A
NORMALISTA E O BARBEIRO
Passava
diariamente pela manhã na porta da barbearia antes do bonde das sete horas e a
tarde, quase junto com o das treze horas voltando do colégio.
Um
dia um dos clientes comentou que as normalistas eram apetitosas.
Ele,
um senhor com seus sessenta anos, quarenta de barbeiro, por educação não
aprovou nem reprovou o comentário, pois até então sempre concentrado em seu
trabalho, não havia reparado se eram ou não. Depois disso passou nas horas de
folga a reparar as meninas em seus uniformes impecáveis que desfilavam pela
rua. Em especial uma delas que passava lendo um livro diferente a cada semana.
Andava sempre devagar, lendo concentrada, desviando instintivamente dos
obstáculos que surgiam a sua frente.
Naquela
semana tentou descobrir inutilmente o nome do livro que tanto prendia sua
atenção.
Na
outra, mais atento, conseguiu ver o titulo: A convidada. Escrito por uma tal de
“Simone sei lá o que”. Devia ser sobre como receber os outros, um livro de boas
maneiras.
Os
cabelos cacheados pareciam saltar enquanto andava com graça e leveza.
A
menina era alta, a pele muito branca, seu rosto era redondo e os olhos negros
se destacavam.
Durante
uns cinco ou seis meses o barbeiro acompanhava a menina com seus livros, sempre
tentando descobrir o que ela lia. Nunca olhou de fato suas pernas bem feitas, o
quadril apertado na saia azul marinho pouco acima dos joelhos, os seios
pequenos escondidos pelo sutiã branco, como a blusa.
A
noite, antes de dormir beijava a esposa com carinho e virava-se para o lado. Entretanto
não dormia. Não fechava os olhos. Ficava vendo a menina surgir com o livro nas
mãos, vendo seus olhos percorrendo as linhas, bebendo as palavras.
Certa
vez a viu sorrir enquanto passava. Os lábios se abriram iluminando o rosto, os
olhos se fechando levemente como para não ofuscar o brilho que seu sorriso
transmitia.
Quando
as aulas terminaram ele sentiu falta da menina. Nas horas vagas ficava
espreitando as extremidades da rua, atento, um pouco nervoso e desapontado. Atendia
os clientes em silencio, fazia um ou outro comentário sobre a situação do país.
Depois, se calava e fazia seu trabalho pensando na garota.
Na
véspera do natal depois que abriu a barbearia ficou sentado a espera do
primeiro freguês. Via as pessoas passando com os embrulhos, algumas apressadas,
outras do outro lado da rua vendo as vitrines. Por um ou dois minutos fechou os
olhos e imaginou a menina subindo a rua. Em suas mãos um livro branco, sem nada
escrito na capa. As mãos delicadas segurando o livro como se carregasse a coroa
de um rei.
Sentiu
a presença de alguém e abriu os olhos.
Por
um momento pensou ser seu primeiro freguês. Mas era apenas o carteiro que lhe
entregou um pacote onde estava escrito com uma letra muito bela o endereço da
barbearia e logo abaixo “para o sr. barbeiro”.
Abriu
o pacote e sem perceber sorriu como a menina sorrira um dia.
Alguém
o havia presenteado com um livro.
(A
orgia dos cães / IVO LINHARES)
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