O
comandante olha seu relógio. Faltam alguns minutos para que o trem chegue.
Ele
abre a gaveta de sua mesa e pega a cigarreira, presente de sua mulher. Tinha
prometido a si mesmo que pararia de fumar por isso a deixara na gaveta.
O
comandante pensa em não acender o cigarro. Busca em sua cabeça qualquer motivo que o impeça de fazer isso.
Levanta
devagar e caminha até a janela.
Não
há sol. Lá fora tudo é meio cinza devido ao frio. Vê um soldado encasacado, o
rifle a tiracolo. Um cigarro em seus dedos que volta e meia leva aos lábios
enquanto caminha de um ponto a outro.
O
soldado parece calmo. Se sente seguro.
“
Então porque fuma? ” Se interroga o comandante.
“Ele
sabe da guerra. Sabe que aqui está protegido. Ou será que gostaria de estar no
front ao invés de ficar neste maldito
campo de concentração? “
Os
pensamentos do comandante são quebrados por batidas suaves na porta.
Passam-se
alguns segundos. Ele ainda olha o soldado fumando enquanto segura a cigarreira aberta. As
batidas se repetem com mais força.
Sem
se virar ele diz apenas um “entre” ao mesmo tempo suave e autoritário.
A
porta se abre devagar e a moça entra. Mantém o rosto voltado para o chão.
“
Mandou me chamar senhor comandante? “
Lá
fora, o soldado dá uma última tragada no cigarro e depois o deixa cair no chão
lamacento e mesmo sem necessidade o afunda na lama com o pé.
O
comandante fecha a cigarreira de modo suave e devagar se volta para a moça.
Ela
se mantem parada olhando o chão.
O
comandante circunda a mesa e lentamente se aproxima dela.
O
toc-toc de suas botas no assoalho contrasta com o toc-toc descompassado do
coração da moça.
Ele
para tão próximo que suas botas quase tocam nos pés dela. Os olhos da moça não
querem ver as botas reluzentes do comandante, porém ela não os consegue fechar.
O
comandante lentamente ergue seus braços e a segura delicadamente nos ombros.
“
Olhe para mim ”, diz ele com voz doce, afetuosa.
O
corpo da moça treme enquanto ela aos poucos ergue a cabeça.
Ela
vê o homem sorrindo ternamente. Paternalmente.
São
longos minutos para ela nas mãos do comandante que a olha carinhoso, singelo.
Inevitavelmente
a moça vai se acalmando. Seu corpo relaxa e para de tremer.
A
moça sabe da guerra, mas não entende porque estão isolando os judeus. Só queria
encontrar novamente sua família e ficar junto deles até tudo aquilo acabar.
O
comandante sente o perfume dos cabelos da moça. Ela deve ter a idade de sua
filha mais velha. Por instantes fecha os olhos e se lembra da menina ao piano
tocando Wagner. Seus braços relaxam e deslizam pelos ombros da moça até parar
nos cotovelos.
Ao
longe escuta o apito do trem.
Num
gesto brusco arremessa com violência a moça em direção ao sofá.
“
Maldito trem!” exclama entre os dentes. “ Estão adiantados de novo.”
*
* *
Quando
o último judeu desembarca e entra em forma o comandante sai de seu gabinete
ainda ajeitando o uniforme. Coloca o quepe e se encaminha para o grupo.
Sobe
as escadas do pequeno palanque e com um largo sorriso, quase que eufórico anuncia:
“Bem
vindos a Sobibor.”
(A OBRA DO MONSTRO / Trecho)