terça-feira, 2 de setembro de 2014

VIVENDO OUTRA PESSOA (2ª PARTE)

Preocupados, intelectuais, artistas, cientistas e quem podia resolveu abandonar o país. Quem não havia assumido sua verdadeira identidade continuou, mas com medo de ser descoberto.

Estudantes, aproveitando a insatisfação pela obrigatoriedade do estudo da religião, principalmente a dos Cultuadores, foram para as ruas. A eles se juntaram outros segmentos.
Lógico que a repressão foi dura. Não existia no atual governo espaço para protestos, ainda mais de cunho religioso. Manifestações só as favoráveis, como “a marcha pelo livro sagrado em favor da verdadeira família”.
Houve, milagrosamente, somente uma morte. Uma estudante indígena metralhada sem qualquer justificativa.
Mas nada foi divulgado nos jornais ou nos noticiários.

Então veio a revolução.
Arqueiros indígenas emboscaram o prefeito e o assassinaram com mais de quinze flechas em represália a morte da estudante indígena.
A resposta do governo foi rápida e como nos velhos filmes de caubói uma tropa da guarda metropolitana invadiu e matou dezenas de índios no bairro indígena.

Então agora era a guerra.

Mesmo estando proibida a venda ou fabricação de armas em todo o país um grupo conseguiu através do que restara dos traficantes dos poucos morros que ainda não haviam sido convertidos, uma pequena quantidade de armas. Era o suficiente.
O grupo, formado em sua maioria por estudantes era comandado por um professor de filosofia aposentado. Usava uma boina igual a de Guevara seu ídolo, e um fuzil AK 47 igual ao que Fidel presenteara Allende em sua visita ao Chile.

A primeira ação foi rápida. Logo após os cultistas se dispersarem do culto o grupo invadiu o templo e se apropriou das doações. Incendiaram o local e na calçada escreveram com tinta fluorescente:
“A Satanás, com um abraço”

Dias depois o incêndio foi divulgado pelo rádio, televisão e jornais.
Provavelmente causado por um curto-circuito.

(VIVENDO OUTRA PESSOA – IVO LINHARES)
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