador.

                                                                              ***
Quatro ou cinco meses depois Magali se joga sobre as rodas de um trem. Quer destruir aquele corpo sujo que o Cultuador tentou purificar para o senhor deus.
Na saída do enterro, pouco depois da maioria se dispersar uma jovem muito branca e de olhar cinzento se aproxima do Cultuador e dispara a queima-roupa quatro dos seis tiros do revólver. O quinto estoura-lhe os órgãos sexuais. Por fim enfia na própria boca o cano da arma e detona o sexto tiro.
A única coisa que a policia achou com ela foi um retrato de Magali, onde as duas sorriam abraçadas.
Nada disso saiu nos jornais.
Não deveria ser assim.
Mas era.

 (VIVENDO OUTRA PESSOA – IVO LINHARES)
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A OBRA DO MONSTRO (1º segmento)

INFERNO, SEM DATA

            As valquírias, de Vagner. Já a ouvira tantas vezes, porém, nunca poderia imaginar que pudesse ouvi-la naquele instante, naquele lugar. Abre os olhos. A sala é ampla e bem iluminada. Há quadros belíssimos nas paredes. Acha apropriada a Pirâmide de Crânios de Cezanne mesmo estando em escala bem maior do que o original.  Diminui o passo para apreciar as magnificas esculturas á frente das enormes colunas. O aposento lembra o interior de uma catedral majestosa. Reconhece Os Burgueses de Calais de Rodin e não consegue deixar de sorrir. “É absurdo”, pensa, “O inferno não pode ser isso”. Conforme caminha em direção a grande mesa redonda cercada por doze cadeiras fica cada vez mais admirado com tantas obras de arte. Duvida que o “proprietário” tenha tão refinado gosto e que aquilo seja uma ilusão podendo a qualquer momento desaparecer revelando o inóspito e nefasto lugar em que esta. Apesar disso continua andando devagar apreciando o “passeio”.
            Próximo a grande mesa de madeira cujo tampo encerado reflete nitidamente a imagem de doze espadas pintadas no teto tem a certeza de estar em uma igreja. Ergue um pouco o olhar e reconhece uma pintura de Michelangelo feita na Capela Sistina.
            Sorri novamente quando sente no ar seu perfume favorito entrando por suas narinas despertando-lhe o olfato. Percebe que seus sentidos estão intactos, que seu corpo ainda é seu corpo.
            “Tudo esta de acordo como queria?”
            A voz atrás dele é suave, doce e estranhamente familiar. Vira-se lentamente tentando recuperar na memória a quem pertencia aquele timbre de voz. Por um instante fica sem ação ao deparar-se com uma de suas primeiras namoradas.
            “Porque o espanto, acaso achou que eu seria aquela menina pudica para sempre?”
            Diante dele estava Reni, uma adolescente de tranças e óculos grossos que sorria vendo-o sem ação.
            “Você”. Disse tentando disfarçar o espanto.
            “E porque não eu? Preferia aquela outra, da faculdade? Como era mesmo o nome dela? Giselda não é? Não se preocupe, logo irão se encontrar, ela esta por ai. Mas por enquanto serei eu a lhe mostrar tudo e responder suas perguntas, começando por essa que esta em seus olhos desde que chegou. Não, isto que esta vendo não é uma ilusão para tortura-lo. O inferno é construído como cada um o imagina. Será fumegante, quente e árido se tiver dentro de si o medo do sofrimento. E ao que parece você é um dos raros que não criaram a imagem clássica com gente sofrendo por todo lado.”
            A menina lhe oferece uma taça de champanhe avisando que “A bebida é cortesia do chefe que, diga-se de passagem, estava ansioso pela sua chegada. Nada pessoal devo acrescentar, mas é difícil aparecer gente como você por aqui”.
            “Então acredito que ele sentirá um enorme prazer em me esquartejar e ver queimar meus pedaços.”
            Ela ri alto exatamente como ele ainda tinha na memória.
            “Tenho a impressão de que ele tem outros planos para você. Mesmo porque esquartejar e queimar é rotina por aqui e já não tem tanta graça para ele. Lógico que você seria uma deliciosa exceção e me daria enorme prazer em executar essa tarefa”.
