sexta-feira, 30 de novembro de 2018

CAT


Nós nunca transamos.
Era estranho, claro.
Eu recebia o dinheiro e o deixava feliz.
Se eram taras, fetiches ou qualquer outra bobagem isso nunca me importou ou incomodou.
Como já disse, ele me pagava para ser feliz daquele jeito.
Quando fui lá não me preocupei com o modo que o faria feliz. Você sabe, a gente tira a roupa e tudo acontece. No sofá, na cama, no banheiro, no chão. Eu por cima ele por cima...
Se me lembro dessa primeira vez?
Claro! A primeira vez a gente nunca esquece.
Quer ouvir? Com certeza, afinal é para isso que veio.
Ele era cliente da Suzy 4.
Não tenho ideia do porque desse nome. Talvez ela gostasse de ser possuída de quatro, ou podia ficar com quatro caras...
O meu? É abreviação de Catarina, meu nome mesmo. Mas digo aos clientes que é porque gosto de gatos e cat em inglês é gato. Até tatuei uma gatinha entre os seios. Olha só como ela é bonitinha.
Mas continuando...
Ele era cliente da Suzy até ela passar no concurso e ir trabalhar para o governo. Ela dizia que ser funcionária pública dava status.
Então ela perguntou se eu queria ficar no lugar dela.
Por mim tanto faria, cliente é cliente.
Quando ela foi lá pela última vez mostrou minha foto e deu meu celular para ele.
Parece que ele ficou assim, meio que relutante. Disse que só faria com ela e mais ninguém. Disse que ela era especial e nenhuma outra podia despertar nele o que ela despertava. Acho que ele disse isso mais para encher a bola dela. Ou ela inventou isso para se valorizar. E nem precisava. A Suzy era muito gata. E competente no que fazia.
Fato é que, duas semanas foi o tempo que levou para o cara me ligar.
Conversamos pouco pelo celular, embora a ligação tenha levado mais de meia hora.
Se trocamos meia dúzia de palavras antes dele passar o endereço foi muito.
Eu ouvia a respiração dele e no fundo uma música que dava sono.
Suzy não me falou nada dele. Mas naquele momento imaginei um coroa de 70 anos, alto e magro. Pelos esbranquiçados no peito contrastando com a pele morena. Cabelos grisalhos curtos, tipo militar. Aposentado e bem financeiramente.
Foi a primeira vez que imaginei um cliente. Não me pergunte por que.

Meia noite. Nem antes nem depois.
Eu deveria tocar a campainha do apartamento dele nessa hora.
O taxi me deixou na porta do edifício faltando quinze para a meia noite.
O porteiro sabia.
Eu disse para onde ia e ele falou meu nome. Não perguntou meu nome.
Olhou no relógio e disse que faltavam dez minutos para meia noite. Apontou para o sofá no hall de entrada e mandou que esperasse.
O elevador levará 20 segundos até o andar dele. Saindo do elevador caminhe 30 passos normais para a esquerda que dará o tempo exato de tocar a campainha a meia noite.
Essa foi a instrução que o porteiro me deu depois que abriu a porta do elevador falando que eu podia subir.
Se achei estranho? Talvez. Excitante? Não. Esse jogo é do cliente, não meu.

Toquei a campainha.
Ouvi um zumbido curto e um estalinho. Com dois dedos empurrei a porta.
A sala era ampla e bem decorada. O cara tinha bom gosto. Tirei as sandálias. Entrei.
Havia quadros. Um eu conhecia. Era Tarsila!  Adoro Tarsila! As cores fortes, o traço firme, linhas que não se perdem, se encontram.
Fiquei grande parte sozinha. Havia bebidas e canapés. A vista do apartamento era linda! A Lagoa iluminada. Parecia um momento mágico. O silêncio, a brisa, o aroma de sândalo.
Então ele apareceu. Não era diferente de como o imaginei. Exceto pela idade. Talvez tivesse uns 60 anos.
Olhou-me sem falar ou demonstrar nada.
Os olhos acinzentados ficaram fixos em mim. Sustentei o olhar sem piscar.
Ai ele pegou uma câmera polaroyd e fez uma foto que saiu por baixo da máquina e ficou pendurada. Fez outra que empurrou a primeira. Fez outra que empurrou a segunda, a terceira, a quarta... E assim foi enquanto eu andava pela sala, sentava, bebia, provava os canapés, admirava os quadros...
Eu não procurava ser sensual ou fazer poses. Na verdade eu o ignorava. Aliás ignorei tanto que nem percebi quando ele sumiu.
Depois ouvi o zumbido vindo da porta e entendi que era hora de ir. Próximo a minha bolsa havia um envelope com o pagamento.
Antes de sair olhei as fotos espalhadas pelo chão.
O que significavam para ele eu não imagino.
Para mim eram somente fotos.

