terça-feira, 26 de agosto de 2014

A OBRA DO MONSTRO (1º segmento)

INFERNO, SEM DATA

            As valquírias, de Vagner. Já a ouvira tantas vezes, porém, nunca poderia imaginar que pudesse ouvi-la naquele instante, naquele lugar. Abre os olhos. A sala é ampla e bem iluminada. Há quadros belíssimos nas paredes. Acha apropriada a Pirâmide de Crânios de Cezanne mesmo estando em escala bem maior do que o original.  Diminui o passo para apreciar as magnificas esculturas á frente das enormes colunas. O aposento lembra o interior de uma catedral majestosa. Reconhece Os Burgueses de Calais de Rodin e não consegue deixar de sorrir. “É absurdo”, pensa, “O inferno não pode ser isso”. Conforme caminha em direção a grande mesa redonda cercada por doze cadeiras fica cada vez mais admirado com tantas obras de arte. Duvida que o “proprietário” tenha tão refinado gosto e que aquilo seja uma ilusão podendo a qualquer momento desaparecer revelando o inóspito e nefasto lugar em que esta. Apesar disso continua andando devagar apreciando o “passeio”.
            Próximo a grande mesa de madeira cujo tampo encerado reflete nitidamente a imagem de doze espadas pintadas no teto tem a certeza de estar em uma igreja. Ergue um pouco o olhar e reconhece uma pintura de Michelangelo feita na Capela Sistina.
            Sorri novamente quando sente no ar seu perfume favorito entrando por suas narinas despertando-lhe o olfato. Percebe que seus sentidos estão intactos, que seu corpo ainda é seu corpo.
            “Tudo esta de acordo como queria?”
            A voz atrás dele é suave, doce e estranhamente familiar. Vira-se lentamente tentando recuperar na memória a quem pertencia aquele timbre de voz. Por um instante fica sem ação ao deparar-se com uma de suas primeiras namoradas.
            “Porque o espanto, acaso achou que eu seria aquela menina pudica para sempre?”
            Diante dele estava Reni, uma adolescente de tranças e óculos grossos que sorria vendo-o sem ação.
            “Você”. Disse tentando disfarçar o espanto.
            “E porque não eu? Preferia aquela outra, da faculdade? Como era mesmo o nome dela? Giselda não é? Não se preocupe, logo irão se encontrar, ela esta por ai. Mas por enquanto serei eu a lhe mostrar tudo e responder suas perguntas, começando por essa que esta em seus olhos desde que chegou. Não, isto que esta vendo não é uma ilusão para tortura-lo. O inferno é construído como cada um o imagina. Será fumegante, quente e árido se tiver dentro de si o medo do sofrimento. E ao que parece você é um dos raros que não criaram a imagem clássica com gente sofrendo por todo lado.”
            A menina lhe oferece uma taça de champanhe avisando que “A bebida é cortesia do chefe que, diga-se de passagem, estava ansioso pela sua chegada. Nada pessoal devo acrescentar, mas é difícil aparecer gente como você por aqui”.
            “Então acredito que ele sentirá um enorme prazer em me esquartejar e ver queimar meus pedaços.”
            Ela ri alto exatamente como ele ainda tinha na memória.
            “Tenho a impressão de que ele tem outros planos para você. Mesmo porque esquartejar e queimar é rotina por aqui e já não tem tanta graça para ele. Lógico que você seria uma deliciosa exceção e me daria enorme prazer em executar essa tarefa”.
            Ele nota nos olhos dela um brilho avermelhado.
            “Como veio parar aqui Reni?”
            Novamente um sorriso se estampa no rosto da menina.
            “Da mesma maneira que você: errando. Deve lembrar que foi meu primeiro namorado e que apesar de ficarmos juntos por pouco tempos você acabou me despertando para sentimentos e desejos que eu desconhecia. Como o do sexo, por exemplo.”
            “Não sabia que o sexo levava ao inferno.” Brinca ele dando um gole na bebida e deixando transparecer o prazer que lhe causou.
            “Exatamente como a champanhe que acabou de provar e aguçou seu paladar. Pois depois de você foi assim comigo. Entretanto, qual o outro menino que se atreveria a namorar uma garota como eu? Desengonçada, infantil, um pouco fora do peso, um pouco ridícula... ah, e acima de tudo: que não era mais virgem. Servi apenas para um propósito.”
            Ele fica sem jeito e inclina levemente a cabeça para o chão que acaba refletindo seu próprio rosto que não quer ver e os olhos avermelhados de Reni dentro dos seus.
            “Não tenha vergonha meu querido. Entendo que apenas seguia seus instintos de garoto que não se importava com os sentimentos dos outros”.
            “Mesmo assim não deveria ter agido como agi.”
            “Embora você tenha sido o agente para a minha desgraça a culpa maior foi minha”.
            Ele tenta voltar ao passado vasculhando em sua memória algo que o iluminasse em relação ao que ela dizia.
            “Não tente buscar naquele passado alguma coisa que me faça perdoa-lo. Não posso e não te perdoarei pelo que me fez”.
            Os olhos de Reni se tornam ainda mais vermelhos. Ele a olha e sente que é melhor não dizer nada.