            Ele nota nos olhos dela um brilho avermelhado.
            “Como veio parar aqui Reni?”
            Novamente um sorriso se estampa no rosto da menina.
            “Da mesma maneira que você: errando. Deve lembrar que foi meu primeiro namorado e que apesar de ficarmos juntos por pouco tempos você acabou me despertando para sentimentos e desejos que eu desconhecia. Como o do sexo, por exemplo.”
            “Não sabia que o sexo levava ao inferno.” Brinca ele dando um gole na bebida e deixando transparecer o prazer que lhe causou.
            “Exatamente como a champanhe que acabou de provar e aguçou seu paladar. Pois depois de você foi assim comigo. Entretanto, qual o outro menino que se atreveria a namorar uma garota como eu? Desengonçada, infantil, um pouco fora do peso, um pouco ridícula... ah, e acima de tudo: que não era mais virgem. Servi apenas para um propósito.”
            Ele fica sem jeito e inclina levemente a cabeça para o chão que acaba refletindo seu próprio rosto que não quer ver e os olhos avermelhados de Reni dentro dos seus.
            “Não tenha vergonha meu querido. Entendo que apenas seguia seus instintos de garoto que não se importava com os sentimentos dos outros”.
            “Mesmo assim não deveria ter agido como agi.”
            “Embora você tenha sido o agente para a minha desgraça a culpa maior foi minha”.
            Ele tenta voltar ao passado vasculhando em sua memória algo que o iluminasse em relação ao que ela dizia.
            “Não tente buscar naquele passado alguma coisa que me faça perdoa-lo. Não posso e não te perdoarei pelo que me fez”.
            Os olhos de Reni se tornam ainda mais vermelhos. Ele a olha e sente que é melhor não dizer nada.
            “Acredita mesmo que possam existir palavras que justifiquem ou amenizem o sofrimento de vergonha diante de minha família ou o escárnio daqueles que se diziam meus amigos”?
            A fisionomia de Reni se altera enquanto seu corpo se transforma. Suas orelhas crescem e pelos surgem em seu rosto outrora tão sereno.
            “Pode imaginar quantas noites passei chorando por ter me submetido a um maldito exame médico para comprovar que minha virgindade tinha sido destruída por um rapazola que nem sequer me amava”?
            Os dedos de Reni se alongam e suas unhas se tornam pontiagudas. Ele finge manter a calma enquanto com os olhos fixos ao dela tenta descobrir uma saída ou alguma forma de se defender do que esta por vir.
            “Acho que não fez parte de sua natureza entender o que aquela menina passou enquanto provavelmente se divertia com os novos amigos contando como foi fácil enganar a virgenzinha tola”.
            O rosto começa a dar lugar ao focinho do que parece ser um enorme rato. Pode ver a cauda nojenta e longa rodopiar nervosa por detrás do corpo que cresce assustadoramente. A voz ameaçadora e esganiçada intercalando-se aos grunhidos incompreensíveis, mas que transmitem um ódio ainda humano.
            Instintivamente ele recua devagar antes que a transformação se concretize e mesmo tendo dentro de si o pavor do que vê tenta achar uma saída.
            A criatura, agora completamente transformada em um imenso e nojento negro rato mostra os dentes enquanto suas patas dianteiras se curvam preparando o ataque.
            Sabe que não poderá enfrentar a criatura, que seu destino é ser estraçalhado pela fúria vingativa de uma menina cuja vida e sonhos fora destroçada por seu desejo de sexo, de um prazer egoísta.
            “Então é apenas isso que quer Reni? Estraçalhar-me? Espalhar meus pedaços por aqui e nada mais?
            Ri com desdém. O animal continua na mesma posição, a boca aberta mostrando os dentes afiados com a língua nervosa mexendo-se em convulsão. Os pelos eriçados tornando-o mais medonho ainda.
