Eve então percebe que
é o momento de fechar o cerco e se expôr. Seu rosto se contrai numa expressão
que tanto revela angustia como uma certa dor. Fala olhando para dentro do copo,
como se visse no líquido as palavras se desenhando.
Tenho medo daquilo que conheço e vejo antes de dormir.Sinto quando fecho
os olhos que minha cama é apenas uma pequena embarcação balançando a noite no
meio de um oceano onde não há peixes mas pessoas nadando ao meu
redor. Estou deitada no convés olhando as estrelas sem me importar de estar
perdida no meio do nada.Não amo essa solidão, porém é tudo que me restou
para viver. Viver além de todas as lembranças dos medos, dos pequenos
fantasmas que criei, das pessoas que sufoquei enquanto levava meu dirigível
Zeppelin para a estratosfera de todas as emoções que meu corpo não podia
comportar. Não amo a mim mesma e ao corpo que não me suporta e debocha dos
meus sentimentos fazendo-me ser ridícula diante de todas as pessoas que
convivem em harmonia no casamento do corpo e da alma. Sou uma viajante das
gotas de álcool que entorpecem o lado ruim da cabeça que comanda o corpo e o
engana possibilitando que ele se transforme em um barco em forma de cama e faça
ser quem quero ser até que o efeito da bebida se dissolva e me afunde na dureza
dos lençóis em todas as manhãs que acordo só. Tenho medo do pedaço de lua
que se rasga por entre a cortina do quarto, como luz de um farol, e não me leva
a qualquer outro destino que não é aquele que já conheço e vivo. Prefiro o sol
que me queima a pele e me mostra sem retoques. Não sou possível em
qualquer mundo, nem mesmo no que inventei em viver. Deixo rastros,
pegadas que ninguém quer seguir porque não sou caça digna de virar troféu na
parede para ser admirada enquanto tomem licor de gengibre e falam do prazer em
serem caçadores. Tenho medo da pouca felicidade que crio quando me
masturbo e que mal fica em mim quando abro os olhos e vejo o subproduto que
restou de meu gozo preso entre meus dedos. Vivo em partes, trancando portas,
escondendo coisas que me ferem, amontoando caixinhas com tarjas pretas debaixo
da cama para dizer aos pouquíssimos amigos que tenho um monstro morando
comigo.
Carolina se contém para não chorar. Toma nas suas mãos quentes as
frias mãos de Eve que se esforça para chorar.
Eve apertou uma
das mãos de Carolina enquanto enfiava seus dedos entre os dedos da outra mão
dela. Olhou-a e viu o brilho em seus olhos marejados.
- Agora é a sua vez. - fala Eve com a voz um pouco sumida - falei de
meus medos e agora queria ouvir suas fantasias para não ficar tão sombrio esse
nosso papo.
Carolina quis sorrir. Ficou sem jeito.
- Ah, não tenho fantasias.
- Então as vive. Isso é bom.
- Não Eve, quero dizer que não fantasio e nem vivo imaginando
nada.
- Nunca? Nem quando era menina? Nunca teve sonhos com meninos?
Carolina solta uma das mãos e bebe.
- Teve uma vez... na escola.
Eve solta a outra mão e também bebe.
- E você lembra como foi?
Novamente Carolina fica em silêncio. O olhar viajando em volta como se
recuperasse no espaço a própria lembrança que lhe vem do fundo da mente.
- Foi um professor. Acho que essa foi a única vez que me me toquei de
modo tão louco. Foi algo meio que incontrolável.
Eve morde os lábios.
- Foi mais ou menos assim que aconteceu: Durante uma aula sempre que
olhava para um professor eu senti uma coisa na minha vagina. Ela se contraia
involuntariamente mesmo ouvindo-o falar sobre a revolução francesa. Depois,
no recreio eu fui até o banheiro para ver se havia algo errado comigo. Bastou
fechar os olhos e lembrar dele na sala que minha vagina se contraia me dando
uma sensação que eu nunca havia sentido. Quando dei por mim me masturbava
freneticamente por instinto. Ouvia as vozes, os risos, os comentários
sussurrados das meninas enquanto se olhavam no espelho retocando a maquiagem,
ajeitando o cabelo, admirando-se de perfil para ver se a curvatura da bunda
continuava a mesma. Pensava nele. E quanto mais pensava em beija-lo, na
barba roçando em seus seios enquanto ele lhe chupava o pescoço mais
enfiava os dedos na buceta arreganhada, molhada. As vozes sumiam por
breves momentos. Retornavam. Nem o barulho das descargas a trazia de volta a
realidade. A mão por dentro do sutiã, como se fosse a mão dele, apertando o
mamilo dilatado me mantinha presa aquele mundo de desejo proibido,
de fantasia num prazer secreto e mágico. Gozava apertando os olhos com
força, imaginando o membro grosso dele tocando meu o útero, espirrando um
líquido quente, perfumado, que me aquecia a alma. Depois que gozei sem saber
que gozava, o corpo pendeu sobre o vaso, sem forças. A respiração foi voltando
aos poucos, os olhos não querendo abrir. Quando voltei para a sala de aula
pensava que ouvia o que ele dizia, mas apenas o olhava acompanhando cada
detalhe de sua boca ao pronunciar as palavras como se saíssem somente palavras
doces e delicadas, poemas em minha homenagem.
- Uau!
Eve havia ficado extremamente excitada.
- Acho que foi uma coisa boba de menina.
- Carolina, não vou te enganar, mas estou louca para ir ao banheiro me
masturbar depois disso que ouvi.
Carolina ri.
- É sério menina! Nossa, estou superexcitada!
- Confesso que isso me fez sentir algo estranho também.
- Carolina, me desculpa, mas preciso dizer.
- O que?
- Você não quer ir ao banheiro comigo? Preciso me tocar ouvindo você
contar essa história outra vez!