Tinha medo de não sobreviver ao caos interior.
Passou a se sentir-se como os judeus nos trem de carga a caminho do campo de extermínio. A angústia por não saber se sobreviveria aquele dia que começava igual ao anterior.
Estava abatida. Magra. Debilitada. Por precaução jogou fora todos os remédios que poderiam no extremo do desespero, aliviar seu sofrimento. Não queria morrer. Ao menos daquela forma.
Levantou do sofá reunindo o resto de suas forças. As paredes rodopiaram rápidas como se fosse desabar sobre ela que não suportando o próprio corpo caiu sobre o sofá. Foram segundos do mais completo terror! O coração disparado, a boca seca, a voz não conseguindo sair pela garganta para pedir socorro. Depois a nuvem escura nos olhos e o silêncio.
Voltou a si antes que pudesse movimentar o corpo que não sentia.
Passado alguns minutos conseguiu ligar pelo celular para a vizinha.
***
Lavínia chegou pouco antes de terminar o horário das visitas. Entrou na enfermaria do hospital e avistou o leito de Guta quase no meio do cômodo. Não havia ninguém a visitando.
Lavínia se aproximou. A barriga de cinco meses se destacando na silhueta magra.
Olharam-se. E ficaram se olhando por mais um longo tempo.
Algumas pessoas são fracas emocionalmente.
Não era isso que Guta precisava ou queria ouvir naquele momento. Então apenas levantou o olhar por sobre os ombros de Lavínia e ficou olhando a sujeira na parede que parecia formar uma figura.
Lavínia não queria sentir ódio, raiva, pena, nojo, compaixão ou qualquer outro sentimento por Guta. Mesmo o amor que outrora sentiu agora havia se diluído e era como se Guta fosse uma estranha.
Lavínia queria dizer mesmo que Guta era uma completa idiota. A mais idiota das pessoas que já conhecera. Porém, preferiu apenas dizer aquilo. Emocionalmente fraca doía mais. Ela sabia.
Ambas sabiam.
Guta era loucamente apaixonada por Lavínia. Uma paixão não doentia, mas que a fazia perder a cabeça, o corpo e a alma.
(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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