            “Pois que seja! Estou morto mesmo e ficar inteiro ou aos pedaços provavelmente não fará muita diferença neste lugar. Talvez amanhã acorde recomposto para que volte a me despedaçar, como um Prometeu acorrentado. Que importa se é isto que foi reservado a mim”.
            Bebe de um gole o resto do champanhe, depois bate com a taça na beira da mesa quebrando parte dela, transformando-a em arma. Abre os braços e dá de ombros.
            A boca do rato treme enquanto ele saliva. Embora tendo a forma de um animal isso não impediu que as palavras fossem entendidas, o que despertou mais ódio em Reni.  E no momento em que a medonha criatura se preparava para o ataque soa por todo o aposento uma voz.
            “Não ouse fazer isso”.
            A cabeça do rato deu uma leve abaixada enquanto se inclinava para a esquerda de onde de fato parecia vir a voz. Os olhos vermelhos tremendo de ódio.
            “Afaste-se e volte para seu buraco”.
            A fera ainda continuou alguns segundo destilando o ódio que lhe fazia ranger os dentes até que foi curvando-se lentamente. Depois caminhou em direção ao homem que continuava de braços abertos o encarando com o mesmo olhar de desdém.
            O rato não parecia agora tão assustador, porém, ainda olhou bem dentro dos olhos do homem enquanto mostrava os dentes antes de sair.
            O homem ouviu palmas atrás de si.
            “Bravo! Brilhante sua atuação Professor”.
            Virou-se devagar enquanto falava um “apenas improvisei, fiz o que pareceu ser minha única saída”.
            Completou o giro e viu diante de si uma mulher cuja beleza não poderia ser descrita nem com todas as palavras que conhecia. Por um momento sentiu-se desnorteado.
            “Não poderia deixar que ela fizesse isso de modo tão bárbaro”.
            “Tão sem prazer você quer dizer. A vingança é um prato que se come frio, segundo o ditado popular”.
            “Perfeitamente! Em segundos apenas teríamos seus pedaços espalhados, seus ossos partidos, o sangue pulverizado em minhas obras de arte”.
            “Ah, então você é o chefe”?
            “Não. Apenas uma organizadora do caos. Prefiro ser chamada assim”.
            “Mas me esclareça uma dúvida. Porque ela se transformou em um rato”?
            “Temos por habito deixar que nossos súditos exponham suas emoções da forma que escolhem materializa-las. Normalmente é algo que sempre as assustou ou que lhes causa repugnância”.
            “Tenho a sensação de que você tem algo mais especial para mim do que me ver espalhado em pedaços”.
            “De fato, sim, temos outros planos para você e espero contar com sua colaboração. Ter suas entranhas decorando meu quarto poderia me fazer dormir melhor, entretanto, seria muito pouco diante de seu potencial”.
            “Meu potencial? Será que não esta se enganando”?
            A mulher abre um ligeiro sorriso que permite ver seus dentes brancos e brilhantes.
            “Venha, vamos caminhar”.
            Andaram pelo salão que parecia não ter fim enquanto se alternavam ao redor paisagens belíssimas.
            “Tenho uma pergunta a fazer”. Disse ela parando.
            “Tentarei responder da melhor maneira possível”.
            “Diga sinceramente: você acredita no homem que se dizia salvador”?
            Preciosos segundos se passam antes que ele responda.
            “Ele nunca existiu, não como salvador. O tal homem pregava muitas coisas e arrastava multidões, pessoas que precisavam acreditar em algo. Ele trazia novidades em palavras nunca ditas por qualquer outro homem, por medo ou por ignorância em não sabê-las dizer ou interpretar seu significado e consequência. Porém, era só um homem. Nada mais do que isso. Podia se ferir, adoecer e morrer, como qualquer outro. Depois que morreu alguns de seus discípulos temendo que se nada fosse feito, tudo que iniciou se perderia, inventaram uma história. Violaram seu túmulo e sumiram com o corpo espalhando