            “Acredita mesmo que possam existir palavras que justifiquem ou amenizem o sofrimento de vergonha diante de minha família ou o escárnio daqueles que se diziam meus amigos”?
            A fisionomia de Reni se altera enquanto seu corpo se transforma. Suas orelhas crescem e pelos surgem em seu rosto outrora tão sereno.
            “Pode imaginar quantas noites passei chorando por ter me submetido a um maldito exame médico para comprovar que minha virgindade tinha sido destruída por um rapazola que nem sequer me amava”?
            Os dedos de Reni se alongam e suas unhas se tornam pontiagudas. Ele finge manter a calma enquanto com os olhos fixos ao dela tenta descobrir uma saída ou alguma forma de se defender do que esta por vir.
            “Acho que não fez parte de sua natureza entender o que aquela menina passou enquanto provavelmente se divertia com os novos amigos contando como foi fácil enganar a virgenzinha tola”.
            O rosto começa a dar lugar ao focinho do que parece ser um enorme rato. Pode ver a cauda nojenta e longa rodopiar nervosa por detrás do corpo que cresce assustadoramente. A voz ameaçadora e esganiçada intercalando-se aos grunhidos incompreensíveis, mas que transmitem um ódio ainda humano.
            Instintivamente ele recua devagar antes que a transformação se concretize e mesmo tendo dentro de si o pavor do que vê tenta achar uma saída.
            A criatura, agora completamente transformada em um imenso e nojento negro rato mostra os dentes enquanto suas patas dianteiras se curvam preparando o ataque.
            Sabe que não poderá enfrentar a criatura, que seu destino é ser estraçalhado pela fúria vingativa de uma menina cuja vida e sonhos fora destroçada por seu desejo de sexo, de um prazer egoísta.
            “Então é apenas isso que quer Reni? Estraçalhar-me? Espalhar meus pedaços por aqui e nada mais?
            Ri com desdém. O animal continua na mesma posição, a boca aberta mostrando os dentes afiados com a língua nervosa mexendo-se em convulsão. Os pelos eriçados tornando-o mais medonho ainda.
            “Pois que seja! Estou morto mesmo e ficar inteiro ou aos pedaços provavelmente não fará muita diferença neste lugar. Talvez amanhã acorde recomposto para que volte a me despedaçar, como um Prometeu acorrentado. Que importa se é isto que foi reservado a mim”.
            Bebe de um gole o resto do champanhe, depois bate com a taça na beira da mesa quebrando parte dela, transformando-a em arma. Abre os braços e dá de ombros.
            A boca do rato treme enquanto ele saliva. Embora tendo a forma de um animal isso não impediu que as palavras fossem entendidas, o que despertou mais ódio em Reni.  E no momento em que a medonha criatura se preparava para o ataque soa por todo o aposento uma voz.
            “Não ouse fazer isso”.
            A cabeça do rato deu uma leve abaixada enquanto se inclinava para a esquerda de onde de fato parecia vir a voz. Os olhos vermelhos tremendo de ódio.
            “Afaste-se e volte para seu buraco”.
            A fera ainda continuou alguns segundo destilando o ódio que lhe fazia ranger os dentes até que foi curvando-se lentamente. Depois caminhou em direção ao homem que continuava de braços abertos o encarando com o mesmo olhar de desdém.
            O rato não parecia agora tão assustador, porém, ainda olhou bem dentro dos olhos do homem enquanto mostrava os dentes antes de sair.
            O homem ouviu palmas atrás de si.
            “Bravo! Brilhante sua atuação Professor”.
            Virou-se devagar enquanto falava um “apenas improvisei, fiz o que pareceu ser minha única saída”.
            Completou o giro e viu diante de si uma mulher cuja beleza não poderia ser descrita nem com todas as palavras que conhecia. Por um momento sentiu-se desnorteado.
            “Não poderia deixar que ela fizesse isso de modo tão bárbaro”.
            “Tão sem prazer você quer dizer. A vingança é um prato que se come frio, segundo o ditado popular”.
            “Perfeitamente! Em segundos apenas teríamos seus pedaços espalhados, seus ossos partidos, o sangue pulverizado em minhas obras de arte”.
            “Ah, então você é o chefe”?
            “Não. Apenas uma organizadora do caos. Prefiro ser chamada assim”.
            “Mas me esclareça uma dúvida. Porque ela se transformou em um rato”?
            “Temos por habito deixar que nossos súditos exponham suas emoções da forma que escolhem materializa-las. Normalmente é algo que sempre as assustou ou que lhes causa repugnância”.
            “Tenho a sensação de que você tem algo mais especial para mim do que me ver espalhado em pedaços”.
            “De fato, sim, temos outros planos para você e espero contar com sua colaboração. Ter suas entranhas decorando meu quarto poderia me fazer dormir melhor, entretanto, seria muito pouco diante de seu potencial”.
            “Meu potencial? Será que não esta se enganando”?
            A mulher abre um ligeiro sorriso que permite ver seus dentes brancos e brilhantes.
            “Venha, vamos caminhar”.
