Lavínia, bem vestida, elegante, parada
e segurando a maçaneta da porta já aberta. Na outra mão uma mala. Mais atrás
aparece Guta, cabelos em desalinho, de calcinha e camiseta com estampa do
Guevara e sua famosa frase.
Lavínia sabe que Guta esta ali embora não tenha feito nenhum ruído. Imagina a expressão fechada no rosto
redondo e o lábio inferior sendo mordido com força em sinal de nervosismo.
Lavínia quer sair, entretanto ainda acha que pode ir sem deixar atrás de si Guta naquele estado.
Guta então não se contém e grita:
– Vagabunda! É isso que você é: uma grande
vagabunda!
Lavínia se vira parcialmente para
que Guta veja o ligeiro sorriso em seu rosto.
– Va-ga-bun-da! Descarada! Ah, que ódio de
você Lavínia!
Lavínia faz que vai sair.
– Prostituta! Prostituta! Repete Guta com os
punhos fechados enquanto os pés socam o chão.
Lavínia compreende que não
adianta mesmo querer sair em paz. Suspira.
– Tomará que morra! Que morra
fedendo e todos sintam nojo de você como eu sinto agora!
Lavínia novamente a olha de lado
com o mesmo riso. Sabe que tudo esta sendo dito em função da magoa que Guta
esta sentindo.
– Isso, grite mais alto para que os vizinhos
saibam quem é você.
Um silêncio irritante se instala
entre as duas.
– Acabou? Posso ir agora? Com licença.
Guta percebe que conseguiu irritar
Lavínia que se volta em direção a porta e contra-ataca com deboche.
– Como
é educada. Fina. Uma piranha de classe!
Lavínia sem se virar responde com
calma.
– Não precisa ter classe para ter educação.
Adeus.
Guta precisa por para fora toda a
raiva que sente.
– Sabe mesmo o que você é Lavínia? Uma grande
cafajeste! Igualzinha a todos os homens que conheci.
O sorriso de Lavínia some dando
lugar a uma expressão séria. Fecha a porta e coloca a mala no chão e sem se
voltar para Guta pergunta:
– O que você disse, do que me chamou?
Guta sorri com satisfação.
– Foi isso que ouviu. No fundo é somente isso
que você é. Uma cafajeste da pior espécie. Uma mulher ordinária que banca a
educadinha, a mulher ideal, criada em berço de ouro, mas não passa mesmo de uma
puta da pior qualidade. Cafajeste como é o pai, com dúzias de mulheres na rua
enquanto a mãe promove bazar de caridade para passar o tempo e enganar a
solidão.
Lavínia se vira lentamente, expressão fechada. Fala pausadamente
tentando ser educada.
– Eu não sou igual a meu pai. Entendeu Guta?
Nunca mais me compare a ele. Entendeu Guta?
Guta sorri irônica.
– Tem razão.
Perto de você ele é um aprendiz.
Lavínia sente o rosto em brasas.
A respiração cresce enquanto o coração dispara. Olha demoradamente dentro dos
olhos de Guta. O pai é realmente um
canalha e todos sabem de sua fama de mulherengo e que seu casamento é apenas
para manter o status de empresário honrado e bom pai de família. Compara-la a ele é a pior ofensa que Guta
poderia usar contra ela.
– Então é assim que vamos
terminar Guta?
– Devia ter pensado nisso antes
de me trair.
– Eu não te traí. Aconteceu.
– Claro que não traiu, aconteceu
por acaso. Você vai a festa de uma empresa, a qual não pode me levar para não
constranger seu querido paizinho e trepa com um cara que mal sabe o nome. Isso
acontece a toda hora com todo mundo porque não aconteceria com você?
– Guta, já expliquei que não sei
como aconteceu. Só me lembro do drinque que ele pegou e me deu. Ficamos
conversando. Ele é filho de um dos fornecedores, um rapaz simpático, educado,
inteligente. Mas isso não quer dizer que eu estivesse interessada nele.
– Claro
que não! Afinal você mesma já cansou de afirmar que não existe espaço para
homem nenhum em sua vida, que seu caso é exclusivamente com mulher. Como
poderia duvidar que você iria querer trepar com o filho simpático, educado e
inteligente de um dos principais fornecedores? Como? Só transaria com ele
estando dopada.
– E qual explicação para eu ser
encontrada no dia seguinte desmaiada no almoxarifado da empresa.
– A única explicação é que você é uma grandessíssima
vagabunda!
A última gota de amor por Guta
sobe aos olhos de Lavínia e se derrama pelo rosto dela.
– Não adianta não é Guta?
– Se pelo menos você tivesse
trepado com outra mulher eu até conseguiria entender, mas com um homem? Um
homem?
Os olhos de Guta também se enchem
de lágrimas enquanto seus lábios tremem segurando o choro.
Lavínia suspira e pega a mala. Guta
fecha os olhos e deixa as lágrimas despencarem sobre a imagem de Guevara.
Na rua Lavínia faz sinal para um
taxi. Guta chora compulsivamente enquanto se encolhe no sofá abraçada a uma
almofada.
No taxi, enquanto olha a paisagem
que passa de relance, Lavínia alisa o ventre na esperança de sentir a pontinha
de vida que cresce dentro de si.
(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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