a noticia de que ele havia ressuscitado como disse que o faria, e ascendido aos céus para sentar-se ao lado do Pai, Deus Todo Poderoso. Então escreveram coisas e as interpretaram como sendo ditas por ele enquanto vivo e fundaram uma religião que atraiu milhões de pessoas. E tudo cresceu como uma empresa. E para que tudo ficasse sempre vivo na memória das pessoas acrescentaram que um dia ele voltaria para nos salvar novamente. O próprio deus nunca existiu. O mundo se construiu por si só. Evoluímos do macaco ou de qualquer outro bicho ou bactéria porque somos feitos de moléculas, átomos, prótons, elétrons, nêutrons ou qualquer outra coisa química que se combinou e nos gerou. Não houve fagulha divina, sopro, estalar de dedos, bater de palmas ou mesmo uma simples palavra mágica como eureca ou abracadabra. Deus é invenção do homem que descobriu que podia criar um poder invisível e dizer que esse poder controlava tudo e que ele, só ele, podia entender e explicar esse poder e para entendê-lo deveria se submeter a ele aceitando suas regras. Igrejas e templos são filiais de uma empresa chamada religião”.
            “Interessante esse raciocínio. Mas em parte deve discordar dele. A prova de que tudo existiu esta aqui, neste lugar, e mais precisamente ao seu lado”.
            “Quem pode garantir que tudo aqui realmente existe? Uma ex-namorada de infância que se transforma em um rato assassino, uma mulher cuja beleza é tão estonteante quanto improvável, e eu mesmo, morto, continuando a existir em outro plano. Qualquer outra pessoa acharia isso milagre, se agarraria a essa explicação e não entenderia porque veio parar justamente aqui, no inferno. Se é que estamos realmente nele. Fora o rato tudo aqui me parece belo e organizado”.
            “Na realidade o que esta vendo é fruto de sua falta de crenças. Em sua cabeça não existe nem Céu nem Inferno. Existe apenas uma continuação do que conheceu em vida. Uma espécie de mundo paralelo. A diferença é que aqui tudo, por mais absurdo que possa parecer se transforma para puni-lo pelos atos da outra realidade”.
            “Parece mais um jogo. Um jogo em que tenho a oportunidade de me conhecer como jamais pensei em fazê-lo. Devo me policiar para escapar aos castigos. Pensar em meus crimes e aceita-los sem arrepender-me”.
            “Muito bem! Com a única diferença de que como humano é quase impossível controlar suas reações e emoções. O que torna o jogo muito mais interessante”.
               Voltam a caminhar.
            “Entretanto”, diz a mulher passando seu braço por dentro do dele. “Deus existe mesmo, querendo acreditar ou não. A prova sou eu”.
            “Desculpe-me, mas sua palavra somente não irá me convencer que deus existe”.
            “Claro que não! Deixe-me contar-lhe uma história. Provavelmente sendo você uma pessoa descrente poderá parecer essa história um grande absurdo ou uma bobagem sem tamanho. Mas vamos lá: Como já ouviu falar, Deus criou tudo mais ou menos conforme foi descrito no Livro. Digo assim para que fique mais fácil imaginar. Feito isso ele acabou por criar um homem, o tal Adão, que na verdade não passava de um bonequinho que o divertiu por algum tempo vendo-o se maravilhar com as coisas que havia posto no mundo. Um dia entediou-se com essa brincadeira e resolveu criar outra criatura, semelhante a Adão, mas com algumas diferenças. Então pegou o tal mesmo barro e fez Lilith”.
            “Mas Lilith é uma lenda!” Corta o homem com relativo espanto.
            O rosto da mulher se abre em um espetacular sorriso.
            “Ficou como sendo uma lenda, objeto para psicólogos criarem suas teses, para o regozijo das feministas que a tem como a primeira mulher a rebelar-se contra o poder dos homens, porém, ela é real”.
            “Então é verdade que deus criou a segunda mulher da costela de Adão para tê-la submissa?”
            “Sim, e é graças a mim que hoje podemos estar aqui.”
            “A você?”

