Um era bancário. Vaidoso,
tinha vários ternos, adorava gravatas (dizem que tinha mais de 100) e sungas
variadas para exibir seu corpo atlético na praia aos domingos. Gostava de
sentir os olhares de inveja por sua cor na segunda-feira.
O outro era comerciário.
Usava sempre a camiseta Hering bege da loja, daquelas com a logomarca nas
costas. Não gostava de praia, já era moreno de nascimento, e domingo acordava
cedo para ir jogar pelada no Aterro do Flamengo. Segunda-feira narrava seus
gols para os colegas de balcão imitando o locutor famoso. E ainda fazia o
segundo comentarista.
Conheceram-se no dia em
que o comerciário foi receber seu pagamento e a funcionária que era nova
naquela agencia disse que a assinatura do cheque não batia com a da ficha.
- Mas como é possível
isso se todo mês um monte de gente vem aqui receber e ninguém tem problemas?
Poderia chamar o gerente?
A funcionária, tendo
sido questionada quanto a veracidade da informação que prestava, contrariada,
informou novamente que a assinatura estava diferente e que o gerente estava em
horário de almoço e que ninguém liberaria um cheque cuja assinatura era
duvidosa.
Vendo que o comerciário
começava a se exaltar, o bancário, no guichê ao lado pediu para ver o cheque e
o cartão de assinaturas.
O comerciário, nervoso
diante da eminencia de ficar sem o pagamento, passava a mão pelo queixo
descendo-a até o pescoço enquanto dava pequenos passos ora para a direita ora
para a esquerda. O bancário, após alguns
segundos e secretamente se divertindo com o que parecia ser um bailado, afinal
liberou o cheque dizendo que a assinatura era valida. A funcionária então disse
que mesmo assim não pagaria e que se ele quisesse assumir o risco seria
problema dele.
A pele negra do
comerciário encantou o bancário que pediu o cheque para pagar, fazendo uma
espécie de careta para a novata.
Daí pra frente o
bancário toda vez que ia aquela agencia esperava para ser atendido pelo
bancário. Numa sexta-feira em que foi receber o pagamento o comerciário
achou-se no dever de retribuir o atendimento tão amável chamando o bancário
para um chope. Convite prontamente aceito.
A conversa fluía
animada movida por vários chopes. As coincidências entre eles os aproximavam.
Como por exemplo, torcerem pelo mesmo time, gostarem do mesmo prato, e a maior
de todas: a paixão pelo filme Retratos da Vida que ao fim apresenta um
bailarino dançando o Bolero de Ravel sob Torre
Eiffel.
Ah, Paris,
Paris! Suspiram embalados pela lembrança do filme voltando em suas cabeças.
“Quer ouvir o disco lá m casa?” Propõe o bancário, os olhos ardendo de desejo
depois que um arrepio lhe subiu pela espinha. O comerciário diz que trabalha no
dia seguinte, sábado, e o bancário oferece para que ele durma lá, afinal morava
sozinho.
Pegam um
taxi e no caminho comentam o filme.
Afoito, o
bancário procura o disco enquanto o comerciário vai ao banheiro.
Tira a
camisa, os sapatos, o cinto. Apaga a luz e sobe na pequena mesa redonda no
centro da sala.
O
comerciário sai do banheiro e ouve os primeiros acordes. Vem dançando e se
depara com o bancário sobre a mesa. Pela cortina entre aberta entra uma nesga
de luz sobre ele. O comerciário admira o corpo bronzeado e atlético do bancário,
que hipnotizado pela música dança em transe. O comerciário instintivamente
dança ao redor da mesa. A música crescendo nos corpos suados, infiltrando-se
nos movimentos sensuais, o ar se impregnando de erotismo.
Perto do
fim, exausto, elevado por um torpor mágico produzido pelas notas afrodisíacas, o bancário se deixa tomar pelo
êxtase e quase desfalece sendo amparado pelo comerciário.
O corpo
suado do bancário desliza pelo do comerciário. Os olhos se veem próximos. Os
braços fortes do comerciário mantendo o corpo atlético e bronzeado do bancário junto
ao seu.
A música,
em seus acordes finais, anunciava o inicio de outro bolero.
(A orgia dos cães / Ivo Linhares)
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A vida existe esses desencontros que na verdade viram encontros perfeitos.
ResponderExcluirAmei