COMO UM LIVRO
Passava o dedo pela pele morena das costas dela como quem
virava a página de um livro feito de pétalas.
Ela sorria e mordia os lábios não contendo o tesão que lhe
subia pela espinha em um arrepio até a nuca. Os dedos dela formavam letras no
amassado do lençol.
As palavras em seu corpo se misturavam as frases que os
dedos dela arrancavam do lençol cada vez mais rápido. Suavemente o corpo dele
deitou-se sobre o dela e como uma borracha apagou todas as letras, todas as
palavras.
Agora eram os sons incompreensíveis do amor que ambos sussurravam
entre os beijos úmidos que preenchiam o ar.
Acordou antes que o sol visitasse o quarto. O homem dormia
nu abraçado ao travesseiro. Quis tocar-lhe as costas amplas, afagar as nádegas
duras, arredondadas, mas não o quis acordar. Tocou em seu próprio sexo como se
desenhasse figuras na areia úmida da praia.
Em pouco tempo o ventre se comprimia estufando o peito e pelas
narinas expulsava o ar quente do desejo.
E quando finalmente gozou foi como se suas unhas tivessem assinado no lençol branco
seu nome numa carta de amor.
Desceu devagar da cama arrastando para o chão as letras.
Olhou novamente o homem nu e sorriu.
Saiu do quarto sem perceber que seus pés tropeçavam em palavras.
(Um conto para Leia O.)
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