            “Eu sou Lilith, a primeira mulher que Deus criou.”

(trecho do livro A CONSPIRAÇÃO DE DEUS de Ivo Linhares)
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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE / continuação 3

Guta evitou olhar diretamente para a barriga de Lavínia que as vezes, instintivamente, a acariciava. Ficaram o resto do tempo da visita sem nada dizer.
Havia apenas um diálogo telepático entre elas, mas com cada uma falando uma língua diferente.

O que houve entre nós não foi forte o suficiente para que você me entendesse.

Meu deus! Como eu ainda amo você!

A emoção cobriu os olhos de Guta com lágrimas que não queria que saíssem.

Estou aqui e você apenas chora? Porque não me pede desculpas?

Bem que poderia não ser isso que eu pensei que fosse. Mas parece que estamos cada vez mais distantes não é?

Não sei nem porque estou aqui. Não queria te ver assim. Substituir aquilo que senti por pena, piedade. Não merecíamos isso Guta.

Cadê a máquina do tempo para nos levar de volta aquele dia quando nos encontramos no corredor da empresa? Nunca imaginei que uma mulher como você poderia ser lésbica. Mesmo andando de modo tão firme havia tanta delicadeza e doçura quando diminuiu o passo e me encarou. O batom coral sinalizando quem falava pela empresa, quem dava as ordens. Eu me senti atraída naquele momento. Um desejo de ser tocada por suas mãos fez meu sexo ficar molhado na hora e não pude deixar de passar a língua nos lábios. Acho que vi seus lábios se abrirem e imaginei sua língua em minha boca retirando o discreto batom eu que usava. Você sabe que nunca fui muito de me produzir, ser tão feminina.

Fiquei feliz quando soube que era você quem criticava nosso modo capitalista de ser. Era o motivo que precisava para te demitir. Afinal não poderia cantar uma funcionária, mesmo desconfiando que ela fosse o que mostrava ser. Depois disso eu poderia ir atrás e te seduzir.  Sou uma mulher decidida Guta, ao contrário de você que ainda vive essa máscara de universitária revolucionária contra o capitalismo.  Uma grande idiota pela qual me apaixonei como nunca havia me apaixonado. Uma idiota que lutava contra si mesma para não aceitar todas as boas coisas que o dinheiro nos dá.

Devo admitir que ao seu lado lutei contra tudo aquilo que sempre acreditei O capitalismo não era assim tão selvagem quando o usamos mais do que ele nos usa. Confesso que a sensação de viver sem me preocupar em ganhar dinheiro nos libera para viver outras coisas. Tivemos grandes e deliciosos momentos juntos. Mas foi pena que naquele ano em que fomos para a Europa você se recusou a dar um pulo em Moscou. Seria legal se por um momento vivesse no mundo que acreditei ser melhor e perfeito, nem que fosse para me mostrar que eu estava errada.

A enfermaria esta praticamente vazia quando a enfermeira expulsa as poucas pessoas que restavam.

Lavínia por instantes tem o impulso de se aproximar da cama.
Guta levanta o braço com o soro em direção a ela.
Lavínia apenas levanta o braço e de onde esta acena.

Pelos corredores vazios Lavínia caminha devagar.
Acaricia a barriga.
Apesar de tudo gostaria muito que Guta estivesse com ela quando a criança nascesse.
No fundo sabia que ainda não era hora de desistir dela.


(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE / IVO LINHARES)
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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE / continuação

Tinha medo de não sobreviver ao caos interior.
Passou a se sentir-se como os judeus nos trem de carga a caminho do campo de extermínio. A angústia por não saber se sobreviveria aquele dia que começava igual ao anterior.
Estava abatida. Magra. Debilitada. Por precaução jogou fora todos os remédios que poderiam no extremo do desespero, aliviar seu sofrimento. Não queria morrer. Ao menos daquela forma. 
Levantou do sofá reunindo o resto de suas forças. As paredes rodopiaram rápidas como se fosse desabar sobre ela que não suportando o próprio corpo caiu sobre o sofá. Foram segundos do mais completo terror! O coração disparado, a boca seca, a voz não conseguindo sair pela garganta para pedir socorro. Depois a nuvem escura nos olhos e o silêncio.
Voltou a si antes que pudesse movimentar o corpo que não sentia. 
Passado alguns minutos conseguiu ligar pelo celular para a vizinha.

