terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DESCOBERTAS (Conclusão)

São todos bons profissionais.
Quando começam.
Depois, quem se importa em saber quem matou um negro pobre.
Um traficante.
Uma prostituta sem nome num hotel de quinta categoria.
As pessoas devem ler a noticia no jornal e sentir alivio. Um pouco menos dessa escória no mundo.
As pessoas devem ouvir a noticia no rádio do carro e comentar no trabalho, para ter assunto.
As pessoas devem ver o locutor noticiar o fato na televisão, a reportagem mostrando em detalhes o crime e arrematar no fim que a policia não tem pistas dos assassinos.
A polícia trabalha para nada.
A polícia ocupa lugares.
A polícia transforma bons policiais em cones para marcar seu território.
A polícia é uma instituição que contempla a evolução social e vai se desmanchando enquanto os políticos tecem leis  e mais leis que eles próprios não querem obedecer.
O comissário se diverte quando me chama para resolver esses crimes.
Diz que são raros os policiais que sabem resolver crimes insignificantes.
Deleita-se lendo meus relatórios com a conclusão dos casos.
Em sua cabeça pensa que arranjei culpados. Produzi provas. Inventei possibilidades que se transformaram em fatos.
Diz que sou bom, que é ótimo que eu esteja lá.
Gosto da Homicídios. Todos nós somos homicidas em potencial aguardando o motivo.
Sempre existirá um motivo.
O crime é como uma lei: criaram por necessidade.
Levei oito meses para descobrir o assassino de Gabriele. Era um filhinho-de-papai que entediado resolveu matar uma puta apenas por diversão.
Mas não prendi. Não deixaram. Abafaram o caso e puseram um bucha no lugar dele.
No aniversário de morte de Gabriele voltei ao cemitério e pus flores no seu túmulo.
Naquele dia percebi que já não era mais um observador.

(A orgia dos cães / IVO LINHARES)
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