quarta-feira, 16 de julho de 2014

VERGONHA (1ª parte)


         Como um iguana, só quero ficar ali deitada ao sol e não pensar em nada. Não existe sol igual ao do Brasil, especialmente como o do Rio. O sol europeu não tem esse calor dos trópicos, não invade nosso corpo para aquecer a alma. Quando falo isso para o Hans ele ri e diz apenas que estou com saudades do Brasil. Então me abraça, me beija na boca e fala que vai mandar construir um sol brasileiro para me aquecer quando não estiver por perto. Aperta minha bunda com aquelas mãos fortes e grandes. Meus braços mal conseguem envolvê-lo. Fico alisando suas costas, sentindo os pelos finos.
         Quem o vê pela primeira vez não imagina que por trás daquele alemaozão de Frankfurt se esconde um homem meigo e sensível que nas horas livres, que são poucas, escreve poesias e faz origami. Um contraste absurdo! Dono de uma fabrica de aços, herdada do pai que herdou do avô, se finge de durão, de poderoso. Tentei convencê-lo a escrever um livro de poemas, porém ele disse que não seria bom para os negócios.
         Não somos casados legalmente, não podemos, mas ele sempre me apresenta como sua mulher e isso acabou gerando um problema com sua família que até hoje reluta em me aceitar.
         Meu braço se estende e toco na água da piscina. Abro um pouco os olhos e fico me deliciando com o reflexo do sol na água azul. Encho o peito de ar e suspiro. Minha vida. Eu a sinto nas pontas dos dedos como aquela água fresca e límpida. O que seria de mim se não tivesse conhecido o Hans? Provavelmente ainda estaria atrás do balcão daquela boate servindo drinques e levando cantadas babacas daqueles gringos sebosos. Ah o Hans! Tão tímido! Ficou me olhando a noite toda enquanto bebia cerveja sem dizer uma única palavra, mesmo porque ele não falava nada de português. Quando saí ele estava lá fora me esperando. Falou alguma coisa em alemão que obviamente não entendi. Entendi aquele olhar carente, a mão trêmula que eu peguei para que ele sentisse o volume do meu pau por debaixo da saia. Ele então sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Depois me puxou devagar e abraçou-me com ternura.
         Não gosto de sair com homens que mal conhecia ainda mais gringos. Embora soubesse que eles vinham ao Brasil para isso, buscar emoções fortes.
         Entramos em seu carro (um Mercedes e me senti poderosa, era a primeira vez que andava num carro de luxo) e também um pouco nervosa. Ai meu Deus! E se ele for um louco, sádico, serial killer ou outra coisa maléfica qualquer?  Quem é que passa a noite toda bebendo numa boate olhando para um travesti se não tem segundas, terceiras, quartas e sei lá quantas intenções? Enquanto penso ele aponta para o céu e talvez esteja dizendo que a noite esta linda. Ou vou mandar você pra lá sua doida.
         O carro contorna a avenida e vamos costeando pela praia. Volta e meia me olha e sorri. Eu morrendo de medo. Minutos depois Hans começa a falar frases curtas em voz baixa. Engulo em seco e acho que ele esta rezando ou falando algum mantra. Deve ser seu ritual antes de retalhar a vitima. Discretamente ponho a mão na alavanca que abre a porta, mas lembro que ao entrarmos ele travou as portas. Se tiver que fugir terá que ser pela janela e isso seria impossível. Já via até a cena: metade do meu corpo para fora do carro e ele me puxando com calma pelas pernas, saboreando meu desespero. Eu gritando socorro e em seu rosto aquele sorriso de satisfação que todo assassino tem diante do pavor de suas vitimas.
         Quando dou por mim ele esta estacionando o carro e destravando as portas. Penso em sair correndo desesperada gritando e vejo-o apontar para a praia dizendo “beach,  beach” enquanto fazia com as mãos um gesto de quem quer nadar.
         Paralisada, embora tenha entendido o que ele queria,levo um tempo para sair do carro. Ele poderia ser o tipo de assassino que não gosta de se sujar com sangue. Prefere afogar suas vitimas.
         Com as pernas bambas desço do carro e olho para os lados. Tudo deserto e escuro. Não conseguiria correr nem dez metros. Quem sabe ele sentisse prazer atropelando os outros com aquele carrão? Quando me dou conta vejo Hans correndo pela areia tirando a camisa, o sapato, a calça e a cueca. O corpo branco, peludo entrando e se perdendo na escuridão. Era a chance que precisava! Hans não se dera ao trabalho sequer de tirar a chave da ignição. O problema é que eu não sabia dirigir e naquele momento seria difícil tentar aprender. Olhei as estrelas que pareciam tão próximas enquanto ouvia o chua-chua das ondas.
         Quando cheguei perto de Hans (ele estava parado em pé, pernas e braços abertos) olhando o mar e falando novamente aquelas frases curtas. Mas dessa vez havia uma sonoridade, uma delicadeza, uma profundidade em suas palavras que me tocou. Como um pescador que é atraído pela sereia, fui me encantando. Ele se virou e apesar do escuro sabia que em seus olhos claros havia uma luz, como um farol a iluminar-me. Devagar desabotoei a blusa e a deixei cair na areia. A saia escorregou pelas pernas me alisando, me seduzindo enquanto meu pau crescia dentro da calcinha. Hans se aproximou, as mãos abertas em volta da minha nuca. Então é assim que morrerei, estrangulada, buscando o ar, sem desespero e estranhamente excitada com tudo isso, pensei.
         Fechei os olhos enquanto Hans continuava a falar aquelas coisas que não entendia como um canto de morte. Senti seus lábios tocando os meus, seu pau crescendo em minha barriga e suas mãos descendo por minhas costas.
         Se fosse aquele meu último momento em vida que morresse de prazer, exalando o último gozo como a mais profunda e quase eterna declaração de amor a tudo que passei até então.
         Hans me possuiu com carinho e eu o fiz gozar varias vezes até que percebemos que o dia iria clarear em breve. Extenuados, recuperamos as forças no mar que já havia levado de mim aquela sensação de medo e morte. Mas confesso: sempre que fazíamos amor eu recuperava aquela sensação e isso me deixava muito excitada.
        
         Entro na piscina e nem um pouco aquela agua lembra minha primeira vez com Hans. Só lembro mesmo é da vergonha que senti por pensar no medo de ser feliz.

(Vergonha – Ivo Linhares)

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