                                                                        ***
Lavínia chegou pouco antes de terminar o horário das visitas. Entrou na enfermaria do hospital e avistou o leito de Guta quase no meio do cômodo. Não havia ninguém a visitando.
Lavínia se aproximou. A barriga de cinco meses se destacando na silhueta magra.
Olharam-se.  E ficaram se olhando por mais um longo tempo.
Algumas pessoas são fracas emocionalmente. 
Não era isso que Guta precisava ou queria ouvir naquele momento. Então apenas levantou o olhar por sobre os ombros de Lavínia e ficou olhando a sujeira na parede que parecia formar uma figura. 
Lavínia não queria sentir ódio, raiva, pena, nojo, compaixão ou qualquer outro sentimento por Guta. Mesmo o amor que outrora sentiu agora havia se diluído e era como se Guta fosse uma estranha.
Lavínia queria dizer mesmo que Guta era uma completa idiota. A mais idiota das pessoas que já conhecera. Porém, preferiu apenas dizer aquilo. Emocionalmente fraca doía mais. Ela sabia.
Ambas sabiam. 
Guta era loucamente apaixonada por Lavínia. Uma paixão não doentia,  mas que a fazia perder a cabeça, o corpo e a alma. 

(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

SEXO VIRTUAL /8 (CONTOS)

