Já devo ter dito que sou um policial excêntrico.
Não precisava trabalhar
para o Estado, no entanto, de que outra forma poderia estar em contato tão
intimo com a realidade do mundo em que vivo?
Paro o carro atrás da viatura e antes de sair acendo um cigarro. A perícia ainda não chegou. Os caras
não tem pressa, afinal todos sabem que a cena do crime nunca é preservada. Os
primeiros a fuder com tudo são os próprios policiais. Um dos policiais
militares esta encostado na viatura e o outro, a sua frente, regula os poucos
carros que passam aquela hora da noite e diminuem para ver o que houve.
O lugar é zona de
prostituição de travestis e transexuais. É uma rua comprida. O corpo esta a
poucos metros de um bar que funciona quase que vinte e quatro horas.
Cumprimento os
policiais de modo cordial e me apresento apertando a mão de cada um deles. Não
sou do tipo que se coloca acima dos colegas, mesmo não sendo da minha
corporação. Pergunto o que houve e eles respondem que foi atropelamento ou suicídio.
Acrescentam que o pessoal do bar não viu nada, mas que a vitima fazia ponto
diariamente naquele local. O nome de guerra era Shirley.
Vou até o corpo. Me
abaixo. As costas e as pernas estão quebradas. Não foi atropelamento mas suicídio.
A vítima se jogou.
Tomo uma coca-cola no
bar. Lamento a morte da Shirley. Pergunto por que ela queria se matar. Dizem
que ela não se matou, foi atropelada. Falam da cor do carro, mas não chegam a
um acordo quanto ao tipo. Os carros de hoje são todos parecido, iguais. As
poucas pessoas, entre elas dois travestis, aproveitam para criticar a policia,
o governo, dizendo que isso iria ficar do jeito que estava, que ela era mais um
merda que morria e só serviria para vender jornal. Não sabiam onde morava. Um
dos travestis disse que ela tinha um cliente fixo que vinha sempre uma vez por
semana e que ela estava gostando do sujeito e nem cobrava a saída, ia por amor.
Voltei e parei próximo
ao corpo.
Amor. Ninguém vive sem
amor. Mas era estranho ela ter se matado amando alguém.
Reparei no corpo. Era
jovem, vinte e poucos anos. Um corpo bonito, bem trabalhado. Um corpo que devia
atrair muitos homens. E ela o quis destruir. Ela não era esse corpo.
O cara da pericia
chega. Faz piadas para descontrair.
Fico serio. Mas
entendo. Volto para o meu carro e acendo outro cigarro.
Pelo rádio informam
sobre um tiroteio. Olho para os dois policiais conversando com o cara da
pericia.
Vai entender essa vida.
(A orgia dos cães / IVO
LINHARES)
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