Coloquei o envelope na bolsa e no elevador me olhei naquele espelho pensando no porque de se colocar espelhos nos elevadores. No meu caso via a puta que ganhara um dinheiro sem ter feito nada com o corpo. Do cliente ou o meu.
Ele podia estar agora se masturbando sobre as fotos espalhadas no chão. Ou não. Isso não era da minha conta. Não me interessava o depois. De ambos. O gozo era dele, não meu.
Acho que sei o que quer perguntar.
Sim, gozamos quando o cliente não trepa nos usando como objeto. São raríssimos. Noventa e nove por cento de nós, putas, não quer e não vai gozar. A gente aluga o corpo e não os sentimentos. Sentir nos fragiliza. No momento em que nos pagam o nosso gozo não faz parte do que precisam. Se eu gozasse com todos os cliente não seria uma puta. Seria uma viciada em sexo.
Sou puta sim. Não uma puta qualquer. Já sei. Toda puta se acha especial.
E não somos?
Para cada homem temos um algo que os atrai, excita. Não nos escolhem ao acaso. Pode ser o tamanho dos seios, as coxas roliças, a bunda gostosa, a boca carnuda de lábios vermelhos que vai te fazer gozar logo. Mas esse é um truque que você não precisa saber.
Somos especiais sim! Toda mulher é. Falei em ser especial para que tenha certeza ou consciência de quem devia mandar no mundo somos nós, mulheres.
Pode ficar com esse riso de deboche, não ligo. Um dia isso muda. Vai mudar.
No caminho de volta o taxi parou em um sinal. Havia um out door com uma mulher de biquíni anunciando algo para a construção. Não sei o porquê da lógica dela estar ali de biquíni para vender sacos de cimento, tijolos e areia.
Isso me fez pensar nas fotos caídas no tapete felpudo, macio naquela noite diferente, estranha. Não classifico minhas transas. As apago. Não as levo. Não as coleciono ou construo com fragmentos de uma memória que não tem sentido para mim. Mas nem posso dizer que aquilo foi uma transa.
Sou puta só quando estou na cama, quando me pagam. Depois disso sou meu nome, minha idade, meu sexo. Como qualquer pessoa. Ali não sei se fui uma puta.
Isso não deve fazer muito sentido para quem me vê somente como uma puta. Um “objeto” para dar “prazer”.
Não lhes tiro a razão. Mas acrescento que quem não me vê como pessoa pode também ser incapaz de se sentir humano.
Existo porque precisam de mim, do meu sexo. Porque me alugar é teu prazer e não uma vontade de sentir a outra pessoa. Quem me aluga não precisa de carinho, afeto, amor. Precisa só da sensação de poder para esconder a incapacidade de sentir o outro e não somente a si próprio.
De nossa parte não enganamos. Alugamos o corpo e não o sentimento.

Não imaginava o porquê das fotos. Como já disse, não construo memórias com os fragmentos do que aconteceu com o cliente.

Quer uma análise mais profunda não é? Você é um daqueles tipos que pensam que puta é uma espécie de terapeuta, que entende de psicologia ou conhece a psique humana.
Não sou assim, mas se é essa sua necessidade posso criar uma, ou várias teorias.
Sobre as fotos né?
Pois bem. Talvez ele tenha tirados fotos por algum fetiche. Por uma necessidade de fantasiar ou recriar um momento de infância em que se masturbava olhando figuras femininas nas revistas de moda da mãe, da avó ou da tia.
No intimo vivemos presos a uma primeira coisa que nos despertou para o gozo. Não o gozo físico, o gozo do alivio corporal, relaxante. Digo do gozo de um prazer frágil, curto, mas tão intenso de necessidade de ficar e ser descoberto.
Alegria de viver. Sabe o que é isso?
Não, ninguém sabe.
Você acorda e esta feliz. Não precisa saber ou entender. Só sente sem perceber que sente. É algo que não esta na cabeça. Está em você inteiro.
Mas também posso considerar que as fotos eram para mim. Que eu as devia ter visto. Levado comigo.
Talvez ele quisesse que me visse não como uma puta, um objeto. Que o objeto era ele que se via em mim.
O cliente me toca para se sentir e não para dar o prazer que não irei sentir e nem corresponder.
Quantos clientes imaginam o quanto pode ser desagradável abrir meu corpo para um estranho sem ter afeto, simpatia e desejo?
Eles me constroem como objeto porque assim é mais fácil esquecer que posso ter repulsa pelo que fazem comigo ou a mim.
Sim, existe uma consequência psicológica e não propriamente prazer no que fazemos.
A maioria de nós, putas, se acha objeto, se isenta do que faz e é feliz sentindo-se só uma profissional do sexo.
Pois bem. Não me sinto uma profissional. Trepar não é profissão. Trepar é um acontecimento.

