Nós nunca transamos.
Era estranho, claro.
Eu recebia o dinheiro e
o deixava feliz.
Se eram taras, fetiches
ou qualquer outra bobagem isso nunca me importou ou incomodou.
Como já disse, ele me
pagava para ser feliz daquele jeito.
Quando fui lá não me
preocupei com o modo que o faria feliz. Você sabe, a gente tira a roupa e tudo
acontece. No sofá, na cama, no banheiro, no chão. Eu por cima ele por cima...
Se me lembro dessa
primeira vez?
Claro! A primeira vez a
gente nunca esquece.
Quer ouvir? Com
certeza, afinal é para isso que veio.
Ele era cliente da Suzy
4.
Não tenho ideia do
porque desse nome. Talvez ela gostasse de ser possuída de quatro, ou podia
ficar com quatro caras...
O meu? É abreviação de
Catarina, meu nome mesmo. Mas digo aos clientes que é porque gosto de gatos e
cat em inglês é gato. Até tatuei uma gatinha entre os seios. Olha só como ela é
bonitinha.
Mas continuando...
Ele era cliente da Suzy
até ela passar no concurso e ir trabalhar para o governo. Ela dizia que ser
funcionária pública dava status.
Então ela perguntou se
eu queria ficar no lugar dela.
Por mim tanto faria,
cliente é cliente.
Quando ela foi lá pela
última vez mostrou minha foto e deu meu celular para ele.
Parece que ele ficou
assim, meio que relutante. Disse que só faria com ela e mais ninguém. Disse que
ela era especial e nenhuma outra podia despertar nele o que ela despertava. Acho
que ele disse isso mais para encher a bola dela. Ou ela inventou isso para se
valorizar. E nem precisava. A Suzy era muito gata. E competente no que fazia.
Fato é que, duas
semanas foi o tempo que levou para o cara me ligar.
Conversamos pouco pelo
celular, embora a ligação tenha levado mais de meia hora.
Se trocamos meia dúzia
de palavras antes dele passar o endereço foi muito.
Eu ouvia a respiração
dele e no fundo uma música que dava sono.
Suzy não me falou nada
dele. Mas naquele momento imaginei um coroa de 70 anos, alto e magro. Pelos
esbranquiçados no peito contrastando com a pele morena. Cabelos grisalhos
curtos, tipo militar. Aposentado e bem financeiramente.
Foi a primeira vez que
imaginei um cliente. Não me pergunte por que.
Meia noite. Nem antes
nem depois.
Eu deveria tocar a
campainha do apartamento dele nessa hora.
O taxi me deixou na
porta do edifício faltando quinze para a meia noite.
O porteiro sabia.
Eu disse para onde ia e
ele falou meu nome. Não perguntou meu nome.
Olhou no relógio e
disse que faltavam dez minutos para meia noite. Apontou para o sofá no hall de
entrada e mandou que esperasse.
O elevador levará 20
segundos até o andar dele. Saindo do elevador caminhe 30 passos normais para a
esquerda que dará o tempo exato de tocar a campainha a meia noite.
Essa foi a instrução
que o porteiro me deu depois que abriu a porta do elevador falando que eu podia
subir.
Se achei estranho?
Talvez. Excitante? Não. Esse jogo é do cliente, não meu.
Toquei a campainha.
Ouvi um zumbido curto e
um estalinho. Com dois dedos empurrei a porta.
A sala era ampla e bem
decorada. O cara tinha bom gosto. Tirei as sandálias. Entrei.
Havia quadros. Um eu
conhecia. Era Tarsila! Adoro Tarsila! As
cores fortes, o traço firme, linhas que não se perdem, se encontram.
Fiquei grande parte
sozinha. Havia bebidas e canapés. A vista do apartamento era linda! A Lagoa
iluminada. Parecia um momento mágico. O silêncio, a brisa, o aroma de sândalo.
Então ele apareceu. Não
era diferente de como o imaginei. Exceto pela idade. Talvez tivesse uns 60
anos.
Olhou-me sem falar ou
demonstrar nada.
Os olhos acinzentados
ficaram fixos em mim. Sustentei o olhar sem piscar.
Ai ele pegou uma câmera
polaroyd e fez uma foto que saiu por baixo da máquina e ficou pendurada. Fez
outra que empurrou a primeira. Fez outra que empurrou a segunda, a terceira, a
quarta... E assim foi enquanto eu andava pela sala, sentava, bebia, provava os
canapés, admirava os quadros...
Eu não procurava ser
sensual ou fazer poses. Na verdade eu o ignorava. Aliás ignorei tanto que nem
percebi quando ele sumiu.
Depois ouvi o zumbido
vindo da porta e entendi que era hora de ir. Próximo a minha bolsa havia um
envelope com o pagamento.
