terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um era bancário. Vaidoso, tinha vários ternos, adorava gravatas (dizem que tinha mais de 100) e sungas variadas para exibir seu corpo atlético na praia aos domingos. Gostava de sentir os olhares de inveja por sua cor na segunda-feira.
O outro era comerciário. Usava sempre a camiseta Hering bege da loja, daquelas com a logomarca nas costas. Não gostava de praia, já era moreno de nascimento, e domingo acordava cedo para ir jogar pelada no Aterro do Flamengo. Segunda-feira narrava seus gols para os colegas de balcão imitando o locutor famoso. E ainda fazia o segundo comentarista.
Conheceram-se no dia em que o comerciário foi receber seu pagamento e a funcionária que era nova naquela agencia disse que a assinatura do cheque não batia com a da ficha.
- Mas como é possível isso se todo mês um monte de gente vem aqui receber e ninguém tem problemas? Poderia  chamar o gerente?
A funcionária, tendo sido questionada quanto a veracidade da informação que prestava, contrariada, informou novamente que a assinatura estava diferente e que o gerente estava em horário de almoço e que ninguém liberaria um cheque cuja assinatura era duvidosa.
Vendo que o comerciário começava a se exaltar, o bancário, no guichê ao lado pediu para ver o cheque e o cartão de assinaturas.
O comerciário, nervoso diante da eminencia de ficar sem o pagamento, passava a mão pelo queixo descendo-a até o pescoço enquanto dava pequenos passos ora para a direita ora para  a esquerda. O bancário, após alguns segundos e secretamente se divertindo com o que parecia ser um bailado, afinal liberou o cheque dizendo que a assinatura era valida. A funcionária então disse que mesmo assim não pagaria e que se ele quisesse assumir o risco seria problema dele.
A pele negra do comerciário encantou o bancário que pediu o cheque para pagar, fazendo uma espécie de careta para a novata.
Daí pra frente o bancário toda vez que ia aquela agencia esperava para ser atendido pelo bancário. Numa sexta-feira em que foi receber o pagamento o comerciário achou-se no dever de retribuir o atendimento tão amável chamando o bancário para um chope. Convite prontamente aceito.
A conversa fluía animada movida por vários chopes. As coincidências entre eles os aproximavam. Como por exemplo, torcerem pelo mesmo time, gostarem do mesmo prato, e a maior de todas: a paixão pelo filme Retratos da Vida que ao fim apresenta um bailarino dançando o Bolero de Ravel sob Torre Eiffel.
Ah, Paris, Paris! Suspiram embalados pela lembrança do filme voltando em suas cabeças. “Quer ouvir o disco lá m casa?” Propõe o bancário, os olhos ardendo de desejo depois que um arrepio lhe subiu pela espinha. O comerciário diz que trabalha no dia seguinte, sábado, e o bancário oferece para que ele durma lá, afinal morava sozinho.
Pegam um taxi e no caminho comentam o filme.
Afoito, o bancário procura o disco enquanto o comerciário vai ao banheiro.
Tira a camisa, os sapatos, o cinto. Apaga a luz e sobe na pequena mesa redonda no centro da sala.
O comerciário sai do banheiro e ouve os primeiros acordes. Vem dançando e se depara com o bancário sobre a mesa. Pela cortina entre aberta entra uma nesga de luz sobre ele. O comerciário admira o corpo bronzeado e atlético do bancário, que hipnotizado pela música dança em transe. O comerciário instintivamente dança ao redor da mesa. A música crescendo nos corpos suados, infiltrando-se nos movimentos sensuais, o ar se impregnando de erotismo.
Perto do fim, exausto, elevado por um torpor mágico produzido pelas notas  afrodisíacas, o bancário se deixa tomar pelo êxtase e quase desfalece sendo amparado pelo comerciário.
O corpo suado do bancário desliza pelo do comerciário. Os olhos se veem próximos. Os braços fortes do comerciário mantendo o corpo atlético e bronzeado do bancário junto ao seu.
A música, em seus acordes finais, anunciava o inicio de outro bolero.

 (A orgia dos cães / Ivo Linhares)

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