Você lembra quando transou pela primeira vez?
Não aconteceu simplesmente. Foi planejado, fantasiado, sonhado, um desejo produzido quando tomava banho e suas mãos descobriam seu corpo.
O outro não existia antes em você. Antes da vontade do gozo particular. O outro não era necessário ao seu prazer. Só depois é que assume a representação do seu desejo. Não porque você o quer, mas porque ele te dará um prazer maior, desconhecido, do corpo no outro corpo como um só corpo, dividindo um conjunto de sensações e emoções.
Um profissional trabalha por dinheiro. O prazer esta em ter sucesso.
Ser puta é mais ou menos assim. O prazer esta no gozo do cliente.
Não sou um objeto. Sabe o que é um objeto? Objeto é algo que não muda. É aquilo para sempre. Eu sou uma pessoa, uma puta, e putas podem mudar. Assim como Suzy que passou no concurso e foi ser funcionária pública.
Se o cliente me vê como objeto é porque não é capaz de achar que pode dar ao outro seu corpo e fazer sentir o que também sente.
Por isso eu disse que trepar é um acontecimento. Significa algo entre e para duas pessoas. Mesmo para uma puta. Ainda que ela não queira ou precise desse gozo. Precisa do prazer de achar que o outro te sente como pessoa e não como objeto.
Nós, putas, nunca seremos nada além do estimulo sexual para o cliente que só busca um gozo.
Ele sabia disso. Ele queria um acontecimento e não uma transa.
É, fui um ratinho de laboratório para ele. Mas também era uma cobaia para eu mesma.
As primeira fotos, aquelas no apartamento, nunca vi. As da exposição também não vi.
Lembra da mulher no out door? A gente só vê o anuncio quando o carro para. Se ele passa rápido nós a vemos de relance. Mas o fragmento do que é visto fica engavetado na memória.
Foi mais ou menos isso. Aquelas fotos, ou pedaços que vi de relance e pareciam ter importância mais para ele do que para mim faziam parte de uma contradição. Existiam com um propósito que eu ignorava por negação.
Na segunda vez que o visitei, e o procedimento foi o mesmo, tocar a campainha a meia noite, etc... esperava o mesmo comportamento. Porém, quando entrei tudo havia mudado. Da decoração a cor das paredes. A reação foi de espanto mesmo. Em dez dias não havia nenhum vestígio do que minha memória havia armazenado.
A imensa sala agora era o interior de uma pirâmide com a tumba de um faraó. Parecia cenário de filme de aventuras.
Suzy nunca me disse o que fazia com ele. Também nunca perguntei. Talvez só trepassem. Se fosse homem treparia com ela, com certeza.
As paredes eram blocos de pedras. Não havia mais a janela com a vista para a lagoa. O tapete felpudo fora substituído por areia! Areia mesmo, dessas da praia. Só que havia também escorpiões, besouros, cobras e corujas. Animais vivos surgindo da areia, se escondendo na areia.
O que era aquilo tudo? Para quem era aquilo tudo?
Olha, não me importava mesmo saber.
A única coisa que me importou naquele momento foi vestir as roupas e acessórios que estavam sobre um sarcófago de uma mulher.
Tirei o vestido e a calcinha.
Sabe? Não foi uma coisa mecânica de me despir. Era estranho. Não era uma fantasia dele me ver vestida de Cleópatra. Algo me seduzia naquele ambiente. Como se estivesse recuperando uma coisa já vivida.
Claro que nunca foi Cleópatra! No máximo uma das serviçais dela. Ou amante dos maridos dela. 
E enquanto me vestia, veio a pergunta em minha cabeça: Aonde estará o prazer de fazer uma puta se sentir no Egito?
O que ele pretendia, em que lugar queria me levar? Me tocar não como puta, mas como Cleópatra seria mais interessante?
Que teste era aquele? Será que ele apareceria montado em um camelo?
Aí me deu um estalo! Ele quer que eu esqueça que sou puta! Quer trepar comigo me fazendo sentir que sou outra  pessoa.
Que se dane se for assim! Mas não pense que vou gozar, ah isso não!


Nenhum comentário:

Postar um comentário