Antes de sair olhei as
fotos espalhadas pelo chão.
O que significavam para
ele eu não imagino.
Para mim eram somente
fotos.
Coloquei o envelope na
bolsa e no elevador me olhei naquele espelho pensando no porque de se colocar
espelhos nos elevadores. No meu caso via a puta que ganhara um dinheiro sem ter
feito nada com o corpo. Do cliente ou o meu.
Ele podia estar agora
se masturbando sobre as fotos espalhadas no chão. Ou não. Isso não era da minha
conta. Não me interessava o depois. De ambos. O gozo era dele, não meu.
Acho que sei o que quer
perguntar.
Sim, gozamos quando o
cliente não trepa nos usando como objeto. São raríssimos. Noventa e nove por
cento de nós, putas, não quer e não vai gozar. A gente aluga o corpo e não os
sentimentos. Sentir nos fragiliza. No momento em que nos pagam o nosso gozo não
faz parte do que precisam. Se eu gozasse com todos os cliente não seria uma
puta. Seria uma viciada em sexo.
Sou puta sim. Não uma
puta qualquer. Já sei. Toda puta se acha especial.
E não somos?
Para cada homem temos
um algo que os atrai, excita. Não nos escolhem ao acaso. Pode ser o tamanho dos
seios, as coxas roliças, a bunda gostosa, a boca carnuda de lábios vermelhos
que vai te fazer gozar logo. Mas esse é um truque que você não precisa saber.
Somos especiais sim!
Toda mulher é. Falei em ser especial para que tenha certeza ou consciência de
quem devia mandar no mundo somos nós, mulheres.
Pode ficar com esse
riso de deboche, não ligo. Um dia isso muda. Vai mudar.
No caminho de volta o taxi
parou em um sinal. Havia um out door com uma mulher de biquíni anunciando algo
para a construção. Não sei o porquê da lógica dela estar ali de biquíni para
vender sacos de cimento, tijolos e areia.
Isso me fez pensar nas
fotos caídas no tapete felpudo, macio naquela noite diferente, estranha. Não
classifico minhas transas. As apago. Não as levo. Não as coleciono ou construo
com fragmentos de uma memória que não tem sentido para mim. Mas nem posso dizer
que aquilo foi uma transa.
Sou puta só quando
estou na cama, quando me pagam. Depois disso sou meu nome, minha idade, meu
sexo. Como qualquer pessoa. Ali não sei se fui uma puta.
Isso não deve fazer
muito sentido para quem me vê somente como uma puta. Um “objeto” para dar
“prazer”.
Não lhes tiro a razão.
Mas acrescento que quem não me vê como pessoa pode também ser incapaz de se
sentir humano.
Existo porque precisam
de mim, do meu sexo. Porque me alugar é teu prazer e não uma vontade de sentir
a outra pessoa. Quem me aluga não precisa de carinho, afeto, amor. Precisa só
da sensação de poder para esconder a incapacidade de sentir o outro e não
somente a si próprio.
De nossa parte não
enganamos. Alugamos o corpo e não o sentimento.
Não imaginava o porquê
das fotos. Como já disse, não construo memórias com os fragmentos do que
aconteceu com o cliente.
Quer uma análise mais
profunda não é? Você é um daqueles tipos que pensam que puta é uma espécie de
terapeuta, que entende de psicologia ou conhece a psique humana.
Não sou assim, mas se é
essa sua necessidade posso criar uma, ou várias teorias.
Sobre as fotos né?
Pois bem. Talvez ele
tenha tirados fotos por algum fetiche. Por uma necessidade de fantasiar ou
recriar um momento de infância em que se masturbava olhando figuras femininas
nas revistas de moda da mãe, da avó ou da tia.
No intimo vivemos
presos a uma primeira coisa que nos despertou para o gozo. Não o gozo físico, o
gozo do alivio corporal, relaxante. Digo do gozo de um prazer frágil, curto,
mas tão intenso de necessidade de ficar e ser descoberto.
Alegria de viver. Sabe
o que é isso?
Não, ninguém sabe.
Você acorda e esta
feliz. Não precisa saber ou entender. Só sente sem perceber que sente. É algo
que não esta na cabeça. Está em você inteiro.
Mas também posso
considerar que as fotos eram para mim. Que eu as devia ter visto. Levado
comigo.
Talvez ele quisesse que
me visse não como uma puta, um objeto. Que o objeto era ele que se via em mim.
O cliente me toca para
se sentir e não para dar o prazer que não irei sentir e nem corresponder.
Quantos clientes
imaginam o quanto pode ser desagradável abrir meu corpo para um estranho sem
ter afeto, simpatia e desejo?