            Andaram pelo salão que parecia não ter fim enquanto se alternavam ao redor paisagens belíssimas.
            “Tenho uma pergunta a fazer”. Disse ela parando.
            “Tentarei responder da melhor maneira possível”.
            “Diga sinceramente: você acredita no homem que se dizia salvador”?
            Preciosos segundos se passam antes que ele responda.
            “Ele nunca existiu, não como salvador. O tal homem pregava muitas coisas e arrastava multidões, pessoas que precisavam acreditar em algo. Ele trazia novidades em palavras nunca ditas por qualquer outro homem, por medo ou por ignorância em não sabê-las dizer ou interpretar seu significado e consequência. Porém, era só um homem. Nada mais do que isso. Podia se ferir, adoecer e morrer, como qualquer outro. Depois que morreu alguns de seus discípulos temendo que se nada fosse feito, tudo que iniciou se perderia, inventaram uma história. Violaram seu túmulo e sumiram com o corpo espalhando a noticia de que ele havia ressuscitado como disse que o faria, e ascendido aos céus para sentar-se ao lado do Pai, Deus Todo Poderoso. Então escreveram coisas e as interpretaram como sendo ditas por ele enquanto vivo e fundaram uma religião que atraiu milhões de pessoas. E tudo cresceu como uma empresa. E para que tudo ficasse sempre vivo na memória das pessoas acrescentaram que um dia ele voltaria para nos salvar novamente. O próprio deus nunca existiu. O mundo se construiu por si só. Evoluímos do macaco ou de qualquer outro bicho ou bactéria porque somos feitos de moléculas, átomos, prótons, elétrons, nêutrons ou qualquer outra coisa química que se combinou e nos gerou. Não houve fagulha divina, sopro, estalar de dedos, bater de palmas ou mesmo uma simples palavra mágica como eureca ou abracadabra. Deus é invenção do homem que descobriu que podia criar um poder invisível e dizer que esse poder controlava tudo e que ele, só ele, podia entender e explicar esse poder e para entendê-lo deveria se submeter a ele aceitando suas regras. Igrejas e templos são filiais de uma empresa chamada religião”.
            “Interessante esse raciocínio. Mas em parte deve discordar dele. A prova de que tudo existiu esta aqui, neste lugar, e mais precisamente ao seu lado”.
            “Quem pode garantir que tudo aqui realmente existe? Uma ex-namorada de infância que se transforma em um rato assassino, uma mulher cuja beleza é tão estonteante quanto improvável, e eu mesmo, morto, continuando a existir em outro plano. Qualquer outra pessoa acharia isso milagre, se agarraria a essa explicação e não entenderia porque veio parar justamente aqui, no inferno. Se é que estamos realmente nele. Fora o rato tudo aqui me parece belo e organizado”.
            “Na realidade o que esta vendo é fruto de sua falta de crenças. Em sua cabeça não existe nem Céu nem Inferno. Existe apenas uma continuação do que conheceu em vida. Uma espécie de mundo paralelo. A diferença é que aqui tudo, por mais absurdo que possa parecer se transforma para puni-lo pelos atos da outra realidade”.
            “Parece mais um jogo. Um jogo em que tenho a oportunidade de me conhecer como jamais pensei em fazê-lo. Devo me policiar para escapar aos castigos. Pensar em meus crimes e aceita-los sem arrepender-me”.
            “Muito bem! Com a única diferença de que como humano é quase impossível controlar suas reações e emoções. O que torna o jogo muito mais interessante”.
               Voltam a caminhar.
            “Entretanto”, diz a mulher passando seu braço por dentro do dele. “Deus existe mesmo, querendo acreditar ou não. A prova sou eu”.
            “Desculpe-me, mas sua palavra somente não irá me convencer que deus existe”.
            “Claro que não! Deixe-me contar-lhe uma história. Provavelmente sendo você uma pessoa descrente poderá parecer essa história um grande absurdo ou uma bobagem sem tamanho. Mas vamos lá: Como já ouviu falar, Deus criou tudo mais ou menos conforme foi descrito no Livro. Digo assim para que fique mais fácil imaginar. Feito isso ele acabou por criar um homem, o tal Adão, que na verdade não passava de um bonequinho que o divertiu por algum tempo vendo-o se maravilhar com as coisas que havia posto no mundo. Um dia entediou-se com essa brincadeira e resolveu criar outra criatura, semelhante a Adão, mas com algumas diferenças. Então pegou o tal mesmo barro e fez Lilith”.
            “Mas Lilith é uma lenda!” Corta o homem com relativo espanto.
            O rosto da mulher se abre em um espetacular sorriso.
            “Ficou como sendo uma lenda, objeto para psicólogos criarem suas teses, para o regozijo das feministas que a tem como a primeira mulher a rebelar-se contra o poder dos homens, porém, ela é real”.
            “Então é verdade que deus criou a segunda mulher da costela de Adão para tê-la submissa?”
            “Sim, e é graças a mim que hoje podemos estar aqui.”
            “A você?”

            “Eu sou Lilith, a primeira mulher que Deus criou.”

(trecho do livro A CONSPIRAÇÃO DE DEUS de Ivo Linhares)
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