quinta-feira, 7 de agosto de 2014

BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE

Lavínia, bem vestida, elegante, parada e segurando a maçaneta da porta já aberta. Na outra mão uma mala. Mais atrás aparece Guta, cabelos em desalinho, de calcinha e camiseta com estampa do Guevara e sua famosa frase.
Lavínia sabe que Guta esta ali embora não tenha feito nenhum ruído. Imagina a expressão fechada no rosto redondo e o lábio inferior sendo mordido com força em sinal de nervosismo.
Lavínia quer sair, entretanto ainda acha que pode ir sem deixar atrás de si Guta naquele estado.
Guta então não se contém e grita:
 – Vagabunda! É isso que você é: uma grande vagabunda!
Lavínia se vira parcialmente para que Guta veja o ligeiro sorriso em seu rosto.
 – Va-ga-bun-da! Descarada! Ah, que ódio de você Lavínia!
Lavínia faz que vai sair.
 – Prostituta! Prostituta! Repete Guta com os punhos fechados enquanto os pés socam o chão.
Lavínia compreende que não adianta mesmo querer sair em paz. Suspira.  
– Tomará que morra! Que morra fedendo e todos sintam nojo de você como eu sinto agora!
Lavínia novamente a olha de lado com o mesmo riso. Sabe que tudo esta sendo dito em função da magoa que Guta esta sentindo.
 – Isso, grite mais alto para que os vizinhos saibam quem é você.
Um silêncio irritante se instala entre as duas.
–  Acabou? Posso ir agora? Com licença.
Guta percebe que conseguiu irritar Lavínia que se volta em direção a porta  e contra-ataca com deboche.
 –  Como é educada. Fina. Uma piranha de classe!
Lavínia sem se virar responde com calma.
 – Não precisa ter classe para ter educação. Adeus.
Guta precisa por para fora toda a raiva que sente.
 – Sabe mesmo o que você é Lavínia? Uma grande cafajeste! Igualzinha a todos os homens que conheci.
O sorriso de Lavínia some dando lugar a uma expressão séria. Fecha a porta e coloca a mala no chão e sem se voltar para Guta pergunta:
 – O que você disse, do que me chamou?
Guta sorri com satisfação.
 – Foi isso que ouviu. No fundo é somente isso que você é. Uma cafajeste da pior espécie. Uma mulher ordinária que banca a educadinha, a mulher ideal, criada em berço de ouro, mas não passa mesmo de uma puta da pior qualidade. Cafajeste como é o pai, com dúzias de mulheres na rua enquanto a mãe promove bazar de caridade para passar o tempo e enganar a solidão.
Lavínia se  vira lentamente, expressão fechada. Fala pausadamente tentando ser educada.
 – Eu não sou igual a meu pai. Entendeu Guta? Nunca mais me compare a ele. Entendeu Guta?
Guta sorri irônica.
 – Tem razão.  Perto de você ele é um aprendiz.
Lavínia sente o rosto em brasas. A respiração cresce enquanto o coração dispara. Olha demoradamente dentro dos olhos de Guta.  O pai é realmente um canalha e todos sabem de sua fama de mulherengo e que seu casamento é apenas para manter o status de empresário honrado e bom pai de família.  Compara-la a ele é a pior ofensa que Guta poderia usar contra ela.
– Então é assim que vamos terminar Guta?
– Devia ter pensado nisso antes de me trair.
– Eu não te traí. Aconteceu.
– Claro que não traiu, aconteceu por acaso. Você vai a festa de uma empresa, a qual não pode me levar para não constranger seu querido paizinho e trepa com um cara que mal sabe o nome. Isso acontece a toda hora com todo mundo porque não aconteceria com você?
– Guta, já expliquei que não sei como aconteceu. Só me lembro do drinque que ele pegou e me deu. Ficamos conversando. Ele é filho de um dos fornecedores, um rapaz simpático, educado, inteligente. Mas isso não quer dizer que eu estivesse interessada nele.
  – Claro que não! Afinal você mesma já cansou de afirmar que não existe espaço para homem nenhum em sua vida, que seu caso é exclusivamente com mulher. Como poderia duvidar que você iria querer trepar com o filho simpático, educado e inteligente de um dos principais fornecedores? Como? Só transaria com ele estando dopada.
– E qual explicação para eu ser encontrada no dia seguinte desmaiada no almoxarifado da empresa.
 – A única explicação é que você é uma grandessíssima vagabunda!
A última gota de amor por Guta sobe aos olhos de Lavínia e se derrama pelo rosto dela.
– Não adianta não é Guta?
– Se pelo menos você tivesse trepado com outra mulher eu até conseguiria entender, mas com um homem? Um homem?
Os olhos de Guta também se enchem de lágrimas enquanto seus lábios tremem segurando o choro.
Lavínia suspira e pega a mala. Guta fecha os olhos e deixa as lágrimas despencarem sobre a imagem de Guevara.
Na rua Lavínia faz sinal para um taxi. Guta chora compulsivamente enquanto se encolhe no sofá abraçada a uma almofada.
No taxi, enquanto olha a paisagem que passa de relance, Lavínia alisa o ventre na esperança de sentir a pontinha de vida que cresce dentro de si.

(BEM QUE PODERIA NÃO SER ISSO QUE EU PENSEI QUE FOSSE – IVO LINHARES)
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