Eles me constroem como
objeto porque assim é mais fácil esquecer que posso ter repulsa pelo que fazem
comigo ou a mim.
Sim, existe uma
consequência psicológica e não propriamente prazer no que fazemos.
A maioria de nós,
putas, se acha objeto, se isenta do que faz e é feliz sentindo-se só uma
profissional do sexo.
Pois bem. Não me sinto
uma profissional. Trepar não é profissão. Trepar é um acontecimento.
Você lembra quando
transou pela primeira vez?
Não aconteceu
simplesmente. Foi planejado, fantasiado, sonhado, um desejo produzido quando
tomava banho e suas mãos descobriam seu corpo.
O outro não existia
antes em você. Antes da vontade do gozo particular. O outro não era necessário
ao seu prazer. Só depois é que assume a representação do seu desejo. Não porque
você o quer, mas porque ele te dará um prazer maior, desconhecido, do corpo no
outro corpo como um só corpo, dividindo um conjunto de sensações e emoções.
Um profissional
trabalha por dinheiro. O prazer esta em ter sucesso.
Ser puta é mais ou
menos assim. O prazer esta no gozo do cliente.
Não sou um objeto. Sabe
o que é um objeto? Objeto é algo que não muda. É aquilo para sempre. Eu sou uma
pessoa, uma puta, e putas podem mudar. Assim como Suzy que passou no concurso e
foi ser funcionária pública.
Se o cliente me vê como
objeto é porque não é capaz de achar que pode dar ao outro seu corpo e fazer
sentir o que também sente.
Por isso eu disse que
trepar é um acontecimento. Significa algo entre e para duas pessoas. Mesmo para
uma puta. Ainda que ela não queira ou precise desse gozo. Precisa do prazer de
achar que o outro te sente como pessoa e não como objeto.
Nós, putas, nunca
seremos nada além do estimulo sexual para o cliente que só busca um gozo.
Ele sabia disso. Ele
queria um acontecimento e não uma transa.
É, fui um ratinho de
laboratório para ele. Mas também era uma cobaia para eu mesma.
As primeira fotos,
aquelas no apartamento, nunca vi. As da exposição também não vi.
Lembra da mulher no out
door? A gente só vê o anuncio quando o carro para. Se ele passa rápido nós a
vemos de relance. Mas o fragmento do que é visto fica engavetado na memória.
Foi mais ou menos isso.
Aquelas fotos, ou pedaços que vi de relance e pareciam ter importância mais
para ele do que para mim faziam parte de uma contradição. Existiam com um
propósito que eu ignorava por negação.
Na segunda vez que o
visitei, e o procedimento foi o mesmo, tocar a campainha a meia noite, etc...
esperava o mesmo comportamento. Porém, quando entrei tudo havia mudado. Da
decoração a cor das paredes. A reação foi de espanto mesmo. Em dez dias não
havia nenhum vestígio do que minha memória havia armazenado.
A imensa sala agora era
o interior de uma pirâmide com a tumba de um faraó. Parecia cenário de filme de
aventuras.
Suzy nunca me disse o
que fazia com ele. Também nunca perguntei. Talvez só trepassem. Se fosse homem
treparia com ela, com certeza.
As paredes eram blocos
de pedras. Não havia mais a janela com a vista para a lagoa. O tapete felpudo
fora substituído por areia! Areia mesmo, dessas da praia. Só que havia também
escorpiões, besouros, cobras e corujas. Animais vivos surgindo da areia, se escondendo
na areia.
O que era aquilo tudo?
Para quem era aquilo tudo?
Olha, não me importava
mesmo saber.
A única coisa que me
importou naquele momento foi vestir as roupas e acessórios que estavam sobre um
sarcófago de uma mulher.
Tirei o vestido e a
calcinha.
Sabe? Não foi uma coisa
mecânica de me despir. Era estranho. Não era uma fantasia dele me ver vestida
de Cleópatra. Algo me seduzia naquele ambiente. Como se estivesse recuperando
uma coisa já vivida.
Claro que nunca foi
Cleópatra! No máximo uma das serviçais dela. Ou amante dos maridos dela.
E enquanto me vestia,
veio a pergunta em minha cabeça: Aonde estará o prazer de fazer uma puta se
sentir no Egito?
O que ele pretendia, em
que lugar queria me levar? Me tocar não como puta, mas como Cleópatra seria
mais interessante?
Que teste era aquele?
Será que ele apareceria montado em um camelo?
Aí me deu um estalo!
Ele quer que eu esqueça que sou puta! Quer trepar comigo me fazendo sentir que
sou outra pessoa.
Que se dane se for
assim! Mas não pense que vou gozar, ah isso não!