O som entrava por seus ouvidos e
refletia em todo o seu corpo causando uma sensação estranha. Se achava normal,
sem mistérios, mas com suas particularidades.
As
vezes quando as coisas iam mal ou quando a mãe brigava por motivos bobos
esperava todos dormirem, a casa ficar em silencio, então se levantava sem fazer
barulhos e sentava num cantinho da sala, entre o velho sofá e a estante com os
livros organizados pelo tamanho e punha-se a chorar baixinho. Durante o choro fazia
uma singela oração a Deus e falava que precisava naquele momento de um pai para
abraçar. Com as mãos unidas, olhando para o teto, implorava a Deus para que ele
a abraçasse e acolhesse com todo amor e acabava sentindo em meu corpo um calor
diferente, uma paz enorme. Adormecia ali, encolhida, envolta em si mesma como
um bichinho.
Queria ter tido
um pai, saber como é essa relação, os conflitos, queria um colo de pai em
certos momentos da vida, queria poder ter um pai presente reclamando,
resmungando, que lhe desse umas palmadas quando tivesse feito algo de errado,
que a levasse para passear, que estivesse presente nas festas da escola. Queria
ter tido um pai apenas para aconselhar. Não reclamava, pois tinha uma mãe
perfeita que dava todo amor e carinho, cuidando dela e dos irmãos de maneira
excelente. Apesar de não ter tido um pai, Deus havia lhe dado a melhor mãe do
mundo.
Naquele
exato momento sua vida pareceu ser apenas um paradoxo. Quanto mais ausente o
pai, mais a presença da mãe trazia-o a tona, mantinha-o vivo em sua lembrança.
Após
cessarem as palmas e todos se sentarem novamente ela olhou por alguns segundos
o troféu. Sorriu. Embora fosse o reconhecimento de um trabalho ele nada
significava. Não se interessava por prêmios. Representava porque assim viveria várias
vidas esquecendo-se da sua. Seu personagem real fazia apenas uma figuração.
Agradeceu o
prêmio com poucas palavras e o dedicou a mãe.
Mais tarde,
esperou a companheira dormir e num cantinho da sala em seu apartamento, chorou
olhando os prêmios na estante.
(A orgia
dos cães / IVO LINHARES)
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reservados
A vida é engraçada. Existem tantas pessoas que tem um pai como o descrito a cima e não valorizam e tem aqueles que imploram a Deus por um pai e não tem essa oportunidade de te-lo. A vida e suas ironias. Perfeito
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