SEU RAUL

Seu Raul acordou pontualmente ás seis da manhã.  Calçou as havaianas desbotadas e caminhou os vinte e dois passos do quarto até o banheiro. Tocou no interruptor esperando os quatro segundos para que a luz acendesse. Urinou de pé por vinte segundos vendo o jato fraco sair em três rápidos intervalos.  Abriu um quarto de volta na torneira e molhou o rosto por duas vezes. Secou-o sem esfregar a toalha que repôs sobre a cortina do box.  Escovou os dentes pondo quase exatos um centímetro de creme dental na escova.  Na cozinha requentou o café de dois dias que tomou com o pão francês do dia anterior amaciado pela chama do fogão a uma distância de um palmo. Tudo como sempre fez durante os quarenta anos em que foi funcionário público.
Calçou as alpargatas de lona e foi até a banca de jornais. Viu as manchetes. Viu as revistas. Andou até a praça onde os velhinhos jogavam dominó e cartas. Cumprimentou-os com um aceno de mão e continuou andando.
Vagueou sem rumo por uns quarenta minutos.
Eram nove horas quando voltou para o pequeno apartamento. Bebeu um copo e meio de água do filtro de barro que mantinha sobre a pia de mármore encardido. Recolocou dois copos de água dentro do filtro praticamente ainda cheio. Só voltaria a beber novamente água do filtro a noite. Três copos. Para ter o que urinar pela manhã.
Na sala, ligou o computador e entrou no facebook. Havia uma solicitação de amizade.
Não reconheceu o rosto da mulher,  porém o nome ele sabia de cor. Era a sub-chefe da seção que o perseguiu nós últimos dez anos em que trabalhou como funcionário público. Ele a odiava.
Olhou por uns cinco minutos a foto sorridente da senhora enrugada. Sem dúvida era o espectro de um fantasma que voltava dos mortos para assombra-lo.
Deslizou a ponta do cursor para negar aquele monstro o prazer de descobrir que ele agora não era mais o garboso funcionário dos ternos impecáveis e sim uma pessoa comum desprovida de qualquer glamour.
O dedo parou sobre o botão como quem esta prestes a comprimir o gatilho de uma arma.
Olhou mais uma vez para o rosto encardido, encoberto pela maquiagem que não conseguia esconder as rugas, os sulcos rasgando a pele como leito de um rio seco.
“O que será que essa mulher quer de mim”. Pensou.
Clicou sobre a foto e a página se abriu.  
Treze minutos depois ainda não acreditava no que tinha visto.
Subitamente a caixa de dialogo se abre e ele lê a mensagem: “enfim te achei!”
Seu Raul não soube o que fazer. Não esperava ter aquela surpresa desagradável de voltar a falar com o que considerava sua maior inimiga. Hesitou por instantes. Depois respondeu: “e para que me procurava?”
“Rs. Por nada. Apenas um pouco de saudades dos velhos tempos de repartição. Vc não sente saudades daquele tempo?”
“Não sou esse tipo de pessoa que vive do passado.”
“Ah, qualé Raul!!! Me engana que eu gosto. Rs”
Tem vontade de fechar a caixa de diálogos e desligar o computador. Em segundos o ódio que habitava as profundezas de seu ser surge quente dentro dele.
“Sempre tenho coisas melhores a fazer do que ficar sentado numa cadeira espreguiçadeira lembrando-me do passado e esperando a morte bater a minha porta.”
“Ah, esse sim é o velho Raul que conheci. Ainda frequenta aquelas gafieiras da velha Lapa atrás das mulatinhas?”
A maldita ainda se lembrava da história que o Astolfo havia contado de uma das vezes em que foram a uma gafieira e seu Raul havia dançado quase que a noite toda com uma mulata que parecia flutuar.  O que nem ela nem o Astolfo sabiam é que de fato seu Raul havia levado a tal mulata para um hotel onde dançaram um tango assobiado por ele que culminou em um sexo em que ambos acabaram desmaiando depois, sem forças.
 “Não tenho mais idade para isso. E você, continua casada com o Valdemar?”
“Kkkkkkkkkkkkk. Valdemar foi meu segundo marido. Já morreu faz tempo. Depois disso ainda casei mais umas duas vezes.”
Seu Raul tem vontade de chama-la de puta. Ela continua escrevendo:
“Cansei de homens. Ainda mais os idosos. Não preciso mais disso.”
“Então agora paga pelos garotos.” Responde com sarcasmo.
“Já paguei sim. Mas o sexo não me satisfazia mais. Agora sou lésbica.”
Seu Raul fica branco. A revelação o espanta. Ela continua:
“Depois que enterrei meu quarto marido fiquei um tempo sem sexo. Ai conheci um garotão na praia. Um daqueles tipos que só querem explorar as velhinhas carentes. KKKKKKKKKK. Como eu. KKKKKKKKKKKKK.”
Seu Raul não conseguia responder nada. Ela prosseguiu escrevendo:
“Mas me comer por obrigação ou dinheiro não me satisfez por muito tempo. Foi quando conheci uma espécie de clube prive de lésbicas em Copacabana. Aí acabou essa coisa de chupar pau de coroa com viagra ou deixar que um garotão me comesse por dinheiro. Entende? Aposto que vc é um desses velhos babões que toma viagra e vai procurar as menininhas.”
Os dedos de seu Raul tremiam sobre o teclado. Ela voltou vendo que ele não estava respondendo:
“Olha, trepar com uma pessoa do mesmo sexo é muito booooooommmmmmm. Rs.”
Seu Raul fechou o facebook e ficou olhando para a tela do computador.
Sua maior inimiga ainda estava viva e ao contrário do que sempre desejou era uma pessoa feliz. Havia se casado quatro vezes, enterrado quatro maridos, feito amor com homens mais jovens e agora trepava com mulheres. A maldita vencia os obstáculos da vida e continuava a exalar vontade de viver.
                                                                              * * *
Seu Raul tentou almoçar mas a comida não lhe descia com vontade. Saiu da pensão e tomou um ônibus para a cidade. Sentiu vontade da velha Lapa que sabia não existir mais. A noite estava quente. E ainda não era verão.
Rodou pelas ruas, agora sujas, escuras, com pessoas estranhas, bebendo, alegres.
Trepar com pessoas do mesmo sexo era bom. A frase lhe martelava a cabeça quando olhava para os homens e seu estomago parecia se revirar pelo avesso.
Quando deu por si já havia passado em muito a hora em que se deitava para dormir. Estava na Praça Tiradentes, entre putas e malandros. Como nos velhos tempos.
Encontrou-a numa das ruas transversais. A pele morena saindo pela curta saia lhe lembrou a mulatinha que parecia flutuar. Olharam-se. Enquanto caminhava o tango daquela noite lhe veio a mente e instintivamente ele começou a assovia-lo. Próximo ao travesti parou e sem pensar deixou que a frase saísse, sem remorso ou pejo:
- Quanto é para me comer?

(SEXO VIRTUAL – CONTOS – IVO LINHARES)

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